LOGINA escuridão foi dando lugar lentamente a uma luz suave e acolhedora, que invadiu os meus olhos ainda pesados e cansados. A princípio, não consegui entender onde estava: o ar cheirava a madeira polida, flores frescas e uma essência leve de ervas medicinais — muito diferente do ar frio e úmido da floresta onde eu caíra, e também muito distante do ambiente que eu conhecia desde sempre.
Movi devagar os dedos das mãos, sentindo o toque de lençóis macios e aquecidos sob o meu corpo, coberto por um cobertor grosso e suave. A dor que sentia no peito ainda existia, mas parecia menos intensa, como se alguém tivesse cuidado de mim enquanto eu estava inconsciente. Abri os olhos por completo e olhei ao redor: estava num quarto amplo, alto, com paredes de madeira clara, janelas grandes que deixavam entrar muita luz natural, móveis sólidos e bem trabalhados, tudo organizado e cheio de um ar de nobreza e calma. Nada ali parecia pertencer ao meu mundo. Tentei levantar‑me depressa, mas senti uma fraqueza forte nas pernas e no corpo todo, obrigando‑me a apoiar‑me na cabeceira da cama. O coração disparou de novo — onde estaria eu? Quem me trouxera até aqui? Seria mais uma armadilha, mais uma crueldade preparada por quem só queria ver‑me sofrer? A porta abriu‑se devagar, interrompendo os meus pensamentos cheios de receios. Entrou uma mulher de meia‑idade, de sorriso doce e olhar bondoso, vestida com roupas simples mas bem cuidadas, carregando uma bandeja com água e algo que parecia um chá quente. Ao ver que eu já estava acordada, aproximou‑se sem pressa, com passos suaves que não me assustaram. — Acordou finalmente, querida — disse ela, com voz calma e amável. — Estávamos muito preocupados com você. Dormiu por quase um dia inteiro. — Quem é você? Onde estou? — perguntei, com a voz ainda fraca e trêmula, tentando manter a firmeza apesar de tudo. — Por que me trouxeram para cá? — Meu nome é Olívia — respondeu ela, sentando‑se devagar na beirada da cama, sem chegar muito perto, respeitando o meu espaço. — Trabalho aqui há muitos anos, cuidando desta casa e de quem nela vive. Você foi encontrada desacordada no meio da floresta, muito fraca e com o coração cheio de dor. Os donos desta terra, os três alfas que governam a alcatéia vizinha, foram quem a recolheram e a trouxeram para ser tratada. Não precisa ter medo: aqui ninguém vai fazer‑lhe mal. Suas palavras pareciam verdadeiras, mas anos e anos de desprezo, traição e indiferença deixaram marcas profundas em mim. Eu não conseguia mais confiar facilmente em ninguém — nem mesmo em quem parecia querer ajudar‑me. — Alfas… — repeti, sentindo um frio na espinha. — Eles sabem quem eu sou? Sabem que não passo de uma mulher sem lobo, sem valor nenhum? Olívia suspirou com carinho, pegando na minha mão com suavidade — e pela primeira vez em muito tempo, senti um toque que não trazia exigências nem julgamentos. — Eles sabem tudo o que precisam saber: que você estava ferida, perdida e precisava de ajuda. E para eles, isso é o bastante. Não olham para as pessoas como os outros costumam fazer. Agora beba um pouco deste chá: vai ajudar‑lhe a recuperar as forças e acalmar o coração. Aceitei o copo das suas mãos e bebi devagar, sentindo o calor espalhar‑se por todo o corpo, trazendo uma sensação de bem‑estar que eu já nem lembrava mais ser possível. Olívia falou um pouco sobre os três Alfas, um pouco de sua aparência e personalidade. Pouco depois, a porta abriu‑se novamente, e desta vez o ar do quarto pareceu mudar, ficar mais pesado, carregado de uma força poderosa e viva que fez o meu coração bater mais forte de novo. Entraram três homens altos, de ombros largos e presença imponente — cada um diferente do outro, mas todos carregando nos olhos e nos gestos a certeza de quem sabe o seu lugar no mundo. Eram os três alfas, e bastou olhar para eles para perceber que comandavam com justiça e poder, respeitados por todos ao seu redor. O primeiro, parecia ser o mais velho, tinha cabelos castanhos escuros e olhos da mesma cor, profundos e sábios; seus movimentos eram calmos, medidos, e trazia no rosto uma expressão de proteção e serenidade. Soube logo que era Dante, o líder deles. Ao seu lado, o segundo era mais alto ainda, com cabelos negros como a noite e olhos cinzentos e penetrantes; parecia estar sempre atento a tudo, pronto para defender o que considerava seu, com uma intensidade que se podia sentir de longe — era Kaique. E o terceiro, o mais jovem dos três, tinha cabelos loiros claros e um sorriso suave e acolhedor, embora também guardasse uma força imensa em cada músculo e cada olhar: Enzo. Eles pararam a uma distância respeitosa, sem chegar perto de mim de forma brusca, e foi Dante quem falou primeiro, com voz grave e calorosa: — Ficamos