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PARTE FINAL: SHOW DO HORROR

Author: MAGNO NOVAES
last update publish date: 2022-03-25 08:14:28

HOTEL HUSTER - CELEBRANDO A VIDA

O Hotel Huster foi palco de grandes eventos durante os anos oitenta e costumava receber muitos hóspedes durante a alta temporada, mas os anos de glória do Huster estavam com os dias contados. Administrado pelo ex-banqueiro de Liontown, Chad J. Graham, os negócios pareciam ter atrofiado. Os moradores costumavam chamar o Chad de dedo de ouro, por ser bom nos negócios, mas aquele em especial, fora sua primeira e última investida no ramo da hotelaria. O hotel perdeu capital por 20 anos, antes de fechar as portas há dez anos. Agora, era uma construção inútil à beira da rodovia Clyde. Clyde era conhecida por cortar toda a cidade e ser um dos principais pontos de entrada e saída do município. Mas não tinha um ser humano sequer que saísse ou entrasse em Liontown e não reparasse o hotel. Ele ainda parecia ter tanto potencial. Talvez o senhor Graham ainda tenha esperanças e este seja o motivo por ele não ter demolido a construção e ter posto mais um posto de gasolina.

Adam estacionou o carro do outro lado da rodovia e viu com admiração e surpresa, que o furgão de Daniel estava estacionado ao lado do hotel Huster. Bill não demonstrou reação. Ele estava inquieto. Pensava sobre muitas coisas. A maioria dos pensamentos, eram catastróficos, mas ele ainda tinha uma breve sensação de esperança.

— É o carro do carteiro — disse Melissa, retirando o cinto de segurança. Ela puxou o celular e discou um número. — Precisamos informar a polícia.

— Eu não vou ficar aqui esperando. Quer saber de uma? Estou indo lá naquele desgraçado — Adam disse, enfurecido. Ele abriu a porta do carro, mas foi impedido com um alerta de Bill.

— Espera! — disse ele e Adam parou. Ele olhou para a entrada principal do hotel, para a direção onde os olhos inquietos de Bill olhavam.

— Espera aí. Aquela não é sua amiga? — perguntou ele, duvidoso do que via.

— É a Julia… O que ela faz ali? — Indagou Melissa. — Por que a droga do celular está sem sinal?

Julia entrou no hotel, por uma das portas principais. Estavam destrancadas, como se estivessem esperando os convidados especiais. Adam saiu do carro e Melissa desceu em seguida, e por fim, Bill.

Alô! É uma emergência! Preciso da polícia no antigo hotel Huster, 1454, rodovia Clyde. É sobre o caso do garoto desaparecido — Melissa disse assim que a chamada que ela fez foi estabelecida. Ela disse com tanta pressa que precisou repetir para ter certeza de que eles entenderam o chamado.

— A polícia não pode me ver armado, garota! — Adam resmungou. — A gente está muito encrencado.

— Você não queria ação? Estamos em ação! — gritou Bill e correu. Ele atravessou a rodovia e chegou do outro lado. Bill acenou-lhes.

— Que merda! — Adam disse e foi com a espingarda em punho.

Eles deram a volta no hotel e foram primeiro no furgão. Estava vazio.

— Tem uma porta ali que podemos entrar — Melissa apontou para uma entrada depois de uma cerca de arame. Adam colocou a espingarda nas mãos de Melissa, que recebeu inesperadamente e em seguida, ele pulou na cerca e se agarrou, como um guaxinim prestes a vasculhar uma lata de lixo. Ele escalou e pulou por cima da cerca, caindo em pé.

— J**a a minha belezura por cima — ele pediu. Melissa ainda sem jeito com aquela coisa. Calculou a força de seu lançamento e arremessou a espingarda por cima da cerca que caiu graciosamente nos braços de Adam. — Agora pulem a cerca.

Melissa e Bill fizeram, mas com mais dificuldade. Eles aterrissaram em pé, como dois gatos.

— Não era melhor esperar a polícia? — perguntou Melissa, ainda receosa com a ideia de entrar no hotel.

— A gente faz o processo de investigação e eles levam o prêmio? Não! Nem pensar! A gente vai entrar na droga do hotel e meter chumbo naquele desgraçado — Adam falou, mas Melissa e Bill sabiam que ele estava blefando. Mesmo assim, eles concordaram.

Eles precisaram arrombar a porta trancada. Fizeram com uma haste de metal que encontraram por ali. Assim que eles entraram no hotel, o cheiro de mofo e a escuridão do local dava medo nos mais corajosos. Tudo estava muito quieto.

— Acho que esse corredor dá para um dos salões de festa — disse Bill, em sussurro, analisando o movimento.

— Shh! — Adam pediu silêncio, no momento em que pareceu escutar algo. Alguma voz. — É a voz do Edward?

