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Capítulo 2

Author: Ray B.
last update Petsa ng paglalathala: 2026-10-02 03:42:34

2. Bom dia

Beatriz

A cozinha de Daniel tinha uma ilha de granito, duas banquetas altas e uma máquina de café importada que ele jamais aprendera a operar.

Soube de imediato que outra pessoa havia assumido a tarefa, porque o café cheirava bem.

Havia uma mulher encostada na bancada. Trinta e poucos anos, cabelo castanho bagunçado de quem acordara havia pouco, pernas compridas saindo de uma camisa azul que eu conhecia muito bem.

Eu a comprara numa loja da Jermyn Street, em março, depois de uma discussão sobre o que significava casual elegante.

Nas mãos, ela segurava uma caneca de cerâmica com o mapa do metrô de Londres.

A caneca era dele. Mas o presente era meu, acompanhado de um bilhete:

Para você lembrar que eu existo, mesmo a oito mil quilômetros.

Ela me viu primeiro.

O sorriso murchou em câmera lenta, como a espuma de um cappuccino malfeito.

— Oi...? — disse, num tom que subia no final, de quem pergunta e já se arrepende.

Daniel apareceu pela porta do corredor, secando o cabelo com uma toalha. Estava de bermuda e sem camisa, com a leveza de quem acredita que ainda é cedo demais para a vida cobrar alguma coisa.

Falava por cima do ombro.

— Luíza, você viu onde eu pus o...

Parou.

A toalha escorregou do ombro dele e caiu no chão.

— Bia?

Foram três segundos de silêncio absoluto.

Ouvi a geladeira zumbir, um relógio de parede que nunca tinha notado e a máquina de café borbulhando, muito concentrada, como se o assunto não lhe dissesse respeito.

Reparei numa tigela de frutas que Daniel jamais compraria e numa escova de cabelo esquecida ao lado da pia.

A cozinha inteira tinha uma resposta.

Só faltava alguém fazer a pergunta.

Existe uma etiqueta para esse tipo de situação. Li sobre ela num capítulo do mestrado chamado Comunicação em crises corporativas: não elevar a voz, não assumir a narrativa do outro, reduzir o evento aos fatos.

Ordenei a respiração, fixei os olhos num ponto neutro e disse:

— Bom dia.

Daniel abriu a boca. Fechou. Passou a mão pelo cabelo molhado.

— Bia, eu... Você falou que chegava no sábado.

— Eu falei que chegava no fim de semana. Decidi antecipar.

Olhei para a mulher.

— Você é a Luíza?

— Eu sou... a Luíza.

Ela olhou para Daniel, depois para o chão e, com um instinto de sobrevivência admirável, para a caneca.

— Desculpa. Eu não sabia que... Ele disse que...

— Não precisa se explicar. Só me responde uma coisa: ele disse que era solteiro?

Luíza assentiu.

Senti uma pontada no peito.

Não porque esperasse outra resposta. Mas porque, até aquele instante, ainda havia uma parte estúpida de mim procurando alguma explicação que não destruísse dois anos de relacionamento.

— Que surpresa — murmurei. — O homem que não consegue operar uma cafeteira conseguiu administrar duas vidas amorosas.

Daniel deu um passo na minha direção.

— Bia, deixa eu explicar.

Ergui a mão.

— Um momento. Ainda estou tentando entender a logística.

Voltei a olhar para Luíza.

— A caneca foi um presente meu. Pode ficar com ela. É um bom presente. Ele é que não merecia.

Depositei sobre o granito a chave que Daniel me entregara numa noite de vinho.

O clique foi pequeno.

Definitivo.

Fiz menção de ir embora, mas parei ao perceber os olhos de Luíza fixos no saco de papel pardo.

— Os croissants eram para dois — expliquei. — Mas não vou desperdiçar.

E saí.

Caminhei até o elevador contando os passos, porque contar era a única coisa que ainda funcionava.

Onze.

Doze.

A porta do apartamento se fechou atrás de mim com um som mole, doméstico, de lugar onde alguém dorme tranquilo.

Treze.

Daniel me alcançou no corredor, de pés descalços, com uma camiseta que pegara no caminho e vestira do avesso.

Isso, por algum motivo, foi o que mais me irritou.

— Bia, espera. Não é o que parece.

