MasukEu falei num murmúrio baixo:— Eu não estou sentindo minhas pernas. Não consigo sentir nada. Elas estavam dormentes como se eu ainda estivesse anestesiada ou como se elas não existissem em mim. Meu corpo inclinou para frente automaticamente, mas antes que eu pudesse cair, os braços de Loredano me seguraram pela cintura.— Ei, calma.Naquele momento eu me agarrei nos ombros dele.— Isso não é normal. Não consigo sentir minhas pernas.A expressão dele, ficou imediatamente séria.— Relaxa, deve ser a anestesia ainda. — Falou tentando tranquilizar-meE então ele me pegou no colo e me colocou de volta na cama com o maior cuidado do mundo. Em seguida, ajustou o travesseiro atrás das minhas costas e cobriu minhas pernas. Meu coração aqueceu com aquele gesto.Loredano apertou o botão ao lado da cama e chamou a enfermagem do turno. Alguns segundos depois, ela apareceu no quarto.— Boa noite. — A enfermeira falou assim que entrou no quarto.— Minha esposa precisa ir ao banheiro — Loredano expl
O quarto ficou estranhamente silencioso depois que minha família foi embora. Ainda dava para sentir a energia deles no ar. As piadas de Manu, o otimismo de tia Madalena e a calma sempre controlada de tio Francisco.Loredano fechou a porta atrás deles e voltou para perto da cama.— Sua família é incrível!— E você já está adotado por eles.Ele puxou a cadeira novamente e se sentou ao meu lado. Meu corpo inteiro parecia uma massa remexida. Loredano percebeu meu desconforto e perguntou baixinho:— Tá doendo?— Um pouco.A expressão dele fechou na mesma hora.— Vou chamar a enfermeira.— Não! — Segurei a mão dele antes que levantasse. — É suportável.Ele voltou a sentar devagar, ainda claramente incomodado. Fiquei olhando para nossos dedos entrelaçados por alguns segundos. Aquilo ainda parecia surreal.Outra enfermeira entrou trazendo Valentina. Nossa filha estava acordadinha dessa vez, fazendo pequenos barulhinhos enquanto mexia os braços.— Hora da mamada — a enfermeira disse suavemente
Eu estava sonhando, sentada numa nuvem branquinha tendo aos braços a minha Valentina. Minha bonequinha mamava com gosto, enquanto eu cantava uma canção de ninar. E aquele lugar estava tão bom, tão aconchegante, que eu não queria mais voltar.Ao longe ouvi alguém chamar o meu nome. Franzi a testa antes mesmo de abrir os olhos e gemi baixinho ao sentir a cabeça latejar.— Vina! Ei… Vina!Despertei do sonho. Virei o rosto devagar e vi Loredano sentado numa cadeira ao lado da cama. A barba crescida e os olhos escuros presos em mim com uma intensidade absurda. Ele parecia exausto. Mas quando percebeu que eu tinha acordado, algo mudou no rosto dele.— Oi… — murmurei com a voz falhando.Ele soltou o ar devagar, como se estivesse segurando aquilo há horas.— Você me assustou pra caralho, Vina.— O que houve?— Achei que você estivesse passando mal enquanto dormia.— E Valentina, como ela está? — Perguntei preocupada.Os olhos dele amoleceram imediatamente.— Ela está bem — respondeu baixo. —
LOREDANOO celular vibrando sobre o criado-mudo arrancou-me do sono de forma brutal. Abri os olhos imediatamente. Meu corpo ainda estava pesado de cansaço da reunião, e das últimas semanas infernais. O celular continuava vibrando. Mas no instante em que vi o nome de Vina meu coração disparou. Me sentei na cama imediatamente e abri a mensagem.“Estou tendo contrações. Indo para o hospital.”Fiquei olhando para a tela por um segundo absurdo de silêncio. Meu cérebro recusando processar. Contrações. Hospital. Valentina. Me levantei da cama de um pulo e passei a mão pelos cabelos enquanto o coração começava a bater violentamente. Em seguida liguei para Vina, mas ela não atendeu.— Atende, Vina…Peguei a primeira roupa que encontrei. A mente trabalhando rápido demais. E liguei para Manu. Ela atendeu no segundo toque.— Loredano?A voz dela estava tensa. E aquilo piorou tudo.— Onde Vina está? — Ouvi barulho ao fundo. Passos rápidos e vozes.— Estamos no hospital.— Como ela está?— Em trab
O apartamento estava silencioso e escuro. Apenas a luz da televisão ligada sem volume iluminava parcialmente a sala. Eu estava sentada no sofá abraçando uma almofada contra a barriga enorme enquanto tentava assistir qualquer coisa para distrair a cabeça. Há três dias comecei a receber ligações mudas de números desconhecidos. No começo achei que fosse engano. Mas no fundo eu sabia que era Marina.Olhei para o celular sobre a mesa de centro. 22h47. Pensei em Loredano. Naquele último mês ele tinha viajado quatro vezes tentando resolver problemas na empresa. Naquele momento, Valentina se mexeu. Passei a mão lentamente pela barriga, sentindo os movimentos da minha garotinha e olhei para o corredor. Manu estava dormindo no último quarto. Ela tinha chegado do plantão completamente destruída naquela tarde.De repente, o celular tocou e meu corpo inteiro endureceu ao olhar para a tela e ver que era um número desconhecido outra vez. Ignorei e o toque parou, porém, alguns segundos depois, ele
LOREDANOEu estava no escritório. Minha cabeça e meu coração estavam bombardeados. Vina estava às vésperas do parto e a minha Valentina estava chegando. Eu estava feliz e ao mesmo tempo, tenso. Já havia perdido a conta das noites em que eu não conseguia dormir. Nunca imaginei que sentiria tantas emoções quando decidisse ser pai. Na verdade, eu estava quase surtando, a ponto de consultar um psiquiatra.A reunião começou às oito da manhã. E às oito e quinze eu já queria jogar alguém pela janela. Mantive o sorriso corporativo no rosto enquanto um dos fornecedores japoneses falava sobre reajuste de matéria-prima, logística internacional e possíveis atrasos portuários.Paolo estava sentado à minha direita fazendo anotações. Eu estava sentado na cabeceira da mesa fingindo paciência. O problema não era só a reunião; não era só a gravidez de Vina. Era o acúmulo de tudo. E agora a sensação constante de que alguma coisa estava acontecendo nos bastidores da empresa sem que eu conseguisse enxerga