Bill e Melissa prestaram atenção naquele ruído baixo, como sussurros. O som parecia distante. Como se estivesse em outro andar.

— Sim! É a voz do Edward. Parece que vem de cima — falou Bill, numa felicidade autêntica. Ele estava certo em relação a Edward estar vivo, assim como sabia que Daniel tinha alguma coisa a ver com isso. A culpa e o remorso por não ter dito antes o atingiu em cheio.

— Me sigam — disse Adam e entrou em um corredor. Eles caminharam até uma escada e subiram mais um andar. Agora as vozes de Edward pareciam choros e se misturavam às vozes de Daniel e… Aquela não era a voz da Julia. Pelo menos assim Bill acreditou.

— O que há depois daquela porta? — Perguntou Melissa e descobriu rapidamente que era a entrada para o show de horror.

— É isso que iremos descobrir! — Adam saiu na frente e os dois seguiram o jovem desbravador.

Quando Adam Wason empurrou a porta, o som ficou audível e eles se deram conta que estavam em um auditório. O barulho da discussão abafou o ruído daquela porta sendo aberta abruptamente, diante do desespero e ânsia de Adam. Daniel estava de pé ao lado de Edward, que estava amarrado a uma cadeira. Julia estava do outro lado, falando algo. Bill e certamente Melissa, puderam constatar que não era a voz da Julia. Apenas uma possessão poderia explicar aquilo e Bill estava mais que certo de que estava diante deste fato.

— Eu disse que retornaria, não é mesmo? — disse Julia, ou melhor… Samara.

— O que tá rolando? — perguntou Bill, confuso. Eles estavam de trás de algumas cadeiras e assistiam a tudo, mas sem um pingo de noção do que estava acontecendo.

— Eu já disse que foi um acidente! — exclamou Daniel e sua voz ecoou por todo o salão. — Eu não consegui evitar e eu me culpo tanto! Eu te amo, Samara.

— Samara? — Melissa sussurrou.

— Eu sabia que aquela sua amiga era doida, mas não ao ponto de criar um personagem — disse Adam. Ele não desperdiçava tempo quando o assunto era: piadas.

 — Shhh… — Bill e Melissa pediram silêncio, simultaneamente.

— Eu tinha sonhos, sabia? Eu tinha uma vida. Não era perfeita, mas ia ficar, se você não tivesse acabado com tudo isso! — Samara começou a chorar.

— Como eu poderia ter evitado isso? Como? — retrucou Daniel, em prantos. — Por favor, Samara. Me perdoe.

— Você foi como todos os outros. Uns monstros. Foram os vermes que comeram minha carne. Eu os amaldiçoou. Amaldiçoou você e todos esses pirralhos de Doctor John Dalton — as palavras que saíam da boca de Julia, estavam carregadas de ódio. O tipo de veneno que Samara consumira por anos, calada.

Daniel ficou em silêncio. Ele contemplava sua tristeza interior.

— Se você achou mesmo que eu estava me relacionando com o Steve Bailey, você está muito enganado — disse ela, friamente, ao olhar para Edward vestido com as roupas do garoto. Edward percebeu que ela se referia a ele e se pronunciou após minutos calado.

— Eu não tenho nada a ver com isso. Tira-me daqui, seu arrombado — gritou Edward com Daniel, mas ele não se mexeu nem respondeu. Estava com uma cara abatida. Triste como todo o hotel Huster.

— Você chora demais, fedelho — Samara disse e Edward foi arremessado longe. Por uma força que ainda era vívida naquela Samara. Ele caiu inconsciente.

Samara andou em círculos, enquanto pensava em algo. Ela olhou para Daniel e disse: — Sabe o que eu estou pensando?

— Eu sinto muito… — disse Daniel.

— Não — ela se aproximou mais dele. — Você me deixou morrer. Você não parou o carro. Todo aquele papo de que eu morri instantaneamente foi tudo inventado por seu papai policial, não é mesmo? Você pensou o quê? Que pessoas mortas não sabem das coisas? Pois, eu sei muito sobre você, Daniel Smith. Eu te acompanho há anos, esperando pelo momento de ter a força suficiente para vir novamente aqui acertar as contas com você, como eu havia prometido. Eu morri de frio. Morri sozinha! Que tal você morrer acompanhado pelo fedelho? Que tal se for quente, como a droga do amor que você tinha por mim? — Naquele momento, muitas cadeiras do auditório começaram a pegar fogo, incluindo as cortinas que havia nas paredes. O trio de espiões levou um susto ao ver estarem lidando com algo muito além do esperado.

— Não! — gritou Bill e se levantou. Adam e Melissa tremeram. Eles não podiam acreditar que ele estava fazendo aquilo. Bill Lewis entrara na conversa e pretendia finalizar a discussão. Samara se virou e quieta, observou Bill por alguns segundos.

