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Querido diário

last update Data de publicação: 2026-10-04 08:59:18

Diário de Clarice

Querido diário,

Eu senti falta disso. Senti falta de ouvir uma pessoa desconhecida sentar diante de mim e, em menos de uma hora, entregar voluntariamente pedaços da própria vida que provavelmente esconderia de qualquer outra pessoa. Senti falta daquela sensação deliciosa de receber uma história pela metade e precisar decidir o que existe por trás das palavras, de observar a maneira como alguém cruza as pernas quando mente, o instante exato em que desvia os olhos quando toca em alguma coisa que realmente dói, a pausa antes de responder uma pergunta simples demais e, principalmente, daquela pequena diversão que existe em tentar imaginar o que uma pessoa seria capaz de fazer quando ninguém estivesse olhando. Talvez isso seja uma coisa horrível para uma psicóloga admitir, mas eu sempre gostei dessa parte da profissão, porque existe algo quase irresistível em conhecer os segredos dos outros enquanto eles acreditam que estão apenas fazendo terapia.

E a garota de vinte e quatro anos de hoje me trouxe uma história deliciosa, embora eu provavelmente devesse escolher outra palavra, considerando que estamos falando de uma mulher que acredita estar apaixonada por um homem que talvez esteja planejando matar a própria esposa. Ela entrou naquela sala com os olhos de alguém que já sabe que está fazendo uma escolha ruim, mas ainda procura desesperadamente alguém que diga que existe uma maneira de transformar aquela escolha em alguma coisa aceitável. Ela está tendo um caso com o chefe, um homem vinte anos mais velho, casado, aparentemente rico e aparentemente interessado demais no patrimônio da própria esposa. Segundo ela, ele conhece seguros, propriedades, contas, medicamentos e todos aqueles detalhes que uma pessoa apaixonada talvez não devesse saber com tanta precisão sobre alguém que pretende continuar vivo por muitos anos. Ela não tem uma prova concreta de que ele pretende matá-la, pelo menos nenhuma que tenha me apresentado, mas tem aquela sensação que costuma aparecer quando alguém percebe que existe alguma coisa errada e ainda não conseguiu juntar as peças.

O mais patético, entretanto, não é o homem, nem a esposa, nem sequer a possibilidade de existir um assassinato no meio dessa história. O mais patético é olhar para um penhasco e, mesmo sabendo que existe uma queda esperando no fim, ainda assim sentir vontade de chegar mais perto porque a paisagem é bonita demais. É exatamente isso que ela está fazendo. Ela sabe que aquele homem pode ser perigoso, suspeita que ele seja capaz de algo terrível e, ainda assim, quando perguntei por que continuava envolvida com ele, respondeu que o amava. É quase engraçado observar como o amor consegue transformar sinais de perigo em pequenas imperfeições e como algumas pessoas preferem acreditar que estão diante de um homem incompreendido quando talvez estejam simplesmente diante de um homem perigoso.

Confesso que senti uma coisa que não deveria ter sentido: entusiasmo. Não pelo possível crime, obviamente, mas pela sensação de estar novamente dentro de uma história que não me pertence e, ainda assim, poder observar cada detalhe dela. Eu senti falta da terapia. Senti falta das pessoas, das confissões, das contradições, das pequenas mentiras que aparecem quando alguém tenta parecer melhor do que realmente é. Senti falta de sair de uma sessão e continuar pensando naquele paciente enquanto dirijo para casa, imaginando o que ele não contou, o que omitiu e o que faria se tivesse certeza de que ninguém jamais descobriria. Talvez seja justamente isso que eu mais gosto: não saber. A incerteza é muito mais interessante do que qualquer diagnóstico pronto.

Marquei a garota para daqui a dois dias. Quero ouvi-la novamente antes de decidir qualquer coisa, principalmente porque ainda não sei se existe realmente uma ameaça ou se ela está tão envolvida emocionalmente que começou a interpretar cada comportamento daquele homem como uma confirmação dos próprios medos. Também preciso pensar com cuidado sobre a possibilidade de procurar a polícia, porque existe uma diferença enorme entre saber que alguém pode estar planejando cometer um crime e possuir informações suficientes para afirmar que um crime realmente será cometido. Pelo menos é isso que preciso entender antes de transformar uma suspeita em uma acusação. Afinal, até onde sei, minha paciente não cometeu crime algum apenas por saber que alguém talvez esteja planejando alguma coisa, e eu também não me torno criminosa simplesmente por ouvir uma história durante uma sessão de terapia. O problema é descobrir em que momento deixar de ouvir passa a ser uma escolha tão perigosa quanto continuar ouvindo.

E, sinceramente, acho que é exatamente essa parte que está me deixando tão curiosa.

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