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Capítulo 3

Author: Author Marr
last update publish date: 2026-10-27 10:45:56

Esta manhã acordei às seis. Vestí uma blusa branca e uma saia longa cinza, a roupa mais profissional que restava no meu armário. Penteei-me, apliquei um pouco de batom, tentando parecer uma médica digna de ser entrevistada mesmo com minha licença suspensa.

A primeira clínica ficava nos arredores da cidade.

—Precisamos de um clínico geral, mas sua licença está sob avaliação —disse a dona da clínica, uma mulher de meia-idade com óculos grossos.

—Sim, mas posso ajudar…

—Sinto muito, não podemos correr esse risco.

A segunda clínica era uma clínica privada dentro de um shopping center.

—Seu nome está na lista nacional de vigilância?

Respirei fundo.

—É só temporário. Legalmente ainda não fui declarada culpada.

—Essa lista foi emitida pelo comitê de ética. Não podemos fazer isso.

A terceira clínica, a quarta e a quinta, todas me rejeitaram.

Às quatro da tarde desisti por aquele dia.

Eu estava sentada em um ponto de ônibus quando, pelo canto do olho, vi um carro preto de luxo com vidros tão escurecidos que era impossível ver quem estava dentro.

Eu já tinha visto aquele carro desde a manhã.

Primeiro perto do meu apartamento quando saí, depois na esquina a caminho da primeira clínica, depois no estacionamento da segunda clínica e mais tarde no semáforo perto da terceira.

Talvez fosse só coincidência, mas eu estava cansada demais para me preocupar.

O ônibus chegou e subi. O carro preto nos seguiu a uma distância prudente.

Desci no ponto perto do meu apartamento. O carro preto parou do outro lado da rua.

Entrei rapidamente no saguão do prédio e depois subi para meu apartamento no terceiro andar.

Fechei a porta com força. Joguei minha bolsa sobre o sofá. Meu corpo caiu exausto na beira da cama. Cinco clínicas tinham me rejeitado hoje.

Meu telefone vibrou sobre a mesa.

Papai.

—Alô, papai? —disse.

—Se você não voltar logo, vou mandar alguém te buscar à força. Você está há oito anos sem voltar! Oito anos!

Oito anos tinham se passado desde a última vez que pisei no México.

Levantei-me e abri o armário. Uma por uma, tirei minhas roupas e dobrei-as bruscamente antes de colocá-las em uma grande mala preta.

De repente, alguém bateu à porta.

Fiquei imóvel. A camisa branca que eu estava dobrando caiu no chão.

Caminhei até a porta com cautela e olhei pelo olho mágico.

Olhos azuis.

O homem da cafeteria de ontem.

Abri a porta.

—Você —disse.

Ele me observou. Seus olhos desceram para meu rosto inchado, depois para a mala meio cheia atrás de mim e finalmente para a camisa branca jogada no chão.

—Quero te agradecer como é devido —disse com uma voz baixa e profunda, com um sotaque italiano que agora eu começava a reconhecer.

—Não precisa.

—Sou um homem que sempre paga suas dívidas.

Então o carro preto que me seguiu desde a manhã era dele.

—Você estava me seguindo —disse.

—Precisava me certificar de que você estava bem. Você salvou a vida do meu pai. No meu país, isso significa que nossa família tem uma dívida de vida com você.

Neguiei com a cabeça. Minha mente era um caos entre a decisão de voltar ao México ou ficar aqui. Voltei a olhar nos olhos dele.

Não sei quem deu o primeiro passo.

Fui eu que me aproximei? Ou foi ele? Ou nós dois nos movemos ao mesmo tempo?

A única coisa que sei é que, de repente, a distância entre nós desapareceu. Meu peito colidiu contra o dele. Podia perceber seu aroma.

Seus olhos azuis estavam agora a apenas alguns centímetros do meu rosto. Podia ver as pequenas linhas ao redor deles, o tom escuro na borda de suas íris, o reflexo da luz tênue do corredor.

—Vou voltar para o México e nunca mais voltarei aqui —disse.

Ele não respondeu.

