Compartir

CICATRIZES INVISÍVEIS
CICATRIZES INVISÍVEIS
Autor: Euridce

CAPÍTULO 1

Autor: Euridce
last update Fecha de publicación: 2026-05-12 12:23:30

O som da chuva contra as janelas parecia mais alto naquela noite.

Helena Duarte ficou parada no meio da sala, segurando a pequena Luna nos braços enquanto observava o marido colocar roupas dentro de uma mala preta.

Cada movimento de Ricardo era frio, Calculado.

Como se estivesse apenas arrumando objetos antigos que já não tinham utilidade.

Como se ela fosse uma dessas coisas.

— Você vai mesmo fazer isso? — a voz dela saiu baixa, rouca, quase irreconhecível.

Ricardo suspirou, irritado.

Nem sequer olhou em sua direção.

— Não começa, Helena.

A resposta atravessou o peito dela como vidro.

Luna, sonolenta, apertou a camiseta da mãe com os dedinhos pequenos, sentindo a tensão no ar.

Helena beijou os cabelos cacheados da filha tentando esconder o tremor do próprio corpo.

Não chora.

Não na frente dele.

Mas era impossível.

Sete anos.

Sete anos construindo uma vida ao lado daquele homem.

Ela lembrava do pequeno apartamento onde começaram, do colchão velho no chão, das promessas sussurradas na madrugada, das mãos dele segurando as suas e dizendo.

“Eu nunca vou abandonar você.”

Mentira.

Tudo mentira.

Ricardo fechou a mala com força.

Helena sentiu o estômago afundar.

Aquilo estava realmente acontecendo.

— Ela está grávida? — perguntou de repente.

O silêncio confirmou antes mesmo da resposta.

E foi pior.

Muito pior.

Ricardo passou a mão no rosto, claramente sem paciência.

— Vanessa não tem culpa disso.

Vanessa.

Até o nome daquela mulher queimava.

Helena soltou uma risada fraca, quebrada.

— Você destruiu nossa família.

— Nossa família já estava destruída há muito tempo.

Aquilo a fez perder o ar.

Ela o encarou finalmente, procurando qualquer sinal do homem que amou desesperadamente por tantos anos.

Não encontrou nada.

Os olhos de Ricardo estavam vazios.

Distantes.

Frios.

Como se ele já pertencesse a outro lugar.

— Então era isso? — Helena perguntou, sentindo lágrimas escorrerem.

— Eu cuidei da sua vida, abandonei minha carreira, fiquei ao seu lado em tudo, para você me trocar por outra mulher?

— Para de agir como vítima.

A frase bateu como um tapa.

Helena ficou imóvel.

Porque depois de tudo, aquilo foi o que mais me machucou.

Não a traição.

Não o abandono.

Mas o fato de ele ter transformado a dor dela em inconveniência.

Luna começou a choramingar baixinho, sensível ao desespero da mãe.

Helena a apertou contra o peito.

— Ela é sua filha, Ricardo…

Pela primeira vez naquela noite, ele olhou para a menina.

E desviou os olhos rápido demais.

Culpa.

Ainda existia alguma.

Mas não o suficiente para fazê-lo ficar.

— Vou mandar dinheiro todo mês.

Helena sentiu vontade de gritar.

Dinheiro?

Era isso que ele achava que resolveria?

— Ela vai crescer sem pai por causa da sua amante!

Ricardo perdeu a paciência.

— CHEGA!

O grito fez Luna começar a chorar de verdade.

Helena imediatamente a balançou nos seus braços, protegendo-a.

Instinto.

Sempre proteger Luna.

Mesmo enquanto o próprio mundo desmoronava.

Ricardo pegou a mala e caminhou até a porta.

Não hesitou.

Não voltou atrás.

Helena sentiu o coração bater tão forte que doeu fisicamente.

— Ricardo.

Ele parou.

Por um segundo, ela acreditou.

Acreditou que ele fosse voltar.

Que fosse enxergar tudo o que estava destruindo.

Mas então ele falou sem virar o rosto.

