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CAP. 3 — Não quero falar.

Author: Nanda Érica
last update publish date: 2026-10-28 09:32:25

POV/ NATASHA

Nathan voltou a olhar para mim.

— Eu sei.

— Troquei de número. Fui embora…

Minha voz falhou. Tentei respirar mais fundo, mas a dor nas costelas interrompeu o movimento.

— Não sei como ele encontrou você — meu irmão respondeu. — Mas vou acompanhar isso.

— Ele vai voltar.

Nathan apertou meus dedos com cuidado.

— A polícia está cuidando disso.

Olhei para a porta. Uma enfermeira entrou, e meu corpo ficou tenso antes que eu percebesse quem era. Ela se apresentou e perguntou como eu estava. Minha cabeça pesava, e demorei a responder.

Enquanto ela verificava os aparelhos e o acesso, Sakura explicou que eu sentia dor e estava com a boca seca. A enfermeira me ajudou a beber alguns goles de água, devagar. O líquido passou pela garganta dolorida, deixando um alívio pequeno.

— Quero levar você para Porto Alegre — Nathan disse quando ela terminou de me acomodar.

Virei o rosto para ele.

— Não quero ir embora de novo.

— Você pode ficar comigo.

— Eu moro aqui.

Pensei na comida na geladeira, na roupa pendurada atrás da porta e no caminho que aprendi a fazer até o trabalho. Tinha escolhido aquelas coisas sozinha. Custou tanto chegar até ali que pensar em outra mala me fez chorar.

— Trabalho aqui, Nathan.

— Eu sei. Não precisa decidir agora.

— Já deu trabalho demais me trazer.

— Você não é trabalho.

Fechei os olhos por um instante. Meu irmão continuou perto, com a mão envolvendo a minha.

— Quero poder estar com você quando precisar — ele disse. — Vamos resolver uma coisa de cada vez. Vai melhorar, Nash.

Queria acreditar. Mas estava deitada num hospital, com o rosto inchado e o corpo machucado, depois de atravessar um oceano para fugir de Rafael. Abri os olhos quando a enfermeira se dirigiu a Nathan:

— O agente da polícia está aqui. Quer saber se já pode conversar com ela.

Minha mão se fechou na dele.

— Conversar sobre o quê?

Nathan se voltou imediatamente.

— Sobre o Rafael.

O rosto dele apareceu na minha cabeça. A mão entre as portas do elevador, o relógio, a boca perto do meu ouvido.

— Não.

— Nash…

— Não quero falar.

Minha respiração ficou curta. Tentei me ajeitar, mas a dor aumentou, e puxei o lençol até o peito.

— Calma — Sakura disse.

— Não quero falar com ele. Nathan, fala para ele.

— Eu vou falar.

— Não deixa ele entrar.

— Não vou deixar.

Meu irmão se levantou. Sakura tocou de leve a lateral do colchão, sem se aproximar demais.

— Vamos explicar que você precisa descansar. Voltamos já.

Assenti, acompanhando os dois com os olhos. A enfermeira saiu com eles, e a porta se fechou.

Fiquei olhando para a maçaneta. O apito continuava, e o cheiro do quarto começou a me incomodar. Passei a língua pelos lábios, ainda secos, tentando afastar a lembrança de Rafael.

Não queria contar onde ele bateu. Não queria explicar o que disse, o que fiz ou por que não consegui correr. Bastava pensar nas perguntas para sentir meu peito apertar.

Não posso. Agora não.

A claridade parecia forte demais. Minha cabeça doía, e eu queria um lugar onde conseguisse respirar sem ouvir aquele aparelho.

Mexi as pernas sob o lençol e me virei devagar. Esperei a pontada na barriga diminuir antes de alcançar a lateral da cama. Quando fiquei sentada, o quarto oscilou, e precisei segurar o colchão. Demorou até conseguir apoiar os pés no chão.

O piso estava gelado. Levantei com uma mão na cama e a outra no suporte do soro. Minhas pernas tremiam, e fiquei parada, esperando que sustentassem meu peso. Eu só precisava sair um pouco.

