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Capítulo 2

last update Data de publicação: 2026-10-21 20:43:05

Eu passo a manhã inteira limpando o consultório como se estivesse tentando apagar alguma coisa que não consigo enxergar. Abro as janelas, deixo o ar entrar, retiro os objetos da mesa, limpo uma superfície que já está limpa e depois volto a passar o pano sobre ela porque ainda encontro alguma coisa para corrigir, algum detalhe mínimo que me incomoda, uma marca quase invisível no vidro, uma pequena quantidade de poeira escondida atrás de um porta-canetas, um livro ligeiramente desalinhado na estante. Tudo precisa estar no lugar. Tudo precisa parecer exatamente como antes. Talvez seja isso que esteja me deixando tão inquieta: o consultório está igual, mas eu não estou. Durante meses imaginei este momento, imaginei a sensação de voltar a entrar aqui sem precisar me perguntar se alguém estava observando meus movimentos, sem precisar explicar por que eu estava afastada, sem precisar suportar os olhares atravessados de pessoas que acreditavam saber exatamente o que havia acontecido. Agora que finalmente estou aqui, com as mãos ocupadas e o silêncio preenchendo cada canto da sala, descubro que não existe nada de reconfortante em retornar ao lugar que sempre considerei meu.

Passo um pano sobre a mesa novamente, embora a madeira esteja impecável, e sinto meus dedos apertarem o tecido com força demais. Preciso respirar. Não porque esteja prestes a perder o controle, mas porque meu corpo parece não ter recebido a informação de que estou segura. Meu coração b**e rápido, minhas mãos estão frias e existe uma pressão estranha no peito que aumenta toda vez que penso no que acontecerá quando a primeira pessoa atravessar aquela porta. Durante anos, fui eu quem observou pacientes entrando nervosos, sentando-se na minha frente com as mãos inquietas e os olhos fugindo dos meus, e eu sempre sabia o que dizer para tranquilizá-los. Hoje, pela primeira vez, sou eu quem gostaria que alguém me dissesse que está tudo bem. Que ninguém está esperando que eu erre. Que ninguém está esperando o menor sinal de que talvez a Dra. Clarice não esteja tão bem quanto deveria.

Eu pego os livros que estão sobre a estante e começo a organizá-los novamente, embora já estejam organizados, e tento me concentrar nas capas, nos títulos, na ordem alfabética que decidi seguir anos atrás. Minha mente, entretanto, insiste em correr para outro lugar. Penso na última consulta com Erika, na maneira como ela me olhou quando autorizou meu retorno, na escolha cuidadosa das palavras, na insistência para que eu mantivesse o acompanhamento e, principalmente, na expressão que apareceu em seu rosto quando mencionou limites. Limites. A palavra continua voltando para mim como uma provocação. Eu sei quais são os limites. Sempre soube. Sou psicóloga, afinal. Estudei comportamento humano durante anos, conheço mecanismos de defesa, transferência, dependência emocional, compulsão, projeção, obsessão e todos os nomes elegantes que damos às coisas quando precisamos fingir que compreendê-las significa ter controle sobre elas.

Estou colocando um livro de volta na estante quando ouço três batidas na porta.

Meu corpo inteiro reage antes que minha cabeça consiga entender o motivo.

— Doutora?

A voz de Helena, minha secretária, atravessa a sala e me devolve ao presente. Eu me viro depressa demais e quase derrubo o livro que ainda seguro.

— Pode entrar.

Ela abre a porta segurando o celular e uma pasta contra o peito, sorrindo de um jeito que imediatamente me deixa desconfiada.

— Você está limpando isso há mais de duas horas.

Olho para o relógio.

— Não estou limpando há duas horas.

Ela entra, fecha a porta atrás de si e olha ao redor.

— Então você reorganizou o mesmo ambiente seis vezes por acidente.

— Estou apenas deixando tudo como estava.

— Clarice, tudo já estava como estava.

Coloco o livro sobre a mesa.

— Você veio aqui para me criticar ou para trabalhar?

Ela ri e se aproxima.

— Vim trabalhar, e justamente por isso preciso te avisar de uma coisa.

Sinto meu estômago se contrair antes mesmo de ela terminar a frase.

— O que aconteceu?

— Seu site.

— O que tem o site?

Helena desbloqueia o celular e começa a passar o dedo pela tela.

— Desde que a informação sobre o seu retorno foi atualizada, começaram a chegar solicitações de atendimento. Muitas.

Tento sorrir.

— Muitas quantas?

Ela ergue os olhos para mim.

— O suficiente para eu achar que você deveria se sentar.

