Mag-log in6. Não
Beatriz Meu pai tinha uma habilidade extraordinária para transformar decisões absurdas em obrigações familiares. Na sexta-feira, eu deveria jantar com um desconhecido. Na segunda-feira, ele esperava que eu estivesse agradecida pela oportunidade. E, em algum momento entre essas duas datas, aparentemente eu precisava considerar a possibilidade de me tornar esposa de um homem cujo nome ainda não sabia. Eu preferia uma colonoscopia. Estava no escritório de Augusto, diante de uma pilha de documentos que sua secretária havia separado, quando ele entrou apoiado na bengala. — Pensei que estivesse descansando — disse. — Estou. Algumas pessoas fazem ioga. Eu analiso balanços de empresas à beira da falência. Ele fechou a porta. — Beatriz, precisamos conversar. — Ótimo. Podemos começar pela parte em que o senhor decidiu negociar meu casamento sem me consultar. Meu pai se acomodou na poltrona diante da escrivaninha. O escritório permanecia praticamente igual ao da minha infância. As estantes escuras, os troféus empresariais, a fotografia de minha mãe numa moldura de prata. Na imagem, Lúcia Moura sorria diante de uma peça de cristal azul. Era estranho que minha mãe continuasse presente naquele cômodo quando quase todo o restante da casa havia sido apagado. — Não negociei você — respondeu Augusto. — Não? Porque a proposta tem todos os elementos de uma transação. Investimento, contrapartida, prazo e uma mulher incluída no pacote. — Você sabe que não é tão simples. — Então explique de um jeito que não pareça tráfico de noivas. Ele passou a mão pelo rosto. — Henrique e eu construímos uma relação de confiança durante décadas. O acordo entre as famílias foi pensado numa época diferente. — Na época em que as mulheres eram entregues junto com as terras? — Beatriz. — Estou tentando estabelecer o contexto histórico. Meu pai soltou um suspiro cansado. Por um instante, a irritação perdeu força. Ele parecia realmente doente. Mas sua fragilidade não tornava aquela proposta menos ofensiva. — A fábrica está perto de fechar — disse. — Eu cometi erros. Confiei nas pessoas erradas. Demorei a agir. Era a primeira vez que o ouvia admitir alguma responsabilidade. — E agora quer que eu resolva tudo. — Quero que considere uma possibilidade. — Uma possibilidade que envolve minha vida inteira. — Um ano, inicialmente. Ri sem humor. — Que reconfortante. Uma sentença com prazo determinado. Ele não respondeu. Fiquei olhando para a fotografia de minha mãe. — Sabe o que mais me incomoda, pai? — O quê? — Que o senhor continua decidindo o que é melhor para mim sem perguntar o que eu quero. Augusto ergueu os olhos. — Sempre quis proteger você. A frase me atravessou como uma lembrança ruim. — Foi por isso que me mandou para a Suíça? O silêncio caiu entre nós. Eu tinha doze anos quando minha mãe morreu. Doze anos quando Vera começou a reorganizar a casa, os horários, as visitas e, finalmente, a minha presença. O internato foi apresentado como uma oportunidade extraordinária. Educação internacional. Disciplina. Futuro. Ninguém mencionou que eu chorava todas as noites. — Você recebeu a melhor educação que eu podia oferecer — disse meu pai. — Eu precisava de um pai. Não de um prospecto de escola suíça. Ele baixou a cabeça. — Eu estava tentando lidar com a morte da sua mãe. — Eu também. As palavras saíram antes que eu pudesse suavizá-las. Augusto permaneceu imóvel. — Vera achava que a mudança faria bem a você — murmurou. — Vera achava que eu atrapalhava a decoração. — Isso não é justo. — Transformaram meu quarto num closet, pai. Ele me olhou, surpreso. — Eu não sabia. — Essa frase resume boa parte da minha infância. Vi a dor passar pelo rosto dele. Não senti satisfação. Durante anos, imaginei aquela conversa. Pensei em frases brilhantes, acusações irrefutáveis, respostas que finalmente o fariam entender. Agora, diante de um homem envelhecido e cansado, descobri que não havia vitória possível. Eu continuava sendo a menina que esperara por ele no portão do internato. E ele continuava chegando tarde. — Não quero repetir os mesmos erros — disse Augusto. — Então não decida por mim outra vez. Ele assentiu lentamente. — Está bem. Eu queria acreditar. Queria tanto que aquilo me irritou ainda mais. À tarde, encontrei Camila numa cafeteria próxima ao escritório dela. Espalhamos os documentos sobre a mesa entre dois cafés e um pedaço de bolo de cenoura. — Seu pai realmente conseguiu