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PARTE 10: O RITUAL

Autor: MAGNO NOVAES
last update Fecha de publicación: 2021-12-24 21:11:15

Na avenida Richard Bells, 122, Bill e Edward esperaram em pé. Cada um carregava uma mochila onde colocaram o que acreditavam ser essencial. Bill com a lanterna mágica e um par de estilingue e Edward, uma bombinha de asma e um óculos de mergulho — na verdade, nem ele sabia o que fazia com uma mochila nas costas.

Eles esperaram por trinta minutos até se cansarem e se sentarem no chão da calçada frente ao velho posto de combustíveis, onde ainda era possível ver as bombas cobertas por poeira e casas de aranha, também havia uma grande placa onde estavam os preços dos combustíveis há sete anos — eles mudaram consideravelmente.

Vez ou outra, Bill olhava para o relógio de pulso e pensava se aquele atraso seria parte da peça em que possivelmente Adam e John estavam prestes a pregá-los.

— Olha lá, Bill! — Edward exclamou, cutucando repetidas vezes o braço do amigo e o chamando a atenção para o que estava prestes a acontecer em seguida. Bill estava preparado para o que quer que acontecesse, mas internamente estava receoso por colocar os amigos dentro desta aventura esquisita.

Ele estava certo. Adam estava dirigindo a camionete verde ano 93. Ela tinha um amassado na lataria, precisamente na traseira, que Bill recordava muito bem, pois a forma lembrava um castor — um castor drogado e alcoólatra.

— Dois? O que houve com o grupo dos pastelões? — Adam disse detrás do volante, auto o suficiente para sua voz sobressair o ronco do motor. Ele parou frente aos garotos. John estava no banco ao lado, comendo uma maçã com um canivete, talvez menos amolado que o de Bill.

— Ei! Espere! — Era uma voz feminina, acompanhada de sinetas de uma buzina de bicicleta, agitadas e repetidas. A voz vinha da escuridão, onde os velhos postes sem iluminação não podiam revelar o que quer que estivesse vindo. Mas Bill conhecia aquela voz. Era Melissa e ele pôde concluir quando ela estava mais próxima, só não entendia como e porquê.

— Mas, como!? — Bill indagou ácido, olhando para Edward e vendo ele com o celular na mão e juntando as peças de um quebra-cabeças fácil de montar. Ainda que Bill ignorasse as mensagens de Melissa sobre não sair com Adam, ela foi insistente, ao ponto de interrogar Edward sobre sua localização e ele não pôde evitar em compartilhar com a curiosa garota.

— Olha! Pensei que seria só os dois patetas, mas temos a princesa sapo também — se Adam abrisse a boca para falar algo, certamente Edward enfiaria a bombinha de asma do Edward na garganta dele.

Melissa estava sobre sua bicicleta favorita, sido preciso pedalar por três quarteirões incessavelmente para alcançá-los e ela não estava se importando muito com o que iria fazer, desde que sua participação pudesse ajudar de certa forma os amigos.

— Você não deveria estar aqui — disse Bill com impaciência, mas conseguia entendê-la. Ele gostava da coragem dos amigos e da forte disposição que tinham em querer ajudá-lo e isso lhe causava uma boa sensação.

— Mas estou... — disse ela, baixo, olhando para Adam e John que a encaravam com sorrisos de garotos malvados.

— Beleza! Entrem aí! — Adam completou, apontando com a cabeça para o fundo vazio da camionete onde poderiam embarcar. Bill olhou para os olhos profundos de Melissa, antes de erguer a bicicleta dela e a colocar no espaço vazio que havia no fundo do velho carro, em seguida, usou as mãos para se apoiar na gelada lataria e subir primeiro, estendendo a mão para Melissa. Ela agarra a mão dele e sobe. Edward faz o mesmo, ainda com dificuldades, pois suas botas escorregaram na lataria.

— Para aonde iremos? — Melissa perguntou para Bill.

— É o que vamos descobrir.

