Se connecterRafael Costa "Rafa/Gael"
Eu fechei a porta do barraco atrás de mim com mais força do que o necessário e encarei a mulher que tinha acabado de falar o nome que eu enterrei há anos. Solange. Eu a conhecia desde os tempos em que ainda era só o menino esquelético que carregava recados na ladeira de baixo. Ela tinha envelhecido, o rosto marcado pelo sol e pelas escolhas erradas, mas os olhos continuavam os mesmos: espertos, calculistas, sempre medindo o que podiam ganhar. Eu odiava pessoas assim. Odiava ainda mais quando elas apareciam na minha porta falando “Gael” na frente da única mulher que eu não podia deixar descobrir demais. O controle que eu cultivava como uma segunda pele já estava rachado desde a madrugada. Aquela visita ameaçava quebrar o que restava. — Você tem cinco segundos para explicar por que está aqui falando esse nome — disse eu, a voz baixa, perigosa, o corpo inteiro bloqueando qualquer visão que ela pudesse ter do interior do barraco. Solange cruzou os braços, o queixo erguido numa falsa coragem que eu já tinha visto desmoronar em gente muito mais dura que ela. — Preciso de dinheiro. E de proteção. Seu meio-irmão mandou gente no morro ontem. Estão perguntando por você. Pelo nome verdadeiro. E pela médica. O sangue gelou e depois ferveu. Eu dei um passo à frente. Ela recuou por instinto. Eu tinha trinta e três anos de prática em fazer pessoas recuarem. Cresci aprendendo que o silêncio e a ameaça controlada funcionavam melhor que gritos. Uma das minhas manias mais antigas: nunca levantar a voz se eu pudesse destruir alguém com um olhar e uma frase bem colocada. — Você vai sumir daqui. Hoje. Agora. E se eu ouvir esse nome saindo da sua boca de novo, eu te coloco num ônibus sem volta. Entendeu? — Gael... Minha mão fechou no braço dela com força suficiente para deixar marca. Eu a puxei para longe da porta, para o beco estreito onde ninguém ouvia demais. O corpo dela era leve, fácil de deslocar. Eu não sentia prazer nisso. Sentia necessidade. A mesma necessidade fria que me fazia controlar o morro com mão de ferro e manter a outra vida trancada a sete chaves. — O nome é Rafael. Só Rafael. Você esquece o outro. Eu resolvo o problema do meio-irmão. Você pega o dinheiro que eu vou te dar e desaparece por uns meses. Se abrir a boca, eu fecho ela. Permanente. Ela engoliu seco. Vi o medo verdadeiro entrar nos olhos. Bom. Medo eu sabia manejar. Desejo, por outro lado… desejo era o que estava me destruindo desde que Clara Mendes tinha entrado na minha clínica. Eu tirei uma quantia dobrada do bolso, o suficiente para calar e comprar tempo, e empurrei contra o peito dela. — Some. Solange não discutiu. Virou as costas e desceu a ladeira rápido demais para alguém que fingia não ter medo. Eu fiquei olhando até ela desaparecer. O corte nas costelas puxou quando respirei fundo. Eu ignorei. Tinha coisas piores doendo. Quando voltei para o barraco, o silêncio me avisou antes dos olhos. A cama estava vazia. A camisa que Clara vestia estava jogada no colchão. E o som de água caindo vinha do único canto que eu tinha improvisado como banheiro: uma área pequena separada por uma cortina plástica velha, com um chuveiro de pressão fraca e um balde para quando a caixa d’água falhava. Eu me aproximei sem fazer barulho. Uma mania de quem aprendeu cedo que surpresas podiam matar. Puxei a cortina só o suficiente para ver. Clara estava de costas, nua, a água escorrendo pelo cabelo castanho-escuro, descendo pelas curvas que eu tinha imaginado vezes demais desde a primeira noite. A pele molhada brilhava na luz fraca que entrava pela fresta do teto. A cintura fina. O ângulo das costas. A forma como ela passava as mãos nos braços, lavando o que restava da madrugada. Meu corpo reagiu imediato, bruto, sem permissão. O desejo que eu vinha segurando desde o beijo no beco subiu como uma onda de calor. Eu queria entrar ali. Queria pressioná-la contra a parede molhada e foder até que ela esquecesse qualquer nome que tivesse ouvido na porta. Ela sentiu minha presença. Virou o rosto só o suficiente para me ver. Não cobriu o corpo. Não gritou. Apenas me encarou por cima do ombro, a água escorrendo pelo queixo, os olhos desafiadores mesmo naquela vulnerabilidade toda. A teimosia dela era uma droga. Eu já estava viciado. — A porta estava aberta — falei, a voz saindo mais rouca do que eu queria. — E você resolveu entrar mesmo assim. — É minha casa. — É o seu barraco. E eu estou usando o seu chuveiro porque você tirou minha