LOGINAgora eu estava sentada em uma pequena cafeteria no centro da cidade. Sentia o rosto rígido pelas lágrimas que secavam e voltavam a cair, uma e outra vez durante toda a noite.
Minha carreira estava destruída. O nome que construí com tanto esforço durante oito anos de estudos de medicina desapareceu em uma única audiência ética que durou menos de duas horas. E, ainda assim, jamais fiz nada do que me acusavam. Meu telefone vibrou sobre a mesa. O nome do meu pai apareceu na tela. Quase não atendi. Minhas mãos tremiam enquanto pegava o telefone, meus dedos hesitando sobre o botão verde. Mas eu sabia que meu pai não pararia de ligar até que eu atendesse. Era um homem persistente, uma das razões pelas quais tinha triunfado como empresário. —Papai —disse com a voz rouca. —Camila, já fiquei sabendo de tudo. —Como é que você…? —O hospital me ligou. Disseram que revogaram sua licença. Disseram que a recomendaram para reabilitação. Não sabia que você tinha acabado assim. Drogas? Você está usando drogas? —Isso não é verdade. Armarem uma armadilha para mim —disse. —Não é verdade? Então por que seu exame de sangue deu positivo? Por que encontraram medicamentos no seu armário? —Papai, escute-me! —Você envergonhou esta família. Eu te mandei para a melhor faculdade de medicina. Paguei tudo e você me retribui me tornando uma drogada. Você é muito diferente da sua irmã. Ela é muito melhor que você. Fechei os olhos. Novas lágrimas começaram a cair. —Não sou uma drogada e não me compare com ela —disse. —Já basta. Não quero discutir. Agora você vai voltar. —Voltar? —Para o México. Já comprei sua passagem. —Não quero ir —disse. —Você não tem escolha. Já não pode trabalhar aí. Seu nome está arruinado. Nenhum hospital vai querer contratá-la. Se ficar aí, só vai continuar desperdiçando dinheiro nesse apartamento e sofrendo sozinha. —Papai? —E mais uma coisa. Sua irmã vai se casar, você tem que vir. O chefe do seu pai, um homem da Europa, tem um filho e combinamos comprometê-lo com sua irmã. E você e Ethan? Quando o Ethan vai vir ao México para me conhecer? —Ethan me traiu e nosso relacionamento terminou —disse. —Eu já sabia. Ele nunca ia se casar com você. Eu encontrarei o melhor homem para você. Depois do casamento da sua irmã, será a sua vez. Fiquei em silêncio. —Camila? Está me ouvindo? —Você está falando sério? —Nunca brinco com assuntos como este. Você já tem idade suficiente, vinte e oito anos. Logo fará trinta. —Acabei de perder minha carreira e meu relacionamento fracassou, e você quer que eu me case? —É a melhor solução. Você terá um marido que possa protegê-la. Não precisará mais trabalhar. Isso não é melhor do que sofrer sozinha em um país estrangeiro? Mordi o lábio inferior até quase fazê-lo sangrar. Isso não era uma solução. Para mim, era outro tipo de inferno. Não queria me casar com um homem que não conhecia. Mas como poderia explicar tudo isso ao meu pai? Um homem teimoso que sempre acreditava saber o que era melhor para os filhos. —Não quero ouvir desculpas. Você vai voltar para o México e vai esquecer tudo relacionado à medicina nos Estados Unidos. Isso já acabou. Meu pai desligou. Fiquei olhando para a tela escura do meu telefone. Essa era minha vida agora? Destruída aos vinte e oito anos? As lágrimas estavam prestes a cair outra vez quando, de repente, um grito ecoou dentro da cafeteria. Não vinha da área comum, mas de uma sala fechada ao fundo. Uma sala com uma pequena placa que dizia “VVIP Room” e dois homens de terno preto vigiando a entrada. —TEM ALGUM MÉDICO AQUI?! O grito foi em inglês, mas com um acento estranho, como do Leste Europeu, talvez russo ou ucraniano, e antes que eu percebesse o que estava fazendo, meu corpo já havia se levantado. Minhas pernas avançaram rapidamente em direção àquela sala. Minhas mãos já estavam empurrando a porta antes que minha mente pudesse reagir. —SOU MÉDICA! —gritei ao entrar. A cena dentro da sala fez com que eu me concentrasse imediatamente. Um homem idoso estava recostado em um grande sofá. Seu rosto estava pálido, seus lábios azulados e uma mão agarrava o peito. O suor frio cobria sua testa apesar da baixa temperatura do ambiente. Ele estava sofrendo um infarto. Reconheci os sintomas de imediato, mesmo a cinco metros de distância. A forma como segurava o peito com a mão esquerda e a dificuldade para respirar. Ao redor dele, várias pessoas estavam em pânico. Falavam entre si em um idioma que eu não entendia. Seus rostos refletiam medo; alguns seguravam os ombros do idoso, outros andavam de um lado para o outro, enquanto alguém gritava desesperadamente ao telefone. Um homem de corpo imponente e rosto inexpressivo bloqueou meu caminho. —Quem é você? —Sou médica. Posso