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Capítulo 3(Clarice)

last update Petsa ng paglalathala: 2026-10-04 08:58:39

Chego ao consultório antes do horário, cedo o suficiente para que o corredor ainda esteja praticamente vazio e o movimento do prédio seja composto apenas por funcionários começando a rotina, portas sendo abertas e passos apressados de pessoas que parecem ter alguma urgência que eu ainda não consigo sentir. Na mão direita, carrego um copo de café que comprei na cafeteria ao lado do prédio e que já está começando a esfriar porque, nos últimos dez minutos, fiz tudo ao mesmo tempo e nada direito. Coloco a bolsa sobre a cadeira, procuro as chaves enquanto seguro o café entre dois dedos, quase deixo o celular cair quando tento abrir a porta e, quando finalmente consigo entrar, bato o quadril na lateral da mesa, fazendo o líquido dentro do copo se agitar perigosamente. Paro imediatamente, olhando para a tampa como se pudesse convencê-la, apenas com a força do pensamento, a não deixar uma única gota escapar.

— Não hoje — murmuro, respirando fundo enquanto entro.

Talvez seja ridículo, mas sinto como se aquela pequena vitória tivesse alguma importância. O café continua dentro do copo, o consultório continua inteiro e eu continuo aqui.

Fecho a porta e começo a organizar tudo novamente, embora saiba que não existe absolutamente nada para organizar. Arrumo os documentos sobre a mesa, verifico se os lenços estão no lugar, ajeito a poltrona, confiro o relógio, abro as persianas e depois as fecho um pouco porque a claridade está incomodando. Coloco o café ao lado do computador e ligo a máquina enquanto observo a tela acender lentamente. Quando finalmente aparece a área de trabalho, abro minha agenda e sinto uma contração no estômago ao visualizar os três horários marcados para aquele dia.

Nove horas.

Dez e meia.

Quatorze horas.

Fico alguns segundos olhando para aqueles nomes como se fossem muito mais do que nomes. São pessoas. Pessoas que ainda não conheço, mas que já estão ocupando espaço na minha cabeça antes mesmo de atravessarem aquela porta.

Às oito e cinquenta e oito, ouço passos no corredor.

Meu corpo imediatamente fica alerta.

Às oito e cinquenta e nove, alguém b**e.

Fecho a agenda, endireito a postura e respondo:

— Pode entrar.

A primeira paciente é uma mulher de trinta e dois anos, bem vestida, mas visivelmente desconfortável, e eu percebo isso antes mesmo de ela se sentar. Ela segura a bolsa contra o corpo como se precisasse de alguma coisa entre nós duas e demora alguns segundos para escolher a poltrona, olhando para ela antes de finalmente se acomodar.

— Bom dia — digo, oferecendo um sorriso profissional.

— Bom dia, doutora.

Ela cruza as pernas, descruza, ajeita o cabelo e finalmente coloca as mãos sobre o colo.

— Você me contou no formulário que está procurando ajuda por causa de ansiedade relacionada ao seu casamento. Gostaria de me contar um pouco mais sobre isso?

Ela respira profundamente.

— Eu acho que meu casamento está acabando.

— Você acha ou tem certeza?

Ela me encara.

— Acho que estou com medo de que esteja acabando.

A diferença entre as duas respostas é importante.

Durante quase cinquenta minutos, ela fala sobre o marido, sobre as discussões, sobre a sensação constante de não ser suficiente e sobre a maneira como passou a interpretar qualquer mudança no comportamento dele como sinal de que existe outra mulher. Aos poucos, porém, percebo que o casamento não é exatamente o centro do problema. O casamento é apenas o lugar onde a insegurança dela encontrou espaço para crescer.

Quando ela termina de falar, faço algumas anotações e digo:

— Eu não quero reduzir tudo o que você está sentindo ao seu casamento, porque existem questões anteriores a ele que parecem estar influenciando a maneira como você interpreta seus relacionamentos. Você parece ter desenvolvido uma percepção muito negativa sobre si mesma, e isso faz com que qualquer comportamento do outro seja interpretado como confirmação de algo que você já acredita sobre você.

Ela baixa os olhos.

— Que eu não sou suficiente.

— Exatamente.

No final da sessão, explico que acredito que ela se beneficiaria de um acompanhamento contínuo e marco novas sessões. Quando ela sai, permaneço alguns segundos olhando para a porta fechada, pensando em como é curioso o funcionamento da mente humana. Às vezes, uma pessoa chega acreditando que precisa salvar um relacionamento quando, na verdade, precisa aprender a existir sem depender da validação de alguém.

O restante da manhã passa de maneira tranquila. O paciente das dez e meia apresenta um quadro que exige uma avaliação mais específica, e percebo rapidamente que ele precisa de acompanhamento psiquiátrico além da terapia. Depois de conversar com ele e fazer as orientações necessárias, entrego o contato da Dra. Erika e explico que acredito ser importante uma avaliação mais aprofundada. Ele aceita sem resistência, agradece e vai embora.

