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Capítulo 4

Autor: Mora Quintela
Dois dias depois, os ferimentos de Bianca já haviam melhorado bastante, e sua voz também voltara ao normal.

Durante todo esse tempo, Eduardo não apareceu para visitá-la nem uma única vez.

Em compensação, ela recebeu um pacote enviado pela mãe, de Porto Nobre.

Dentro dele, estava o documento de identidade de Larissa.

Bianca ficou parada diante da janela do quarto, observando o fluxo intenso de carros lá embaixo. Um sorriso quase imperceptível surgiu no canto de seus lábios.

Parecia ironia.

Ou talvez apenas resignação.

Nesse momento, a porta se abriu.

Felipe entrou.

Hoje, ele não usava jaleco. Vestia uma camisa cinza-escura, com as mangas dobradas até os antebraços. Sem a frieza habitual de quando estava em serviço, parecia menos distante, mais acessível.

— A papelada está pronta. — Ele lhe entregou os documentos. — Você já pode ir embora.

Bianca pegou tudo, abaixou os olhos para conferir e disse em voz baixa:

— Obrigada, Dr. Felipe.

Felipe não respondeu de imediato.

Apenas ficou parado ali, com o olhar pousado no rosto dela, como se escolhesse as palavras.

— Dr. Felipe, aconteceu alguma coisa? — Perguntou Bianca.

— Você vai voltar para Porto Nobre hoje?

Bianca assentiu.

Felipe abriu um sorriso raro, mostrando os dentes.

— Ótimo!

— Hm?

Bianca ficou um pouco confusa. Não entendeu por que o Dr. Felipe parecia tão animado.

Ela só estava voltando para Porto Nobre. O que havia de tão ótimo nisso?

Ao perceber a dúvida no olhar dela, Felipe levou o dedo ao nariz e pigarreou de leve.

— Quer dizer... É melhor você ir arrumar suas coisas logo para não perder o voo.

— Obrigada, Dr. Felipe.

Depois que Felipe saiu, Bianca começou a guardar seus pertences.

Na verdade, quase não havia nada para arrumar.

Ela abriu a gaveta do criado-mudo. Dentro, havia apenas aquele pequeno estojo de veludo.

Ao levantar a tampa, viu uma aliança masculina repousando ali.

O aro prateado tinha um desenho simples, discreto. Na parte interna, havia uma gravação:

[B&E.]

Bianca fechou o estojo e, sem nenhuma expressão no rosto, jogou-o na lixeira ao lado da cama.

Quando Bianca voltou ao apartamento, o céu já havia se aberto por completo.

A luz do sol entrava pela janela e caía sobre o piso da sala, revelando pequenas partículas de poeira suspensas no ar.

Ela ficou parada à porta, olhando para aquele lugar onde vivera por dois anos.

Sobre a mesa de centro, ainda estava a xícara de café que ele havia deixado pela metade. Ao lado, o isqueiro jogado de qualquer jeito. No rack da televisão, havia uma foto dos dois. Na imagem, Bianca estava encostada no ombro dele, sorrindo com uma felicidade tão evidente que chegava a doer.

Naquela época, ela ainda não conseguia ouvir.

Mesmo assim, achava que era a mulher mais feliz do mundo.

Bianca desviou o olhar, entrou no quarto e puxou a mala de dentro do guarda-roupa.

Não tinha muitas coisas.

Algumas roupas, o passaporte, o carregador e a foto com a mãe que guardava na gaveta do criado-mudo.

Ela fechou o zíper da mala e a arrastou para fora do quarto.

Ao passar pela sala, parou por um instante.

Não muito longe, dentro de uma vitrine, estava uma passagem aérea de Porto Nobre para Santa Vitória, cuidadosamente emoldurada.

Dois anos antes, ela deixara tudo em Porto Nobre para trás e viera com ele para Santa Vitória.

Naquele dia, Eduardo prometera que jamais a faria se arrepender.

Ela também acreditara que nunca se arrependeria.

Mesmo tendo nascido com ouvido absoluto e sendo uma das alunas mais talentosas do curso de Música, mesmo tendo perdido a audição por causa dele, Bianca nunca havia se arrependido.

Ela só sentia falta.

Falta de ouvir o som do piano.

Falta de tocar as músicas que ela mesma compunha.

Falta daquela versão de si mesma que um dia brilhara no palco e que, depois, se tornara alguém frágil, dependente, sempre precisando ser cuidada.

Mas agora...

Bianca desviou o olhar, puxou a mala e se virou para ir embora.

A porta se fechou atrás dela.

Ela não olhou para trás.

Enquanto isso, a caminho do hospital, Eduardo permanecia no banco de trás do carro, com a testa franzida.

Nos últimos dois dias, Carolina havia se agarrado a ele de tal forma que não lhe dera espaço para nada. Só pouco antes, ao tentar mandar uma mensagem para Bianca pelo WhatsApp e perceber que havia sido bloqueado, uma inquietação começara a crescer dentro dele.

