LOGINLiontown. 4 de novembro de 2007
Bill achou fácil convencer sua mãe a sair depois do almoço, pelo fato de que haviam prendido o suspeito do desaparecimento de duas crianças na região e de… Ele se esforçou para manter a imagem de Edward em um lugar seguro, mas ele só conseguia vê-lo flutuando de barriga para baixo, às margens do rio Wax. Isso o deixava mal. Mas era difícil de deixar de pensar em coisas ruins. Sua mente estava viciada em possibilidades negativas e ele se odiava por isso. Bill cruzou a avenida principal da cidade e se encontraria com Melissa e Adam depois dos trilhos da estação ferroviária de Liontown e ficariam ali debatendo as investigações. E entre fatos verdadeiramente concretos e imaginários, Bill e Adam estariam sempre divididos nas opiniões. Era o que costumava acontecer com pessoas que não se davam bem, mas tinham que exercer uma tarefa juntas. Quando Bill chegou na estação, sentiu que o frio que fazia naquela tarde diminuíra bastante e ele poderia retirar o gorro que cobria suas orelhas e o impedia de ouvir claramente. Ele ouvia Adam resmungar com Melissa.
— Você veio — disse Melissa. Os olhos de Bill não apontaram para Adam, mas mesmo assim ele o cumprimentou.
— E aí…
— E aí, bobalhão, o que você descobriu lá? — respondeu Adam, indagando por mais notícias. Ele só estava ali porque sabia envolver perigo. Ele era um fanático por adrenalina. Adam daria um ótimo criminalista, pensou Bill, mas depois retrocedeu com o pensamento.
— Samara estudou na mesma classe que Daniel. Eles possivelmente se conheciam — disse Bill, mostrando as fotos que havia tirado e a ficha de Samara.
— Eles eram parentes? — perguntou Adam, refletindo sobre os fatos.
— Por que pergunta isso? — indagou Melissa e puxou o celular de Bill, vendo se haviam semelhanças entre os dois. Mas não era sobre as semelhanças que Adam estava se referindo.
— Porque ele comprou a propriedade dos Morris há alguns anos — Adam respondeu e sabia ser verdade porque o tio dele era corretor de imóveis e havia comentado que a fazenda mal assombrada fora adquirida por Daniel Smith por metade do preço em 1998. Era um bom negócio visto que a residência tinha uma má reputação e estava no mercado há mais de dez anos. Se não fosse vendida, nunca mais seria.
— Então deve haver alguma ligação entre os dois. Precisamos informar a polícia sobre essa hipótese — acrescentou Melissa, mas Adam a interrompeu.
— A gente está lidando com algo ou alguém que parece nos conhecer, então, se a gente ir na polícia, isso pode ficar pior — falou Adam, temendo estar sendo vigiado. Essa sensação de estar sendo observado lhe ocorria vez ou outra, como uma onda repentina.
— Não! Temos que ir na polícia — Bill interrompeu o discurso. — Se nós temos um suspeito, a polícia deve saber disso. Temos uma prova. Cadê o anel, Adam?
Adam colocou as mãos no bolso e os sentiu vazios. Ele verificou outros bolsos, só para descobrir desprezível que não estava mais com o anel.
— Ele estava aqui… Droga. Eu não sei onde ele está — Adam falava a verdade, mas Bill e Melissa não podiam acreditar. Era como andar em círculos.
— Eu não acredito que você perdeu a droga do anel! — Melissa resmungou e respirou fundo. — Vamos à polícia agora.
— Não podemos perder mais tempo. Podemos ligar, fazer a denúncia e esperar — Bill disse e sentiu que Adam não concordaria com aquilo. Melissa poderia concordar, mas estava envolvida demais para só esperar.
— Ele não é meu amigo e estou empolgado em resgatá-lo e eu não pensaria duas vezes se tivesse que enfrentar algo para salvar um amigo. Temos informações e vamos esperar os homens? Você sabe como vai ser. Você é um cuzão, Bill Lewis. Um verdadeiro cuzão.
— Cala boca, Adam! — Melissa pediu, e ele fez. Tão obediente quanto um cãozinho. — A última carta pode ser um alerta.
