LOGIN4 de novembro de 2007
Quando o opala preto que Adam Wason estava dirigindo parou frente a antiga casa dos Morris. Ele teve uma intuição esquisita de que Edward não estaria ali. O tipo de intuição que ele não poderia compartilhar com os outros. Ele achava que essas coisas só eram sentidas por mulheres. Sua intuição se intensificou ao perceber haver rastros de pneu de carro por toda parte. Se Edward estivesse ali, não estaria mais.
— Será que chamamos a atenção? — perguntou Melissa, com uma preocupação evidente. — Aqui é muito silencioso.
— Se chamamos, quero estar preparado e saber que estou armado — retrucou Adam, com orgulho. Um orgulho quase doentio.
— Parece haver uma janela aberta — disse Bill, e apontou para a direção. Havia sim uma janela aberta. Dava acesso à cozinha da casa.
— Vamos até lá — falou Adam e deu os primeiros passos. Não estava com medo, mas vez ou outra, contraia-se. Era tensão demais para seu corpo sedentário.
Melissa e Edward apresentaram resistência. Eles não queriam sair do lugar. Não queriam estar mais lá. Queria apenas que tudo ficasse bem. Pareciam estar na mesma frequência.
— O que vocês estão esperando? Venha! — ordenou Adam e os dois se mexeram, dando os primeiros, mas curtos passos.
Adam ia à frente. Olhava pela mira da espingarda. Sua respiração criava ondas de vapor longas, em decorrência da baixa temperatura. Bill olhou para trás e viu a opala mais uma vez. Ele parecia longe agora. Sua mente começou a calcular quanto tempo levaria para correr até lá sem ser pego, caso fossem perseguidos por alguém ou algo. Alguma coisa faminta de carne humana. Nas primeiras imagens mentais, ele sempre falhava.
Quando eles chegaram na varanda, começaram a andar ainda mais devagar, quase como lesmas em um spa. O coração de Bill, de Melissa e curiosamente o de Adam, parecia ser a única coisa a saltar em disparada, como se estivesse fugindo de um monstro terrível e sanguinário.
— Acho que não tem ninguém — sussurrou Bill, quase em silêncio.
— O que disse? — perguntou Adam.
— Acho que não tem ninguém na casa — repetiu ele e até prendeu a respiração.
Adam assentiu com a cabeça. Ele apontou para a janela e em seguida apontou para Bill. Ele estava pedindo que ele fosse e ficasse de tocaia na janela. Em seguida, ele apontou para Melissa e apontou para o canto da varanda. Eles se olharam atentamente, e como se aqueles pequenos gestos fizessem sentido em suas mentes assustadas, foram para seus respectivos lugares. Adam subiu lentamente a escada, depois de Melissa e ficou frente a porta. Ele tinha a intenção de invadir e se encontrasse algo suspeito, que Bill e Melissa gritassem e corressem o mais rápido que suas pernas de gravetos pudessem correr.
Adam colocou a mão na maçaneta e pediu a alguma espécie de entidade que ele acreditava proteger moleques grosseiros como ele, e girou, como se girasse a castanha de um caju maduro. A ânsia viria agora. A porta se abriu, lenta, um pouco preguiçosa. Não esboçou nenhum barulho. Acho que o pedido à entidade estava funcionando até agora. Ele respirou fundo, preparou a arma no ar e entrou na casa, como um policial em uma operação de risco, mas ele não tinha habilidade nenhuma com aquilo, mas acreditava, e isso talvez importasse um pouco. Bill tirou sua cabeça curiosa da janela e fez porque queria ser a última coisa a se mover na direção de um homem armado. Melissa teve uma pequena crise e sentiu vontade de ir ao banheiro. Se ela encontrasse o homem ou o monstro (ambos eram curiosamente iguais), saberia que estaria em vantagem, visto que acredita que monstros não comem meninas que fazem xixi nas calças.
