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Bianca

last update publish date: 2026-09-19 12:10:46

Val estava esparramado em dois assentos do trem, com um fone pendurado no pescoço e o outro no ouvido. Tentava cochilar, mas o vagão lotou na terceira parada e o cochilo morreu.

Ele abriu um olho com preguiça e viu a garota.

Morena, cabelo preto bem preso num rabo de cavalo, se arrastando pelo corredor com uma mala que parecia pesar mais que ela. Ela fez uma careta ao tentar passar entre dois passageiros em pé, pediu licença pela terceira vez e parou, olhando em volta. Não tinha um canto livre.

Val voltou a mexer no celular. Trocou de música.

Quando levantou os olhos de novo, por reflexo, a cena tinha mudado.

Um homem de meia-idade tinha se posicionado exatamente atrás dela. O trem fez uma curva, o vagão sacudiu, e o cara aproveitou para se encostar. Ela deu um passo pro lado, puxando a mala. Ele deu um passo junto. Na sacudida seguinte, a mão dele desceu pela lateral do corpo dela, sem disfarce nenhum.

Ela congelou. O rosto ficou vermelho, os olhos encheram de raiva e medo ao mesmo tempo. Ela abriu a boca para gritar.

Val foi mais rápido.

— Qual é a tua, pervertido? — A voz saiu alta, atravessou o vagão.

Uma fileira inteira de cabeças virou.

O homem piscou, tentou fazer cara de ofendido.

— Eu não fiz nada, você está—

Ele não terminou. Val já estava de pé.

Val não precisou dizer mais nada. Tinha 1,90m, ombros largos, e naquele momento estava com os punhos tão cerrados que os nós dos dedos ficaram brancos. O homem mediu de baixo pra cima, engoliu em seco e saiu andando rápido para o outro vagão, resmungando.

O silêncio constrangedor durou dois segundos.

— Tudo bem com você, princesa? — Val perguntou, a voz já normal de novo.

Ela soltou o ar que estava prendendo.

— Tô... tô bem. Obrigada. De verdade.

— Quer sentar? Você vai cair com essa mala.

Ela olhou para o assento dele, depois para o garoto esquelético de óculos grossos entalado na janela, alheio a tudo, nariz enfiado num Harry Potter surrado.

Val inclinou a cabeça na direção do garoto.

— Ei.

O garoto nem piscou.

— Ei. Harry Potter.

Val deu um tapinha firme no topo da cabeça dele. PÁ.

O livro voou. O garoto soltou um grito fino que não combinava com o tamanho dele e disparou pelo corredor, tropeçando na própria mochila.

Val se virou para o vagão inteiro, com os braços abertos:

— Viu, gente? Cavalheirismo não morreu!

Ele fez uma reverência exagerada para a garota. — Sua carruagem, mademoiselle.

Ela riu, apesar do susto ainda estar no corpo. Sentou-se perto da janela e ajeitou a mala entre os pés.

— Obrigada mesmo. Me chamo Bianca Barreto.

— Nome bonito, BB — ele pegou a mão dela e roçou os lábios nos dedos dela, só pra ver ela corar. Funcionou. — Sou o Val.

— Val... você estuda na U.C.C.? Vi o símbolo na sua mochila.

— Estudo. Voltando das férias. E você?

— Primeiro período. Vou ficar na Pensão Universitária. Falei com uma senhora super simpática pelo telefone.

Val demorou um segundo para responder. Depois um sorriso lento abriu no rosto dele.

— Simpática, ela? — ele repetiu, divertido. — Aposto que sim.

Ele não disse que a senhora simpática era a mãe dele. Deixou o pensamento guardado.

Isso vai ser bom.

◆◆◆

O salão de jogos da pensão tremia com a gritaria.

— Se errar essa, paga a caixa sozinho! — Rafael estava debruçado na mesa de sinuca, provocando.

Eduardo não respondeu. Estava curvado sobre o taco, olho na bola branca, maxilar travado. Era a bola oito. Se encaçapasse, ganhava. Se errasse, ia ser zoado até o Natal.

Ele puxou o ar, mirou...

Duas mãos pesadas aterrissaram na nuca dele com um PÁ estalado.

O corpo de Eduardo reagiu antes do cérebro. Ele girou nos calcanhares, o taco ainda na mão esquerda, e o punho direito voou.

O impacto foi seco. Alex cambaleou para trás e caiu sentado no chão, com a mão na boca.

— CARA! Você me deu um soco!

— E você me dá um pescotapa no meio da tacada, seu corno? — Eduardo passou a mão no pescoço dolorido, o coração ainda acelerado.

Do sofá, Renato ria tanto que mal conseguia respirar.

— Matando a saudade, né? — ele conseguiu falar.

Alex se levantou cuspindo um filete de sangue do lábio, ainda rindo.

— Foi mal, foi mal. Não resisti.

Eduardo bufou e puxou Alex pelo braço, levantando ele de uma vez. Deram aquele abraço desajeitado de homem, com dois t***s nas costas.

— Você estragou minha jogada. Vai pagar a cerveja — Eduardo apontou o taco pra ele.

— Eu pago se o Val pagar comigo. Cadê ele? — Alex limpou o lábio na camiseta.

Como se tivesse sido invocado, a porta da recepção bateu.

— Fala, desgraçados!

Val entrou arrastando uma mala rosa enorme, com Bianca logo atrás, olhando tudo com curiosidade.

Uma mulher de cabelo curto saiu de trás do balcão e praticamente voou no pescoço de Val.

— VALDEMAR!

— Mãe! Ar! Tô sendo estrangulado em público! — Val fez uma careta cômica, beijando a testa dela. — Prometo que tô vivo.

Glória soltou ele e já virou para Bianca, com aquele olhar de quem avalia em dois segundos.

— E essa princesa?

— Bianca Barreto, nova caloura da U.C.C. — Val apresentou. — Mãe, essa é minha mãe, a senhora simpática do telefone.

— Ah! A menina do quarto 203! — Glória bateu palmas. — Seja bem-vinda, meu amor. Aqui é tudo família. Valdemar, leva ela lá em cima. E depois desce que tem lanche.

Val pegou as chaves no ar e subiu as escadas de madeira com Bianca, a mala quicando nos degraus.

No segundo andar, ele parou diante da porta 203 e girou a chave.

O quarto era duplo, simples. Do lado direito, tudo limpo: cama arrumada, penteadeira vazia esperando por ela. Do lado esquerdo, o caos: lençol amassado, um violão largado em cima do colchão, um par de tênis jogado de qualquer jeito e a lixeira do canto transbordando de papel amassado.

Bianca largou a mochila na cama limpa e cruzou os braços, olhando de um lado pro outro.

— Deixa eu adivinhar... você é meu colega de quarto?

Val encostou no batente da porta, segurando o riso.

— Queria? Infelizmente não, BB. Eu sou do 206, lá no fim do corredor.

— Então quem é o dono da... — ela apontou para a zona.

— Ah, você vai conhecer — ele piscou. — Se precisar de alguma coisa, é só gritar bem alto. As paredes são finas.

Ele saiu e fechou a porta com cuidado.

Bianca ficou sozinha no meio do quarto, olhando para o violão em cima da cama bagunçada. Pegou a toalha da mala, decidida a tomar um banho rápido antes de desfazer o resto.

Ela não fazia ideia de que o dono da bagunça já estava subindo as escadas.

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