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Cecília
Cecília
Penulis: Sah Flor

Prólogo

Penulis: Sah Flor
last update Tanggal publikasi: 2026-07-13 21:51:59

A Caixa de Segredos...

Era um dia impossível de esquecer.

Perder a mãe havia sido a dor mais difícil que Cecília enfrentara. Ela sempre foi o alicerce da família, a paz e a calmaria que preenchiam cada canto daquela casa simples.

Jamais ouviria novamente o doce som da voz dela ecoando pelos cômodos:

"Filha, não demore para voltar!", dizia sempre que Cecília saía com as amigas.

"Filha, está na hora, levanta, meu anjo!"

Ou ainda, gritando da cozinha: "Ceci, fiz o seu prato preferido!", sempre que preparava estrogonofe de carne, o favorito da filha.

Agora, restavam apenas Cecília e o pai, seu Pedro.

Um homem íntegro, honesto e trabalhador, que dedicava a vida às plantações de soja em uma das fazendas da região.

Viviam de forma simples, mas ele nunca abriu mão de garantir à filha a oportunidade de estudar. Seu maior sonho era vê-la médica. No entanto, o dinheiro era curto , ele, trabalhador rural; a mãe, faxineira. Mesmo assim, ambos lutaram com afinco para que nada faltasse à menina.

Com esforço e dedicação, Cecília se formou técnica em enfermagem. Hoje, o pai se orgulhava em dizer a todos que a filha trabalhava no hospital da cidade.

Foi o máximo que puderam investir nos estudos dela e ela sabia o valor disso.

Guardava parte do salário todos os meses, sonhando com o dia em que poderia cursar a faculdade e se tornar enfermeira, ou quem sabe, uma grande doutora.

A lembrança do dia da formatura ainda aquecia seu coração.

O brilho nos olhos dos pais, o choro emocionado do pai ao abraçá-la e dizer, com a voz embargada:

— Meu peixinho se formou...

"Peixinho" - era assim que ele a chamava desde pequena.

— Peixinho, vamos pra escola.

— Peixinho, vamos buscar sua mãe no trabalho...

Cecília crescera cercada de cuidado e amor.

***

Ao entrar em casa naquele dia, as lágrimas vieram sem aviso.

O vazio da ausência materna parecia ecoar pelas paredes.

Seus olhos percorreram o ambiente e, por um instante, ela quase acreditou ver a mãe ali - cantarolando, dançando entre as panelas, abrindo e fechando a geladeira, espalhando vida por onde passava.

Na sala, o olhar de Cecília pousou sobre o porta-retrato na estante. Deixou a bolsa no sofá e pegou a foto.

A mãe era linda - cabelos castanhos ondulados, pele dourada e olhos castanhos claros que pareciam sempre sorrir. Amava vestidos longos e floridos, que realçavam sua beleza natural.

Uma lágrima caiu, molhando o vidro do retrato. Cecília o secou com a manga da blusa e o colocou de volta no lugar.

Com o coração apertado, seguiu para o quarto, mas parou diante da porta aberta do quarto dos pais. Tudo permanecia exatamente como a mãe deixara.

Sem pensar muito, começou a retirar as roupas e pertences do guarda-roupa. Decidira doar tudo à associação do bairro, queria encerrar aquele ciclo de dor, mas também guardar algumas lembranças para si.

Enquanto separava as peças, ouviu o som dos passos do pai. Ele entrou, com um sorriso triste.

— Ela amava esse vestido - disse, ao vê-la abraçada ao vestido florido.

Cecília ergueu o olhar e respondeu, emocionada:

— Eu sei... Fomos nós que compramos, lembra? Quando recebi meu primeiro pagamento.

— Lembro sim. Ela ficou radiante naquele dia. Fique com ele, filha. É justo.

Ela sorriu, e o pai se aproximou, beijando-lhe a cabeça.

— Te amo, peixinho.

— Também te amo, pai.

— Vou preparar algo pra gente comer.

— Está bem...

Ele saiu em silêncio, deixando-a com o coração apertado. Cecília sabia o quanto ele sofria. Foram vinte e dois anos de casamento, e em apenas seis meses, o câncer arrancara deles o amor de suas vidas.

Respirou fundo, enxugou as lágrimas e voltou ao que fazia.

Pegou algumas bolsas antigas da época da escola para guardar as roupas da mãe. Enquanto finalizava a arrumação, percebeu que uma das gavetas da cômoda não encaixava direito. Puxou com cuidado até retirá-la completamente. Algo estava preso ali.

Uma pequena caixa de sapatos de bebê, desbotada e amassada, impedia que a gaveta se fechasse.

Cecília a pegou nas mãos. O coração acelerou. Abriu a tampa com delicadeza - e dentro, encontrou cartas e fotos amareladas. Reconheceu de imediato a caligrafia da mãe. As lágrimas voltaram antes mesmo que pudesse conter.

Abriu uma carta, depois outra, e outra. A dor deu lugar à confusão. À revolta.

Quando seu Pedro entrou no quarto, encontrou a filha caída ao chão, as cartas espalhadas, o rosto banhado em lágrimas.

— Pai... - a voz dela era um sussurro desesperado.

— Me diz que isso não é verdade... por favor...

Ele não disse nada.

Apenas a olhou - e no silêncio dele, Cecília encontrou todas as respostas.

As lágrimas nos olhos do pai confirmavam o que as cartas revelavam:

Cecília não era filha de Pedro Ferreira.

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