O antigo bangalô dos Morris era pequeno e foi fácil para Adam descobrir que o campo estava limpo. Eles poderiam entrar e explorar.
— Tá limpo pessoal! — Gritou Adam, confortavelmente.
Bill olhou para os lados, incluindo o estábulo e como uma onça à espreita, deu a volta na casa e encontrou Melissa agachada na varanda. Ele a levantou.
— Está tudo bem? — perguntou ele, sussurrando, apesar de Adam dizer que não havia ninguém.
— Quando tudo isso acabar, eu espero que sim — respondeu ela. Melissa encarou os olhos de Bill e por meio segundo pensou no que poderia estar se passando na cabeça dele e, porque ele estava tão estranho esses dias? Estaria ele enxergando algum fantasma? Pirulita ainda fazia falta? Ou os pais estariam brigando e pensando em separação? (essa última sempre fez Melissa acreditar que seria o motivo mais justo para uma criança ou adolescente ter problemas de atenção no colégio, ou parecesse estranho na maior parte do tempo, como Bill). Alguma coisa lhe dizia ser muito pior, muito mais do que estar sendo perseguido por algum demônio ou pervertido.
Bill sacudiu o corpo como se quisesse animá-lo para a ação e entrou na casa, ao lado de Melissa. O ambiente estava organizado, apesar do exterior passar uma impressão de estar abandonado. Adam veio na direção deles, agora com a espingarda para baixo. Ele parecia menos tenso.
— Aqui dentro está aquecido — afirmou Bill e olhou ao redor em busca de alguma lareira. Ele encontrou um aquecedor.
— Temos que explorar antes que ele retorne — Adam disse, enfatizando o “ele” e apontando para um quadro na parede. Era uma foto do colegial. Nela estavam Daniel, James, Tony, Frederick e alguns outros rapazes. Na legenda estava escrito: colégio Doctor John Dalton, turma de 1976.
— Ele não mudou muito — comentou Melissa e buscou urgentemente um banheiro por aí. — Eu preciso usar o banheiro. Ela entrou na primeira porta e se sentiu sortuda por ter acertado em cheio.
— O mais engraçado disso tudo é que você está usando o banheiro do demônio que quer nos capturar, bruxinha… — disse Adam e riu de sua própria piada. Melissa não respondeu. Estava ocupada demais.
— Tem um quarto aqui — disse Bill, e entrou. Estava escuro. Ele procurou pelo interruptor na parede e ligou quando o encontrou. O quarto era onde Edward estava antes de ser levado para outro lugar, mais cedo. — Parece o quarto de…
— Samara Morris — completou Adam. Analisando as fotografias na parede. Na verdade, aquele cômodo foi alterado. Daniel deixou do jeito que acreditava que Samara iria gostar, caso um dia voltasse e ela havia prometido. Apesar da decepção amorosa, Smith nunca deixou de amá-la. As fotografias espalhadas pela parede, alimentavam sua memória e evitavam que o belo rosto da garota se apagasse em sua memória. Daniel costumava sentar na cama e ficar horas ali, observando tudo e imaginando como teria sido uma vida com ela.
— Olha. São os óculos do Edward — falou Bill, agachando-se e recolhendo-o do chão. Ele estava pensando de novo. A imagem era terrível e o fez arrepiar. — Ele esteve aqui!
— E aquilo devem ser as roupas dele! — acrescentou Adam, apontando para o canto do quarto. Adam também imaginava coisas. Coisas que nem sua mente rebelde foi capaz de pensar um dia.
— O que vocês estão discutindo? — Perguntou Melissa, quando chegou ao cômodo onde estavam. Ela mudou a expressão de alívio, da ida ao banheiro, por tristeza, ao ver os óculos de Edward Bailey nas mãos de Bill.
— Isso é o que estou pensando? — Indagou ela novamente, diante do silêncio dos dois. Bill e Adam não conseguiam. Tinham medo de responder. Tinham medo do pior.
