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Capítulo 10

Auteur: Bolo de Arroz
Três anos depois, fixei residência em uma cidade litorânea e transferi meu estúdio para lá. O estúdio não era grande, mas os negócios iam bem e se mantinham estáveis.

Eu morava sozinha e tinha um gato, incrivelmente gordo. Quando andava, a barriga quase arrastava no chão.

Nos fins de semana, eu costumava caminhar pela praia. Havia muita gente na areia: casais com os filhos, namorados de mãos dadas.

Tirei os sapatos e pisei descalça na areia. As ondas vinham até mim, cobrindo o peito dos meus pés
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  • Até que o Boa-Noite se Tornasse Encruzilhada   Capítulo 10

    Três anos depois, fixei residência em uma cidade litorânea e transferi meu estúdio para lá. O estúdio não era grande, mas os negócios iam bem e se mantinham estáveis.Eu morava sozinha e tinha um gato, incrivelmente gordo. Quando andava, a barriga quase arrastava no chão.Nos fins de semana, eu costumava caminhar pela praia. Havia muita gente na areia: casais com os filhos, namorados de mãos dadas.Tirei os sapatos e pisei descalça na areia. As ondas vinham até mim, cobrindo o peito dos meus pés com a água fresca e, ao recuarem, levavam consigo a areia sob minhas solas.Nunca mais tive um relacionamento. Não porque ainda estivesse presa a alguém, mas porque eu simplesmente tinha descoberto como era bom estar sozinha.Em casa, eu sabia exatamente onde estava cada coisa. Depois de lavar a louça, eu mesma a guardava. Nos fins de semana, dormia até a hora que quisesse.De vez em quando, algum amigo perguntava se eu queria conhecer alguém. Eu dizia que não precisava.Diziam que talvez eu ai

  • Até que o Boa-Noite se Tornasse Encruzilhada   Capítulo 9

    Mais dois meses se passaram. Naquela tarde, quando saí do estúdio, o céu já começava a escurecer, mas as luzes dos postes ainda não tinham se acendido.Havia alguém parado na entrada. Era Aurora.Ela tinha emagrecido muito. As maçãs do rosto estavam salientes, e sombras arroxeadas marcavam a região sob seus olhos.Vestia uma jaqueta branca de plumas, fechada até o pescoço, com o queixo afundado na gola.Não lembrava em nada a mulher impecável de antes.Assim que me viu, seus olhos se encheram de lágrimas, que logo começaram a escorrer.— Daniela.Não respondi.— Daniela, eu imploro, volte. O Vini não fala mais com ninguém. Ele me expulsou. Deu tudo o que eu queria só para que eu nunca mais aparecesse. Ele ama você de verdade. Volte para ele.Ela chorava sem parar. Uma lágrima ficou presa na ponta de seu queixo e brilhou por um instante na luz fraca do fim da tarde.Ela estendeu a mão para segurar a manga do meu casaco. Seus dedos estavam gelados, e as unhas, cortadas bem curtas.— Term

  • Até que o Boa-Noite se Tornasse Encruzilhada   Capítulo 8

    Mais alguns meses se passaram. Eu me mudei para outra cidade e abri meu próprio estúdio.O espaço não era grande: havia apenas duas salas, uma para trabalhar e outra para receber clientes.No parapeito da janela, eu cultivava uma samambaia. As folhas caíam em cascata, quase tocando o chão.Naquela tarde, eu discutia uma proposta com um cliente. A sala de reuniões ficava no segundo andar, com a janela voltada para a rua. Minha assistente entrou e, pela expressão em seu rosto, percebi que havia alguma coisa errada.Ela se aproximou e baixou a voz.— Tem um homem lá embaixo, ajoelhado, segurando uma placa. Ele disse que se chama Vinícius e que é seu marido.O cliente olhou para mim. Eu olhei de volta e disse:— Só um instante.Me levantei e fui até a janela. Ele estava ajoelhado bem no meio da praça em frente ao prédio.Não havia nada protegendo seus joelhos. Ele estava ajoelhado diretamente sobre o piso de pedra cinza.Nas mãos, segurava um pedaço de papelão no qual se lia, em grandes le

  • Até que o Boa-Noite se Tornasse Encruzilhada   Capítulo 7

    Dois meses depois, soube que ele tinha feito duas coisas.A primeira foi pedir demissão da empresa. A segunda foi transferir os cuidados de longo prazo de Aurora para uma equipe médica especializada e mandá-la para o exterior.Foi Carolina quem me contou, falando depressa do outro lado da linha.— Ele abriu mão de todas as ações. No dia em que Aurora foi embora, ela chorou a noite inteira, e ele nem apareceu para se despedir. O pai dele disse que ele tinha enlouquecido, e a mãe ligou para um monte de amigos, pedindo que tentassem convencê-lo a mudar de ideia.Fiquei diante da janela do escritório, observando a chuva bater no vidro e escorrer em filetes.— O que ele ganha com isso? — Perguntou Carolina.Eu não sabia o que ele pretendia com aquilo, mas ele veio me procurar. Naquela tarde, quando saí do escritório, ele estava parado ao pé dos degraus da entrada.Trazia nas mãos um envelope de papel pardo, com os cantos amarrotados de tanto apertá-lo.Ele estendeu o envelope para mim.— O

  • Até que o Boa-Noite se Tornasse Encruzilhada   Capítulo 6

    Dois meses depois, me mudei para uma cidade pequena no sul. Peguei alguns trabalhos de design e abri um estúdio em sociedade com outra pessoa.A vida era tranquila. Todos os dias, eu acordava às sete da manhã, cozinhava um ovo e torrava uma fatia de pão.Às oito, saía de casa e caminhava por vinte minutos até o estúdio.À noite, assim que escurecia, voltava para casa. Às vezes, comprava uma porção de massa no caminho e comia tudo em pé na varanda.No dia em que ele me encontrou, eu estava escolhendo revestimentos em uma loja de materiais de construção. Agachada no chão, passava os dedos pelas bordas de duas peças, uma fosca e outra brilhante, as comparando várias vezes.Marcelo estava ao meu lado, ajudando a carregar as caixas de amostras. Ele tirava as peças da prateleira uma a uma e as empilhava no carrinho.Peguei o revestimento que ele me entregou, aproximei o rosto para observar e sorri. Ainda sorrindo, ergui os olhos e vi alguém parado a uns vinte metros dali.Ele usava um casaco

  • Até que o Boa-Noite se Tornasse Encruzilhada   Capítulo 5

    Troquei de número de celular.Fui a uma loja da operadora na rua e pedi uma nova linha. Depois de vinte minutos de espera, o atendente me entregou um novo chip.Retirei o chip antigo do celular, cortei-o ao meio com uma tesoura e o joguei no lixo.O apartamento que aluguei tinha um quarto e uma sala, era voltado para o norte, e as janelas davam para uma rua estreita. Em frente ao prédio havia um plátano, já quase sem folhas.No dia da mudança, contratei uma transportadora e mandei levar tudo o que me restava: três caixas de papelão e uma mala.Quando o funcionário foi buscar minhas coisas, lançou um olhar para as caixas e perguntou o que havia dentro delas. Respondi que eram roupas e itens de uso diário.Ele pegou uma balança, pesou as caixas uma a uma, imprimiu as etiquetas e colou uma em cada volume.Seis anos de casamento e, no fim, era só aquilo que restava. Quando cheguei ao novo endereço, não deixei o motorista me ajudar. Carreguei sozinha as três caixas, subindo e descendo vária

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