Home / Paranormal / Com Amor, Samara / PARTE 28: BRINCANDO COM FOGO

Share

PARTE 28: BRINCANDO COM FOGO

Author: MAGNO NOVAES
last update publish date: 2022-03-21 06:47:26

Edward estava algemado à cama em um quarto escuro com paredes azuis. Suas roupas eram elegantes e pareciam ser da década passada. Um suéter de lã de cor vermelha-escura cobria seu torso — na vestimenta havia um broche. Era uma pombinha dourada. — O jovem olhou para os lados quando acordou novamente de seu sono nada agradável e viu, agora que seus olhos se adaptaram à escuridão, que o ambiente estava repleto de fotos de uma garota. Era Samara? Edward sabia que sim. Até onde ele se lembrava, ele veio para a casa dos Morris e sabe-se lá o motivo, ele estava no quarto que intuitivamente soava ser de uma garota. De uma garota morta. Os olhos do garoto varreram o quarto, observando cada canto e com um receio que estava no centro de sua garganta, como uma bola de muco quando se está muito gripado. Edward então escutou alguns passos que faziam as madeiras do piso rangerem como monstros resmungões. Ele fechou os olhos, fingindo estar dormindo, quando escutou a porta ser destrancada e aberta abruptamente.

— Está quase na hora… — Daniel falou apressado, verificando as horas em seu relógio de pulso. Ele foi até onde Edward estava e fez um sinal com a mão, pedindo silêncio. Rápido como um forasteiro que retira sua arma do coldre, ele retirou a mordaça da boca do jovem que esboçou um quase grito.

— Quero ir embora! — disse Edward, decidido, mas ele sabia que Daniel não iria atendê-lo. — Por quê me vestiu assim?

— Isso faz parte do ritual — respondeu Daniel. Ele parecia transtornado com algo. Havia um remorso que era notável em seu olhar. — Agora venha comigo.

— Ritual? É melhor você me soltar…

— Devo fazer isso quando tudo acabar, com a condição de que você não poderá falar nada a ninguém — Daniel pediu, segurando Edward pelos braços —, anda! Promete que não vai falar nada sobre isso. Você não me viu e nem me conhece. Você apenas fugiu de casa e retornou porque se sentiu culpado.

— Você está ficando louco. Você me sequestrou e me manteve em cárcere privado e você quer que eu fique quieto? A polícia já deve estar fazendo as investigações, logo você estará na mira e eles irão me encontrar — a certeza de Edward era tão clara e objetiva que Daniel conseguiu visualizar num filme mental viaturas do departamento de segurança pública de Liontown parando na frente da casa. Chamariam a interpol se fosse preciso. Meninos desaparecem às vezes, mas muitas das vezes existe algo muito ruim por trás desses sumiços e a polícia sabe disso. Ele sabia que quando os policiais falassem o nome dele pelo alto-falante, ele discutiria com os oficiais antes de um sniper acertá-lo com uma bala no meio da testa. 

— Cala boca! — Daniel colocou as mãos na cabeça e andou em círculos. — Você tem que me prometer, garoto! Eu não quero ser preso novamente…

Edward pensou por um momento. Ele acreditava que se Daniel o movesse para outro lugar, ele poderia ter a chance de ter as mãos livres e usá-las para desatar a corda amarrada em seus tornozelos, e por fim, escapar.

— Você precisa de ajuda… — respondeu Edward levantando a mão e mostrando as algemas. — Me tira daqui.

Daniel se aproximou dele com um pedaço de flanela umedecido com clorofórmio e colocou no rosto de Edward. Ele desmaiou em segundos.

_____________________

Colégio Doctor John Dalton. Liontown.

25 de outubro de 1977.

