Se connecterMilena O barulho seco do interruptor ecoou pelo quarto silencioso e a escuridão tomou conta de tudo num piscar de olhos. Sobrou apenas um resto de luz fraca da lua entrando pelas frestas da cortina pesada. Senti o colchão afundar quando Ulisses se deitou ao meu lado. Só que, em vez de me puxar para os braços dele como sempre fazia no passado, aquele teimoso simplesmente se virou de costas para mim, criando uma muralha invisível no meio da cama de casal.Fiquei ali parada por alguns segundos, ouvindo a respiração pesada e tensa dele na penumbra. O corpo daquele homem estava tão rígido que mais parecia uma estátua de ferro do que um ser humano prestes a dormir. Ele achava mesmo que eu tinha feito todo aquele teatro do rato e vestido a minha camisola mais provocante só para dormir virada para o canto da parede?! Ele estava muito enganado!Ajeitei o travesseiro bem devagarzinho e puxei a minha cabeça para mais perto do travesseiro dele. Fui me arrastando milímetro por milímetro no lençol
Ulisses Eu estava deitado na minha cama de casal, encarando o teto escuro do quarto, sem conseguir fechar os olhos nem por um segundo. A minha cabeça era uma verdadeira panela de pressão prestes a explodir. O meu braço engessado me incomodava, mas nada doía mais do que a raiva avassaladora que eu estava sentindo de mim mesmo.Eu passei a tarde inteira bancando o homem forte, o empresário frio e distante, para no final das contas ceder como um adolescente descontrolado! Aquele beijo no escritório não saía da minha cabeça. Eu ainda conseguia sentir o gosto do vinho nos lábios dela, a maciez da boca da Milena e o perfume de baunilha impregnado na minha pele. Como é que eu fui capaz de agarrar uma mulher daquele jeito?! Eu não me lembrava de nada sobre o nosso passado, não tinha certeza de quem ela era de verdade, e mesmo assim perdi totalmente o controle do meu próprio corpo. Eu me senti um fraco, um miserável sem pulso firme.De repente, no meio daquele silêncio ensurdecedor, o som sec
Milena Saí do banheiro encharcada de perfume de baunilha, com a pele quente e o coração martelando no peito como se fosse explodir a qualquer momento. Vesti aquela camisola preta indecente devagarzinho, sentindo o tecido fino e a renda transparente roçarem nas minhas curvas. Fiquei parada na frente do espelho por alguns segundos e engoli em seco. A peça era tão curta e aberta que não escondia praticamente nada; era o tipo de roupa que deixaria qualquer homem louco em questão de segundos.Ajeitei o cabelo longo jogado sobre o ombro esquerdo e comecei a andar de um lado para o outro no quarto de hóspedes, esperando o momento exato para agir. Eu precisava que a casa inteira estivesse num silêncio absoluto.Esperei, esperei e esperei. Olhei pelo olho da fechadura até ver que todas as luzes do corredor principal tinham sido apagadas. Os funcionários já tinham ido para os seus aposentos e a mansão dos Albuquerque parecia um cemitério de tão quieta.— É agora ou nunca, Milena! — murmurei pa
MilenaFiquei parada no meio do corredor do segundo andar encarando a porta do quarto principal do Ulisses trancada por dentro. A luz que saía por debaixo da fresta da madeira confirmava que ele estava lá, escondido feito um coelho assustado depois do beijo gostoso que me deu no escritório.O mordomo desceu as escadas com uma bandeja vazia nas mãos e parou do meu lado com uma cara meio sem jeito, com vergonha de me dar a notícia.— Dona Milena... o patrão pediu para avisar a senhora que não vai descer para jantar na mesa hoje à noite — o mordomo falou com a voz bem baixinha e educada. — Ele disse que tá com uma dor de cabeça muito forte por causa do trabalho e preferiu que a refeição dele fosse servida direto lá no quarto dele. Ele pediu para a senhora jantar tranquila lá embaixo.Senti o meu sangue ferver na mesma hora.— Dor de cabeça uma ova! — pensei comigo mesma, apertando o corrimão de madeira da escada até os meus nós dos dedos ficarem brancos. — A única dor que esse teimoso tá
Milena O líquido vermelho do vinho refletia a luz amarelada da luminária sobre a mesa de madeira, criando um clima tão quente e envolvente que parecia até um sonho. Ulisses virou a primeira taça quase de uma vez só, deixando a bebida forte e encorpada relaxar a tensão que deixava os ombros dele duros como pedra. Dava para ver claramente no rosto dele: a postura de homem frio e bravo estava começando a rachar. O peito dele subia e descia numa respiração mais calma, e o olhar azul, que antes me encarava com tanta desconfiança, agora brilhava com uma curiosidade quase infantil.Ajeitei o meu corpo na ponta da mesa, ficando bem na direção dele, e soltei uma risada baixa para quebrar o resto do gelo que nos separava.— Sabe, Ulisses... ver você aqui trabalhando feito um louco com esse braço engessado me faz lembrar daquela vez na nossa lua de mel…— falei, soltando uma gargalhada verdadeira. — Você e eu tivemos que engatinhar até a cozinha pra eu poder comer, só pra enganar um paparazzo ma
Milena A tarde chegou trazendo um céu cinzento e pesado, mas a minha mente estava mais clara do que nunca. Depois de ter devorado aquele almoço delicioso preparado sob as ordens diretas do Ulisses, caminhei a passos firmes e decididos pelo corredor do segundo andar em direção ao escritório da mansão. Eu sabia perfeitamente que aquele cômodo era o refúgio dele, o santuário onde ele tentava manter o controle da vida e dos negócios enquanto a cabeça dele continuava sendo uma completa bagunça sem memórias.Cheguei perto da porta de madeira pesada e escutei o barulho seco de papéis sendo manuseados com irritação lá dentro.Apertei a minha blusa um pouco mais justa no corpo, soltei o primeiro botão para valorizar o meu colo de forma sutil, dei três batidas leves na madeira e girei a maçaneta sem esperar a autorização dele.Ulisses estava sentado atrás da mesa gigante de jacarandá, cercado por dezenas de pastas com relatórios financeiros, contratos e relatórios de ações da empresa. O braço







