LOGINAs perguntas vieram em rajada.
— Vocês se odiavam. O que mudou? — Nós nunca nos odiamos — respondeu Verônica, com o tom exato de quem confessa um segredo bem ensaiado. A voz saiu controlada, mas por baixo da mesa os dedos dela ainda pressionavam o braço dele. — Nós competíamos porque éramos os únicos à altura um do outro. Isso sempre foi… atração. Marcel arqueou uma sobrancelha, divertido. O sorriso torto apareceu. Ele inclinou a cabeça na direção dela, como se fosse sussurrar um segredo só para ela e para as câmeras. — Atração, é? E eu pensando que era só raiva mal resolvida. O salão riu. Verônica sentiu o olhar dele queimar na lateral do pescoço. O pulso dela acelerou. — Há quanto tempo estão juntos? — O contrato emocional é antigo — disse Marcel, olhando para Verônica como quem olha para uma tela valiosa… ou para uma presa. Os olhos verdes desceram até a boca dela e demoraram. — Mas o contrato formal só saiu agora . — E o que dizer sobre a ex, Júlia Braga, ter sido vista com você essa semana? O sorriso de Marcel não vacilou. Mas embaixo da mesa, a mão dele virou e os dedos roçaram os dela de propósito. Quentes. Provocantes. — Júlia é passado. E eu sempre gostei de futuros complicados. Verônica apertou a mão dele com força. As unhas cravaram na pele. Um aviso, um toque. Ambos ao mesmo tempo. — O noivo fala demais quando está nervoso — interveio ela, com um sorriso doce que não chegava aos olhos. A voz saiu melada, mas o olhar era lâmina. — O que ele quer dizer é que nós temos planos maiores. E um casamento não se constrói em cima de ruídos. Os jornalistas anotaram tudo. A matéria que sairia no dia seguinte já estava desenhada: O casal mais poderoso do país aposta no amor para vencer a guerra do mercado. A Mentira perfeita e perigosamente quente. Camarim, minutos depois.... As portas se fecharam. Verônica soltou o braço de Marcel como se o toque queimasse de verdade. O corpo ainda formigava onde ele a tinha tocado. O peito subia e descia mais rápido do que deveria. — O que foi aquilo sobre a Júlia? Você quer incendiar o acordo logo no primeiro dia? — Quero ver você reagir — disse ele, desabotoando o colarinho. O movimento expôs mais a garganta e um trecho do peito. Os olhos verdes a estudavam sem pressa, como se gostasse do que via. — E funciona. Suas unhas quase furaram meu terno. Ela avançou um passo. O vestido azul-marinho se moveu com ela. O ar entre os dois ficou denso, carregado do cheiro dele e da raiva dela. — Me ouve com atenção, Ferraz: eu não subi nesse palco pra alimentar seu ego. Nem pra competir com ex-namorada carente. Se você quer jogar, jogue contra o Orlando. Contra mim, você só entra se quiser perder. Ele parou de sorrir. O olhar escureceu, dando um passo na direção dela. Agora estavam perto demais. O calor do corpo dele batia no dela. — Você não manda em mim, Verônica. A voz saiu grave, quase um rosnado. Os olhos desceram até a boca dela e subiram de novo, lentos. — Não mando, mas posso tornar sua vida um inferno tão bonito que você vai implorar para sair do contrato. Os olhos verdes de Marcel brilharam. Algo perigoso e quente passou entre eles. Ele inclinou a cabeça, o olhar preso no dela. — Então é assim que vai ser? — É assim que já é. Ela virou as costas e saiu. O coração batia forte demais. As pernas,, ainda sentiam a proximidade dele. Marcel ficou parado, respirando fundo. O peito subia e descia sob a camisa aberta. O sorriso voltou, devagar, meio satisfeito. — Acho que estou gostando disso. E o corpo dele, traidor, ainda queimava no lugar onde as unhas dela tinham cravado.Marcel ficou alguns minutos no corredor antes de se mover. A porta do quarto estava entreaberta, um fio de abajur cortando o piso. Empurrou com cuidado. O quarto estava em penumbra. Verônica dormia de lado, o corpo ainda meio encolhido por cima da coberta, a blusa social amassada, o cabelo preto espalhado no travesseiro. Mesmo dormindo, havia tensão residual nos ombros, como se o dia não tivesse liberado o músculo por completo. Marcel aproximou-se sem acender a luz. Sentou na beira da cama com uma lentidão quase cerimonial. Não tocou o rosto dela de imediato. Só ficou ali, ouvindo a respiração. Quando, enfim, ergueu a mão, limitou-se a puxar a coberta um pouco mais para cima do ombro dela — um gesto pequeno, doméstico, destituído de estratégia. Verônica mexeu-se. Os olhos abriram só um pouco, turvos de sono e cansaço. — Rafael falou com você — murmurou, não como pergunta. — Falou. Ela estudou o rosto dele na meia-luz, procurando o gume antigo da acusação. Não encontrou. E