Brincando com fogo

Quando Samara encontrou um dos pares de botas, pintado num tom cor-de-rosa, ela começou a entrar em um estado de angústia e medo por dois motivos: primeiro, a mãe dela iria pirar, como costuma surtar quando ela chega com a roupa suja, indiferente o culpado, e segundo, sua pior versão viria à superfície. Uma versão dela mesma que até ela temia. Os primeiros cochichos e risadinhas começaram no vestiário feminino, mas ela sabia, de alguma forma sobrenatural ou intuitiva — ela não sabia diferenciar de onde costumavam vir aquelas vozes —, que nenhuma daquelas garotas que estavam ali havia feito aquilo. Ela sentia ser um garoto, cuja inquietação e rebeldia, o levaria a pagar por aquilo. Samara tinha uma aversão a sujeira e ficar com os pés descalços, era pior que ser vista com botas de cores diferentes. Ela calçou primeiro o par cor-de-rosa e o analisou com desprezo. Ainda era possível sentir o cheiro de tinta que a fazia lembrar do verão. Seu pai costumava pintar a cerca no verão. Por fim, ela colocou o outro par. Um ao lado do outro, pareciam pertencer a universos diferentes. Samara percebeu que duas meninas viram e comentaram sobre aquilo, mas o restante delas não havia percebido. E se ela fosse rápida, poderia sair e ir para sua casa e ninguém poderia perceber. Ela era invisível a maior parte do tempo, não era agora que eles iriam vê-la perambular por aí com um calçado de cores diferentes. Samara saiu do vestiário apressada, mas se esbarrou em Tony. Ele olhou para seus pés, como se fosse atraído para eles. Por que raios a droga do pão sempre cai com o lado da pasta de amendoim para baixo?

— Olha por onde anda, esquisita — resmungou ele, mas sua cara de raiva tornou-se neutra, e em seguida parecia ter tido um derrame de dúvidas. Ele arqueou uma das sobrancelhas e perguntou como um esquilo caipira: — o circu já chegou na cidadi?

Uma onda de calor desceu pelo estômago de Samara e ela ficou vermelha. Tão vermelha quanto os lábios de Tony, que costumava roubar o gloss de cereja da mãe.

— Se precisar de novos calçados, a seção de achados e perdidos fica por ali — disse ele, sorrindo. Samara continuou andando. Dar atenção a ele era como pedir que coisas ruins acontecessem. Samara parou no meio do pátio, observando todos os olhares atentos. De invisível à superstar — aquele maldito momento chegara na pior hora —. Daniel que estava do outro lado do pátio com alguns jovens, largou uma bola de basquete que tinha em mãos quando viu Samara naquela situação constrangedora. Ele não acreditou que aquele infeliz havia feito aquilo com ela. Se ele fosse realmente bom em diferenciar cores, como diferenciara a cor do sino antes, saberia que um dos pares de botas de Samara Morris estava cor-de-rosa, como a cor do… agora, os olhos de Daniel voltaram-se para o sino e ele resplandecia, como um globo espelhado no salão de festas, entretanto, neste caso, contemplava o circo dos horrores de Doctor John Dalton. 

— Tic… tac… Que horas são? Hora do show do horror — disse Tony, com um sorriso inapagável — Ei pessoal! A aberração mudou de papel. Agora ela é palhaço.

Todos começaram a rir, num coral estranho. Eram risadas e olhares que se misturavam a dedos longos e finos que apontavam para ela. Apontavam para os pés de Samara. Dedos que enxergavam uma garota corar de vergonha enquanto seu coração se esfriava, como se fosse despejado nele, nitrogênio líquido. O riso continuou, como uma revoada de gaivotas, mas Daniel era exceção. Ele não riu. Não conseguia rir daquilo. Ele estava furioso.

Samara olhou para seus dois amigos, Paul e Amy, mas eles viraram as costas. Tinham medo de se envolver e serem também alvo de chacota. Daniel deu um passo à frente, ele iria repreender a atitude de Tony, mas outro cara se aproximou primeiro, era Steve Bailey.

— Você é ridículo, Tony — falou Steve, quando entrou no meio dos dois. Steve estava tão enfurecido quanto Daniel, mas naquele caso em especial, ele havia juntado remorso de uma antiga rixa entre eles dois. Era uma sensação de conflito tão intensa que Tony evitava cruzar o caminho do Steve. — É melhor dar o fora.

— Ou o quê?