— Última carta? — Bill perguntou. Não se lembrava de ter ouvido sobre novas cartas. Depois que ele saiu da tubulação e acessou o quarto das coisas esquecidas, que dava acesso à torre do sino e por fim, a porta vermelha para o pátio, ele seria informado sobre a segunda carta. A carta que só Melissa recebera e poderia dar pistas sobre algo, ou confundi-los ainda mais, mas ela estava tão concentrada com o fato de Bill ter conseguiu escapar do colégio sem ser pego e pulado o muro da instituição, que a única coisa que ela queria saber era o que ele descobriu. Como Bill é bom em fazer mistérios, pediu para encontrá-los num lugar seguro, às 13h. A estação ferroviária costumava ter movimento. Não naquela tarde em específico. Ela estava morta como o resto das ruas de Liontown.
— Essa — Melissa entregou o envelope para Bill e ele não hesitou em abri-lo. FOGO. Era a única palavra escrita.
— É isso? Fogo? Fogo o quê? — perguntou Bill, tão confuso quanto eles no momento em que leram a palavra pela primeira vez. Ler mais de uma vez ainda soava estranho. Uma palavra era mais que suficiente para passar um recado, se ela fosse realmente entregue para a pessoa certa. E eles sabiam serem essas pessoas.
— Talvez a garota morta queira fazer churrasquinho de nerd — Adam disse e sorriu para si mesmo, mas parou quando viu que eles não riram. — Ou quem sabe de pervertido?
O apito do trem que vinha no horizonte, ao norte de Liontown, foi a única coisa a propagar som depois do silêncio entre eles. Era o tipo de silêncio que carregava consigo imagens mentais que debatiam com a consciência. Muitas das vezes em vão. Eram pequenos monólogos que se intensificaram no silêncio. Naquele tipo de silêncio, da qual se é necessário decidir. Geralmente vem impulsos ilógicos, mas curiosamente interessantes.
Tssssssss…
— Então vamos lá! — Bill falou alto, quando o trem passou por eles, fazendo barulho. Mas eles não entenderam muito bem. O apito do trem dizia: fica fora dos trilhos, moleques.
Tssss…
— O QUE VOCÊ DISSE? — gritou Melissa.
— EU FALEI: VAMOS LÁ ENTÃO! VAMOS PROCURAR O DANIEL! — Bill repetiu e acrescentou. Adam entendeu “VAMOS DE VAGÃO”. E depois pensou se não poderia ter sido. “VAMOS DE LITRÃO”. Mas, porque o pirralho nerd iria querer uma bebida?
Tsss…
— Não fale ainda! — Adam pediu, tapando os ouvidos. Ele tinha hipersensibilidade auditiva.
— Primeiro liga para a polícia. Depois saímos daqui — Melissa disse, agora que o trem havia se distanciado e era mais fácil entender o que era dito. Ela estava entrando naquela velha onda persuasiva de Adam. Bill também se sentia assim, mas ele sabia, lá, no fundo, que ele poderia ter razão. Não se deixa um amigo para trás, principalmente um amigo que amamos e Bill… Ah! Bill Lewis amava o Edward.
— Perdemos o trem — disse Adama e se sentiu verdadeiramente incomodado por isso, mas lembrou-se rápido, na medida que seus neurônios tomavam fôlego, que aquela não era a direção para onde deveriam ir.
— Não vamos de trem — disse Bill, certeiro, mas acrescentou; — mas precisamos de um carro.
— Eu posso conseguir um. Faremos assim; vocês ligam para a polícia, conta o que sabe e eu encontro vocês no velho posto de gasolina em uma hora. Combinado? — disse Adam, e sabia que poderia soar como antes. Era estranho como aquilo soava daquela forma, mas desta vez, sentia que poderia estar fazendo algo útil. Algo bom. Ele pensou. Depois do pensamento altruísta de cunho duvidoso, vislumbrou outro. Era a própria imagem de herói. Ele chegaria à casa dos Morris com a espingarda do pai — uma Yildiz calibre 12GA —, arrombaria a porta principal com um chute e acertaria o traseiro de Smith se ele demonstrasse reação e neste pensamento, ele o fez. Então, soltaria o Edward que correria para os braços de Melissa? Não, talvez para os de Bill. Só para então assim ele repreendê-los com uma de suas piadas de mal gosto.
— Combinado — Bill disse e teve certeza ao afirmar aquilo, que não tinha mais como voltar.