Quando olho novamente para o relógio, já são quase duas da tarde.

Meu último horário.

A mulher que não escreveu praticamente nada no formulário.

A mulher de vinte e quatro anos.

Quando ouço a batida na porta, sinto novamente aquela pequena tensão no peito que comecei a reconhecer desde que voltei a trabalhar.

— Pode entrar.

Ela entra.

É jovem, mas existe alguma coisa na expressão dela que não combina com a idade. Não parece cansada fisicamente. Parece cansada de esconder alguma coisa.

Ela se senta e permanece alguns segundos em silêncio.

— Você prefere começar me contando por que procurou terapia ou prefere que eu faça algumas perguntas?

Ela olha para as próprias mãos.

— Eu não sei nem por onde começar.

— Então comece pelo que estiver mais difícil de dizer.

Ela respira fundo.

— Eu estou apaixonada pelo meu chefe.

Não consigo evitar uma pequena mudança na expressão.

Ela percebe.

— Eu sei que parece ridículo.

— Não parece ridículo. Parece complicado.

Ela solta uma risada nervosa.

— Ele é vinte anos mais velho do que eu.

— E vocês têm algum tipo de relacionamento?

Ela hesita.

— Temos um caso.

Faço uma anotação.

— Ele é casado?

Ela permanece em silêncio por tempo suficiente para responder.

— Sim.

A situação, por si só, não é incomum. Pessoas se envolvem com pessoas comprometidas todos os dias. Não é saudável, não é simples, mas também não é exatamente algo que justificaria aquela expressão de terror.

Então pergunto:

— O que faz você acreditar que esse relacionamento está colocando você em uma situação perigosa?

Ela levanta os olhos para mim.

E é naquele momento que percebo que existe muito mais naquela história.

— Porque eu acho que ele quer matar a própria esposa.

Minha mão para sobre o papel.

— Você pode me explicar por que acredita nisso?

Ela se inclina para frente e baixa a voz, como se tivesse medo de que alguém pudesse ouvi-la através das paredes.

— Porque ele fala dela de uma maneira que não parece normal. Ele sabe quanto ela tem, sabe quais propriedades estão no nome dela, conhece cada conta bancária, cada seguro, cada documento. Ele sabe exatamente o que aconteceria se ela morresse. E, algumas vezes, ele fala sobre a morte dela como se estivesse falando sobre alguma coisa inevitável.

— Você já ouviu ele dizer que pretende matá-la?

— Não diretamente.

— Então o que exatamente ele disse?

Ela engole em seco.

— Ele diz que, se ela não existisse, tudo seria mais fácil.

Anoto a frase.

— Isso, isoladamente, não significa que ele queira matá-la.

— Eu sei.

— Então por que você acredita nisso?

Ela aperta os dedos uns contra os outros.

— Porque eu encontrei uma coisa.

Ergo os olhos.

— Que coisa?

Ela hesita novamente.

— Uma pasta.

— Que tipo de pasta?

— Documentos. Informações sobre o patrimônio dela. Seguros. Algumas coisas médicas. E uma lista.

— Uma lista de quê?

Ela olha diretamente para mim.

— Dos medicamentos que ela toma.

O silêncio que se instala entre nós parece diferente de todos os anteriores.

Eu deveria estar pensando na melhor maneira de conduzir aquela sessão. Deveria estar avaliando o nível de risco, fazendo perguntas objetivas, verificando se existe uma ameaça concreta e tentando entender se aquela jovem está diante de uma situação real ou interpretando comportamentos de maneira distorcida por causa do envolvimento emocional.

Mas existe alguma coisa na história dela que prende minha atenção de uma maneira que não consigo explicar.

Talvez seja a forma como ela fala.

Talvez seja o medo nos olhos dela.

Ou talvez seja simplesmente a sensação incômoda de que aquela história não terminou naquilo que ela acabou de me contar.

— Você tem medo dele? — pergunto.

Ela demora alguns segundos para responder.

— Eu tenho medo do que ele pode fazer.

— E por que continua envolvida com ele?

Ela abaixa a cabeça.

Quando finalmente responde, sua voz sai quase como uma confissão.

— Porque eu amo ele.

Observo seu rosto enquanto ela diz aquilo e, pela primeira vez naquele dia, sinto uma curiosidade que ultrapassa o interesse profissional.

Ela está apaixonada por um homem que acredita ser capaz de matar a própria esposa.

E, ainda assim, tem medo de perdê-lo.

Talvez a parte mais perigosa daquela história não seja o que ele pretende fazer com a esposa.

Talvez seja aquilo que ela está disposta a fazer para continuar ao lado dele.

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