— Ou todo mundo irá saber que você ainda mija nas calças, bebezão — Steve falou com tanta certeza, que Tony mudou a expressão de felicidade para medo e apreensão, — agora caia fora.

Tony se retirou e Steve se virou para Samara, observando-a com ternura. Eles nunca haviam se encontrado, mas naquele momento Samara se sentiu sortuda, por pelo menos alguém se importar com ela. Ela não estava no seu melhor momento, a raiva reprimida e o rancor por todos os alunos do colégio, incluindo seus amigos infiéis — assim ela acreditava —, destruíram a autoestima dela. E tem coisa pior do que se sentir desprezado e ridículo? Eles estavam alimentando o que ela chamava de monstro interior. Um verme que se bem alimentado, consome seus hospedeiros gradualmente e o usa como uma máquina para as maiores e mais horrendas atrocidades. E ela já fizera isso antes, apesar de ter se culpado por aquilo, mas novos episódios de terror e tensão naquele colégio, apenas faziam Samara perceber que, culpar-se pela morte daquela garota era um exagero. Eles mereciam. Todos aqueles vermes mereciam.

Samara olhou nos profundos olhos castanhos de Steve e tentou sentir gratidão por aquilo, mas não sentiu absolutamente nada. O pequeno impulso de fala percorreu sua garganta e saiu sutilmente em um breve agradecimento: — obrigada — disse e continuou a andar, indo para fora dos portões do colégio. Ainda era possível ouvir risos. O sino cor-de-rosa despencou da torre, caindo como uma bala de canhão, causando um estrondo ensurdecedor. Agora eles se calaram e se dispersaram.

Daniel que não estava conformado com aquilo, a seguiu. Eles eram, agora, duas almas que caminhavam por uma rua fria e coberta de folhas alaranjadas, em dois diferentes estados de humor; uma delas com amor e pena e a outra com raiva e um ódio capaz de consumir mundos. Se Daniel pudesse enxergar o que os olhos sensíveis de médiuns veem, enxergaria uma nuvem densa e acinzentada percorrer pela calçada, desejosa por derramar-se por aí, aos cantos das praças de Liontown.

— Samara! — gritou Daniel. A voz dele saiu grossa, mas ele controlou o som, não queria assustá-la. A menina se virou, com os olhos baixos e miúdos, como alguém que está doente há dias, ela apenas voltou a olhar para a frente e caminhar. — Eu sinto muito.

Ele correu em sua direção, mas teria a primeira prova, de que Samara Morris era uma garota especial. Era uma menina verdadeiramente poderosa.

— Me deixe em paz! — Falou ela, alto o suficiente para ele ouvir a voz dela soar como se estivesse dentro de sua cabeça, mas Daniel era insistente no que queria.

— Eu tenho vontade de surrar aqueles garotos — desabafou ele e continuou —, mas, eu só seria mais um deles. Mais um covarde. Eu sinto muito pelo que aconteceu, talvez você encontre algo e eu quero me explicar, pois, eu não quero que entenda errado foi tudo…

Antes que Daniel terminasse de falar, seus pés colaram no chão, e ele quase levou um tombo. Samara parou e o encarou. Ainda que Daniel tentasse levantar os pés, ou movê-los, eles não saiam do lugar. Era como se estivessem pregados ao chão por uma das melhores colas já feitas. E ele pensou por meio segundo, se ainda fosse real, que tipo de droga a merendeira colocara no lanche de mais cedo. Ela tinha um jeito especial de tratar os garotos. Ela também tinha um jeito de alguém que drogaria garotos para depois então usá-los para algo que Daniel Smith nunca ousou imaginar. Mas não importava. Não importa mesmo! O que ele queria saber antes de mais nada é como seus pés grudaram ao chão da rua Collister…

Samara se aproximou de Daniel como um espírito que deseja possuir alguém, e encostou seus lábios na orelha do jovem, perto o bastante para ele ouvir a respiração irregular dela e um pequeno chiado na garganta. Sim, havia um comichão que estava lá há dias.

