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PARTE 11: THE LIONTOWN POST

作者: MAGNO NOVAES
last update 公開日: 2021-12-24 21:11:30

Quando o sol não está mais presente no céu e as estrelas são as únicas criaturas a preenchê-lo, brilhando como pequenos insetos luminosos, cheios de alegria pela satisfação da reprodução e execução de suas minúsculas e importantes atividades, é nesse momento, entre a beleza da vida e os mistérios da morte, que coisas estranhas acontecem. Ninguém pode prever o futuro e mesmo se previsse, certamente a vida arrumaria um jeito de mudar tudo, porque a verdade da existência sempre pende ao mistério, mesmo que seja doloroso, feio e assustador.

Bill depositara uma bomba-relógio sentimental dentro dele — alguns costumam chamá-la culpa —. Esse sentimento é como um verme que se instala debaixo de sua pele e vai te devorando devagar. Primeiro começa como uma coceira, para depois se espalhar, e quando menos você espera, abre um buraco necrosado e em carne viva. Não há nada de elegante na culpa, ainda que seja algo que as pessoas costumam pendurar em seus pescoços, como um lindo colar de pérolas, A culpa também é dada, como um remédio, que mal administrado, se torna um veneno corrosivo. Mas talvez a pior de todas as artes de vivenciar esse sentimento, seja aplicando a si mesmo. Bill teve todos os avisos que precisou, mas quando queremos algo, ao menos, pensando que poderia ser o certo naquele momento, é aí que certas coisas da vida podem nos fazer repensar.

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Boletim retirado do The Liontown Post.

1 de novembro de 2007, por James A. Nolan.

ADOLESCENTE MORRE EM BRINCADEIRA DE HALLOWEEN. Os trotes e peripécias de jogos macabros executados por adolescentes, acabaram em tragédia na noite de sexta-feira, 29. O departamento de segurança pública do condado de Delaware recebeu inúmeras chamadas e trotes das cinco principais cidades da região, incluindo New Madison, Greenview, Bristol, Clinton e Liontown. Desde brincadeiras que importunam e atrapalham o sistema de segurança pública, até mesmo, tragédias que se tornam quase que inevitáveis nesta época do ano, em um tsunami de eventos paranormais.

Só na cidade de Greenview, a cerca de 300 quilômetros da capital, dois adolescentes foram responsáveis por bombardear com ovos, quatorze residências, num curto espaço de tempo de duas horas. Eles foram detidos e encaminhados para a delegacia da cidade e receberam uma notificação por desordem pública e vandalismo. Já no norte do condado, em Greenview, uma festa do Colégio John Kennedy acabou em discussão generalizada, depois de um grupo de jovens do colégio vizinho terem preenchido o ponche com dois litros de vodka. A discussão acabou em pancadaria e até um cachorro chamado Chorume, entrou no meio da confusão, levado para depor junto.

De todas as confusões deste feriadão de Dia das Bruxas, o mais trágico e lamentável ocorreu no sábado (30), em Clinton, ao sul, onde duas jovens se envolveram em um desafio universitário e acabaram entrando para a lista de tragédias de Delaware. O que aparentava ser uma brincadeira para assustar, custou a vida da jovem Paty Lorens, de dezessete anos, que caiu do quinto andar de uma velha mansão abandonada. O objetivo do jogo era ver quem conseguiria colocar um adesivo na parte mais alta do casarão. Aquele adesivo era do time de beisebol local, equipe essa, que ganhou dois campeonatos consecutivos em 2005 e 2006. Ele tinha dois metros de comprimento e 1,5 de largura. Segundo relatos, Paty teria se desequilibrado depois que uma corrente de ar puxou o grande cartaz como uma vela, fazendo despencar sobre estacas que haviam no jardim da casa, perfurando seu tronco em diferentes partes. Ela morreu na hora. O departamento de polícia investiga o caso.

Mais destaques do fim de semana: Liontown no escuro: nossa cidade teve um apagão misterioso na última sexta-feira, às 19h, que durou doze horas, mas autoridades municipais ainda não sabem ao certo o que provocou o evento. Para mais informações acesse: www.us.liontown.com