A viagem foi curta. A região onde supostamente ocorreu o evento está localizada dezenove quilômetros adentro, por uma estrada de terra, depois da velha hidrelétrica. Apesar de todos conhecerem a lenda, sabiam que não se passava de história assombrada para assustar crianças desobedientes e o que encontrariam era, senão, a antiga fazenda dos Lane, onde moravam por anos, antes de abandonarem o local misteriosamente. Alguns costumam dizer ser mal-assombrado. Boa parte deles costumavam concordar com a história que parecia se encaixar. Qual família poderia viver no local onde possivelmente ocorreu um crime macabro?

A lua que se escondia tímida atrás de algumas nuvens, decidiu aparecer, exibindo seu corpo claro, mas não o suficiente para que os garotos pudessem ver o que se estendia nos campos verdes daquela região. Adam estacionou frente a porteira de madeira e Bill foi o primeiro a descer, pensando rapidamente, como poderia colocar seu plano em ação, sendo que agora, tinha a companhia de Melissa e sua bicicleta desengonçada. Ele ainda mantinha a sensação de alerta presente, pois não compreendia quais eram as reais intenções de Adam.

Era uma casa velha e espaçosa, com uma grande varanda e janelas de vidros tão empoeiradas que davam a impressão de estarem pintadas de uma cor que pendia ao marrom-claro. Do lado dela, cerca de dez metros, havia um estábulo.

Adam e os demais deram uma olhada em volta, um pouco tímidos com o processo que era, estar em um lugar diferente, e ainda que John e seu mais leal companheiro estivessem interessados em assustar Bill e os outros, ele mesmo estava desenvolvendo uma inquietação singular, que subia a sua garganta e o deixava tenso.

Era costume adolescentes e psicopatas irem naquele lugar em busca de algo: se não era se esconder, com certeza muitas das vezes era, se exibir.

Adam meteu a mão na bolsa de mono alça que se estendia sobre seu torso, como uma pochete, mas em um tamanho maior. Os garotos ficaram alerta aos movimentos, como policiais que se atentem a qualquer movimentação brusca de um suspeito. E Bill não agiu diferente. Ele colocou a mão no bolso das calças, sentindo o canivete gelado. Mas a intenção dele não era usar naquele momento, a não ser que fosse de extrema necessidade.

— Podemos usar isso — Adam sacou uma vela preta, tão grossa quanto seu antebraço e em seguida, uma caixa de fósforos, das grandes, como aquelas de acender churrasqueiras.

— O que diabo você pensa que está fazendo? — John indagou, não esperando que Adam, naquela altura da sua insanidade azeda, pudesse mexer com coisa séria. John acreditava muito no mundo espiritual desde aquele dia em que teve contato com sua mãe já falecida, onde ela pedia para que ele endireitasse o pai, pois se não o fizesse, certamente estaria do outro lado com ela.

— Um ritual — Adam falou animado, tão vívido quanto a luz da lua que os banhavam.

— Isso eu vejo, mas você sabe que...

— Não me importo com esse seu lado paranormal. Se você acredita em fantasmas ou sei lá o quê, o problema é seu, mas eu John, eu quero ver se eles realmente existem — Adam acendeu a vela. Não havia corrente de ar, o clima estava parado, silencioso e apaziguador.

— Achei que iriamos falar sobre a lenda — Edward comentou, dando um passo à frente.

Adam se aproximou dele com a vela ainda em mão, agora, acesa e iluminada, como uma tocha de fogo em uma caverna escura.

— Então, quatro olhos, você não acha melhor viver a lenda do que, digamos, só contá-la? — Adam puxou Edward pelo braço, esfregando sua mão grossa em sua cabeça e o deixando despenteado. Ele corrigiu os óculos que deslizaram até a ponta de seu nariz e ao tomar fôlego, rebateu.

— Mas se vivermos a lenda, seremos a lenda... — respirou fundo e continuou. — A lenda dos cinco adolescentes mortos por uma garota fantasma. É isso que você quer, seu cuzão?

