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Capítulo 4

Author: Bolo de Arroz
Depois disso, entramos em uma guerra fria. A viagem de trabalho deveria durar seis dias, mas terminei tudo antes do previsto.

No quinto dia, troquei minha passagem pelo primeiro voo disponível. Assim que abri a porta de casa, vi um par de sapatos de salto que não estava ali antes, no hall de entrada. Eram de Aurora.

As revistas dela estavam espalhadas sobre a mesa, e uma camisola de renda havia sido largada no sofá.

Havia uma panela de sopa sobre o fogão da cozinha, com o vapor escapando pelas frestas da tampa.

Dessa vez, fui direto para o quarto principal. A roupa de cama havia sido trocada de novo.

Todos os meus produtos de cuidados com a pele, que antes ficavam na penteadeira, estavam dentro de uma caixa organizadora transparente, deixada no chão. Os frascos se amontoavam lá dentro, tortos, espremidos uns contra os outros.

Sobre a penteadeira estavam as coisas dela, todas impecavelmente organizadas, cada frasco com sua própria etiqueta.

A porta do guarda-roupa estava entreaberta. Minhas roupas também haviam sido empurradas para um canto, enquanto o espaço liberado agora era ocupado pelas roupas dela.

Na parte de cima da gaveta de lingerie, estavam as peças de renda dela.

No criado-mudo, havia também um frasco branco de comprimidos para dormir, com uma etiqueta impressa: "Aurora, um comprimido antes de dormir".

Ao lado, havia uma fotografia, já um pouco amarelada pelo tempo. Nela, Aurora estava apoiada no ombro dele, sorrindo, com os olhos semicerrados de alegria.

No verso da foto, havia uma frase: [Vini e Aurora, para sempre juntos. Verão de 2011.]

Quinze anos atrás, eu ainda não sabia da existência de Aurora.

Eu o conheci em 2010, na festa de boas-vindas aos calouros da universidade. Ele se abaixou para pegar uma caneta que eu havia deixado cair no chão. Quando ergui os olhos e agradeci, ele sorriu.

Mas, naquela época, a história dos dois já havia começado.

Eu sempre achei que tivesse sido o primeiro amor dele. No fim das contas, eu é que tinha chegado depois.

Eu estava parada ao lado da cama, encarando tudo aquilo, quando a porta do banheiro se abriu.

Vinícius saiu enrolado em uma toalha, com os cabelos molhados e gotas de água escorrendo pelo pescoço.

Ao me ver, ficou paralisado por um instante.

— Você já voltou? Não eram seis dias?

— Terminei antes.

Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, uma voz soou atrás dele.

— Vini, onde você colocou minha camisola?

Aurora pôs a cabeça para fora do banheiro. Vestia um roupão branco, e seus cabelos também estavam molhados.

Ao me ver, o sorriso dela congelou por um segundo antes de dar lugar a uma expressão inocente.

— Daniela? Você voltou? Eu não sabia que você ia chegar hoje. Vini disse que você ficaria fora por uma semana...

— Saia um pouco. — Disse Vinícius primeiro.

Aurora mordeu o lábio, mas recuou para dentro do banheiro e fechou a porta.

Uma faixa de luz escapava pela fresta, acompanhada pelo som baixo de sua tosse.

— Daniela, escute...

— Mande ela embora agora, e eu fico.

Ele franziu a testa imediatamente, e qualquer traço de culpa desapareceu de sua expressão.

— Não faça isso. Ela não está bem, e já está tão tarde. Para onde você quer que ela vá a esta hora?

— Esta é a nossa casa. O nosso quarto. Por que ela não pode ir embora?

— Ela só vai ficar alguns dias. Você precisa mesmo fazer todo esse drama?

— Preciso.

A expressão dele se fechou.

— Dá para parar com isso? Você sabe muito bem como está a saúde dela. Precisa mesmo me pressionar desse jeito?

Uma dor amarga e sufocante se espalhou pelo meu peito. Olhei para ele, entorpecida.

— Eu estou pressionando você? Ela usa o mesmo banheiro que você, dorme com você no quarto principal, e você ainda diz que sou eu quem está pressionando você?

Ele respirou fundo, a impaciência era evidente na voz.

— Você não pode ser razoável? Ela está doente. Se você a mandar embora e alguma coisa acontecer, vai assumir a responsabilidade?

— Ela salvou sua vida, então pode dormir nesta cama, morar nesta casa e tomar o meu lugar. E eu sou o quê?

— Daniela Monteiro, você acha que o mundo inteiro está em dívida com você? Ela está emocionalmente instável. O médico disse que alguma coisa pode acontecer a qualquer momento. Você não consegue ser um pouco mais compreensiva?

A porta do banheiro se entreabriu, e a voz de Aurora veio lá de dentro, embargada pelo choro.

— Vini, talvez seja melhor eu ir embora. Posso procurar um hotel sozinha. Não quero colocar Daniela em uma situação difícil.

— Não ligue para ela. Amanhã cedo eu encontro outro lugar para você. Você...

Cerrei os dentes e, num gesto brusco, joguei as coisas dela no chão.

— Ela vai embora agora.

Do banheiro veio um soluço abafado.

— Não briguem por minha causa. Eu vou embora. Vou agora mesmo.

A porta do banheiro se abriu, e Aurora saiu vestindo aquele roupão branco.

— Chega!

Ele avançou, segurou a mão dela e me empurrou para o lado, se colocando na frente dela para protegê-la.

Cambaleei e bati a lombar na mesa. Doeu.

— Daniela, precisa mesmo chegar a esse ponto? Precisa mesmo pressioná-la assim? Seja razoável, ela está doente!

Ele ignorou a palidez do meu rosto, puxou Aurora pela mão e saiu primeiro do quarto.

Depois que consegui me recompor, comecei a arrumar minhas coisas. Ao passar pelo escritório para ir embora, ainda pude ouvi-lo consolando Aurora em voz baixa.

O táxi passou pelo portão do condomínio. Pela janela, virei a cabeça para olhar para a janela do quarto principal, no segundo andar. As cortinas cor-de-rosa ainda ondulavam ao vento.

Quando o carro já estava longe, coloquei a mão sobre a barriga. Ali havia um segredo que eu tive a chance de contar a ele.

Eu havia descoberto a gravidez um dia antes da viagem. Minha intenção era surpreendê-lo naquela noite.

Agora, já não havia necessidade.

...

Já passava da metade da madrugada quando Vinícius finalmente terminou de acalmar Aurora. Ao perceber que a casa estava silenciosa demais, se lembrou de mim.

Uma inquietação inexplicável tomou conta dele. Então, abriu novamente a porta do quarto.

Seus passos pararam de repente, e suas pupilas se contraíram.

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