Abri a porta e procurei Nathan. Ouvi vozes de um lado do corredor, mas não consegui distinguir quem falava. Segui na direção contrária, empurrando o suporte, com a mão livre procurando apoio na parede.

Não sabia quanto tinha andado quando senti uma corrente de ar. No fim daquele corredor, no mesmo andar do quarto, havia uma porta entreaberta para um terraço. Fui até ela.

O vento frio atingiu meu rosto assim que saí. Fechei os olhos, sentindo os cachos se moverem perto da testa. A camisola do hospital era fina, e arrepiei os braços, mas continuei ali.

Tentei respirar devagar. As costelas doíam quando enchia o peito, obrigando-me a puxar menos ar de cada vez. Mesmo assim, o vento no rosto era bom. Não havia cheiro de remédio nem o som insistente do aparelho.

Passei a mão pela bochecha, tomando cuidado com a pele machucada. Quando abri os olhos, percebi uma silhueta perto da beirada do terraço. Franzi a testa, tentando enxergar melhor.

Era um homem. Estava de lado, com uma das mãos junto ao rosto. Um cheiro de cigarro chegou até mim antes que eu percebesse a fumaça. Olhei para o lugar onde ele estava. Parecia perto demais.

— Ei…

Ele virou a cabeça.

— Se afasta daí — falei. — É perigoso.

Não consegui distinguir seu rosto. A pouca luz e a visão embaçada deixavam apenas o contorno dos ombros e da cabeça.

— Vai para dentro — ele respondeu.

A voz era baixa, áspera. Apertei a haste do suporte.

— Mas você…

— Você não devia estar aqui.

Dei um passo, tentando enxergar a distância entre ele e a beirada. Meu pé falhou ao tocar o chão. Procurei apoio no suporte, mas a tontura veio antes que eu conseguisse me firmar. O homem se moveu depressa.

Senti uma mão segurar meu braço e outra apoiar minhas costas, impedindo que eu batesse no chão. Soltei um gemido quando meu corpo se curvou.

— Cuidado.

Ele me ajudou a sentar, mantendo um braço atrás de mim. Tentei focar seu rosto, mas a dor na cabeça aumentou. Pisquei, sem conseguir afastar as manchas da minha visão.

— O que aconteceu com você?

Puxei a camisola sobre os joelhos.

— Não quero falar sobre isso.

Houve uma pausa.

— Está bem.

A mão nas minhas costas permaneceu firme. Os braços dele eram fortes, e senti o tecido da manga contra meus dedos quando me apoiei nele.

Sob o cheiro do cigarro, percebi um perfume amadeirado. A dor na cabeça me fez fechar os olhos por um instante, mas voltei a olhar para a mão dele.

— Fumar faz mal.

Ele baixou os olhos para o cigarro.

— Eu sei.

— Então não fuma.

Ele se esticou para apagá-lo num recipiente perto de nós. Acompanhei o movimento com dificuldade, tentando ter certeza de que não voltaria para onde estava.

— Não vai para lá de novo — pedi.

Ele voltou a olhar para mim.

— Você precisa de um médico.

Segurei sua manga. Não sabia o que dizer para convencê-lo a ficar. Minha cabeça latejava, o frio começava a alcançar minhas pernas e a voz de Nathan voltou à minha memória.

— Vai melhorar.

O homem ficou imóvel.

Eu não acreditava naquelas palavras quando meu irmão as disse. Mesmo assim, continuei segurando o tecido entre os dedos.

— Vai tudo melhorar — repeti.

Tentei erguer o rosto, mas o movimento provocou uma onda de enjoo. Fechei os olhos e senti o braço dele se ajustar atrás das minhas costas.

— Como você se chama?

Abri a boca, precisando de um instante para responder.

— Natasha.

O chão pareceu se mover debaixo de mim. Afrouxei os dedos na manga dele, sem conseguir manter a cabeça erguida.

— Natasha?

Ouvi a voz perto do meu rosto e tentei responder. Minha língua não se moveu. O braço dele me segurou com mais firmeza quando meu corpo perdeu o apoio, e a escuridão tomou o pouco que eu ainda conseguia enxergar.

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