Share

CAP. 2 - Perto de mim

Author: Nanda Érica
last update publish date: 2026-10-28 09:30:26

POV/NATASHA

Um apito insistente começou a atravessar meu sono. O som se repetia perto demais, irritante, e tentei virar o rosto para fugir dele, mas uma dor na cabeça me fez parar.

Minhas pálpebras pesavam. Forcei os olhos, conseguindo abrir apenas um deles direito, e encontrei uma claridade que me obrigou a piscar. A boca estava amarga, a língua grossa contra o céu da boca, tão seca que tentei passar a saliva pelos lábios e não consegui.

Havia alguma coisa presa à minha mão. Puxei o braço, assustada, e senti a pele repuxar.

— Calma, Nash.

A voz masculina me fez procurar de onde vinha. Uma mão se aproximou, e a lembrança dos dedos de Rafael no meu pescoço veio antes que eu conseguisse enxergar o rosto.

— Não! Não toca em mim!

Tentei me afastar. A dor apertou minhas costelas e desceu pela barriga, arrancando um som de dor.

— Calma. Calma.

— Não, não!

A mão parou antes de me alcançar.

— Nash, olha para mim.

Balancei a cabeça, apertando o lençol entre os dedos. A luz incomodava, e eu não conseguia abrir o outro olho. Tentei puxar as pernas, mas a dor me fez parar.

— Sou eu. Nathan.

Fiquei olhando para o homem ao lado da cama. Aos poucos, reconheci os olhos, o cabelo e a boca. Sua camisa estava amassada, e ele mantinha as mãos afastadas de mim.

— Nathan?

— É. Sou eu.

Minha garganta ardeu quando tentei engolir.

— Onde eu estou?

— No hospital.

Olhei para a porta, depois para o espaço atrás dele. Meu coração continuava batendo depressa.

— Cadê o Rafael?

— Ele foi levado pela polícia.

Continuei procurando pelo quarto.

— Ele está aqui?

— Não, Nash. Não está.

Havia uma cadeira junto àparede, uma cortina ao lado da cama e uma mulher perto da janela. Além do vidro, estava escuro; a claridade que incomodava meus olhos vinha das luzes do quarto. Não a conhecia. Voltei a olhar para Nathan, tentando entender como ele tinha chegado até mim.

— Você veio?

A expressão dele mudou. Seus olhos estavam vermelhos, e ele apertou os lábios antes de responder:

— Vim.

— Mas você estava…

Parei para respirar. Até o esforço de falar fazia meu pescoço doer.

— No Brasil — ele completou. — Peguei o primeiro voo que consegui.

Lembrei do telefone deslizando pelo chão do corredor.

— Eu te liguei.

Nathan assentiu.

— Eu atendi.

O calor subiu pelo meu rosto. Tentei imaginar o que ele ouviu, mas a lembrança de Rafael perto de mim me fez apertar o lençol outra vez.

— Desculpa.

— Não pede desculpa.

Encolhi os ombros com a firmeza da resposta. Nathan percebeu e abaixou a voz:

— Você não fez nada errado.

Olhei para minha mão. Um acesso estava preso à pele com fita, ligado a um tubo que eu não conseguia acompanhar até o fim. Havia manchas roxas no meu braço. Passei os dedos da outra mão pelo rosto e parei ao tocar o inchaço perto do olho.

— Quanto tempo passou?

— Alguns dias.

Ergui os olhos.

— Dias?

— Você ficou em coma. Eu já estava aqui quando acordou.

Tentei encontrar aqueles dias na memória. Lembrava do elevador, do chão frio contra meu rosto e de alguém se abaixando perto de mim. Depois havia sons que eu não sabia identificar e uma escuridão da qual não conseguia sair.

A mulher perto da janela se aproximou um pouco. Tinha cabelos escuros, traços orientais e uma expressão preocupada. Nathan acompanhou meu olhar.

— Esta é a Sakura, minha mulher. Ela veio comigo.

— Oi, Natasha.

— Oi — respondi, com dificuldade.

Ela observou meus lábios.

— Sua boca está muito seca?

Assenti.

Sakura apertou um botão ao lado da cama e voltou a se afastar, deixando espaço para Nathan. Ele puxou a cadeira devagar, mas o ruído dos pés no chão me fez estremecer. O movimento parou imediatamente.

— Desculpa — ele murmurou.

Balancei a cabeça. Não queria que meu irmão pedisse desculpas por uma cadeira. Queria conseguir ouvir um barulho sem sentir meu corpo se preparando para apanhar.

Nathan deixou a mão sobre o colchão. Fiquei olhando para seus dedos antes de aproximar os meus. Ele esperou que eu o tocasse e só então segurou minha mão.

A semelhança com nosso pai apareceu no formato dos dedos e no rosto inclinado perto de mim. Desviei os olhos, mas não me afastei.