Cobertura de Verônica, 20h31Marcel não tinha conseguido deitar.Permaneceu sentado na beira da cama do quarto de hóspedes, a camisa aberta no colarinho, os antebraços apoiados nas coxas, os olhos fixos no ponto em que o piso mudava de tom. A imagem do corredor insistia com uma precisão cruel: Verônica encolhida, a cabeça no colo de Rafael, o caminho seco de uma lágrima atravessando o rosto dela. Ele passara em silêncio. Agora o silêncio devolvia o peso.Bateram na porta. Uma vez só.— Sou eu — disse Rafael.Marcel fechou os olhos por um instante.— Entra.Rafael atravessou o vão com cuidado, como se o cômodo inteiro pudesse rachar com qualquer movimento em excesso. Sem blazer. Sem a postura impecável de quem organiza crise alheia. Só o celular na mão e uma cansaço antigo colado ao olhar.— Não vim brigar.— Ainda bem — respondeu Marcel, sem se levantar. — Porque eu também não tenho energia para a briga errada.Rafael aproximou-se até uma distância respeitosa. Desbloqueou a tela, mas
São Paulo, fim da tarde Rafael não foi para a assessoria depois do conselho. Ficou andando sem destino por duas quadras, o vento batendo no rosto, a frase de Verônica ainda presa na cabeça como farpa: eu fico na técnica, ele fica no front. Ela se oferecendo de novo. Sempre se oferecendo. Sempre calculando o próprio corpo como peça sacrificável para manter o tabuleiro de pé. Ele parou numa esquina, tirou o celular e abriu a galeria privada. Não a pasta do trabalho. A outra. A primeira imagem que subiu não era dos três. Era só dos dois. Igor Oliveira de frente, a boca no canto da boca de Rafael, a mão na nuca dele, o apartamento pequeno ao fundo. Na seguinte, os dois no sofá, pernas enroscadas, a cabeça de Igor no peito de Rafael, a TV ligada em qualquer coisa. Noutra, um espelho de banheiro embaciado, os dois sem camisa, Igor rindo com a escova de dente na mão, Rafael beijando o ombro dele sem olhar para a câmera. Casal. Simples. Real. Indisfarçável. A dor veio antiga e inteir
São Paulo, 8h03A sala do conselho estava cheia demais para o tamanho da paciência de Verônica.Vidro, madeira escura, café mal bebido e a tela da parede ainda repetindo, em silêncio, recortes da noite anterior: o Atlas de Orlando, as fotos de Ilhabela, o trio da faculdade, a palavra “triângulo” aparecendo com a naturalidade suja de quem já tinha vendido a manchete antes de apurar qualquer coisa.Marcel chegou dois minutos antes dela. Terno escuro, rosto fechado, a mesma contenção da mensagem da noite. Quando Verônica entrou, os dois trocaram só um olhar. Não havia carinho ali. Havia alinhamento.Ele abriu a reunião como prometeu.— A fusão não vai discutir vida pessoal nesta mesa — disse, a voz baixa e firme. — Vamos discutir origem, cronologia e continuidade operacional. O resto é ruído.Ruído, no entanto, era exatamente o que alguns acionistas tinham vindo buscar.O primeiro a falar foi direto:— Ruído que está derrubando percepção de valor. O mercado lê instabilidade societária. L
São Paulo, 19h40 Marcel não foi para a cobertura. Também não voltou para a war room. Foi para o escritório vazio da Ferraz Tech, no andar alto, onde a cidade ficava longe o bastante para não ouvir opinião de ninguém. Sentou sem tirar o terno. Não ligou a luz principal. Só o abajur do canto, o notebook fechado na frente, o silêncio grosso de quem ainda estava saindo de uma sala demais. A raiva continuava no corpo. Não a raiva limpa de reunião perdida. A outra. A que vinha misturada com humilhação, ciúme e a imagem de Verônica se colocando na frente de Rafael como se aquilo fosse o instinto mais natural do mundo. Marcel ainda sentia a marca invisível da mão dela no peito, empurrando-o para trás. Ainda ouvia o “sai”. Por um longo tempo, ele só ficou ali. Não porque tivesse feito as pazes com o que vira. Porque gritar não ia mudar o fechamento do mercado. Levantou, abriu a pequena barra do escritório e serviu água, não uísque. Bebeu devagar. A cabeça, teimosa, insistia em voltar
São Paulo, 18h47A crise do Atlas ainda não tinha esfriado quando a segunda bomba caiu.Rafael entrou na war room sem bater, o celular na mão, o rosto já diferente. Menos o profissional impecável. Mais alguém que tinha levado um golpe abaixo da linha.— Saiu.Verônica tirou os olhos da linha do tempo do projeto.— O quê?Ele desbloqueou a tela e deslizou a primeira imagem.Ilhabela.Verônica de biquíni vermelho na areia, o corpo cortado pela luz da tarde. Rafael ao lado, sem camisa, a cabeça virada para ela. Na sequência, os dois rindo. Depois, uma foto mais fechada: a mão dela no braço dele, a boca aberta no meio da risada. O ângulo era de longe. Lente longa. Alguém tinha esperado o momento certo.Marcel, do outro lado da mesa, endureceu inteiro.A legenda do portal vinha pronta:Enquanto o noivo apaga incêndio no mercado, Verônica Luz curte praia com o “melhor amigo ou amante de longa data?"— Tem mais — disse Rafael.A voz saiu baixa. Raspada.A segunda leva era de câmera de segura