roupa enquanto eu dormia. Eu entrei por completo e fechei a cortina atrás de mim. O espaço era ridiculamente pequeno. Dois corpos adultos mal cabiam. A água fria espirrava em nós dois. Clara virou de frente, devagar, sem tentar se esconder. Eu vi tudo. Os seios molhados, os mamilos endurecidos pelo frio da água, a curva da barriga, o triângulo escuro entre as pernas. Meu controle, já rachado, ameaçou desmoronar de vez. — Você precisa sair — disse ela, mas a voz não tinha força. Estava ofegante. As pupilas dilatadas. — Eu sei. Eu não saí. Dei mais um passo. Depois outro. O peito nu dela quase tocava o meu. A água escorria entre nós. Eu levantei a mão e passei o polegar no lábio inferior dela, limpando uma gota. Ela tremeu. Eu senti o tremor como se fosse meu. — A mulher da porta — murmurou Clara. — Ela te chamou de Gael. — Eu resolvi. — Como? — À força. Do jeito que eu resolvo as coisas. As mãos dela subiram e pousaram no meu peito, não para me empurrar, mas para sentir. Os dedos deslizaram sobre a pele molhada, contornaram o peitoral, desceram até a gaze molhada nas costelas. Eu contraí o abdômen. O corte ardia. O desejo ardia mais. Eu segurei o queixo dela e forcei o olhar para cima. — Você está brincando com fogo, doutora. — Você começou o incêndio. Eu não perdi tempo e a beijei. Não foi um beijo como no beco. Foi pior. Mais fundo. Mais urgente. A boca dela se abriu sob a minha com um gemido baixo que eu engoli inteiro. As mãos dela subiram para o meu cabelo, puxando. Eu a empurrei contra a parede úmida do box improvisado, uma das minhas coxas se enfiando entre as pernas dela, o corpo inteiro pressionando. A água fria não fazia diferença. Eu estava queimando. As mãos desceram pelas costas molhadas dela, agarraram a bunda com força, ergueram um pouco. Clara arqueou contra mim. Eu senti o calor dela mesmo através da calça jeans encharcada. Eu ia foder ela ali mesmo. Contra a parede. Com a água caindo. Sem mais perguntas, sem mais nomes, sem mais cartões de visita. Eu ia marcar aquele corpo até que ela só lembrasse do meu nome atual. Meus dedos já estavam subindo pela parte interna da coxa dela quando o celular vibrou no bolso traseiro da calça com a insistência de quem não ia parar. O som me trouxe de volta como um balde de água mais fria ainda. Eu me separei dela com um esforço físico real. Os dois ofegantes. A boca dela vermelha e inchada. Os olhos escuros de desejo e confusão. Eu virei o rosto, tirei o celular com a mão molhada e li a mensagem que acabara de chegar de um número que eu conhecia bem demais. "O velho piorou. Conselho exige sua presença em São Paulo em 48 horas. Se não aparecer, eles vêm buscar. E não vão sozinhos." Eu li duas vezes. O sangue esfriou. A família. De novo. Sempre eles. Quando olhei de volta para Clara, ainda nua, ainda molhada, ainda com os lábios marcados pelo meu beijo, eu soube que o tempo que eu tinha para manter as duas vidas separadas estava acabando rápido demais.Rafael Costa "Rafa/Gael"Ela estava em pé em cima da minha cama, os documentos do meu outro eu na mão, e o mundo que eu construíra com tanto cuidado rachou no meio.Eu saí do chuveiro com a toalha baixa na cintura, a água ainda escorrendo pelo peito, e a primeira coisa que vi foi Clara Mendes segurando o passaporte, a identidade e o cartão black que eu mantinha escondidos no forro há anos. O nome Gael Moreira Albuquerque gritava daquelas páginas. A foto era a minha. A vida era a que eu tinha tentado enterrar. Por um segundo longo, fiquei imóvel. O controle que eu exercia sobre cada aspecto da minha existência — o morro, o império paralelo, as mentiras necessárias — escorregou entre os dedos como a água que ainda pingava do meu cabelo. Eu tinha trinta e três anos de prática em esconder verdades. E aquela médica teimosa tinha encontrado a mais perigosa delas em menos de uma semana.— Clara.A voz saiu baixa. Controlada. O tipo de voz que eu usava quando precisava decidir se alguém ia sa
Clara MendesA voz da minha mãe ainda ecoava no barraco quando eu desliguei o telefone com os dedos trêmulos.Dois homens. Bem vestidos. Na casa dela. Perguntando por mim. Perguntando pela favela. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica que construíra a própria vida em cima de controle e decisões racionais, senti o chão ceder sob os pés. O corpo ainda estava quente e marcado do sexo possessivo de minutos antes. O cheiro de Rafael ainda colava na minha pele. E agora o medo real, o tipo que vinha de fora e não do desejo, subia pela garganta como um gosto metálico. Eu me sentei na beira da cama, a camisa grande dele cobrindo o corpo nu, e levantei os olhos para o homem que estava de pé no meio do cômodo, já vestindo a calça, o rosto fechado naquela máscara de controle que eu começava a odiar e desejar na mesma medida.— Chega — disse eu, a voz saindo mais firme do que eu esperava. A teimosia era a única âncora que me restava. — Chega de código. Chega de “depois”. Chega de me foder at