HOTEL HUSTER - CELEBRANDO A VIDAO Hotel Huster foi palco de grandes eventos durante os anos oitenta e costumava receber muitos hóspedes durante a alta temporada, mas os anos de glória do Huster estavam com os dias contados. Administrado pelo ex-banqueiro de Liontown, Chad J. Graham, os negócios pareciam ter atrofiado. Os moradores costumavam chamar o Chad de dedo de ouro, por ser bom nos negócios, mas aquele em especial, fora sua primeira e última investida no ramo da hotelaria. O hotel perdeu capital por 20 anos, antes de fechar as portas há dez anos. Agora, era uma construção inútil à beira da rodovia Clyde. Clyde era conhecida por cortar toda a cidade e ser um dos principais pontos de entrada e saída do município. Mas não tinha um ser humano sequer que saísse ou entrasse em Liontown e não reparasse o hotel. Ele ainda par
4 de novembro de 1977 - 16:30— Se você não falar para onde foi aquela retardada, pode ter certeza que eu tiro todos os dentes de sua boca e te mando para o céu, santinho — disse James, dando um soco na barriga de Paul. Tony segurava-o pelos braços, como alguém que segura um porco para o abate. — Fala!Paul puxou o ar para os pulmões e olhou para a floresta que havia logo depois da rua atrás do colégio. Era um aglomerado de árvores altas e densas. Era o caminho mais rápido se quisesse chegar à rodovia principal da cidade.— Ela foi para lá…— Maldita hora para ir pela floresta, aberração — falou James. Tony soltou Paul, que
4 de novembro de 2007Quando o opala preto que Adam Wason estava dirigindo parou frente a antiga casa dos Morris. Ele teve uma intuição esquisita de que Edward não estaria ali. O tipo de intuição que ele não poderia compartilhar com os outros. Ele achava que essas coisas só eram sentidas por mulheres. Sua intuição se intensificou ao perceber haver rastros de pneu de carro por toda parte. Se Edward estivesse ali, não estaria mais.— Será que chamamos a atenção? — perguntou Melissa, com uma preocupação evidente. — Aqui é muito silencioso.— Se chamamos, quero estar preparado e saber que estou armado — retrucou Adam, com orgulho. Um orgulho quase doentio.
4 de novembro de 1977.Ninguém quer morrer. Pelo menos é assim que a maioria das pessoas pensa. Temos um instinto de defesa e sobrevivência que evoluiu há milhares de anos e nos preparou para os piores cenários. Algo que Bill Lewis sabia muito bem. Lutar ou fugir, estas eram as duas opções interessantes quando a questão era apenas sobreviver, e Bill estava usando-as. Já Samara Morris, em seu íntimo, tinha uma certeza que era assustadora. O tipo de certeza que ela tinha medo de verificar para ver se era realmente aquilo tudo, pois sabia que poderia ser muito pior. Ela ia morrer. Assassinato talvez. Só não sabia quando, como e porquê, o que era péssimo também. Entretanto, ela tinha esperança, do tipo que a fazia viver e esquecer o inevitável. A esperança que ela encontrou t
Liontown. 4 de novembro de 2007Bill achou fácil convencer sua mãe a sair depois do almoço, pelo fato de que haviam prendido o suspeito do desaparecimento de duas crianças na região e de… Ele se esforçou para manter a imagem de Edward em um lugar seguro, mas ele só conseguia vê-lo flutuando de barriga para baixo, às margens do rio Wax. Isso o deixava mal. Mas era difícil de deixar de pensar em coisas ruins. Sua mente estava viciada em possibilidades negativas e ele se odiava por isso. Bill cruzou a avenida principal da cidade e se encontraria com Melissa e Adam depois dos trilhos da estação ferroviária de Liontown e ficariam ali debatendo as investigações. E entre fatos verdadeiramente concretos e imaginários, Bill e Adam estariam sempre divididos nas opiniões. Era o que cos
Edward estava algemado à cama em um quarto escuro com paredes azuis. Suas roupas eram elegantes e pareciam ser da década passada. Um suéter de lã de cor vermelha-escura cobria seu torso — na vestimenta havia um broche. Era uma pombinha dourada. — O jovem olhou para os lados quando acordou novamente de seu sono nada agradável e viu, agora que seus olhos se adaptaram à escuridão, que o ambiente estava repleto de fotos de uma garota. Era Samara? Edward sabia que sim. Até onde ele se lembrava, ele veio para a casa dos Morris e sabe-se lá o motivo, ele estava no quarto que intuitivamente soava ser de uma garota. De uma garota morta. Os olhos do garoto varreram o quarto, observando cada canto e com um receio que estava no centro de sua garganta, como uma bola de muco quando se está muito gripado. Edward então escutou alguns passos que faziam as madeiras do piso rangerem