LOGINContinuei de pé. Eu tinha passado a noite pensando que o problema era encontrar as palavras certas. Não era. O problema era que Aurora tinha parado de querer ouvi-las. Voltei a me sentar e olhei para o celular sobre a mesa. Poderia mandar uma mensagem. Ela provavelmente não responderia. Poderia ligar. Provavelmente não atenderia. Poderia aparecer na casa dos pais dela, mas isso seria fazer exatamente o que ela tinha acabado de me acusar de fazer: decidir que minha necessidade de falar era mais importante do que a decisão dela de não ouvir. Apoiei os cotovelos na mesa e passei as mãos pelo rosto. Precisava de uma oportunidade. Não para convencê-la a voltar. Nem sequer sabia ainda o que significaria “voltar” depois de tudo aquilo. Só precisava que ela me escutasse por alguns minutos. E havia uma pessoa que Aurora ainda escutava. Levantei lentamente a cabeça. Bruna. Fiquei alguns segundos considerando a ideia. Era ruim. Provavelmente muito ruim.
“Henrique” Passei boa parte da noite com o celular na mão. A fotografia estava sobre a mesa da sala, ao lado do segundo laudo. Vinte e três páginas que deveriam ter simplificado alguma coisa e conseguiram fazer exatamente o contrário. Abri a conversa de Aurora. A última mensagem ainda era antiga e profissional. Nada que se parecesse com as conversas que costumávamos ter, com provocações inúteis, reclamações sobre horários ou discussões que começavam por qualquer motivo e terminavam horas depois em algum assunto completamente diferente. Digitei: “Chegou o segundo laudo da fotografia. Precisamos conversar.” Li duas vezes. Apaguei. Tentei novamente. “Eu estava errado.” Meu dedo permaneceu sobre a tela. Era verdade. Também parecia pequeno demais. Apaguei outra vez. Poderia ligar. Fiquei alguns segundos olhando para o nome dela no alto da tela, com o polegar próximo ao ícone de chamada. Bastava tocar. Se ela atendesse, eu poderia explicar que a segunda análise não tinha en
Peguei novamente o relatório, mas uma lembrança me atingiu antes que eu pudesse voltar a lê-lo. Não da fotografia. Do telefonema. Tem mais uma coisa. Quero um levantamento de qualquer ligação entre a família Montes e a família Ávila por volta de 2012. Negócios, contratos, eventos, instituições, doações, propriedades, reuniões… qualquer registro em que os dois nomes apareçam relacionados. Até onde devo aprofundar? Até encontrar alguma coisa que explique essa fotografia. Fiquei imóvel. — Merda. César franziu a testa. — O quê? Larguei o relatório e puxei o notebook para perto. — Eu fiquei tão preso nessa fotografia que esqueci de outra coisa. — Que coisa? Abri o e-mail. — Quando mandei analisar a foto, também pedi um levantamento sobre qualquer ligação entre as nossas famílias naquela época. A expressão de César mudou. — Montes e Ávila? — Sim. Digitei algumas palavras na busca e encontrei a sequência de mensagens que recebera nos dias seguintes. Havia mais de uma. Abr
“Henrique” César entrou na minha sala sem bater. Não precisei perguntar por quê. A pasta que ele carregava era diferente daquela que levara do meu escritório alguns dias antes, mas reconheci a fotografia presa entre os documentos assim que ele a colocou sobre minha mesa. — Chegou. Fechei o notebook. — O resultado? — Há vinte minutos. Estendi a mão, mas César manteve os dedos sobre a pasta por mais um segundo. — Antes de você ler, preciso explicar uma coisa. — Isso nunca é um bom começo. — Dessa vez, definitivamente não. Ele puxou a cadeira à minha frente e se sentou. Não havia ironia em sua expressão, nem qualquer traço da satisfação irritante que costumava aparecer quando descobria que estava certo sobre alguma coisa.Aquilo me incomodou. Teria preferido uma provocação. — A fotografia é verdadeira? — Ferreira não usa essa palavra. — César.— Estou falando sério. Ele não pode afirmar com cem por cento de certeza quando e em que circunstâncias aquela fotografia foi tirad
“Aurora” “Seu cabelo fica dourado sob a luz da manhã.” A frase voltou à minha cabeça pela terceira vez antes das dez. O que era irritante. Não porque tivesse sido bonita. Nem porque Henrique tivesse dito alguma coisa particularmente extraordinária. Meu cabelo era loiro. Sob o sol, ficava mais claro. Não precisava ser um observador excepcional para perceber aquilo. O estranho tinha sido Henrique perceber. Mais estranho ainda tinha sido dizer. Ele não costumava fazer comentários daquele tipo. Quando reparava em alguma coisa sobre mim, normalmente vinha acompanhado de uma crítica, uma provocação ou alguma justificativa relacionada ao contrato. Até mesmo nos raros momentos em que me elogiara, existia alguma circunstância em volta. Ontem não. Ele simplesmente tinha olhado para mim como se estivesse tentando entender alguma coisa e dito que meu cabelo ficava dourado sob a luz da manhã. — Você pretende continuar olhando para essa planilha ou eventualmente vai trabalhar nela? Ergui
Fiquei parado, olhando enquanto se afastava. Não deveria ter sido estranho. Era exatamente o que eu vinha dizendo que queria desde que aquele casamento começara. Limites. Profissionalismo. Uma relação que não interferisse no restante da minha vida. Aurora estava oferecendo tudo isso. E eu começava a detestar cada parte. — Essa conversa foi dolorosa até de longe. Olhei para o lado. César estava encostado na porta da sala de reunião. — Você não tem trabalho? — Tenho. Mas aparentemente observar você descobrir como funciona uma conversa humana faz parte dos benefícios do cargo. — Vai se foder. — Melhorou. Mais natural. Passei por ele. — A reunião das três foi alterada. — Eu sei. — Então por que ainda está aqui? César começou a caminhar ao meu lado. — Porque você ficou parado no corredor olhando para sua esposa como se tivesse visto um fantasma. Meu passo diminuiu quase imperceptivelmente. — Não estava olhando para ela desse jeito. — Estava.