transformar casamento em instrumento societário — comentou, folheando o acordo. — Estou pensando em colocar no currículo. Experiência em fusões, aquisições e matrimônio compulsório. Camila não riu. Mau sinal. — Bia, a situação financeira é pior do que imaginei. Ela apontou para uma sequência de números. Havia empréstimos vencendo, garantias comprometidas e fornecedores ameaçando interromper entregas. — Quanto tempo? — perguntei. — Sem renegociação ou capital novo? Pouco. Talvez semanas para uma crise de liquidez mais séria. Fiquei em silêncio. Duzentos e quarenta funcionários. Minha mãe conhecia muitos deles pelo nome. — E o acordo? Camila virou algumas páginas. — A cláusula existe. É antiga, esquisita e juridicamente discutível em vários aspectos. Não significa que possam obrigar você a casar. — Mas podem condicionar o investimento à operação que querem fazer. — Exatamente. Podemos contestar, negociar, procurar alternativas. Só não posso prometer que isso será resolvido antes de os credores agirem. Apoiei a testa na mão. — Maravilhoso. Minha liberdade pessoal agora depende do calendário bancário. — Você não precisa aceitar. Olhei para ela. — E se a fábrica fechar? — A responsabilidade não será sua. Eu sabia. Racionalmente, sabia. Mas havia uma diferença enorme entre não ser responsável por uma tragédia e conseguir assistir a ela sem fazer nada. Camila fechou a pasta. — Conheça o homem, se quiser. Ou não conheça. Mas não deixe seu pai transformar culpa em consentimento. — Você sempre sabe o que dizer. — Sou advogada. Cobro por frases úteis. Sorri. — E quanto custa impedir um casamento? — Depende. O noivo é bonito? Atirei um guardanapo nela. Voltei à casa dos Lacerda no fim da tarde para buscar uma pasta antiga com documentos da minha mãe. Não pretendia ficar. O problema de visitar aquela casa era que sempre encontrava alguma lembrança onde não procurava. No escritório, abri a gaveta inferior de um armário que Augusto raramente usava. Havia fotografias, catálogos antigos da Cristais Lacerda e um caderno de capa azul. Reconheci a letra imediatamente. Lúcia Moura. Sentei no chão. Entre desenhos de taças e vasos, encontrei o esboço de um cálice delicado, com uma gota de cristal suspensa na haste. Lembrava daquela peça. Minha mãe costumava dizer que o vidro precisava enfrentar o fogo para descobrir sua forma. Na época, achei que fosse apenas uma explicação bonita sobre o trabalho dela. Passei os dedos pelo desenho. Durante anos, construí uma vida em que ninguém podia me mandar embora. Tinha meu apartamento, minha carreira, meu dinheiro. Tudo o que faltara à menina de doze anos. Agora meu pai queria que eu abrisse mão de parte dessa liberdade para salvar o que restava da história de minha mãe. Fechei o caderno. O celular vibrou. Pai: Henrique confirmou o jantar de sexta-feira. Logo depois: Pai: Você vai? Olhei novamente para o desenho. Pensei nos funcionários da fábrica. Em Vera. No meu quarto transformado em closet. E na facilidade com que todos pareciam acreditar que eu acabaria cedendo. Digitei: Não. Enviei antes de perder a coragem. Meu pai respondeu quase imediatamente. Beatriz, por favor. Apertei o caderno contra o peito. Não sabia ainda como salvar a Cristais Lacerda. Mas sabia que, se algum dia aceitasse aquele casamento, não seria porque meu pai mandou. Seria por uma razão minha. E eu ainda precisava encontrá-la.12. Ressaca moral Arthur Acordei no sábado com uma dor de cabeça que não tinha absolutamente nada a ver com álcool. Bebi duas taças de vinho na noite anterior. Quantidade insuficiente para justificar o estado deplorável do meu humor. A verdadeira responsável tinha cabelos castanhos, olhos claros e uma habilidade extraordinária para transformar qualquer conversa numa disputa. Beatriz Lacerda. Passei doze anos sem vê-la. Em menos de três horas, ela conseguiu pisar no meu pé, questionar minha capacidade de tomar decisões e me lembrar de uma palavra que eu preferia ter eliminado do vocabulário. Aposta. O café estava pronto quando entrei na cozinha. Peguei uma xícara e consultei o celular. Sete mensagens do meu pai. Três de Otávio. Uma de Rafael, perguntando por que eu havia ligado às onze e quar