— Justin? — disse ela e começou a chorar. As paredes em chamas iluminavam os olhos brilhantes de Samara. Bill não enxergava mais a amiga Julia. Ele se aproximou e viu ser uma nova garota, a que ele poderia tentar ajudar. Bill desceu as escadas e ficou ainda mais próximo. Algo surreal aconteceu. O espirito de Samara se desconectou do corpo de Julia que despencou no chão, inconsciente. Bill deu um passo para trás, diante de uma pessoa que ele não conseguia entender se estava viva ou morta.

— Eu te esperei por tanto tempo, querido — disse ela e tocou o rosto de Bill. Ele sentiu um frio que percorreu por toda sua coluna. — Eu disse que voltaria para buscá-lo. Podemos viver juntos para sempre, querido.

Bill permaneceu calado. Ele não entendia, mas sabia que sua presença trazia paz para ela. Então, continuou ali, enquanto Melissa e Adam foram até os outros. Adam passou por Daniel e ele estava quase hipnotizado, observando o espírito de Samara. Adam pegou Julia no colo e a ergueu.

— Tenta acordar o nerdzinho — Adam pediu para Melissa. E ela foi até ele. Edward estava retomando sua consciência e ficou surpreso ao ver o auditório em chamas. O calor ali estava aumentando. — Vamos levá-los para fora e depois buscamos o Bill.

 — Não quero deixar o Bill — Melissa disse, sustentando o corpo fraco de Edward. Ela olhou para o Bill e ele assentiu com a cabeça. Ela via um homem agora. Ele sabia o que estava fazendo e aquele pequeno momento de contato visual foi suficiente para ela.

— Vamos sair daqui logo antes que todos nós viremos um churrasquinho de hormônios — Adam pediu e saiu com Julia nos braços. Ela ainda estava inconsciente.

Adam e Melissa levaram os dois para o andar inferior e saíram pela porta da frente. Haviam carros da polícia parando frente ao hotel Huster. Uma sireno da equipe de bombeiros da cidade, ecoava pelo ar. Alguns policiais os cercaram.

Enquanto isso, Daniel ainda observava os dois. Ele estava num transe profundo. Se ele não respondesse, ele morreria ali. Bill também.

— Você precisa confiar em mim — Bill disse para o espírito de Samara que assentiu com um sim, seguido de um sorriso. Eles saíram por uma das portas. O fogo consumia cada vez mais aquele salão. Havia fumaça por todo lugar. Bill não conseguia respirar direito, mas entrou em algum outro lugar onde estava vazio e escuro. Era ele e Samara agora.

— Eu vou acabar com vocês dois! — Daniel disse aos berros e atirou para o alto. Bill escutou o som do tiro e sabia que ele estava se referindo a eles.

— Ele está vindo — disse Bill e saiu do quarto, acessando os corredores e descendo para o andar de baixo. — Preciso me esconder.

— Quando vamos ficar juntos? — Samara perguntou, enquanto perseguia o garoto pelos corredores. Bill não tinha a resposta, mas ele parou. Ele tinha que dizer algo, mas ele não disse. Ele fez algo. Bill beijou Samara. Ou melhor, o espirito dela. — Não deixa ele me pegar — continuou Bill, ainda receoso com os gritos e com os disparos. Samara assentiu e subiu as escadas. Ela estaria indo atrás de Daniel. Bill soltou o ar, como se tivesse prendido a respiração por muito tempo e percebeu estar cada vez mais difícil de estar ali. Ele precisava achar uma saída. Bill correu pelos corredores e tentou se lembrar por onde tinham vido ou por onde seria a saída. Todas as portas que ele abriam, dava acesso a quartos vazios e escuros. Escuros e frios como os olhos de Samara.

— Bill… — uma voz disse, bem atrás dele. Bill parou e congelou de medo. Era familiar. Era o Tommy-balão. A voz vinha de um quarto escuro. Bill olhou para dentro e não conseguia ver nada. Mas logo, ele saiu à luz. Tommy-balão parecia assustado. Estava retraído. Meio tímido. 

— Está quente aqui, não acha? — disse ele e Bill esfregou os olhos. — Se você vier aqui, podemos ir para à terra dos doces com montanhas de chocolate e rios de achocolatado. Você sempre desejou isso Bill, eu sei. Se você ficar, poderá ser perseguido pela garota morta para o resto de sua miserável vidinha  — ele concluiu e sorriu, parecendo estar certo.

— Você não é real… Bill disse alto. E o teto do quarto desabou, com fogo e madeiras em chama. Elas caíram ao lado de Tommy-balão e o derrubou no chão.