Ele achou que ela iria procurá-lo.

Como sempre fizera.

Mas, desta vez...

Nada.

Ela estava quieta demais.

Tão quieta que parecia nem existir.

E aquela sensação o irritava sem motivo claro.

— Edu, a Bia te bloqueou mesmo?

Gabriel perguntou enquanto dirigia, erguendo os olhos para o retrovisor.

O rosto de Eduardo escureceu.

Gabriel estalou a língua.

— Não pode ser. Quantas vezes vocês já brigaram antes? No fim, não era sempre ela que engolia o orgulho e vinha atrás de você para pedir desculpa?

Eduardo parecia não ter ouvido. Continuou mexendo no celular, mas sua expressão ficava cada vez pior.

Percebendo que o clima dentro do carro não estava bom, Gabriel soltou uma risada forçada.

— Na minha opinião, a Bia não aguenta por muito tempo. Daqui a dois dias, no máximo, ela mesma se convence de que está tudo bem e volta. Ela não consegue ficar longe de você.

— Cala a boca e dirige.

O sinal fechou.

Gabriel pisou no freio, e o carro parou devagar.

Eduardo virou o rosto para a janela. Sua expressão não revelava raiva nem preocupação, mas a linha de sua mandíbula estava tensa.

O interior do carro mergulhou em silêncio.

Só restava o zumbido baixo do ar-condicionado.

Nesse momento, o celular de Eduardo, deixado ao lado, vibrou de repente.

A tela se acendeu.

Gabriel, de olhos rápidos, ergueu a sobrancelha na mesma hora. Seu tom vinha carregado daquela certeza de quem já esperava isso.

— Viu? Eu sabia. A Bianca não ia aguentar por muito tempo. Foi ela que respondeu, não foi?

Eduardo sentiu o peito relaxar um pouco e estendeu a mão por instinto para pegar o celular.

Bianca já havia feito birra com ele antes, mas nunca passava de um dia.

Todas as vezes, era ela quem o procurava primeiro.

Desta vez, também deveria ser assim.

Eduardo baixou os olhos para a tela.

[Senhor Eduardo, a Aurora Entretenimento precisa da sua decisão sobre o novo diretor. A senhorita Bianca e a senhorita Carolina indicaram um candidato cada. Qual dos nomes o senhor considera mais adequado?]

Não era Bianca.

As sobrancelhas de Eduardo se franziram discretamente.

Ao ver sua expressão, Gabriel soltou uma risada seca, meio constrangida.

— Não era a Bianca? Pelo visto, dessa vez ela está sabendo segurar a onda.

Eduardo não respondeu.

Apenas ficou encarando aquela linha por alguns segundos, com uma frieza escura se acumulando no fundo dos olhos.

No fim das contas, Bianca havia sido a primeira a bater em Carolina.

Ela errara primeiro.

Por causa disso, nos últimos dias, ele não parara de ouvir reclamações dos pais.

E, mesmo assim, fizera o possível para defender Bianca diante deles.

Mas ela, em vez de reconhecer isso, não só não agradecia como ainda se atrevia a fazer birra com ele.

Os dedos de Eduardo se fecharam em torno do celular, com tanta força que os nós ficaram levemente esbranquiçados.

Nesse momento, o sinal abriu.

Gabriel estava prestes a seguir em frente quando ouviu Eduardo falar de repente, em voz baixa:

— No próximo retorno, dá a volta. Vamos para a empresa.

Gabriel ficou surpreso.

— Não vai ao hospital ver a Bianca?

— Aprendeu a se achar importante, é? Agora tem coragem de me bloquear... — Eduardo soltou uma risada fria e jogou o celular de lado. — Está na hora de dar uma lição nela, para ver se aprende.

Gabriel apertou os lábios e, sem discutir, mudou a rota.

Enquanto isso, Eduardo já havia ligado para o assistente.

— Sobre a vaga de diretor da Aurora Entretenimento, confirme o Thiago Almeida. Peça ao RH para enviar a proposta.

Do outro lado da linha, houve um instante de hesitação.

— Senhor Eduardo, mas o Murilo Barbosa, indicado pela senhorita Bianca, teve avaliações melhores em todos os critérios...

A voz de Eduardo esfriou.

— Eu preciso explicar minhas decisões para você?

Fez uma breve pausa e encerrou:

— É isso.

Depois de desligar, ele baixou os olhos para a paisagem correndo do lado de fora da janela. Um sorriso frio surgiu no canto de seus lábios.

Não era como se ele não soubesse que Murilo era mais adequado.

Mas queria ver se, ao descobrir que seu candidato havia sido substituído, Bianca tomaria a iniciativa de procurá-lo.

Ela não estava tão firme?

Não tinha bloqueado o número dele?

Eduardo não acreditava que, sabendo que ele estava irritado, ela ainda conseguiria manter aquela pose por muito tempo.

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