11. O corredor Arthur A sobremesa ainda estava sobre a mesa quando Beatriz decidiu que já tinha suportado aquele jantar por tempo suficiente. Henrique discutia com Augusto a possibilidade de realizar a cerimônia em três semanas. Vera parecia especialmente interessada na lista de convidados, embora ninguém tivesse confirmado que haveria um casamento. Eu, por minha vez, tentava descobrir por que o brinde de Beatriz à liberdade de escolha continuava me incomodando. Ela pousou a colher, limpou os lábios com o guardanapo e se levantou. — Com licença. Preciso ir ao toalete. Antes de sair, lançou um olhar na minha direção e inclinou discretamente a cabeça para o corredor. Não era um convite. Era uma convocação. Esperei alguns segundos
10. Brinde de cristal Beatriz Existem situações em que uma mulher precisa manter a compostura. Uma reunião com investidores hostis. Uma apresentação diante de um conselho de administração. Um jantar com a família depois de descobrir que seu namorado a traía. E existe uma categoria especial de sofrimento: descobrir que o homem escolhido para ser seu marido é o mesmo que você passou doze anos tentando esquecer e odiar. Arthur Vasconcellos estava sentado ao meu lado. Pior: estava confortável. Eu reconhecia aquela postura. Ombros relaxados, expressão tranquila, uma das mãos apoiada perto da taça. Como se encontrar uma antiga namorada numa negociação matrimonial fosse apenas mais um compromisso na agenda. Eu, por outro lado, considerava seriamente a possibilidade de me esconder debaixo da mesa. Não seria elegante. Mas seria terapêutico. — Beatriz, querida, você está tão calada — comentou Vera. Ergui os olhos. — Estou ouvindo. — Desde quando? Arthur tossiu discretamente. Olh
9. O noivo Arthur Eu tinha ensaiado a indiferença durante a semana. Não por insegurança. Por método. Quando se entra numa negociação às cegas, a primeira regra é nunca deixar o outro lado perceber que você também não sabe onde está pisando. Aceitei conhecer a filha de Augusto Lacerda porque minha cadeira na presidência executiva dependia daquela operação. Uma esposa seria uma complicação administrável, desde que viesse sem história, sem expectativas românticas e, preferencialmente, sem interesse em reorganizar minha vida. Meu pai dissera apenas que ela morava em Londres e trabalhava com consultoria. Não perguntei mais. Foi um erro. Às oito e dez da noite, eu estava junto à janela da sala privativa, girando uma abotoadura enquanto meu pai conversava sobre investimentos. Ouvi os saltos primeiro. Passos firmes, sem hesitação. Depois, uma voz feminina respondeu a alguma gentileza de Henrique com uma ironia perfeitamente educada. Meu corpo reconheceu aquela voz an
8. O vestido errado Beatriz Na sexta-feira, às cinco da tarde, descobri que havia cometido um erro gravíssimo. Não foi aceitar o jantar com um desconhecido. Nem considerar um casamento de conveniência para salvar uma fábrica. Foi permitir que Marta escolhesse minha roupa. — Não — declarei, observando o vestido pendurado diante do espelho. — Você nem experimentou. — Não preciso. Ele tem intenções. Marta, costureira de confiança da minha família havia quase vinte anos, ergueu uma sobrancelha. — Vestidos não têm intenções, Beatriz. — Esse tem. E nenhuma delas é respeitável. O tecido de seda verde-escura deslizava sobre o cabide com uma elegância suspeita. Decote discreto, alças finas, cintura marcada e uma fenda lateral que, dependendo do movimento, poderia revelar mais do que eu pretendia. Era lindo. Esse era justamente o problema. — Quero o preto — insisti. — O preto parece roupa de audiência. — Excelente. Estou prestes a participar de uma negociação en
7. Razões própriasBeatrizNa segunda-feira, às seis e vinte da manhã, eu estava a caminho de Itu.Não era exatamente a reação esperada de uma mulher que acabara de recusar uma proposta de casamento.Camila recomendara descanso. Meu pai recomendara bom senso. Vera provavelmente recomendaria um vestido apropriado para conhecer o futuro marido.Eu escolhi visitar uma fábrica à beira da falência.Cada pessoa lida com crises da maneira que consegue.A estrada estava quase vazia. No banco do passageiro, uma pasta com os balanços da Cristais Lacerda dividia espaço com um café que já esfriara e o caderno de desenhos da minha mãe.Passei o domingo inteiro examinando números.O resultado era péssimo.A empresa tinha produtos excelentes, clientes fiéis e uma capacidade admirável de transformar faturamento em dívida.Meu pai conseguira preservar o prestígio da marca enquanto destruía sua saúde financeira.Era quase um talento.Estacionei diante da fábrica pouco depois das oito.O prédio de tijol