— Bill… Você precisa me salvar, amiguinho — Tommy-balão pediu, enquanto seu corpo pegava fogo. Sua cabeça de balão estourou literalmente como um balão no final de uma festa de aniversário tediosa. — Billl…

Bill rapidamente fechou a porta e correu pelos corredores, chegando à recepção e saindo pela porta da frente. Os bombeiros já combatiam as primeiras chamas que saíam pelas janelas do hotel Huster. Melissa encontrou Bill e o abraçou.

— Cadê o Adam? — perguntou Melissa, desesperadamente. 

— Como assim?

 — Que droga! Ele entrou para procurar você, Bill — as palavras de Melissa acertaram a cabeça de Bill como uma bala e ele viu o mundo girar. Viu Julia sendo socorrida numa ambulância e Edward no carro da polícia com um cobertor térmico. Bill também viu homens. Eram bombeiros e eles vinham na direção dele.

— Eu vou procurar ele — Bill disse e correu para dentro.

— Ei garoto! — um dos bombeiros gritou, mas isso não o deteve. Bill estava novamente no hotel Huster. Ele correu pelos corredores, para onde quer que sua mente o levasse.

Estava mais quente e sufocante. Bill não conseguia respirar muito bem, mas ele gritava. Gritava o nome de Adam.

— Adam! Adam! — ele correu pelos corredores do primeiro piso e tropeçou em algo. Era o corpo de Adam. Ele estava aparentemente desacordado devido à fumaça. Como se preenchido com uma força sobrenatural. Bill Lewis levantou o corpo de Adam Wason, o garoto mais irritante de todo o colégio Doctor John Dalton, o cara que tinha o dobro do tamanho e do peso de Bill. Ele levantou porque ele teria que fazer aqui.

— Lutar ou fugir… lutar ou fugir… — Bill falava um mantra baixinho, enquanto carregava Adam nas costas. Ele ia devagar pelo corredor, quando o teto desabou bem em sua frente. Era fogo e madeira em chamas. Ele deu a volta e teria agora, que encontrar uma nova saída.

Do lado de fora. Melissa esperava angustiadamente uma resposta do céu sobre Bill e Adam, mas o que aconteceu diante de todos os oficiais que estavam ali, vinha a deixá-la, terrivelmente desesperada. Uma grande parte de madeira cai sobre a entrada principal. Os bombeiros já previam isso. Não era possível entrar. Bill e Adam estavam lá dentro. Melissa começou a chorar e abraçou Edward, que também estava em prantos. Os bombeiros lutavam desesperadamente para conter as chamas.

— Aqui! — alguém gritou e foi alto o suficiente para chamar a atenção de Melissa e de todos. Era Bill e Adam. Eles saíram por uma das saídas de emergência do hotel. Alguns bombeiros foram ao encontro deles. Melissa chorou ainda mais. Ela soluçava. Ela chorava de felicidade. Edward esboçou um sorrisinho e fechou os olhos. Ele agradecia por eles estarem bem.

Bill colocou o corpo de Adam no chão e ele parecia retomar a consciência.

— Fedelho… — disse Adam, com a voz embargada. Os olhos dele reviraram-se na cavidade ocular. Ele tossia muito. — Você me salvou.

Bill respirou fundo e apenas sorriu.

— Por quê? — perguntou Adam.

— É o que amigos fazem um pelo outro, não é? — foi a resposta dele. Os bombeiros colocaram Adam na maca e o retiraram de perto de Bill que o acompanhou com os olhos até a ambulância.

Bill foi também foi direcionado para a ambulância. Julia, Melissa e Edward o abraçaram. Como se ele fosse precioso demais naquele momento. E Bill Lewis era.

Os pais de Bill chegaram ao local em um carro e rapidamente desceram, assim que estacionaram ali próximo. Eles correram em direção ao garoto.

— Pai… Mãe… — Bill os abraçou e eles retribuíram. A mãe de Bill chorava, seu pai apenas orava baixinho por tudo ter ficado bem. — Vai ficar tudo bem agora.

— Sim. Vai ficar tudo bem — disse Larry e caiu no choro. Bill tinha costume de ver o pai chorar.

— Pai… — Bill tentou encontrar os olhos dele — aconteceu alguma coisa, além disso aqui?

— Seu tio… Meu querido irmão, Justin acabou de falecer — ele respondeu e tornou a chorar. Bill o abraçou. Tio Justin. Ele pensou e apenas esteve presente para o pai, como um suporte. Sabia que certas coisas aconteciam por um motivo e estava feliz pelo motivo de estarem todos unidos. Mas uma coisa BIll Lewis tinha certeza, De todas as coisas estranhas da vida e da morte, talvez a mais fascinante delas seja a capacidade de como alguns sentimentos são eternizados.

Fim

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