ajudar. Ajoelhei-me ao lado do idoso. —Ele precisa ficar reto. Levantem um pouco as pernas dele, mais alto que o peito —disse. Duas pessoas obedeceram de imediato, mesmo em meio ao pânico. Verifiquei seu pulso. Fraco, acelerado e irregular. Aproximei meu ouvido da boca dele e ouvi respirações curtas e entrecortadas. —Ele tem histórico cardíaco? Infartos anteriores? Hipertensão? Diabetes? —perguntei. As pessoas ao redor se entreolharam. Ninguém respondeu. Então uma voz fria e firme falou atrás de mim. —Sim. Ele tem tudo isso. Virei a cabeça. Um homem estava de pé perto da porta. Talvez tivesse acabado de entrar, ou talvez estivesse ali desde o início e eu estivesse concentrada demais no paciente para notá-lo, mas agora meus olhos estavam fixos nele. Ele era alto, até mesmo para os padrões europeus, provavelmente cerca de um metro e noventa. Vestia um terno preto impecável, claramente feito sob medida para seu corpo. Mas isso não era o mais chamativo nele. Seus olhos eram azuis. —Histórico completo? —perguntei. —Três infartos. Cirurgia de bypass há dois anos. Diabetes tipo dois, hipertensão crônica. Estava a caminho do aeroporto para voltar ao seu país quando começou a se queixar de dor no peito —disse. Assenti. —Ele precisa ir ao hospital agora mesmo. Chamem uma ambulância. —Já está a caminho. Voltei a me concentrar no idoso. Ele continuava segurando o peito e sua respiração estava cada vez mais curta. —Aspirina. Vocês têm aspirina? —perguntei. Um dos assistentes vasculhou uma pequena bolsa e tirou um frasco de medicamento. Peguei-o e verifiquei o rótulo. Aspirina de 80 mg. Suficiente. —Ajudem-no a mastigar isto —disse enquanto entregava dois comprimidos—. Que ele mastigue, não engula. Enquanto o idoso mastigava a aspirina, continuei monitorando seu pulso. Continuava fraco, mas pelo menos não piorava. Também verifiquei sua pressão arterial com um esfigmomanômetro portátil que um dos assistentes me entregou. 90/60. Baixa, mas ainda tolerável. —Inclinem um pouco a cabeça dele para baixo. Deixem que o sangue flua para o coração —disse. A ambulância chegou dez minutos depois. Dois paramédicos entraram com uma maca. Dei-lhes um relatório breve sobre o que eu havia feito, o histórico médico do paciente e seu estado atual. Eles assentiriam e evacuaram rapidamente o idoso. Os homens vestidos de preto saíram atrás deles; alguns carregavam bolsas, outros caminhavam ao lado da maca. E eu continuava de pé no meio daquela sala VVIP agora vazia. —Obrigado. Essa voz me fez voltar à realidade. Virei a cabeça. O homem de olhos azuis continuava perto da porta. Não havia acompanhado a ambulância. Caminhou em minha direção. A curta distância entre nós pareceu próxima demais quando aqueles olhos azuis me encararam fixamente. —De nada —disse. —Você salvou a vida do meu pai —disse ele. Então era o pai dele. —Só fiz o que qualquer médico deveria fazer —respondi. Meu telefone voltou a vibrar dentro do meu bolso. Papai. Meus olhos voltaram ao homem à minha frente. Aqueles olhos azuis continuavam me observando como se pudessem ler tudo o que passava pela minha mente. —Tenho que ir —disse rapidamente. Virei-me e caminhei em direção à porta. Minhas pernas pequenas avançaram depressa entre as mesas da cafeteria, agora cheia de clientes da tarde. Minha mão alcançou a maçaneta da porta principal. —Ainda não sei seu nome. Parei por um instante, sem me virar. —Camila —disse em voz baixa—. Camila López.Na manhã seguinte.O relógio marcava meio-dia quando umas batidas na porta me acordaram.— Senhora, já é hora de se levantar.Duas mulheres entraram no quarto. A primeira era Elena, a governanta. Atrás dela vinha uma mulher jovem de cabelo louro curto e olhos verdes, provavelmente da minha idade.— Bom dia, senhora. Ela é Aria, sua assistente pessoal. Eu ajudarei a senhora a se banhar e se vestir.Me banhar?— O que quer dizer?— O senhor Luca quer que a senhora esteja pronta em uma hora para o café da manhã.— Posso me banhar sozinha — disse eu.Elena sorriu de leve.— Sinto muito, senhora. São ordens do senhor Luca.— Luca não precisa decidir como eu me banho.Elena soltou um suspiro. Trocou um olhar com Aria e ambas deram um passo à frente.— Não queremos incomodá-la, senhora, mas precisamos cumprir nosso trabalho.A mão de Aria alcançou a barra da minha camisola, uma camisola negra de cetim que eu não sabia em que momento havia aparecido no armário. Afastei a mão dela com um golpe