Adam riu. Alto o suficiente para sua gargalhada espalhar-se pelo campo e ecoar nas paredes da velha casa, mas parou de repente, como uma dor aguda e repentina, e olhou distante. Um olhar sério e que não passava nenhuma impressão agradável. Ele viu o poço a cerca de cinquenta metros dali. Uma pequena fortaleza de concreto, distante o bastante para parecer uma vaca gorda, deitada na grama, mas diferente de uma, esta jamais se mexeria, pois, desde que fora criado, presenciara alegrias e tristezas, esta última, que o marcara tão profundamente, que nem sua profundidade física poderia se igualar.

Adam andou em linha reta, marchando em silêncio. Bill e os outros três fizeram o mesmo, observando o jovem, que segurava a vela à altura de seu peito. Que espécie de ritual ou brincadeira seria aquela, Bill e os garotos não saberiam, mas havia começado de maneira misteriosa, como fogo que consome tudo, sem esperar nada, mas com vontade do absoluto, até onde pode consumir.

As árvores distantes balançavam devagar, insinuando uma leve e não ameaçadora, rajada de vento — certamente não apagaria a vela, Adam pensou ao receber a brisa gelada em seu rosto banhado de espinhas.

— Oh! Samara. Por que foste uma vadia m*****a e acabaste com a vida de toda sua família? — Adam iniciou seu discurso, numa falatória amedrontadora, onde fazia Melissa se arrepiar, e sua barriga se contorcer de tensão. — Seu egoísmo ainda é lembrado? Você contribuiu com Liontown e sua fama de terra amaldiçoada, onde porcos decapitados podem correr nas ruas durante a noite e espíritos assombrados invadem casas para morder pés de viciados.

— Para! — Melissa pediu. Um silêncio da parte dele estendeu-se por alguns segundos, enquanto ele a encarava, mas continuou. Ele sabia onde estava chegando e o ponto do delírio dos garotos poderia ser atingido a qualquer momento, para então se esbaldar com suas inquietações.

— Tu enlouqueceste e levaste teu pai junto ao poço de sua perdição mental — falou ele, ávido e ativo, com uma entonação clara, mas acalmou seu discurso.

Silêncio. Só os grilos agora falavam.

— Aonde quer chegar, Adam? — perguntou John, empurrando-o. A vela caiu no poço fundo, com o pequeno e perigoso desequilíbrio de Adam. O barulho da chama despencando lembrava um míssil saindo do cano de um lança-mísseis prestes a destruir o que pudesse encontrar pela frente.

Puf!

A vela caiu no charco que havia no fundo do poço. Adam se aproximou, em silêncio e apontou a cabeça para olhar lá para baixo e viu que ela ainda estava acesa. Como era possível, ele não sabia, mas deduzia que poderia ser uma das questões de sorte mais intrigantes que já vivenciou. John fez o mesmo, reparando a luz cintilante balançar. Como tinha boa visão, percebeu algo a mais, no fundo daquele poço. Não era apenas uma poça d’água suja e imunda, havia um tronco ou...

— O que é aquilo? — perguntou John, retirando a cabeça e recolocando só para se certificar de que via algo. Curiosos, Bill, Edward e Melissa se aproximaram do poço e puseram suas cabeças, como se estivesse espiando uma briga de vizinhos, da qual, não poderiam dar a impressão de estarem ali, observando o evento. Mas era irresistível. A nuca de Melissa ficou com o pelo eriçado como o gato assustado de sua tia Mary. Um calafrio seguiu do topo de sua cabeça à ponta dos pés, como se tivesse diante de um milagre estranho — talvez, um milagre horripilante.

— Tronco de árvore — Edward sugeriu, mas duvidaria de sua afirmação ao ver que a coisa que estava lá, no fundo do poço, se mexeu, como uma sombra que se curva à parede.

— Wooow... — eles se afastaram, quase em sincronia.