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— Não! — a mãe de Bill expressou sua negação, num pequeno e afirmativo impulso, se sentando ao lado dele, no sofá que há na sala de estar. Estavam assistindo um noticiário local — o tipo de coisa que Bill sempre detestou, pois, só comentavam desgraças, e destas desordens ele queria férias —. Eva estava decepcionada com ele. A pena do castigo aumentara e possivelmente ele pegaria perpétua se continuasse falando, mas ele tinha esperanças de visitar a amiga Melissa. Desde do dia que ela caiu e bateu a cabeça, ele só recebera notícias dela através de chamadas com a família da jovem. Ela estava se recuperando em casa. A queda que tomou abriu três pontos em sua cabeça e por sorte ela não rachou a cuca naquele dia. Até quando Bill tenta se lembrar como saiu de lá, ele consegue sentir de novo todo o ar de confusão e medo que viveram. Foi rápido. John pegou em seus braços o corpo desmaiado de Melissa, e o colocou delicadamente, no fundo da camionete e deram no pé, diretamente para o hospital local. Mas foi difícil sair de lá sozinhos, pois todos eram menores de idade. Foi preciso envolver o pai de Adam, que era o responsável pelo carro em que estavam. Até onde Bill sabe, o pai alcoólatra do garoto lhe deu uma surra de deixar marcas, e dizem que ele passou o final de semana em casa a base de pomada para queimadura. Bill mal conseguia imaginar o que aconteceria quando eles se encontrassem de novo.

— Como eu disse, mãe. Eu sinto muito! Ela é minha amiga e preciso vê-la — ele implorava-lhe, mas ela poderia ser severo o quanto fosse, o silêncio dela sempre era mais doloroso. — Foi uma grande estupidez ir até lá...

Silêncio. Ela mudou de canal. A rolagem de canais parou em alguns patinhos pulando em uma lagoa. Ela os observou com ternura, mas ainda atenta ao falatório de Bill e sua inquietante habilidade de se redimir facilmente de erros.

— Peça para seu pai, Bill — passar uma situação para o senhor Lewis era algo que Eva só fazia em situações de extrema necessidade e esta era uma delas. Bill sempre foi um bom garoto, de ideias simplistas, mas era extremamente teimoso e isso fazia Eva se sentir fora do controle. Há uma linha tênue que os pais rompem quando os filhos saem de zona-do-controle, e entram na zona-da-independência, ambiente este que era como tentar segurar água com a mão aberta, enquanto ela se espalha entre os dedos, vazando e te dizendo claramente de que não importa seu esforço, você não pode impedi-la.

Larry era um bunda-mole, mas o mais justo dos pais. Entretanto, Bill sabia que conversar com ele era uma tarefa em vão, afinal, ele não tinha poder de decisão definitiva naquela casa. Contudo, o assunto chegara ao ouvido do senhor do lar de uma maneira diferente, do jeito que lhe dizia "ou você faz algo, ou você sempre será um bundão". Larry queria ser diferente de seu pai, que sempre o repreendia, mas dar colher de chá para as teimosias de Bill poderia não fazê-lo um bom pai, e ele sabia disso. Desta vez ele só pediu, como de costume, que ele fosse para o colégio e desse seu melhor. O que os garotos fizeram foi uma grande baboseira, das que os pais sempre alertam quando eles estão prestes a sair de casa para mais uma brincadeira. Mas eles não gastariam um pouco de suas audições juvenis para tentar ouvir uma nota sequer de conselho. Bill estava encrencado... Era tido como o mentiroso e irresponsável da rua Sunnywine. Naquela altura, ele sabia que as velhas fofoqueiras da rua de baixo, se esbaldavam com o nome dele, na boca, dizendo com todas as letras que ele sempre foi um menino desajuizado e desobediente e que se envolveu com brincadeiras irresponsáveis que tiraram quase a vida da filha dos Bayer. "Ficou sabendo da nova? O menino doido dos Lewis estava envolvido na brincadeira quase trágica da última sexta-feira." "Fiquei sabendo sim. Ele é doido como a tia dele. Aquela mulher é tão maluca que já está no nível de andar de calcinha na rua. Deus tenha misericórdia da família doida deles." "Ainda por cima estavam usando drogas e transando como coelhos. Esses moleques de hoje."

— Vá para o colégio, Bill — disse Larry, batendo na bunda dele. Bill detestava isso. Lembrava de quando era criança e tinha que guardar a roupa suja no cesto, sob ameaça de levar palmadas. — Seja um bom garoto.

Ele não queria ir estudar. Não queria poder encarar a realidade que viria e também porque não tinha tempo, nem inspiração, sequer, para criar uma redação sobre uma lenda da região. Ele não sentiria o doce beijo da criatividade, nem se fizesse suco de cérebro de meninos desobedientes como ele. A única coisa que o confortava, se é que ele poderia afirmar que aquilo seria conforto suficiente, foi perceber, quase que desatentamente, que não tinha mais visto Tommy-balão e que suas paranoias, ainda que fossem algo que o deixava preocupado, diminuíram.