— Você é alguém bom, posso sentir, mas há algo… — disse ela, hesitando. Ele ainda estava petrificado ao chão daquela calçada, mas a única coisa em que Daniel focou a atenção foi em “o algo”. Não por ele ser curioso, mas pela forma como ela disse aquela palavra. Foi carregada de medo e dúvida. Talvez até mesmo pavor.

— Algo? Samara… — ele pensou em se declarar para ela, mas sentia que não era o momento. — Só me diz se realmente me quer longe e eu entendo.

— Eu sou alguém ruim. Eu sou um monstro. Talvez eles estejam certos. Eu sou uma aberração — as afirmações que Samara expressava eram o reflexo da aceitação submissa de uma imagem equivocada dela mesma, plantada por aqueles que só queriam machucá-la para se sentirem superiores.

— Se é em relação a… — Daniel olhou para seus pés, e arregalou os olhos —, isso… eu posso tentar entender.

Samara espremeu os olhos, e moveu a cabeça sutilmente para o lado, e Daniel avançou, como se fosse libertado da cola que o segurava ao chão. Ele sentiu até a inércia trabalhando e se ele tivesse prestado atenção às aulas de física do senhor Ruffman, saberia que aquilo era impossível.

— Você não entenderia…

— Eu posso entender… se você me disser, eu vou entender. Por favor, Samara.

Samara fechou os olhos e se controlou para não falar aquilo que ecoava em sua mente constantemente, como um pesadelo difícil de ser esquecido e ignorado. Samara tinha medo, ela era humana, mas os medos dela eram apenas sobre coisas que poderiam ser reais e prováveis de acontecer. Ela descartaria qualquer suposição negativa se visse que não teria cabimento, mas aquele… Aquele desagradável pensamento não era só um impulso de uma mente inquieta como a de Tony ou dos demais valentões do colégio Doctor John Dalton, mas sim, uma premonição.

— Eu vou morrer… Eu tenho essa certeza — disse ela, tão claramente como o céu daquela tarde de outono. Ele estava realmente limpo.

Daniel teve o primeiro impulso de dúvida, seguido de questionamentos internos comuns como; estaria ela com uma doença terminal? Ou o que ela quer dizer com isso? Mas ele apenas perguntou: — como é que é?

— Eu serei morta, na verdade. Mas eu não sei a forma. E antes de me chamar de louca e esquisita, coisas que eu já estou acostumada a ouvir, quero que saiba que só contei, porque tô tentando evitar isso, ou na pior das hipóteses, colaborando… e você está no meio disso tudo — ela respondeu, mas parecia confusa. Ter certeza que irá morrer é assustador, mas Samara queria ir contra esse pensamento. Ela pensava em fugir para longe. Fugir com um amor correspondido que tanto sonhou, mas Daniel não poderia saber. Ele jamais deveria saber aquilo. Exceto que ele poderia matá-la, pois se ela tinha realmente essa certeza, que pelo menos ele soubesse e se fosse para ser, que ele tomasse cautela com suas atitudes e ações futuras. Assim ela esperava. Mas assim não aconteceria.

— Eu? Isso é improvável… Não tem como prever como iremos morrer. Eu quero te ajudar, mas você precisa me ajudar. Fantasias não ajudam muito — disse ele, descrente.

— Você estava lá… — ela começou a chorar, na medida que lembrava da premonição estranha que vislumbrava há meses. — Neve… É frio e eu então caio num sono profundo.

— Eu gosto de você… Eu nunca iria machucá-la. Eu… — aquele velho impulso de declaração ainda apresentava resistência. Samara não estava bem, não mesmo, e falar que a ama poderia ser a gota d’água para uma confusão ainda maior. Ela era doida de pedra ou o quê? Por quê estou amando? As velhas questões sambavam na mente de Daniel, mas ele teve coragem de olhá-la nos olhos novamente.

