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Valentina
A Irlanda me recebeu com chuva.
Não uma chuva forte, daquelas que anunciam tragédia com barulho nas janelas, mas uma garoa fina, insistente, quase íntima, grudando nos fios do meu cabelo, umedecendo a gola do meu casaco e entrando pela minha pele como se aquele país tivesse dedos frios demais para ser apenas clima.
Apertei a alça da bolsa contra o ombro e olhei pela janela do carro que me levava para longe do aeroporto, longe das ruas conhecidas de Dublin, longe de qualquer coisa que pudesse parecer uma cidade viva. A paisagem mudava aos poucos, prédios cedendo lugar a campos verdes, muros de pedra, árvores antigas e uma estrada estreita que parecia cortar o mundo ao meio.
Eu não devia estar ali.
Essa foi a primeira coisa que pensei quando o motorista virou por uma estrada quase escondida entre as árvores.
A segunda foi a voz da minha mãe.
Ela sempre ficava diferente quando alguém mencionava a Irlanda. Não triste de um jeito simples. Havia uma rigidez nela, uma pausa pequena demais para outras pessoas perceberem, mas grande o bastante para uma filha guardar. Quando eu era criança, perguntava sobre o país onde ela havia nascido, sobre a família que nunca visitei, sobre o motivo de ela ter escolhido a Itália e nunca mais ter voltado.
Ela sorria sem mostrar os dentes, ajeitava meu cabelo atrás da orelha e dizia que algumas terras amavam tanto que acabavam prendendo.
Na época, eu achava bonito.
Agora, olhando para a névoa fechada entre os troncos, aquilo parecia um aviso.
Meu celular vibrou no colo, e o nome de Giulia apareceu na tela com a insistência de quem ainda acreditava que eu podia voltar atrás.
Atendi antes que ela ligasse pela quarta vez.
— Me diz que você ainda está no aeroporto e que decidiu não entrar no carro de um desconhecido rumo a um castelo assombrado.
Fechei os olhos por um segundo, sentindo uma saudade imediata da voz dela, do italiano rápido, da intimidade que não precisava de explicações.
— Não é um castelo assombrado.
— Você viu fotos?
Olhei para a estrada vazia, para o motorista calado desde que segurou minha mala, para o céu baixo cobrindo tudo como uma tampa cinzenta.
— Vi a fachada da propriedade.
— Isso não respondeu.
— Giulia.
— Valentina.
Suspirei, apoiando a testa no vidro frio.
— Eu perdi o emprego. O aluguel está atrasado. Meu pai não me contou tudo, mas eu sei que a oficina não está bem. Essa vaga paga mais do que qualquer coisa que eu encontraria em Florença agora.
Do outro lado, ela ficou em silêncio tempo suficiente para eu entender que tinha vencido a parte prática da discussão, mas não a emocional.
— Cuidar de uma criança em uma propriedade isolada na Irlanda, com um patrão rico que ninguém conhece, não parece solução. Parece começo de documentário.
Um riso baixo escapou de mim, fraco e cansado.
— Eu vou ficar bem.
— Você sempre fala isso quando está tentando convencer a si mesma.
Olhei para minhas mãos. Os dedos estavam frios, embora o aquecimento do carro estivesse ligado. Havia uma inquietação estranha dentro do meu peito desde que o avião tocou o solo irlandês, como se uma parte minha tivesse acordado antes de mim.
— Minha mãe nasceu aqui — falei, mais baixo, sem saber por que aquilo saiu naquele momento. — Talvez eu só precise entender alguma coisa.
Giulia respirou fundo.
— Sua mãe fugiu daí, Vale.
A palavra me atingiu com uma precisão desconfortável.
Fugiu.
Ninguém dizia isso em voz alta, mas sempre esteve ali, no fundo de cada resposta incompleta, em cada caixa antiga que ela não deixava ninguém abrir, nas noites em que acordava assustada e dizia que tinha sonhado com lobos.
Passei a língua pelos lábios ressecados.
— Ela foi embora há muitos anos.
— E nunca voltou.
Não respondi.
A estrada afundou ainda mais na floresta. As árvores se curvavam sobre o caminho, galhos escuros cruzando o céu como dedos entrelaçados, e a chuva desenhava linhas tortas no vidro. Por um instante, tive a sensação absurda de que havia algo correndo entre os troncos, acompanhando o carro à distância.
Virei o rosto rápido.
Nada.
Só sombra, musgo e neblina.
— Valentina? — Giulia chamou.
— Estou aqui.
— Promete que vai me mandar localização quando chegar.
— Prometo.
— Promete que, se esse homem for estranho, arrogante, abusivo ou bonito demais para ser confiável, você vai embora.
Sorri sem vontade.
— Bonito demais também é motivo?
— Sempre é.