"É um novo dia." Pensou Bill, passando paz e ideia de dias melhores. Ele colocou a camiseta de lã que era quente o suficiente para só ser usada em dias frios como aquele. Colocou um suéter por cima e o casaco. Precisou até mesmo de uma touca. Ele olhou para fora, através da janela de seu quarto. O céu estava cinza, mas não ameaçava chuva, senão um possível princípio de neve. Neve em pleno outono. Queria mais bizarrices que aquela?

— As luvas, Bituca — seu pai apareceu na porta do quarto, cuidando dele. Bill se sentia infantil de novo. Ele franziu a sobrancelha, mas sabia que quando ele o chamava assim, era porque ele não estava bravo pra burro. Talvez um bravo pra coiote — o que era menor que um burro, e isso já era um bom sinal —. A curiosidade por trás do apelido sempre o fazia rir internamente, ainda que ele não demonstrasse. Sua mãe costumava fumar muito e isso sempre foi um problema, tanto para ela como para os demais membros da casa, que eram fumantes passivos. Bill tinha seus dois, quase três anos, quando juntava as bitucas de cigarro, de onde quer que ele achasse, pois, pensava que aquilo eram insetos mortos. Bill tinha a impressão sutil de imaginar que sua mãe queimava insetos para cheirá-los. Cheirar o fedor deles, e eles eram realmente malcheirosos, mas ele não se importava em pegá-los e guardá-los em algum pote transparente de geleia.

— O que a previsão diz, pai? — perguntou Bill, colocando as botas que estavam ficando apertadas. Naquela altura, ele trocava de número do calçado a cada verão.

— Diz que meninos obedientes vão direto para o colégio. E também que há possibilidade de neve esta semana — sorriu, saindo da porta e o deixando em reflexão.

Todas as árvores da rua Sunnywine onde Bill morava, estavam carecas e sem folhas. O que indicava o ápice do ponto onde o frio intenso tomaria toda a região. Era de costume nevar muito em Liontown. Era tão comum que eles costumavam chamá-la de Gelotown.

Alguns passos à frente da casa, do lado da caixinha do correio, Bill notou um envelope amarelo, como gema de ovo e decidiu pegá-lo. LIBERDADE. Assim estava escrito. Em letras de forma e escrita à mão — a letra era bonita, ele achou —. Ele se admirou pelo fato do envelope estar muito bem embalado, diferente das correspondências entregues por Daniel, que vinham sempre amassadas e com as pontas dobradas. Bill a colocou no primeiro bolso da mochila e a fechou, desejando ansiosamente estar em um lugar isolado para abri-lo e ler o que teria ali. Culpa. Toda vez que ele fazia algo, sua mente lhe dava um peteleco, fazendo-o perceber de que deveria prestar atenção nas ações que fazia. Mas Bill sabia que a maioria das correspondências, pelo menos as que os pais recebiam, tinham informações sobre o remetente do lado de fora do envelope, o que difere daquele em específico. Ele até pensou que poderia ser um convite da igreja local. O reverendo Hook costumava convocar os cidadãos para uma reunião especial, um dia após o dia das bruxas. Se assim fosse, ele também não se importaria. Havia boa comida nestas reuniões.

Bill puxou as bordas da touca que cobria seu liso cabelo castanho, e tapou suas orelhas. Aquele movimento fez um ruído branco como a chuva. Mas apesar da leve camada acústica, ele pôde ouvir alguém chamar seu nome, num som abafado, mas audível. Era Edward. Ele estava sobre a bicicleta e vestido a caráter para a semana fria de aulas. Bill o olhou com uma cara de arrependimento, e Edward retrucou o olhar com outra cara de ainda mais arrependido, por falar a Melissa, onde estavam naquele dia, e para onde estavam indo.

— Bill. Você está bem? — indagou, Edward. Ele não costumava perguntar sobre como ele estava se sentindo, pois, sabia sempre que a resposta dele seria um, "sim, claro." Ainda que ele não demonstrasse isso.

— Sim, claro.

— Quer uma carona?

Bill sorriu e subiu na bicicleta. Edward percorreu pelos quarteirões, subindo em calçadas e descendo pequenas ladeiras, até parar em frente a padaria de seu pai, que ficava numa rua oposta à direção do caminho para o colégio. Bill pensou que não seria um problema sair da rota, mas sua consciência o criticava e o chamava de irresponsável. O que o fazia estar neutro diante daquele falatório mental era o fato dele não estar comandando a bicicleta.

Edward desceu e entregou algo para o pai — o senhor Bailey olhou para o Bill com uma cara séria, mas ele não se importou.

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