— Você vai superar isso.

A porta bateu.

E o silêncio que veio depois foi insuportável.

Helena ficou parada.

Sem respirar.

Sem pensar.

Sem sentir nada além daquele vazio horrível crescendo dentro dela.

Luna chorava em seu colo.

A chuva continuava lá fora.

E ela percebeu, pela primeira vez na vida, que não fazia ideia de como sobreviver sozinha.

As pernas fraquejaram.

Helena deslizou lentamente até o chão da sala, abraçando a filha enquanto as lágrimas finalmente escapavam sem controle.

Ela chorou em silêncio.

Chorou pela mulher que tinha sido.

Pela família que morreu naquela noite.

Pelo amor que acreditou ser eterno.

E, no fundo do peito, uma verdade cruel começou a nascer.

Algumas pessoas não quebram de uma vez.

Elas racham devagar.

Até não sobrar mais nada.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App
Comentarios (1)
goodnovel comment avatar
Cátia Lopes
Vai à luta não se quebre, homem nenhum merece você se destroçar por ele, seja mulher e meio
VER TODOS LOS COMENTARIOS

Último capítulo

  • CICATRIZES INVISÍVEIS    CAPÍTULO 161

    Helena Mais tarde, coloquei Luna na cama. — Boa noite, meu amor. Ela segurou minha mão. — Mamãe? — Sim? — Você está feliz? Sorri. — Estou. — Mesmo depois das coisas ruins? Pensei. — Sim. — Como? Beijei sua testa. — Porque as coisas ruins fazem parte da história. — Mas não são a história inteira. Ela sorriu. — Entendi. Fechei a porta. Noah estava no corredor. — O que você disse para ela? — A verdade. Naquela noite, nós dois ficamos na varanda. Sem medo. Sem promessas impossíveis. Apenas juntos. — Eles tentaram — falei. — Tentaram. — E talvez tentem novamente. — Talvez. — E se acontecer? Noah entrelaçou os dedos nos meus. — Nós tentaremos também. Olhei para ele. — Tentar o quê? Ele sorriu. — Ser felizes. Meus olhos se encheram de lágrimas. Porque era exatamente isso. Eles tentariam nos assustar. Nós tentaríamos continuar. Eles tentariam separar. Nós tentaríamos conversar. Eles tentariam destruir. Nós

  • CICATRIZES INVISÍVEIS    CAPÍTULO 160

    Helena Nos dias seguintes, a investigação avançou. Descobrimos que Ricardo havia transferido dinheiro para uma empresa de fachada. Essa empresa tinha ligação com um antigo segurança. E esse segurança tinha contato com pessoas que trabalhavam para Eduardo. Tudo começava a se conectar. Ricardo. Eduardo. Vanessa. Daniel. As empresas fantasmas. Os ataques. As fotografias. As mentiras. Não eram acontecimentos isolados. Era uma rede. E nós estávamos finalmente desmontando-a. Uma noite, Noah recebeu uma mensagem. Vocês não venceram. Ele me mostrou. Meu coração disparou. — Isso é uma ameaça. — Sim. — De quem? — Não sabemos. Ele ficou olhando para a tela. Depois apagou. — Você não vai responder? — Não. — Por quê? — Porque algumas pessoas querem atenção. — E você não vai dar? — Não. Foi a primeira vez que percebi que Noah não estava tentando vencer aquela guerra com raiva. Ele estava tentando encerrá-la. Mas eles tentaram m

  • CICATRIZES INVISÍVEIS    CAPÍTULO 159

    Helena Depois de tudo que havíamos vivido, eu aprendi a não acreditar em promessas absolutas. Não existia garantia de que o amanhã seria fácil. Não existia certeza de que nenhum novo problema surgiria. Não existia uma vida completamente protegida contra perdas. Mas existia uma coisa que eu conhecia agora. Escolha. E naquela manhã, enquanto observava Noah preparar o café e Luna reclamar porque o pão estava cortado do jeito errado, percebi que nós três já havíamos feito a nossa escolha. Nós tentaríamos. Mesmo quando fosse difícil. Mesmo quando o medo voltasse. Mesmo quando o passado batesse à porta. — Pai! Noah olhou para Luna. — O quê? — Eu falei que queria o pão em triângulos. — Ele está em triângulos. — Esses são quase triângulos. Olhei para Noah. — Ela tem razão. Ele me encarou. — Você também? — Sempre. Luna comemorou. — Mamãe ganhou! Noah colocou a mão no peito. — Estou sendo derrotado dentro da minha própria cozinha. Comecei a rir. Era uma cena pequena.

