LOGIN4 de novembro de 1977 - 16:30
— Se você não falar para onde foi aquela retardada, pode ter certeza que eu tiro todos os dentes de sua boca e te mando para o céu, santinho — disse James, dando um soco na barriga de Paul. Tony segurava-o pelos braços, como alguém que segura um porco para o abate. — Fala!
Paul puxou o ar para os pulmões e olhou para a floresta que havia logo depois da rua atrás do colégio. Era um aglomerado de árvores altas e densas. Era o caminho mais rápido se quisesse chegar à rodovia principal da cidade.
— Ela foi para lá…
— M*****a hora para ir pela floresta, aberração — falou James. Tony soltou Paul, que caiu de joelhos ao chão e puxou mais oxigênio para seus pulmões. Ele retomava as forças.
James e Tony subiram na bicicleta com os utensílios da peça que iriam pregar em Samara. Era a versão contada por James desde sempre. Eles pegaram a trilha a 50 quilômetros por hora. Estavam voando como uma bala. Seus corpos e mentes ansiavam pela zombaria que iriam fazer com a pobre coitada. Mas eles não sabiam que estariam vendo Samara pela última vez.
— Vamos pegar você, aberração! — gritava James e o som de sua voz ecoava entre as árvores. De repente, o pneu da bicicleta pareceu prender em algo, e na velocidade que estavam, foram arremessados. Entretanto, a queda era lenta, quase em slow motion, como se estivesse em uma cena de filme de ação. James caiu primeiro e gritou por parecer que estava vivendo um sonho lúcido ou algo do tipo, logo em seguida, foi acertado pelo corpo de Tony, que também estava gritando de medo.
Samara saiu de trás de uma árvore e os observou com uma serenidade generosa. Ela saboreou o medo deles, e agora, eles que estavam se borrando todo. Ela começou a pensar que seria a última vez que ia olhar para a cara daqueles ratos, e poderia deixar uma lembrancinha como recordação.
— M*****a hora de vir pela floresta — disse Samara e sorriu. Ela cruzou os braços e se aproximou deles dois. Ambos engatinharam para trás, mas logo foram pegos. Segurados por uma força invisível, mas extremamente forte. Algo que Paul Davis chamaria como: obra do diabo. Samara era o diabo daqueles dois moleques naquele dia.
— Que porra é essa, Samara? — perguntou Tony, apavorado. Seus olhos e ouvidos doíam. Pareciam sofrer uma pressão.
— Nossa! Você sabe meu nome — retrucou Samara e o ergueu no ar, com uma força telecinética que ela só descobriu muito recentemente. Seus poderes eram mais que uma poderosa intuição.
— Eu achava que eu era conhecida como a ABERRAÇÃO! — gritou ela, e o apertou. Tony sentiu uma força esmagar sua caixa torácica, em seguida, seu braço quebraria, como um graveto.
— Deixa a gente em paz, por favor — pediu James, aos prantos.
— Eu não sabia que garotos grosseiros como vocês, tinham bons modos — ela o ergueu também e o chacoalhou como uma criança chacoalha um brinquedo. A perna de James quebrou na altura do joelho e o som não se propagou no ar. Nem os gritos. Os gritos de Tony e James estavam retidos por aquela força. Ninguém podia ouvi-los. — Quero que vocês se lembrem disso. Mas saiba que se alguém ao menos imaginar que eu tenha sido a responsável disso. Pode ter certeza que será muito pior.
Samara os soltou no chão e eles bateram no solo com força, num gemido rítmico. Ela correu para longe. Sabia que eles não iriam atrás dela. Eles receberam a lição. Uma lição dolorosa e assustadora. Samara estava em êxtase. Ela estava se sentindo livre como um pássaro. Por um momento Samara sentiu que seus pés haviam deixado o chão em que pisava. Ela estava descobrindo que poderia voar se quisesse. Samara continuou correndo e imaginou-se leve como uma pena. Sorrindo e ainda eufórica com o que acabou de acontecer, ela voou por um metro e quicou novamente no chão. Foi um grande salto, mas poderia ser melhor se tentasse de novo. Mais uma tentativa. Seus pés deixaram o chão. Ela sentiu seu corpo se elevar, envolvido pela força. Estava voando. Samara Morris podia voar. Ela estava a dois metros de altura agora. Sentia a brisa gelada em seu rosto e o cheiro do verde das folhas das árvores por onde passava. Aquela era uma velocidade de voo extremamente alta. Samara sentiu que poderia ir mais alto se quisesse. E ela fez. Estava a dez metros de altura. Alto o suficiente para se machucar feio caso caísse ou perdesse a consciência. Ela estava, agora, sobrevoando a rodovia Clyde. Estava quieta. Sem carros. Parecia fria e congelada. Samara então sentiu um puxão, como se fosse puxada pela gravidade. Ela era um avião sem combustível e só iria descobrir isso agora. Ela caiu por três metros, antes de recuperar a força no ar. A garota sabia que se ficasse nervosa, poderia despencar. Ainda estava a sete metros de altura. Samara desceu mais um pouco, ainda mais rápido. Ela gritou com o susto e com a hipótese de ir de cara com a rodovia. Samara respirou fundo e flutuou um pouco para o alto, para perceber miseravelmente que estava caindo de novo. Era como se estivesse em um paraquedas, mas sem chance de escolher um lugar de pouso. A rodovia Clyde parecia mais perto e mais… fria. Ela colocou a mão no rosto e espremeu os olhos. Parecia viver um pesadelo onde se caí de um lugar alto e sente a pressão na cabeça. Samara estava preparada para o impacto. Quando ela atingiu o asfalto congelado da rodovia, suas pernas quebraram instantaneamente. Foram as primeiras a tocar o solo. O resto do seu corpo, como se fosse apanhado por uma força que ainda a segurava, bateu com força, mas quicou como uma bola de tênis. Ela deslizou pela rodovia Clyde por uns dez metros antes de parar. Quando Samara retomou sua consciência, a única coisa que conseguiu ouvir foi o som de pneus freando em uma rodovia congelada. Ela sabia, assim como o resto dos moradores de Liontown, que um carro em uma pista congelada não consegue frear. Os olhos assustados do motorista foram a última coisa que ela viu antes do impacto. Eram olhos conhecidos. Eram os olhos de Daniel Smith.
