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Ressaca e fantasmas

last update 公開日: 2026-09-20 01:32:37

Os primeiros dias de Bianca na pensão passaram agradavelmente tranquilos. Durante todo o tempo em que planejara a mudança, ela temia o desconhecido. Afinal, decidiu se mudar para uma cidade onde não conhecia ninguém. Essa era a intenção dela, recomeçar do zero, mas o medo se fez presente e por várias vezes ela duvidou da própria decisão. Mesmo assim, seguiu em frente com seus planos.

Ela estava contente e a razão disso eram os rapazes, seus novos amigos. Todos os dias eles passavam a tarde juntos no salão de jogos; menos Eduardo e Rafael, que trabalhavam em uma oficina mecânica. Ela descobriu que todos frequentavam academia, o que explicava o corpo sarado que tinham. Corpos que atraíam os olhares de mulheres de todas as idades por onde passavam.

Pouco a pouco, Bianca foi conhecendo mais sobre eles. Val, com sua fachada intimidadora, era na verdade muito carinhoso, atencioso e sempre prestativo, ajudando a mãe a administrar a pensão sempre que tinha tempo. Val e Eduardo eram muito amigos. Val sempre falava de Eduardo com carinho e admiração. Bianca pensava que nunca tinha visto tamanha amizade, nem mesmo entre irmãos de sangue. Alex era o mais divertido do grupo, bem-humorado e brincalhão; isso, claro, quando não estava concentrado no celular e seus chats. Ela reconheceu nele um verdadeiro Don Juan.

Rafael e Alex eram muito unidos, exatamente por essa "fraqueza" pelo sexo oposto. Renato era mais tímido, geralmente parecia estar no mundo da lua, mas observando melhor, Bianca notou que ele era o mais sensível de todos, percebendo as mudanças sutis no humor e no comportamento dos amigos com facilidade, mesmo quando tentavam disfarçar.

Eduardo, seu colega de quarto, era um caso à parte. Bianca não conseguia compreender muito bem a personalidade dele. Ele parecia um livro fechado e, pelo que tudo indicava, pretendia continuar assim. Na maioria das vezes se mostrava narcisista, fazendo comentários arrogantes ou de duplo sentido; em outros momentos, parecia distante, ensimesmado, como se uma sombra pairasse sobre ele. Várias vezes Bianca pegou Eduardo e Val cochichando, parecendo nervosos, e em alguns momentos sentiu como se Val observasse o amigo discretamente, como se estivesse preocupado com ele.

No mais, eles formavam um grupo divertido e Bianca sentia-se grata por tê-los conhecido.

Na madrugada de quinta, véspera do aniversário de Val, Bianca acordou com o barulho da porta do quarto batendo com força ao fechar. Abriu os olhos, sem mover o corpo. Eduardo tinha acabado de entrar e ela pôde sentir o cheiro de álcool que ele exalava. Sem nem ao menos tirar o tênis, Eduardo se jogou na cama.

Ela se virou de costas para a cama dele sem dizer nada, fechou os olhos e voltou a dormir.

No dia seguinte, Bianca acordou e se preparou para sua corrida matinal. Era a primeira vez que correria naquela cidade. Como não conhecia as ruas, decidiu correr nas proximidades da pensão. Eram oito e quinze da manhã quando ela retornou depois de mais de uma hora de exercício. Entrou no quarto tentando não fazer barulho, para não acordar seu colega de quarto. No entanto, se surpreendeu ao perceber que Eduardo não estava na cama.

Bianca tirou o tênis e seguiu em direção ao banheiro para tomar um banho. Ao chegar na porta, ouviu o desagradável som de quem precisa esvaziar o conteúdo do estômago na privada.

Eduardo estava vomitando.

— Está tudo bem? — perguntou Bianca, preocupada.

Ouviu um grunhido em resposta. Depois o barulho da água escorrendo da torneira e, minutos depois, Eduardo saiu do banheiro sem nem olhar para ela. Deixou o corpo cair sobre a cama, pegou o travesseiro e cobriu o rosto para evitar a luz do sol.

— Toma! Isso vai acabar com a ressaca em poucos minutos.

Ele tirou o travesseiro do rosto, com esforço abriu os olhos e se deparou com Bianca de mão estendida. Eduardo ergueu o corpo lentamente, sentou-se na cama e aceitou os dois comprimidos e a garrafa d'água.

— Obrigado!

— De nada! A propósito... você está horrível!

— Eu sei. Estou me sentindo pior ainda — ripostou Eduardo rindo antes de deitar e esconder o rosto com o travesseiro mais uma vez.Bianca fechou o chuveiro e se enrolou na toalha. Fechou a porta de vidro do box e olhou em volta.

"Droga!"

Resmungou ao perceber que não tinha levado roupa limpa para o banheiro. Teria que voltar para o quarto daquele jeito. Pelo menos Eduardo provavelmente estaria dormindo, ou ainda estaria com a cabeça coberta pelo travesseiro. Abriu a porta do banheiro o mais silenciosamente possível. Eduardo estava exatamente como ela esperava. Sentiu-se aliviada e seguiu até a cômoda. Pegou um short jeans e uma camiseta. Fez um imenso esforço para se vestir sem desenrolar a toalha do corpo. Depois do short, tirou a toalha já de sutiã e vestiu a camiseta.

"Clap Clap Clap"

Bianca prendeu a respiração ao ouvir alguém batendo palmas atrás dela. Arregalou os olhos e seu rosto se afogueou. Virou a cabeça devagar e se deparou com Eduardo deitado de frente para ela, com o cotovelo apoiando a cabeça.

— Você fica uma gracinha quando está encabulada, sabia?

— E-eu pensei que você estava dormindo.

— Hummm... — Eduardo exibia mais uma vez seu típico sorriso cínico. — Estou mais acordado do que nunca, graças a você!

Bianca corou ainda mais.

— Por causa dos comprimidos, Bianca! Não seja pretensiosa! — completou Eduardo com cinismo.

— Ma-as eu só...

— Princesa, relaxa, só estou brincando.

O celular dela tocou e ela correu para atender, agradecida por sair daquela situação constrangedora. Porém, no instante em que ouviu a voz do outro lado da linha, seu alívio a abandonou. Sentiu um aperto no coração, e seu rosto não escondeu a angústia que aquele telefonema representava.

Era Fábio, seu ex-namorado.

Bianca conhecia Fábio desde pequena. Eram vizinhos e cresceram juntos como melhores amigos. Ao chegarem à adolescência, Bianca se apaixonou por ele. Em sua festa de quinze anos, Fábio a pediu em namoro. Ele foi o primeiro em tudo na vida dela, primeiro amigo, primeiro beijo, primeiro namorado... primeira decepção...

Ela não esperava que ele a procurasse, não depois da maneira em que terminaram tantos meses atrás. Não depois dela trocar de celular para que ele não tivesse mais seu número...

"Como ele conseguiu o número?"

Sem vontade de ouvir mais nenhuma palavra dele depois do "sinto sua falta", ela desligou.

— Está tudo bem, princesa? Aconteceu alguma coisa? — perguntou Eduardo ao vê-la perder a cor do rosto.

— Sim... quer dizer... está tudo ótimo! — mentiu Bianca tentando sorrir...

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