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## Capítulo 04: A Mesa da Família

last update Fecha de publicación: 2026-07-25 06:21:15

O silêncio que se seguiu na sala de estar durou apenas o tempo necessário para que Lorenzo fizesse um sinal com a cabeça em direção à sala de jantar. O velho caminhou na frente, apoiado na bengala, enquanto Paolo e Giovanni o seguiam logo atrás. Bianca deu um último olhar sobre o meu ombro antes de marchar irritada para a mesa, visivelmente contrariada pela reação geral à chegada da prima.

Aurora permaneceu um passo atrás de mim. Quando me mudei para dar passagem, senti o perfume leve que vinha de sua pele, algo doce e fresco, completamente diferente do aroma pesado de baunilha que impregnava a sala minutos antes. Ela caminhava com passos curtos e tranquilos, alheia ao peso do próprio impacto sobre quem a observava.

A sala de jantar era dominada por uma mesa extensa de carvalho escuro, disposta sob dois lustres de cristal. Talheres de prata e taças de vinho reluziam sobre a toalha branca impecável. Lorenzo ocupou a cabeceira principal. Fui indicado para sentar à sua direita, enquanto Aurora foi orientada pelo pai a se acomodar exatamente à minha frente.

A posição me dava uma visão direta do seu rosto. Sob a luz direta dos lustres, as sardas em seu nariz pareciam ainda mais evidentes, e os reflexos dourados em seus olhos castanho-avelã acompanhavam cada pequeno movimento que ela fazia ao ajeitar o guardanapo de pano sobre o colo. O vestido de cetim rosa destacava as curvas do seu corpo de maneira quase despropositada para o ambiente rígido em que estávamos, com o tecido justo marcando o contorno dos seios e a linha dos ombros expostos.

— Sirvam o vinho — ordenou Lorenzo aos garçons que se movimentavam em silêncio ao redor da mesa. — Temos muito o que alinhar sobre as rotas do norte, Matteo.

— Os termos principais já foram checados pela minha equipe, Lorenzo — respondi, mantendo a voz pausada e os olhos fixos nos do velho, embora a presença de Aurora na minha linha de visão tornasse o foco uma tarefa exigente. — Minha única exigência é a centralização da segurança nas docas sob o comando direto de Marco. Não divido a responsabilidade do perímetro com terceiros.

— Isso é justo — interveio Paolo, inclinando-se para a frente da sua cadeira. — Mas as cotas de participação nos lucros da distribuição precisam ser revistas a cada trimestre. Não podemos ficar à mercê de oscilações do mercado sem garantia de repasse.

— As garantias estão no contrato que meus advogados trouxeram — retruquei, sem alterar o tom. — Se o volume de carga mantiver o fluxo previsto, ninguém perde dinheiro.

Enquanto a conversa sobre os negócios se desenrolava, percebi que Aurora mantinha a cabeça levemente baixa, cortando a carne no prato com precisão. Ela não interrompia a discussão dos homens e não fazia nenhuma tentativa de chamar atenção para si, ao contrário de Bianca, que suspirava audivelmente do outro lado da mesa e brincava com a haste da taça de vinho com um tédio evidente.

Em determinado momento, enquanto Lorenzo explicava a situação das propriedades da família perto da fronteira com a Suíça, Aurora levantou os olhos. Nossos olhares se cruzaram diretamente por cima da mesa. Ela não desviou de imediato. Havia uma calma curiosa em sua expressão, uma postura firme que contrastava com a fragilidade aparente da sua estatura.

A respiração dela era cadenciada, fazendo o decote do vestido rosa subir e descer devagar. O rosa nos seus lábios parecia ainda mais vivo à medida que ela bebericava um gole de água, mantendo os olhos fixos nos meus por mais alguns segundos antes de voltar a atenção para o prato.

— Minha filha passou os últimos anos recolhida, como você sabe — comentou Lorenzo, direcionando o assunto para ela pela primeira vez na noite. — Ela é alheia a esses assuntos de rua e negócios, Matteo. A intenção dessa união é que ela continue assim, sob a segurança da sua casa.

— Ela terá toda a segurança necessária — respondi, voltando o olhar para Aurora. — Nada do que acontece do lado de fora dos muros da minha propriedade chega até quem está dentro.

— Fico satisfeito em ouvir isso — disse o patriarca dos Marcone, levantando a taça para um brinde discreto. — Então temos um acordo selado.

Ergui minha taça, batendo suavemente o cristal contra o de Lorenzo, mas meu olhar permaneceu travado no rosto de Aurora. A calmaria em seus traços e a forma como ela parecia totalmente alheia ao ambiente ao seu redor prendiam a atenção de um jeito que tornava qualquer assunto sobre negócios secundário naquela mesa.

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