Pensei que ele recuaria depois que mordi o lábio dele até fazê-lo sangrar.Mas ele deu um passo à frente. Sua mão agarrou meu pulso antes que eu pudesse correr.— Me solta!Ele não me soltou. Ao contrário, me puxou para ele com um movimento tão rápido que meu corpo colidiu contra o peito dele. Seu braço esquerdo envolveu minha cintura, prendendo-me no lugar, enquanto sua mão direita subia até a parte de trás da minha cabeça e seus dedos se enredavam no meu cabelo.— Você acha que me morder vai fazer eu parar? — sussurrou ele contra o meu rosto. Seus lábios, ainda vermelhos por causa do sangue, quase roçavam os meus enquanto ele falava —. Está enganada, Camila. Você só consegue me dar mais sede.E então ele me beijou de novo.Desta vez o beijo foi diferente. Seus lábios pressionaram os meus com uma intensidade que me dificultou respirar, mas não era brusco. Era como se ele estivesse lendo minha boca, estudando sua forma, memorizando seu sabor.Seus lábios se moviam com um ritmo que me
O carro parou diante de um portão de ferro negro de quatro metros de altura. Através da janela fumê, vi uma mansão de estilo neoclássico com quatro pilares de mármore na entrada. O jardim em frente à casa estava perfeitamente cuidado, mas parecia frio. Não havia flores coloridas. Apenas arbustos verdes aparados simetricamente e estátuas de mármore de homens nus que me observavam com o olhar vazio.— Já chegamos, senhor — disse o motorista com um acentuado sotaque italiano.Luca desceu primeiro. Ouvi a porta se fechar e, alguns segundos depois, a porta do meu lado se abriu. Ele estava ali, com a mão estendida para me ajudar a descer.Não peguei a mão dele. Desci sozinha, e meus saltos bateram no cascalho com um som talvez alto demais.Os criados já estavam alinhados diante da porta principal. Quatro mulheres com uniformes cinza e dois homens com ternos impecáveis. Todos inclinaram a cabeça ao mesmo tempo quando entrei.— Bem-vinda à Mansão Vitale, senhora — disse uma mulher de meia-ida
São 7:45.Estou de pé em frente à porta da igreja de San Miguel com a barra do meu vestido branco molhada pelas poças da chuva da noite passada. O céu sobre a minha cabeça é de um azul brilhante, sem uma única nuvem.Cinquenta pessoas estão sentadas lá dentro. Talvez mais. Rostos que não conheço. A família de Luca da Itália? Ou os amigos do meu pai convidados para presenciar a minha maior humilhação?Meu pai está de pé junto ao altar, esperando por mim.A mão da minha madrasta empurra as minhas costas.— Vá — sussurra ela.Dou um passo.Um passo.Dois passos.Cada passo parece caminhar sobre pedaços de vidro. No final do corredor da igreja, diante do altar, está um homem de olhos azuis, vestido com um terno preto e um leve sorriso nos lábios.Luca Vitale.O sacerdote idoso, com sua túnica branca, começa a recitar palavras em espanhol que não consigo ouvir. Meus olhos não conseguem se desviar daqueles olhos azuis. Ele me olha, me devora, gravando cada centímetro do meu rosto como se eu
Naquela noite não consegui dormir.O relógio sobre a mesinha de cabeceira marcava 02:47.Atrás da porta eu podia ouvir passos indo de um lado para o outro. Dois homens, talvez mais. Homens vestidos com ternos pretos a quem Luca havia ordenado que me vigiassem.Meu telefone continuava na minha mão. A tela estava quebrada no canto superior direito e a bateria mal tinha doze por cento. Eu estivera verificando voos, procurando qualquer possibilidade. Companhias aéreas internacionais. Números de contato da embaixada americana na Cidade do México. Até o número da polícia local que provavelmente jamais chamaria.Mas tudo era inútil.Não tinha dinheiro. Na minha carteira só havia cartões de crédito que meu pai havia bloqueado desde ontem e um cartão de visita de Luca Vitale.Virei-o entre os dedos. Papel grosso cor de creme com letras douradas em relevo, elegante e caro, igual ao seu dono.Quatro horas.Já não me restava muito tempo.O casamento seria celebrado às oito na igreja de San Miguel
—Você está louco.Foi a única coisa que consegui dizer.Luca continuava sorrindo, nem um pouco afetado pela minha reação. Sua mão ainda segurava a minha e seu polegar continuava acariciando o dorso da minha mão com um movimento que me impedia de pensar com clareza.—Nos conhecemos há apenas alguns dias! —disse.—E nesses poucos dias você salvou meu pai, chutou meu rosto e me deixou sem dormir pensando em você. —Ele se inclinou um pouco mais para mim—. Acho que é suficiente.Retirei minha mão da dele e dei um passo para trás.—Não acredito em você. Vou descobrir por mim mesma o que está acontecendo realmente.Caminhei em direção à porta. Luca não tentou me impedir. Podia sentir seus olhos azuis cravados nas minhas costas enquanto eu saía do quarto.Avancei em silêncio, colada à parede, até o escritório do meu pai no final do corredor.A porta estava entreaberta.Entrei.Sobre a escrivaninha havia documentos desordenados, canetas e uma xícara de café já frio. Mas o que chamou minha aten