— Ele deve estar por perto — falou Bill, esperançoso e confiante. Não poderiam desistir do Edward. Ele poderia estar em algum lugar.
— Só se estiver enterrado no quintal. Que merda! — Adam socou um armário e de cima deste, caiu um escrínio com algumas coisas da Samara. Melissa se abaixou para recolher e como se uma intuição poderosa sussurrasse ao seu ouvido, pegou um maço de cartas. Adam e Bill discutiam sobre a vida de Edward. Enquanto um acreditava que ele estava por aí, outro tinha a impressão dele não estar mais naquele plano. Melissa focou sua atenção nas cartas e o som da discussão dos garotos reduziu em sua cabeça, como se ela estivesse entrado em outro cômodo. Suas vozes pareciam longínquas. PARA SAMARA, DE SEU AMADO. Ela leu o título do breve bilhete, em mente.
Estava escrito:
Ansioso eu estou por ter seu amor e por estar em sua vida de forma recíproca. Quantas noites em claro eu passei pensando como seria nossas vidas juntos e hoje sei que logo serão verdades. Não há um dia sequer que eu não pense em você e quero que saiba que ainda penso no nosso plano. Na verdade, já sei quando executaremos…
Querida Samara, eu gostaria de te contar isso pessoalmente, mas você sabe que não seria possível, diante de algumas circunstâncias, mas através deste bilhete, deixo claro minha intenção de fugir com você. Vamos recomeçar nossas vidas da forma como queremos, sem bloqueios, apenas amor. Me encontre sexta-feira, dia 4 de novembro (1977), às 17 horas no Hotel Huster do final da rodovia Clyde. Aquele mesmo hotel em que tivemos uma noite juntos. Reservei duas passagens para um ônibus que passa por lá às 17:20. Não sei se fiz o certo, mas sei que você entenderá isso. Por favor, não conte a ninguém. Saberemos o que fazer quando estivermos em nosso destino.
Com amor, sua luz.
Melissa fechou o bilhete e dobrou no meio. Ela verificou a data em seu celular e percebeu estar em 4 de novembro, a cerca de 30 minutos do encontro de Samara, se não estivessem atrasados em trinta anos.
— Hotel Huster — disse Melissa, alto o suficiente para fazê-los calar. Ainda discutiam sobre vida e morte.
— Samara tinha um namorado. Ela iria encontrá-lo hoje, há cerca de trinta anos. Eles iriam se encontrar no Hotel Huster — completou Melissa, de modo a suprir todas as dúvidas que já saltavam em suas mentes.
— Como sabe se ela não o encontrou? — Perguntou Adam.
— Ela foi morta em 4 de novembro de 1977. Ela não chegou a encontrá-lo — respondeu ela. — Precisamos ir até lá.
— O hotel Huster está abandonado há dez anos. Aquilo está em ruínas — Adam retrucou.
— Temos que ir lá… — disse Bill, num tom sério. Não tinha mais tempo. — É nossa única chance de encontrá-lo vivo.
Eles se olharam e como se fossem motivados por uma onda de amor da qual eles nunca sentiram antes, se dispersaram. Eles iriam ao encontro de Samara.