O carro reduziu a velocidade antes que eu conseguisse responder. À frente, um portão de ferro surgiu entre duas colunas de pedra cobertas por hera. O símbolo no alto me chamou atenção, um desenho antigo, entrelaçado, quase familiar de um jeito que me deu um arrepio na nuca.
O motorista baixou o vidro e digitou um código sem falar.
O portão se abriu lentamente.
Meu coração bateu mais forte.
— Cheguei — sussurrei.
Giulia mudou o tom imediatamente.
— Me manda mensagem. Agora.
— Vou mandar.
— Valentina.
— Eu sei.
Desliguei antes que ela pudesse dizer para eu fugir mais uma vez.
A palavra continuou comigo enquanto descíamos.Reivindicação.De mim.Eu tinha passado semanas tentando entender o que significava ser reconhecida pelo lobo de Cillian, depois tentando compreender o que o Conselho queria quando falava em me marcar como Luna. Agora existia outro grupo, uma Matilha que minha mãe temera o suficiente para abandonar o próprio nome, atravessar o mar e construir uma vida inteira sobre documentos falsos, dizendo que eu pertencia a eles.E, em algum ponto entre uma ameaça e outra, percebi que estava cansada de ser tratada como alguma coisa que podia ser reivindicada.Cillian caminhava um pouco à minha frente. Não tinha voltado a discutir minha decisão de acompanhá-lo, embora eu soubesse que não gostava dela. Seus movimentos estavam tensos, os sentidos atentos a cada som da casa, e de vez em quando ele levava a mão à lateral do corpo onde
A mensagem tremia entre meus dedos.A italiana será devolvida quando Valentina Byrne vier buscá-las sozinha.Li outra vez, embora não houvesse nada para compreender melhor. As palavras eram simples. A ameaça também.Giulia tinha atravessado a Europa porque eu pedi ajuda.Tinha deixado a vida dela na Itália, comprado uma passagem só de ida e entrado numa casa cheia de pessoas que podiam se transformar em lobos porque eu dissera que precisava dela. Poucas horas depois, alguém a arrancara do quarto ao lado do meu.Por minha causa.— Não.Amassei o papel.Cillian segurou meu pulso antes que eu pudesse me virar.Não apertou. Apenas impediu que eu avançasse para a janela.— Valentina.— Solta.— Você não vai atrás dela sozinha.— Foi exatamente o que eles pediram.— Por isso mesmo.Puxei o braço.Ele soltou imediatamente, mas se colocou entre mim e a janela.Os olhos ainda tinham aquele dourado sobrenatural ao redor das pupilas. As mãos haviam voltado ao normal, embora pequenas manchas de s
O uivo do lado de fora atravessou a casa, mas eu mal consegui ouvi-lo.Meus olhos estavam presos nas mãos de Cillian.Nas garras.Eu já tinha visto coisas que deveriam ter me preparado para aquilo. Tinha visto Cillian como lobo, enorme e negro, avançando pela floresta para me proteger. Tinha descoberto que homens e mulheres ao meu redor eram capazes de mudar de forma. Tinha visto pessoas se transformarem no círculo de pedras sob a lua cheia e, apenas na noite anterior, ouvira Cillian explicar que o lobo dentro dele não era simplesmente um animal.Mesmo assim, nada havia me preparado para vê-lo daquele jeito.Talvez porque o lobo completo fosse mais fácil de aceitar.Quando ele estava transformado, meu cérebro conseguia separar as coisas. Cillian era o homem. Aquela criatura enorme era o lobo. Eu sabia que ambos ocupavam a mesma existência, que ele continuava consciente dentro daquele corpo, mas visualmente existia uma fronteira. Uma forma terminava para que a outra começasse.Agora nã
Eu tinha dormido menos de três horas quando desisti de fingir.O diário de minha mãe continuava aberto sobre a mesa, exatamente na página em que Giulia e eu havíamos parado. A luz da manhã atravessava as cortinas e alcançava parte da cama, onde cartas, fotografias e documentos ainda estavam espalhados. Giulia dormia no quarto ao lado depois de eu praticamente obrigá-la a descansar, mas eu não conseguira fazer o mesmo. Toda vez que fechava os olhos, uma frase diferente voltava.A Matilha não caça lobos. Ela caça aquilo que existia antes deles.Depois outra.
A caixa continuava aberta sobre a cama quando ouvimos a batida na porta.Giulia e eu nos entreolhamos no mesmo instante. Eu ainda segurava a fotografia encontrada dentro da lombada do diário, enquanto a pequena marca no meu pulso finalmente havia parado de brilhar. O que quer que tivesse respondido dentro da caixa permanecia escondido entre cartas, documentos e objetos que ainda não tínhamos examinado, mas nenhuma de nós tivera coragem de continuar procurando depois daquilo. Precisávamos de alguns minutos para simplesmente absorver o que já tínhamos descoberto.A batida veio novamente, discreta.— Valentina?







