Mag-log in12. Ressaca moral Arthur Acordei no sábado com uma dor de cabeça que não tinha absolutamente nada a ver com álcool. Bebi duas taças de vinho na noite anterior. Quantidade insuficiente para justificar o estado deplorável do meu humor. A verdadeira responsável tinha cabelos castanhos, olhos claros e uma habilidade extraordinária para transformar qualquer conversa numa disputa. Beatriz Lacerda. Passei doze anos sem vê-la. Em menos de três horas, ela conseguiu pisar no meu pé, questionar minha capacidade de tomar decisões e me lembrar de uma palavra que eu preferia ter eliminado do vocabulário. Aposta. O café estava pronto quando entrei na cozinha. Peguei uma xícara e consultei o celular. Sete mensagens do meu pai. Três de Otávio. Uma de Rafael, perguntando por que eu havia ligado às onze e quar
11. O corredor Arthur A sobremesa ainda estava sobre a mesa quando Beatriz decidiu que já tinha suportado aquele jantar por tempo suficiente. Henrique discutia com Augusto a possibilidade de realizar a cerimônia em três semanas. Vera parecia especialmente interessada na lista de convidados, embora ninguém tivesse confirmado que haveria um casamento. Eu, por minha vez, tentava descobrir por que o brinde de Beatriz à liberdade de escolha continuava me incomodando. Ela pousou a colher, limpou os lábios com o guardanapo e se levantou. — Com licença. Preciso ir ao toalete. Antes de sair, lançou um olhar na minha direção e inclinou discretamente a cabeça para o corredor. Não era um convite. Era uma convocação. Esperei alguns segundos
10. Brinde de cristal Beatriz Existem situações em que uma mulher precisa manter a compostura. Uma reunião com investidores hostis. Uma apresentação diante de um conselho de administração. Um jantar com a família depois de descobrir que seu namorado a traía. E existe uma categoria especial de sofrimento: descobrir que o homem escolhido para ser seu marido é o mesmo que você passou doze anos tentando esquecer e odiar. Arthur Vasconcellos estava sentado ao meu lado. Pior: estava confortável. Eu reconhecia aquela postura. Ombros relaxados, expressão tranquila, uma das mãos apoiada perto da taça. Como se encontrar uma antiga namorada numa negociação matrimonial fosse apenas mais um compromisso na agenda. Eu, por outro lado, considerava seriamente a possibilidade de me esconder debaixo da mesa. Não seria elegante. Mas seria terapêutico. — Beatriz, querida, você está tão calada — comentou Vera. Ergui os olhos. — Estou ouvindo. — Desde quando? Arthur tossiu discretamente. Olh
9. O noivo Arthur Eu tinha ensaiado a indiferença durante a semana. Não por insegurança. Por método. Quando se entra numa negociação às cegas, a primeira regra é nunca deixar o outro lado perceber que você também não sabe onde está pisando. Aceitei conhecer a filha de Augusto Lacerda porque minha cadeira na presidência executiva dependia daquela operação. Uma esposa seria uma complicação administrável, desde que viesse sem história, sem expectativas românticas e, preferencialmente, sem interesse em reorganizar minha vida. Meu pai dissera apenas que ela morava em Londres e trabalhava com consultoria. Não perguntei mais. Foi um erro. Às oito e dez da noite, eu estava junto à janela da sala privativa, girando uma abotoadura enquanto meu pai conversava sobre investimentos. Ouvi os saltos primeiro. Passos firmes, sem hesitação. Depois, uma voz feminina respondeu a alguma gentileza de Henrique com uma ironia perfeitamente educada. Meu corpo reconheceu aquela voz an
8. O vestido errado Beatriz Na sexta-feira, às cinco da tarde, descobri que havia cometido um erro gravíssimo. Não foi aceitar o jantar com um desconhecido. Nem considerar um casamento de conveniência para salvar uma fábrica. Foi permitir que Marta escolhesse minha roupa. — Não — declarei, observando o vestido pendurado diante do espelho. — Você nem experimentou. — Não preciso. Ele tem intenções. Marta, costureira de confiança da minha família havia quase vinte anos, ergueu uma sobrancelha. — Vestidos não têm intenções, Beatriz. — Esse tem. E nenhuma delas é respeitável. O tecido de seda verde-escura deslizava sobre o cabide com uma elegância suspeita. Decote discreto, alças finas, cintura marcada e uma fenda lateral que, dependendo do movimento, poderia revelar mais do que eu pretendia. Era lindo. Esse era justamente o problema. — Quero o preto — insisti. — O preto parece roupa de audiência. — Excelente. Estou prestes a participar de uma negociação en
7. Razões própriasBeatrizNa segunda-feira, às seis e vinte da manhã, eu estava a caminho de Itu.Não era exatamente a reação esperada de uma mulher que acabara de recusar uma proposta de casamento.Camila recomendara descanso. Meu pai recomendara bom senso. Vera provavelmente recomendaria um vestido apropriado para conhecer o futuro marido.Eu escolhi visitar uma fábrica à beira da falência.Cada pessoa lida com crises da maneira que consegue.A estrada estava quase vazia. No banco do passageiro, uma pasta com os balanços da Cristais Lacerda dividia espaço com um café que já esfriara e o caderno de desenhos da minha mãe.Passei o domingo inteiro examinando números.O resultado era péssimo.A empresa tinha produtos excelentes, clientes fiéis e uma capacidade admirável de transformar faturamento em dívida.Meu pai conseguira preservar o prestígio da marca enquanto destruía sua saúde financeira.Era quase um talento.Estacionei diante da fábrica pouco depois das oito.O prédio de tijol