HOTEL HUSTER - CELEBRANDO A VIDAO Hotel Huster foi palco de grandes eventos durante os anos oitenta e costumava receber muitos hóspedes durante a alta temporada, mas os anos de glória do Huster estavam com os dias contados. Administrado pelo ex-banqueiro de Liontown, Chad J. Graham, os negócios pareciam ter atrofiado. Os moradores costumavam chamar o Chad de dedo de ouro, por ser bom nos negócios, mas aquele em especial, fora sua primeira e última investida no ramo da hotelaria. O hotel perdeu capital por 20 anos, antes de fechar as portas há dez anos. Agora, era uma construção inútil à beira da rodovia Clyde. Clyde era conhecida por cortar toda a cidade e ser um dos principais pontos de entrada e saída do município. Mas não tinha um ser humano sequer que saísse ou entrasse em Liontown e não reparasse o hotel. Ele ainda par
4 de novembro de 1977 - 16:30— Se você não falar para onde foi aquela retardada, pode ter certeza que eu tiro todos os dentes de sua boca e te mando para o céu, santinho — disse James, dando um soco na barriga de Paul. Tony segurava-o pelos braços, como alguém que segura um porco para o abate. — Fala!Paul puxou o ar para os pulmões e olhou para a floresta que havia logo depois da rua atrás do colégio. Era um aglomerado de árvores altas e densas. Era o caminho mais rápido se quisesse chegar à rodovia principal da cidade.— Ela foi para lá…— Maldita hora para ir pela floresta, aberração — falou James. Tony soltou Paul, que
4 de novembro de 2007Quando o opala preto que Adam Wason estava dirigindo parou frente a antiga casa dos Morris. Ele teve uma intuição esquisita de que Edward não estaria ali. O tipo de intuição que ele não poderia compartilhar com os outros. Ele achava que essas coisas só eram sentidas por mulheres. Sua intuição se intensificou ao perceber haver rastros de pneu de carro por toda parte. Se Edward estivesse ali, não estaria mais.— Será que chamamos a atenção? — perguntou Melissa, com uma preocupação evidente. — Aqui é muito silencioso.— Se chamamos, quero estar preparado e saber que estou armado — retrucou Adam, com orgulho. Um orgulho quase doentio.
4 de novembro de 1977.Ninguém quer morrer. Pelo menos é assim que a maioria das pessoas pensa. Temos um instinto de defesa e sobrevivência que evoluiu há milhares de anos e nos preparou para os piores cenários. Algo que Bill Lewis sabia muito bem. Lutar ou fugir, estas eram as duas opções interessantes quando a questão era apenas sobreviver, e Bill estava usando-as. Já Samara Morris, em seu íntimo, tinha uma certeza que era assustadora. O tipo de certeza que ela tinha medo de verificar para ver se era realmente aquilo tudo, pois sabia que poderia ser muito pior. Ela ia morrer. Assassinato talvez. Só não sabia quando, como e porquê, o que era péssimo também. Entretanto, ela tinha esperança, do tipo que a fazia viver e esquecer o inevitável. A esperança que ela encontrou t
Liontown. 4 de novembro de 2007Bill achou fácil convencer sua mãe a sair depois do almoço, pelo fato de que haviam prendido o suspeito do desaparecimento de duas crianças na região e de… Ele se esforçou para manter a imagem de Edward em um lugar seguro, mas ele só conseguia vê-lo flutuando de barriga para baixo, às margens do rio Wax. Isso o deixava mal. Mas era difícil de deixar de pensar em coisas ruins. Sua mente estava viciada em possibilidades negativas e ele se odiava por isso. Bill cruzou a avenida principal da cidade e se encontraria com Melissa e Adam depois dos trilhos da estação ferroviária de Liontown e ficariam ali debatendo as investigações. E entre fatos verdadeiramente concretos e imaginários, Bill e Adam estariam sempre divididos nas opiniões. Era o que cos
Edward estava algemado à cama em um quarto escuro com paredes azuis. Suas roupas eram elegantes e pareciam ser da década passada. Um suéter de lã de cor vermelha-escura cobria seu torso — na vestimenta havia um broche. Era uma pombinha dourada. — O jovem olhou para os lados quando acordou novamente de seu sono nada agradável e viu, agora que seus olhos se adaptaram à escuridão, que o ambiente estava repleto de fotos de uma garota. Era Samara? Edward sabia que sim. Até onde ele se lembrava, ele veio para a casa dos Morris e sabe-se lá o motivo, ele estava no quarto que intuitivamente soava ser de uma garota. De uma garota morta. Os olhos do garoto varreram o quarto, observando cada canto e com um receio que estava no centro de sua garganta, como uma bola de muco quando se está muito gripado. Edward então escutou alguns passos que faziam as madeiras do piso rangerem