Rafael Costa "Rafa/Gael" O nome “Pai” na tela do celular era uma lâmina fria atravessando o calor que ainda queimava entre nós.Eu continuei dentro de Clara por mais alguns segundos, o corpo dela preso contra a parede do consultório, a respiração dela ainda descompassada contra a minha mão. O orgasmo tinha sido brutal, necessário, uma válvula de escape para toda a adrenalina do tiro e da fome acumulada. Mas o mundo lá fora não esperava. Eu tirei a mão da boca dela com lentidão, deslizei para fora do corpo quente com um esforço físico real e arregacei a calça. Clara ficou encostada na parede, as pernas ainda trêmulas, a bata amassada, os lábios vermelhos e inchados. Eu odiava a forma como ela parecia recém-fodida e vulnerável. Odiava ainda mais a vontade imediata de ajoelhar e recomeçar.Atendi o telefone no quarto toque.— Fala.A voz do outro lado era a do advogado antigo do meu pai, um homem que eu conhecia desde os treze anos e em quem eu não confiava desde os quatorze.— O tempo
Clara MendesO tiro ainda ecoava nos meus ouvidos quando Rafael me puxou para dentro do consultório dos fundos e trancou a porta com violência.Eu estava tremendo. Não só de medo. O corpo inteiro vibrava com a adrenalina do segundo em que ele me derrubara no chão, o peso dele me cobrindo, o vidro estilhaçando acima de nós. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica que sempre se orgulhara de manter a calma sob pressão, sentia o controle escorregar pelos dedos como água. Meu coração batia tão forte que doía no peito. A respiração vinha em golpes curtos. E por baixo do medo puro havia outra coisa, mais escura, mais quente: a consciência aguda do corpo dele ainda colado ao meu, da forma como ele me segurava pelos braços, dos olhos escuros que me devoravam como se eu fosse a única coisa que importava naquele momento.— Você está bem? — perguntou ele, a voz rouca, baixa, o peito subindo e descendo rápido demais.— Eu… acho que sim. O tiro...— Passou longe. Por pouco.Ele me encarou por u
Rafael Costa "Rafa/Gael" Eu ainda sentia o gosto dela na boca quando voltei para a reunião.O beco tinha sido um erro. Um erro quente, molhado e viciante. Eu tinha arrastado Clara para longe dos homens armados com a intenção de assustá-la o suficiente para que ela parasse de aparecer onde não devia. Em vez disso, tinha acabado com a língua na boca dela e a mão subindo pela coxa como um adolescente sem controle. Eu odiava perder o controle. Era uma das poucas coisas que eu ainda conseguia manter intactas depois de anos dividindo a vida entre o morro e o fantasma de Gael Moreira Albuquerque. E aquela médica teimosa estava destrozando isso com uma eficiência que me deixava entre a vontade de foder ela contra a parede mais próxima e a necessidade de trancá-la num lugar seguro até que a guerra com a minha família terminasse.Eu entrei de novo no barracão. Os homens pararam de falar. Dudu levantou uma sobrancelha, mas não comentou o tempo que eu tinha ficado fora nem o estado da minha boca
Clara MendesRafael sumiu antes mesmo de eu terminar de me vestir.Eu saí do chuveiro improvisado ainda tonta do beijo, o corpo inteiro latejando com um desejo não resolvido que me irritava tanto quanto me excitava, e ele já estava de camisa limpa, o celular na mão, o olhar distante daquele jeito que significava que o mundo lá fora tinha batido na porta de novo. Eu, Clara Mendes, vinte e oito anos, médica teimosa que odiava ficar com meias verdades e beijos pela metade, tentei segurar o braço dele. Ele se esquivou com uma facilidade que doeu mais do que deveria.— Eu preciso sair — disse curto e grosso.— A gente precisa conversar. Sobre a mulher. Sobre o nome. Sobre São Paulo — eu insisto.— Depois — ela fala mais firme.Engulo seco.— Rafael... — insisto novamente, inutilmente.A porta bateu. O som ecoou no barraco pequeno como um ponto final. Eu fiquei parada no meio do cômodo, a camisa grande dele ainda colada na pele molhada, o gosto da boca dele na língua, a frustração subindo p