Virei devagar.

— Daniel, eu li o relatório de fraude de uma rede de lojas com oitocentas páginas. Quando alguém diz que não é o que parece, estatisticamente é exatamente o que parece.

— Foi uma coisa idiota. Foi uma vez só...

— A camisa é a que eu comprei. A caneca é a que eu dei. Ela sabe onde fica o filtro da máquina. Não foi uma vez.

Ele passou a mão no cabelo molhado.

Eu já tinha visto aquele gesto em mil situações e agora o reconhecia pelo que era: o começo de uma defesa.

— Você nunca está aqui! — disparou. — Eu moro nesta cidade há seis meses e te vi três vezes. Eu me senti sozinho, Bia. Você... você não deixa a gente chegar perto. Você é fria.

Fria.

A palavra encontrou um lugar antigo dentro de mim.

Eu a ouvira antes. Em outras vozes, em outros países, de pessoas que confundiam minha dificuldade de demonstrar afeto com ausência de sentimento.

Daniel sabia disso.

Sabia o quanto me custava confiar em alguém. Sabia que eu não gostava de despedidas e que sempre deixava uma mala meio pronta, mesmo quando não pretendia viajar.

E usou tudo aquilo contra mim.

Por um segundo, tive vontade de perguntar se ele ainda me amava.

Foi a pior parte.

Não a camisa.

Não a caneca.

Nem a mulher descalça na cozinha.

Foi descobrir que, mesmo depois de tudo, uma parte vergonhosa de mim ainda queria ouvir que sim.

Apertei o saco de papel até sentir a manteiga atravessar meus dedos.

— Você podia ter terminado comigo, Daniel.

Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.

— Podia ter sido honesto.

O anel girou no meu polegar, duas voltas completas.

— Eu atravessei o oceano às cinco da manhã comprei croissants — continuei. — Se isso é frieza, preciso rever meu conceito de calor.

Ele soltou o ar, impaciente.

— Não faz drama. Eu errei, Bia. Sei que errei. Mas dois anos não podem acabar assim.

Dois anos.

Era impressionante como ele conseguia transformar o tempo que passamos juntos num argumento a favor dele.

Olhei para aquele homem que, até poucos minutos antes, eu imaginava encontrar sorrindo na porta.

Ainda era bonito.

Ainda tinha os mesmos olhos, a mesma boca, a pequena cicatriz perto da sobrancelha que eu costumava beijar quando ele adormecia no sofá.

E isso tornou tudo pior.

Porque eu não estava deixando de reconhecer Daniel.

Estava reconhecendo alguém em quem já não podia confiar.

— Não estou fazendo drama — respondi. — Estou encerrando.

Ele balançou a cabeça.

— Você vai jogar tudo fora por causa de um erro?

Quase ri.

— Não, Daniel. Você jogou tudo fora. Eu só estou me recusando a recolher os pedaços.

O elevador chegou.

Entrei, apertei o térreo e mantive os olhos fixos nele.

— Bia...

— E, para constar, fui eu que terminei. Pode anotar.

As portas se fecharam diante dele, ainda com a boca aberta e a camiseta do avesso.

Subiu em mim uma vontade absurda de rir.

Eu atravessara oito mil quilômetros para ser recebida e fui recebida, de fato: por uma caneca.

Havia uma ironia ali, e eu ia analisá-la depois, quando tivesse espaço para analisar alguma coisa.

No espelho, minha mão tremia.

Girei o anel no polegar mais uma vez, até perceber que estava apertando tanto o saco de papel que um dos croissants começava a perder a forma.

Soltei os dedos.

Cantarolei Piaf sem som.

Minhas mãos tremiam um pouco, mas só as mãos, e decidi que isso ainda contava como dignidade.

Eu tinha imaginado tantas vezes como seria voltar para os braços de Daniel que não havia preparado nenhum plano para descobrir que eles já estavam ocupados.

O celular vibrou no bolso.

Na tela, uma palavra:

Pai.

Atendi.

— Beatriz? — A voz do meu pai estava fina, como se alguém tivesse esticado um fio. — Onde você está?

— Em São Paulo. Cheguei mais cedo, pai. Está tudo bem?

Um silêncio.

Depois, uma respiração que não pareceu respiração.

— Venha para casa. Agora.

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