HOTEL HUSTER - CELEBRANDO A VIDAO Hotel Huster foi palco de grandes eventos durante os anos oitenta e costumava receber muitos hóspedes durante a alta temporada, mas os anos de glória do Huster estavam com os dias contados. Administrado pelo ex-banqueiro de Liontown, Chad J. Graham, os negócios pareciam ter atrofiado. Os moradores costumavam chamar o Chad de dedo de ouro, por ser bom nos negócios, mas aquele em especial, fora sua primeira e última investida no ramo da hotelaria. O hotel perdeu capital por 20 anos, antes de fechar as portas há dez anos. Agora, era uma construção inútil à beira da rodovia Clyde. Clyde era conhecida por cortar toda a cidade e ser um dos principais pontos de entrada e saída do município. Mas não tinha um ser humano sequer que saísse ou entrasse em Liontown e não reparasse o hotel. Ele ainda par
4 de novembro de 1977 - 16:30— Se você não falar para onde foi aquela retardada, pode ter certeza que eu tiro todos os dentes de sua boca e te mando para o céu, santinho — disse James, dando um soco na barriga de Paul. Tony segurava-o pelos braços, como alguém que segura um porco para o abate. — Fala!Paul puxou o ar para os pulmões e olhou para a floresta que havia logo depois da rua atrás do colégio. Era um aglomerado de árvores altas e densas. Era o caminho mais rápido se quisesse chegar à rodovia principal da cidade.— Ela foi para lá…— Maldita hora para ir pela floresta, aberração — falou James. Tony soltou Paul, que
4 de novembro de 2007Quando o opala preto que Adam Wason estava dirigindo parou frente a antiga casa dos Morris. Ele teve uma intuição esquisita de que Edward não estaria ali. O tipo de intuição que ele não poderia compartilhar com os outros. Ele achava que essas coisas só eram sentidas por mulheres. Sua intuição se intensificou ao perceber haver rastros de pneu de carro por toda parte. Se Edward estivesse ali, não estaria mais.— Será que chamamos a atenção? — perguntou Melissa, com uma preocupação evidente. — Aqui é muito silencioso.— Se chamamos, quero estar preparado e saber que estou armado — retrucou Adam, com orgulho. Um orgulho quase doentio.
4 de novembro de 1977.Ninguém quer morrer. Pelo menos é assim que a maioria das pessoas pensa. Temos um instinto de defesa e sobrevivência que evoluiu há milhares de anos e nos preparou para os piores cenários. Algo que Bill Lewis sabia muito bem. Lutar ou fugir, estas eram as duas opções interessantes quando a questão era apenas sobreviver, e Bill estava usando-as. Já Samara Morris, em seu íntimo, tinha uma certeza que era assustadora. O tipo de certeza que ela tinha medo de verificar para ver se era realmente aquilo tudo, pois sabia que poderia ser muito pior. Ela ia morrer. Assassinato talvez. Só não sabia quando, como e porquê, o que era péssimo também. Entretanto, ela tinha esperança, do tipo que a fazia viver e esquecer o inevitável. A esperança que ela encontrou t
Liontown. 4 de novembro de 2007Bill achou fácil convencer sua mãe a sair depois do almoço, pelo fato de que haviam prendido o suspeito do desaparecimento de duas crianças na região e de… Ele se esforçou para manter a imagem de Edward em um lugar seguro, mas ele só conseguia vê-lo flutuando de barriga para baixo, às margens do rio Wax. Isso o deixava mal. Mas era difícil de deixar de pensar em coisas ruins. Sua mente estava viciada em possibilidades negativas e ele se odiava por isso. Bill cruzou a avenida principal da cidade e se encontraria com Melissa e Adam depois dos trilhos da estação ferroviária de Liontown e ficariam ali debatendo as investigações. E entre fatos verdadeiramente concretos e imaginários, Bill e Adam estariam sempre divididos nas opiniões. Era o que cos
Edward estava algemado à cama em um quarto escuro com paredes azuis. Suas roupas eram elegantes e pareciam ser da década passada. Um suéter de lã de cor vermelha-escura cobria seu torso — na vestimenta havia um broche. Era uma pombinha dourada. — O jovem olhou para os lados quando acordou novamente de seu sono nada agradável e viu, agora que seus olhos se adaptaram à escuridão, que o ambiente estava repleto de fotos de uma garota. Era Samara? Edward sabia que sim. Até onde ele se lembrava, ele veio para a casa dos Morris e sabe-se lá o motivo, ele estava no quarto que intuitivamente soava ser de uma garota. De uma garota morta. Os olhos do garoto varreram o quarto, observando cada canto e com um receio que estava no centro de sua garganta, como uma bola de muco quando se está muito gripado. Edward então escutou alguns passos que faziam as madeiras do piso rangerem