— Samara. Você não vai morrer. Ninguém vai te machucar, está legal? Eu preciso te contar algo. Eu…

— Eu vou voltar…

Daniel teve mais uma overdose de dúvidas e meteu a mão na própria cara, sentindo o frio dela, enquanto se aquecia gradativamente, as dúvidas voavam para longe, como nuvens que se dissipam em um dia quente de verão. Ele respirou fundo, colocou as mãos no bolso e trouxe o tronco um pouco para a frente antes de perguntar: — voltar de onde?

— Eu não queria morrer… Eu amo… — A imagem do amado veio à mente de Samara e ela pensou novamente como seria reconfortante poder fugir com ele para longe daquilo tudo. Ela sabia que seria bom, mas sabia também que aquilo era só um pensamento de sua imaginação, diferente de uma premonição, este pode ou não acontecer.

Daniel pensou no que uma garota do ensino médio poderia amar naquele momento. Eu amo pizza, cigarros baratos ou quem sabe, sexo a três? O que faria sentido? Um garoto? Não, outro garoto. Agora Daniel conseguia entender certas coisas.

— Eu já entendi tudo… você está criando essa historinha de morrer, voltar, morrer, voltar, porque certamente gosta de alguém e eu estou muito na sua cola, como aqueles valentões que mal aguentam um fardo de milho das costas.

— Você me mata, Daniel! — ela gritou com ele, ao ponto de fazê-lo calar e remover as imagens de Samara com outro garoto que ele mesmo desenhou — eu não sei porque, mas peço que se afaste de mim. E se algo acontecer — Samara continuou, se aproximando dele e mudando a expressão. Ela estava com raiva e ódio. Uma mistura que se mal administrada poderia ser explosiva. — Saiba que eu irei voltar em trinta anos. Isso também é uma certeza. Eu preciso voltar. E quando eu voltar, eu vou acabar com você.

Daniel nunca imaginou ouvir a palavra “acabar” seguido do “você” vindo da boca de uma dama, principalmente quando se é uma garota com quem se tem uma paixão secreta, mas ele sabia que mulheres tinham certeza. Uma certeza que até o diabo duvida.

— Pode ficar tranquila. Eu vou sair do seu pé — falou ele, sem um pingo de vontade ou verdade. Ele não podia deixar de amar alguém. Não era uma pizza, cigarros baratos ou sexo com três. Era uma garota especial. Era a adorável e misteriosa Samara Morris. — Eu deixei um recadinho em sua bolsa. Poderia me devolver?

Samara olhou para os olhos profundos de Daniel e viu que eles estavam frescos como se fossem o próprio mar de dor. Ele estendeu a mão e ela abriu o zíper de sua mochila e ainda olhando para ele entregou o primeiro envelope que encontrou. Só não sabia estar cometendo outro pequeno equívoco.

— Obrigado. Bom, adeus, Samara — disse ele e virou as costas, enquanto ainda segurava com força o envelope. — Adeus, querida Samara — pensou e afogou o sentimento com um pequeno choro.

— Adeus, Daniel.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Com Amor, Samara   PARTE FINAL: SHOW DO HORROR

    HOTEL HUSTER - CELEBRANDO A VIDAO Hotel Huster foi palco de grandes eventos durante os anos oitenta e costumava receber muitos hóspedes durante a alta temporada, mas os anos de glória do Huster estavam com os dias contados. Administrado pelo ex-banqueiro de Liontown, Chad J. Graham, os negócios pareciam ter atrofiado. Os moradores costumavam chamar o Chad de dedo de ouro, por ser bom nos negócios, mas aquele em especial, fora sua primeira e última investida no ramo da hotelaria. O hotel perdeu capital por 20 anos, antes de fechar as portas há dez anos. Agora, era uma construção inútil à beira da rodovia Clyde. Clyde era conhecida por cortar toda a cidade e ser um dos principais pontos de entrada e saída do município. Mas não tinha um ser humano sequer que saísse ou entrasse em Liontown e não reparasse o hotel. Ele ainda par