— Eu estou bem.

— Você está segurando um livro como se pretendesse estrangulá-lo.

Olho para minha mão e percebo que meus dedos estão realmente apertados ao redor da capa.

Solto o livro lentamente.

— Quantas pessoas?

— O site está praticamente lotado de possíveis pacientes. Eu já comecei a organizar uma lista de espera porque não consigo colocar todo mundo na agenda.

Meu coração acelera.

— Isso é bom.

Minha voz sai mais baixa do que eu gostaria.

— É ótimo — ela corrige. — Só que tem mais.

— O que poderia ser pior do que ter pacientes demais depois de meses afastada?

Helena sorri.

— Você já tem agenda para amanhã.

Fico imóvel.

É estranho como uma frase tão simples pode provocar uma reação tão violenta dentro do corpo. Sinto o sangue abandonar minhas mãos, o coração acelerar ainda mais e uma espécie de vazio abrir espaço dentro do meu estômago. Amanhã. A palavra parece grande demais. Amanhã significa alguém sentado naquela poltrona. Amanhã significa uma porta se abrindo. Amanhã significa um desconhecido entrando nesta sala e confiando em mim. Amanhã significa que todos os meses de afastamento acabaram e que agora preciso provar, para mim e para todo mundo, que a mulher que saiu daqui continua sendo a mesma profissional que voltou.

— Quantos? — pergunto.

— Três.

— Três amanhã?

— Três.

Passo a língua pelos lábios secos e tento controlar a respiração.

— Quem marcou?

— O primeiro é às nove. Uma mulher de trinta e dois anos, que relatou ansiedade e problemas relacionados ao casamento. Às dez e meia, um homem de quarenta e um anos, que procurou atendimento por causa de insônia e crises de pânico. E às quatorze horas tem uma jovem de vinte e quatro anos que escreveu bastante no formulário inicial, mas preferiu não detalhar o motivo da consulta.

A última informação prende minha atenção.

— Ela não explicou?

— Não.

— E você aceitou mesmo assim?

Helena me encara por um instante.

— Clarice, é um formulário de triagem, não um interrogatório.

— Eu sei.

— Você está nervosa.

— Não estou.

Ela cruza os braços.

— Está.

— Eu só estou tentando garantir que tudo esteja organizado.

— Você está limpando uma mesa limpa.

Olho para a superfície diante de mim.

Ela tem razão.

Isso me irrita.

— Depois de tudo que aconteceu, você esperava que eu simplesmente entrasse aqui e começasse a atender como se nada tivesse acontecido?

Helena suaviza a expressão.

— Não. Eu esperava que você estivesse nervosa. Só não esperava que estivesse tentando convencer a si mesma de que não está.

Desvio o olhar.

Ela se aproxima e coloca o celular sobre a mesa.

— Você não precisa provar nada amanhã.

— Preciso.

— Para quem?

Não respondo.

Porque a resposta é muito mais complicada do que ela imagina.

Preciso provar para Erika.

Preciso provar para meus antigos colegas.

Preciso provar para os pacientes que provavelmente já ouviram alguma versão distorcida do motivo pelo qual fiquei afastada.

Mas, acima de tudo, preciso provar para mim mesma que ainda consigo sentar naquela poltrona, olhar para alguém durante cinquenta minutos e ouvir sua história sem permitir que aquela pessoa atravesse uma fronteira que deveria permanecer intacta.

Helena pega novamente o celular.

— Eu vou deixar tudo organizado para amanhã.

Assinto.

— Obrigada.

Ela caminha até a porta, mas antes de sair se vira.

— Clarice?

— Sim?

— Vai dar tudo certo.

Sorrio para ela.

— Eu sei.

A porta se fecha.

E assim que fico sozinha novamente, o sorriso desaparece.

Olho para a poltrona vazia do outro lado da sala e sinto uma inquietação subir lentamente pela minha garganta. Amanhã alguém vai se sentar ali e vai começar a falar. Vai me contar coisas que talvez nunca tenha contado a ninguém. Vai confiar em mim. Vai me entregar seus medos, suas fraquezas, seus segredos e, provavelmente, alguma parte de sua vida que deveria permanecer intocada.

Eu deveria estar pensando em como ajudá-la.

Deveria estar pensando em ética, limites, responsabilidade profissional.

Em vez disso, fico olhando para aquela poltrona e tentando controlar a sensação desconfortável de que alguma coisa está prestes a acontecer.

Alguma coisa que eu ainda não consigo enxergar.

Alguma coisa que, talvez, eu nem queira enxergar.

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