muito aliviados em ver‑a acordada. Receávamos que o seu corpo não aguentasse toda a dor que carregava dentro de si. Encontrá‑la ali foi como se o destino tivesse colocado‑a no nosso caminho. Baixei o olhar, sentindo‑me pequena e exposta diante daqueles olhos que pareiam capazes de ver tudo o que eu tentava esconder. — Não sei o que fiz para merecer tanta atenção de vocês — respondi, com sinceridade amarga. — Sou apenas Lira, a mulher que não tem lobo, que foi abandonada por todos que deviam amá‑la. Não tenho nada para dar em troca do que fizeram por mim. — Não pedimos nada em troca — garantiu Kaique, com firmeza, sem qualquer sombra de dúvida. — Ajudamos quem precisa, sem esperar recompensas. E você… é muito mais do que pensa ser. Enzo sorriu de leve, aproximando‑se um pouco mais, mas mantendo‑se seguro: — Aqui não há julgamentos, nem regras cruéis. Se quiser ficar, terá um lar seguro e respeito. Se preferir ir embora assim que estiver bem, nós o acompanharemos até onde desejar. A escolha é toda sua. As suas palavras eram tão diferentes de tudo o que eu ouvira durante toda a vida que me deixaram sem saber como reagir. Uma parte de mim queria acreditar, queria descansar finalmente e deixar de lutar sozinha; mas a outra parte, a ferida e desconfiada, lembrava‑me de que todo mundo que parecia bom até hoje acabava por me trair ou desprezar. — Eu não posso ficar aqui — disse depois de um momento de silêncio, reunindo toda a coragem que ainda me restava. — Não quero ser um peso para ninguém, nem correr o risco de um dia também ser rejeitada por vocês, quando perceberem que realmente não tenho nada de especial. Há um lugar onde posso recomeçar do zero, longe de tudo e de todos que conheço: a Alcatéia do Norte. Dizem que é uma das únicas regiões onde ninguém se importa se alguém tem lobo ou não, onde cada um é valorizado pelo que é por dentro. Se puderem me levar até lá quando eu recuperar as forças… ficarei eternamente grata. Esperei que eles recusassem, que dissessem ser muito longe ou perigoso, ou simplesmente que não tinham obrigação nenhuma comigo. Mas para a minha surpresa, eles trocaram um olhar rápido entre si, cheio de compreensão e acordo mútuo, e Dante acenou com a cabeça de imediato. — A Alcatéia do Norte é um lugar justo e acolhedor, como você diz — confirmou ele. — E não há motivo para que não vá até lá. Terá todo o nosso apoio para isso. Fique aqui o tempo que precisar para se recuperar completamente, sem pressa nenhuma. Ninguém a pressionará, ninguém a obrigará a fazer nada que não queira. Olívia sorriu ao meu lado, apertando levemente a minha mão em sinal de confiança. Os três alfas mantiveram‑se ali mais alguns instantes, olhando‑me com uma estranha ternura e admiração que eu não conseguia entender, antes de acenarem respeitosamente e saírem devagar, deixando‑me sozinha novamente naquele quarto tranquilo. Deitei‑me de novo no travesseiro macio, sentindo uma confusão imensa no coração. Pela primeira vez, alguém me tratava como uma pessoa digna de respeito, sem exigências, sem condições. Mas seria possível confiar? Seria aquele respeito duradouro, ou iria desaparecer assim que vissem mais de perto a minha “falta”, como todos os outros fizeram? Não tinha respostas naquele momento. Mas por mais estranho e assustador que fosse, senti uma pequena semente de esperança brotando bem no fundo da minha alma — uma esperança tímida, mas viva, que fazia‑me pensar que talvez, apenas talvez, ainda houvesse um lugar para mim no mundo.Os anos passaram‑se em paz, harmonia e crescimento constante. A nossa alcatéia prosperava, o Santuário da Lua Nova continuava a acolher e a transformar vidas, e ao lado de Dante, Kaique e Enzo, eu construí um lar cheio de carinho, respeito e alegria — tudo o que eu jamais ousei sonhar quando era uma menina que vivia à sombra de outra.No meu dedo brilhava um anel delicado mas forte, feito à mão por eles três juntos: uma pedra branca como a minha pelagem de lobo, rodeada de pequenos detalhes que representavam cada um dos meus amores. Era o símbolo do nosso compromisso eterno — decidimos que não precisávamos de uma cerimônia formal para provar o que já sentíamos e vivíamos todos os dias; o nosso vínculo era sagrado e completo por si só. Mas havia uma alegria ainda maior a caminho: eu estava grávida, e todos sabíamos que uma menina estava para chegar — uma filha que traria ainda mais luz à nossa vida.A minha barriga crescia muito, mais do que o normal, e sentia‑me forte e cheia de vida,