— Que cacete de bicho é aquele? — indagou Adam, com os olhos arregalados. Nenhum deles responderam, pois, nenhum tinha certeza, mas concordavam entre si que aquilo se mexera, ou era uma ilusão de ótica, onde a chama da vela dava a impressão de movimento.

— Vamos lá! Coloquem a cabeça e veja que porra tem lá embaixo! — Pediu Adam, sem um pingo de coragem de dar mais uma espiadinha. Temia que se espiasse, viria um bicho preto e cabeludo, de olhos estalados e acesos como a lua, escalando o poço como uma barata, rápida e precisa, para então pular em seu pescoço, devorando seus olhos como duas uvas maduras, para em seguida, assim que terminasse de comer toda a carne de seu corpo, caçasse o resto dos meninos.

Eles se encararam ainda em silêncio e como se conversassem entre si, deram um passo à frente e puseram a cabeça para observar. Uma coisa escura, como um porão sujo e mais fedida que uma vaca morta, subia pela parede lateral do poço, como imaginou Adam. Aquilo era tão bizarro e medonho que todos ficaram travados de medo. Eles jogaram o corpo para trás, ainda mantendo a sincronia, como uma dança da morte e correram, para onde quer que suas pernas levassem. O ouvido tapado de tensão, o coração acelerado, bombardeando mais sangue e oxigênio para fugir daquele cenário, eram as únicas sensações que sentiam. Um rugido alto que se lembrava ao som de animais pré-históricos que Bill e os demais viam na TV, ecoou pelo ar, vibrando em suas peles e os deixando arrepiados. Assim que estavam a cinquenta metros dali, houve um pico de cansaço natural, seguida da perda do fôlego que os fizeram parar, colocar as mãos no joelho e olhar para trás. Cada um em seu particular desespero. Bill, tentando ligar a lanterna mágica de longo alcance, Melissa, colocando a mão no coração e pedindo para que aguentasse mais um pouco, Edward, tentando respirar fundo, mas sem sucesso, estava tenso demais para isso, John, com a boca seca de medo e um pensamento insistente que criticava por estar ali e Adam, bem, Adam estava tão arrependido quanto assustado, mas ele não estava nem aí e esse sentimento de indiferença sempre o colocava em maus lençóis. O urro se seguiu, saindo do buraco na terra e eles estavam parados, como se esperasse que a coisa viesse pegá-los. Bill iluminou o poço com sua lanterna, que alcançava até certo ponto, como um segundo brilho de suporte à luz da lua. Silêncio. Não se ouvia mais nada, a não ser a respiração irregular dos garotos e então, uma erupção. Algo estourou, expelindo um líquido desconhecido a uma altura de vinte metros e espalhando-se por toda fazenda, como uma chuva nojenta. Os respingos fedorentos caiam em suas roupas, braços e rostos. Eles gritaram, num coral de medo e continuaram a correr, agora que tinham mais um pouco de energia. Bill mudara de plano rapidamente. Seria loucura furar os pneus do único meio de transporte que os resgataria dali. Quando estavam quase alcançando a entrada, viram que o carro não estava mais lá.

— Cadê a droga do carro, Bill? — Perguntou Adam, com uma inquietação em sua voz, como se o garoto tivesse algo a ver com o fato da velha camionete não estar ali onde ele estacionara. Todos estavam juntos agora compartilhavam a ansiedade de saber o que acontecera com o carro, mas Melissa esboçou uma afirmação que os deixaria aliviados.

— Olha lá! — o carro estava no fim da ladeira, atrás de alguns arbustos altos e o que era possível ser visível naquele momento era só a traseira, que brilhava num verde ofusco.

Eles correram até lá, mas Melissa escorregou em uma pedra molhada, se desequilibrando e  caindo ao chão, batendo sua cabeça em um estalo seco, para então perder a consciência. O que ela ouvia antes de apagar de vez, e antes de ver as estrelas girarem como uma roda-gigante foi:  — Ajudem! Ela está sangrando! — Melissa apagou.

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