—Ainda não sei seu nome —disse outra vez.

Então ele me beijou.

Seus lábios estavam quentes ao tocar os meus. Sua mão segurou minha cintura, me aproximando mais dele, e eu permiti.

Talvez porque eu estivesse desesperada. Talvez porque quisesse uma última lembrança antes de voltar ao México.

A porta do meu apartamento se fechou.

As mãos daquele homem percorreram minhas costas, minha cintura e depois meu cabelo. A única coisa que eu ouvia era sua respiração agitada junto ao meu ouvido e o pequeno gemido que escapou dos meus lábios quando seus dedos começaram a desabotoar minha blusa.

Seus olhos azuis nunca se desviaram do meu rosto, observando cada mudança na minha expressão, acompanhando como minha respiração se acelerava cada vez que as pontas dos seus dedos roçavam a pele do meu pescoço.

Minha blusa caiu no chão.

Ele parou por um momento, me observando enquanto eu usava apenas um sutiã branco de renda. Levantou a mão e as costas dos seus dedos percorreram suavemente minha clavícula, fazendo-me estremecer.

—Linda —sussurrou com seu sotaque italiano.

Não sei quem se moveu primeiro, mas de repente já tínhamos caído sobre a cama. A mala preta meio cheia ficou afastada para o lado. Seu corpo sobre o meu era pesado e quente, me afundando no colchão macio demais.

Sua boca encontrou meu pescoço. Deixei escapar um suspiro quando seus lábios se posaram ali, exatamente onde meu pulso batia com força. Sugou suavemente e depois mordeu de leve, o suficiente para me fazer puxar seu cabelo.

Depois sua boca desceu pelo meu pescoço, meu peito e meu abdômen. Suas mãos terminaram de abrir minha blusa e a afastaram junto com meu sutiã. Meu corpo se arqueou e meus dedos se agarraram aos lençóis.

Continuou descendo, beijando meu umbigo e depois meus quadris, e senti sua respiração quente ali embaixo, bem na minha parte mais íntima.

O que ele estava fazendo?

Aquele homem era um desconhecido.

Eu não sabia seu nome. Não sabia o que ele queria. Acabavam de destruir as duas pessoas em quem eu mais confiava e agora eu estava permitindo que este homem, o mesmo que me tinha seguido o dia todo, me beijasse daquela maneira.

Minhas pernas se moveram antes de pensar e dei um chute no rosto dele.

Ele recuou cambaleando, cobrindo o nariz com uma mão. Seus olhos azuis se arregalaram de surpresa.

Peguei minha blusa aberta e a fechei contra meu corpo com mãos trêmulas.

—Saia daqui —disse com a voz rouca.

Ele tentou se levantar e então ouvi algo cair.

Um cartão saiu do bolso dele. Flutuou alguns segundos no ar antes de aterrissar perto da cama. Peguei-o antes que ele pudesse alcançá-lo.

Era um cartão grosso de cor creme com letras douradas em relevo.

Luca Vitale

Consulente di Fiducia

Vitale Family Holdings

Luca. Um nome italiano.

Ele era italiano.

Meus olhos releram o nome uma e outra vez. Luca Vitale. Embaixo havia um número de telefone com código da Itália, um endereço em Roma e, em um canto do cartão, um pequeno escudo com um leão em cima.

A mão do homem se estendeu para recuperar o cartão.

—Luca —li o nome dele em voz baixa.

Ele permaneceu de pé ao lado da minha cama, com o terno preto perfeitamente ajeitado outra vez.

—Você é italiano. E por que me seguiu o dia todo? —perguntei.

Luca me observou. Seus olhos azuis não piscaram.

—Já te disse. Tenho uma dívida de vida com você. No meu país, isso significa tudo.

—Não me importo. Amanhã vou voar para o México. Vou me casar e não entregarei minha virgindade a um estranho como você —disse.

Luca não disse nada durante alguns segundos. Depois pegou o cartão suavemente das minhas mãos e voltou a guardá-lo no bolso.

—Então, boa viagem. Nos veremos de novo.

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