Os meses que se seguiram àquele dia decisivo passaram‑se com uma paz e uma alegria que eu nunca julguei possíveis alcançar. Na nossa alcatéia, a vida corria harmoniosa e serena; todos me acolhiam como parte essencial da sua história, respeitavam‑me como Luna e faziam‑me sentir, a cada instante, que finalmente tinha encontrado o meu verdadeiro lar. Ao lado de Dante, Kaique e Enzo, aprendia e crescia todos os dias, sabendo que o meu coração estava seguro e completo.Mas à medida que os dias iam passando, uma ideia começou a tomar forma cada vez mais clara dentro de mim: o que eu tinha vivido, o sofrimento que carreguei e a verdade que descobri, não deviam ficar apenas guardados na minha memória ou servir apenas para o meu próprio bem. Havia muitas outras pessoas, espalhadas por terras próximas e distantes, que viviam a mesma realidade que eu conheci tão bem: eram vistas como diferentes, fracas ou imperfeitas apenas porque ainda não tinham visto o seu lobo despertar, porque não sabiam ou
Enquanto todos ainda estavam paralisados de espanto com a minha revelação, avancei mais um passo, mantendo o olhar firme sobre Lívia, que parecia cada vez menor e mais abalada diante de mim. Não havia mais segredos, não havia mais razões para esconder nada — e eu iria contar tudo, para que ninguém voltasse a duvidar ou a deixar‑se enganar por ela.— Se ainda achas que isto é impossível ou algum truque, ouçam‑me todos com atenção — comecei, com voz clara e forte, que ecoou por todo o espaço, chegando aos ouvidos de cada pessoa ali presente. — Durante anos, desde que éramos muito pequenas, alguém me dava diariamente uma poção preparada com ervas raras e proibidas, capaz de adormecer, esconder e impedir o crescimento do lobo que vivia dentro de mim. Alguém que usava a minha confiança, a minha bondade e a minha inocência para me ferir devagar, dia após dia… e essa pessoa foi sempre ela: a minha própria irmã, Lívia!Um murmúrio de choque percorreu a multidão. Os meus pais levaram as mãos à
Ao entrarmos, o burburinho que enchia o espaço foi diminuindo pouco a pouco, até se transformar num silêncio absoluto e pesado, como se o próprio ar tivesse parado de se mover. Todos os olhares se voltaram imediatamente para nós — curiosos, surpresos, incrédulos. Ninguém ali esperava ver‑me, muito menos daquela forma: de cabeça erguida, passo firme, vestida de azul profundo e radiante, caminhando no meio de três dos mais poderosos alfas que existiam em toda a região, como se eu fosse o centro de tudo o que era importante.Vi de relance a expressão de Lívia, que estava de pé ao lado do altar, vestida de branco e com um sorriso de vitória que logo se desfez, dando lugar a uma boca aberta de espanto e a um brilho de inquietação nos olhos. Ao seu lado, Rômulo franziu o rosto de imediato, o olhar percorrendo‑me de cima a baixo com uma mistura de arrependimento, desejo e uma inveja clara ao ver os três homens ao meu lado. Mais ao fundo, os meus pais estavam parados, imóveis, sem saber onde
A notícia chegou‑me como uma brisa leve, mas que me fez parar por um instante, com o coração a bater de forma diferente no peito: Lívia e Rômulo iriam casar‑se em breve, numa cerimônia grande e aberta a toda a comunidade da antiga alcatéia onde eu vivi.Quando ouvi falar pela primeira vez, senti uma mistura estranha de lembranças antigas e uma calma nova que já fazia parte de mim. Houve um tempo em que essa informação teria partido‑me ao meio, feito chorar e desejar fugir para sempre. Mas agora… agora senti apenas uma certeza clara e forte: eu queria ir. Não por ódio, não para causar problemas, nem para tentar impedir o que quer que fosse. Queria ir apenas para estar presente, de pé, visível e inteira — para que todos aqueles que um dia me viram como sombra, como falha ou como algo sem valor, pudessem ver com os próprios olhos o que eu me tornei.Queria mostrar‑lhes que já não precisava de nada nem de ninguém deles para ser feliz, que tinha encontrado o meu lugar, o meu valor e o amor
Nos dias que se seguiram à nossa declaração mútua, percebi rapidamente como tudo mudara — não só dentro de mim, mas também na forma como todos me viam e me tratavam. A notícia espalhou‑se pela alcatéia com a velocidade do vento: ninguém estranhou o vínculo que nos unia, pelo contrário, parecia que todos já esperavam por isso, como se fosse o desfecho natural e certo de tudo o que acontecera.O que mais me tocou foi ver que, onde antes havia olhares de pena, dúvida ou indiferença, agora havia respeito, carinho e uma espécie de reverência suave. Por onde passava, recebia sorrisos, acenos e palavras amáveis — e, pouco a pouco, todos começaram a chamar‑me de Luna. No início fiquei confusa, até que Dante me explicou com doçura:— É como chamam àquela que é o coração, a luz e a guia da nossa família e de toda a alcatéia. Você preencheu esse espaço sem sequer perceber, Lira… e esse nome pertence‑lhe por direito.Senti o peito encher‑se de uma alegria imensa e serena. Depois de uma vida intei