  • Com Amor, Samara   PARTE 32: FRIO E ESCURIDÃO

    4 de novembro de 1977 - 16:30— Se você não falar para onde foi aquela retardada, pode ter certeza que eu tiro todos os dentes de sua boca e te mando para o céu, santinho — disse James, dando um soco na barriga de Paul. Tony segurava-o pelos braços, como alguém que segura um porco para o abate. — Fala!Paul puxou o ar para os pulmões e olhou para a floresta que havia logo depois da rua atrás do colégio. Era um aglomerado de árvores altas e densas. Era o caminho mais rápido se quisesse chegar à rodovia principal da cidade.— Ela foi para lá…— Maldita hora para ir pela floresta, aberração — falou James. Tony soltou Paul, que

  • Com Amor, Samara   PARTE 31: VIDA E MORTE (2)

    4 de novembro de 2007Quando o opala preto que Adam Wason estava dirigindo parou frente a antiga casa dos Morris. Ele teve uma intuição esquisita de que Edward não estaria ali. O tipo de intuição que ele não poderia compartilhar com os outros. Ele achava que essas coisas só eram sentidas por mulheres. Sua intuição se intensificou ao perceber haver rastros de pneu de carro por toda parte. Se Edward estivesse ali, não estaria mais.— Será que chamamos a atenção? — perguntou Melissa, com uma preocupação evidente. — Aqui é muito silencioso.— Se chamamos, quero estar preparado e saber que estou armado — retrucou Adam, com orgulho. Um orgulho quase doentio.

  • Com Amor, Samara   PARTE 30: VIDA E MORTE

    4 de novembro de 1977.Ninguém quer morrer. Pelo menos é assim que a maioria das pessoas pensa. Temos um instinto de defesa e sobrevivência que evoluiu há milhares de anos e nos preparou para os piores cenários. Algo que Bill Lewis sabia muito bem. Lutar ou fugir, estas eram as duas opções interessantes quando a questão era apenas sobreviver, e Bill estava usando-as. Já Samara Morris, em seu íntimo, tinha uma certeza que era assustadora. O tipo de certeza que ela tinha medo de verificar para ver se era realmente aquilo tudo, pois sabia que poderia ser muito pior. Ela ia morrer. Assassinato talvez. Só não sabia quando, como e porquê, o que era péssimo também. Entretanto, ela tinha esperança, do tipo que a fazia viver e esquecer o inevitável. A esperança que ela encontrou t

  • Com Amor, Samara   PARTE 29: BILL TOMA UMA DECISÃO

    Liontown. 4 de novembro de 2007Bill achou fácil convencer sua mãe a sair depois do almoço, pelo fato de que haviam prendido o suspeito do desaparecimento de duas crianças na região e de… Ele se esforçou para manter a imagem de Edward em um lugar seguro, mas ele só conseguia vê-lo flutuando de barriga para baixo, às margens do rio Wax. Isso o deixava mal. Mas era difícil de deixar de pensar em coisas ruins. Sua mente estava viciada em possibilidades negativas e ele se odiava por isso. Bill cruzou a avenida principal da cidade e se encontraria com Melissa e Adam depois dos trilhos da estação ferroviária de Liontown e ficariam ali debatendo as investigações. E entre fatos verdadeiramente concretos e imaginários, Bill e Adam estariam sempre divididos nas opiniões. Era o que cos

  • Com Amor, Samara   PARTE 28: BRINCANDO COM FOGO

    Edward estava algemado à cama em um quarto escuro com paredes azuis. Suas roupas eram elegantes e pareciam ser da década passada. Um suéter de lã de cor vermelha-escura cobria seu torso — na vestimenta havia um broche. Era uma pombinha dourada. — O jovem olhou para os lados quando acordou novamente de seu sono nada agradável e viu, agora que seus olhos se adaptaram à escuridão, que o ambiente estava repleto de fotos de uma garota. Era Samara? Edward sabia que sim. Até onde ele se lembrava, ele veio para a casa dos Morris e sabe-se lá o motivo, ele estava no quarto que intuitivamente soava ser de uma garota. De uma garota morta. Os olhos do garoto varreram o quarto, observando cada canto e com um receio que estava no centro de sua garganta, como uma bola de muco quando se está muito gripado. Edward então escutou alguns passos que faziam as madeiras do piso rangerem

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status