  • CICATRIZES INVISÍVEIS    CAPÍTULO 158

    Helena Depois que Luna foi dormir, Noah ficou olhando para mim. — Você percebeu? — O quê? — Você não prometeu para sempre. Sorri. — Não. — E está tudo bem? — Está. Ele se aproximou. — Por quê? — Porque agora sei que não preciso de uma promessa impossível para me sentir amada. Naquela noite, dormi profundamente. Alguns dias depois, encontramos um álbum antigo. Começamos a olhar fotografias. Luna bebê. Eu grávida. Noah segurando-a pela primeira vez. Nossa primeira viagem. Nossa primeira casa. Algumas fotos estavam ruins. Algumas pessoas já haviam mudado. Alguns momentos pareciam pertencer a outra vida. Noah segurou uma fotografia. — Você lembra disso? — Lembro. — Eu estava nervoso. — Você parecia assustado. — Eu estava. Rimos. Depois encontrei uma fotografia minha. Uma versão antiga. Meu rosto ainda carregava medo. Mas havia esperança. — Eu mudei. Noah olhou. — Muito. — Você teria escolhido aquela mulher? Ele f

  • CICATRIZES INVISÍVEIS    CAPÍTULO 157

    Helena Naquela noite, Noah perguntou: — Você ficou quieta na festa. — Estava pensando. — Em quê? — No futuro. — E chegou a alguma conclusão? Sorri. — Que eu estava desperdiçando o presente com medo dele acabar. Ele me beijou na testa. — Essa é uma conclusão importante. Algumas semanas depois, uma nova notícia chegou. Eduardo continuava sendo investigado. Havia documentos que poderiam ligá-lo diretamente aos ataques. Noah passou algumas noites trabalhando até tarde. Meu antigo medo voltou. Não porque ele tivesse feito alguma coisa. Mas porque eu conhecia aquela sensação. Quando alguém que você ama se afasta por algumas horas, sua mente começa a criar histórias. Uma noite, Noah entrou no quarto. Eu estava acordada. — Você ainda está trabalhando? — Estava. — Tudo bem? — Sim. Ele percebeu meu rosto. — O que aconteceu? — Nada. Ele sentou ao meu lado. — Helena. Respirei fundo. — Eu fiquei com medo. — De quê? — De que tudo

  • CICATRIZES INVISÍVEIS    CAPÍTULO 156

    Helena Durante muito tempo, eu tive medo da palavra para sempre. Ela parecia bonita quando era dita em histórias, Promessas, Casamentos, Amores, Famílias. Mas, para mim, para sempre sempre carregava uma ameaça escondida. Porque eu havia aprendido cedo demais que pessoas podiam prometer ficar e partir. Podiam dizer que amavam e machucar. Podiam jurar proteção, e transformar a vida de alguém em medo. Por isso, quando Noah dizia: — Eu quero você para sempre. Uma parte de mim queria acreditar. Outra sussurrava Para sempre não existe. Naquela manhã, estávamos na cozinha. Luna tomava café enquanto Noah tentava convencê-la a comer frutas. — Só mais duas. — Não quero. — Uma. — Não. — Meia? Luna olhou para ele. — Você é péssimo negociando. Comecei a rir. — Ela aprendeu com você. Noah me olhou. — Isso foi uma ofensa. — Foi uma observação. Luna finalmente comeu a fruta. — Pronto. — Viu? Não foi difícil. Ela apontou para Noah. — Você fala

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status