Minha mãe, Luciana, trabalhava como empregada na casa dos Beaumont, no Rio de Janeiro. Foi ali que se envolveu com Odair, pai de Nathan. Ele era casado com Rosana, e eu nasci daquele relacionamento.

Quando pequena, gostava de acompanhar minha mãe. Entrava no quarto de Nathan, mexia nas coisas e fazia perguntas até ele fingir que ia me colocar para fora. Eu ria e continuava perto. Não entendia os cuidados da minha mãe nem por que certas conversas paravam quando alguém se aproximava.

Rosana descobriu o caso e que eu também era filha do marido. Depois disso, Odair levou a esposa e Nathan para Porto Alegre. Minha mãe e eu permanecemos no Rio.

Eu não tinha idade para compreender a decisão, mas entendi que eles foram embora e nós ficamos. Por muito tempo, esperei por uma visita, por uma mudança de ideia ou por alguma explicação que tornasse aquilo menos doloroso.

Minha mãe precisou trabalhar em vários lugares para nos sustentar. Voltava exausta, com os pés doloridos, e ainda precisava cuidar da casa. Odair prometeu que deixaria a esposa para ficar com ela. Mesmo depois da mudança, minha mãe levou tempo para abandonar aquela promessa.

A exaustão se acumulou até ela adoecer. Vieram o burnout, a depressão e os dias em que sair da cama exigia um esforço que eu não sabia como ajudá-la a fazer. Depois recebemos a notícia de que Odair matou Rosana e se matou.

Nathan perdeu os pais. Eu perdi a possibilidade de receber alguma resposta do meu pai, e minha mãe piorou. Ela foi ficando mais fraca, mais distante das coisas que antes fazia. Eu queria cuidar dela, mas também era uma menina e precisava que alguém cuidasse de mim.

Comecei a trabalhar aos catorze anos, tentando ajudar com as despesas, e terminar a escola exigiu conciliar estudo, cansaço e as necessidades de casa.

Minha mãe morreu depois de um período em que eu a vi adoecer sem conseguir impedir. Quando pensava nela, ainda sentia falta das coisas pequenas: ouvir meu nome na voz dela, ter alguém para quem contar como foi o dia.

— Está doendo? — Nathan perguntou.

Percebi que estava apertando sua mão.

— Está.

Ele olhou para Sakura, que se aproximou da porta para verificar se alguém vinha. Fiquei observando meu irmão e me lembrei de como foi difícil aceitar sua ajuda na primeira internação.

Conheci Rafael aos dezesseis anos, no primeiro ano do ensino médio. Começamos a namorar e continuamos juntos até depois de terminar a escola. No começo, eu gostava de ter alguém interessado em saber onde estava e a que horas chegava. Se ele queria passar todo o tempo comigo, eu entendia que sentia minha falta.

Na terapia, demorei a falar sobre isso sem me culpar. Sentia falta do meu pai, do meu irmão e da segurança que nunca consegui ter em casa. Quando Rafael se tornou a pessoa mais presente na minha vida, passei a depender dele para muito mais do que imaginava.

Ele olhava minhas mensagens, implicava com minhas roupas e perguntava com quem eu conversava. Eu achava que era ciúme porque gostava de mim. Quando dizia que uma amiga não prestava ou que não precisava sair sem ele, começava uma discussão que eu acabava evitando.

Depois da escola, Rafael foi para a faculdade. Eu mal consegui concluir o ensino médio e continuava preocupada com dinheiro. Fomos morar juntos porque eu não tinha condições de pagar um aluguel sozinha. Pareceu uma solução, e quis acreditar que estávamos formando uma família.

As cobranças aumentaram. Ele podia sair, mas, se eu demorasse, precisava explicar cada minuto. Acusava-me por uma mensagem ou uma conversa e me insultava. Eu chorava tentando provar que não fiz nada.

O primeiro tapa veio numa dessas discussões. Depois ele pediu desculpas, disse que perdeu a cabeça e ficou perto de mim até eu parar de chorar. Eu queria tanto recuperar o Rafael do começo que aceitei suas explicações.

Quando descobri as traições, já tinha dificuldade para encontrar alguém com quem conversar. Sem trabalho e dinheiro, dependia dele até para as despesas mais simples. Minha mãe estava morta, meu pai também, e Nathan parecia fazer parte de uma vida à qual eu não tinha mais acesso.

Eu ainda amava Rafael. Precisava que ele voltasse a ser carinhoso, porque não conseguia imaginar como viveria sozinha. Quando me abraçava depois de me machucar, eu me agarrava àquele momento e tentava acreditar que as coisas melhorariam.

As agressões continuaram até ele me mandar para o hospital. Não havia ninguém da família para avisar. Depois, soube que procuraram uma pessoa de contato nas minhas coisas. Uma amiga, que sabia da existência do meu irmão, conseguiu localizar Nathan e contar o que aconteceu. Meu irmão saiu de Porto Alegre e foi ao Rio me encontrar.

Eu tinha vinte anos quando fui internada daquela vez. Nathan me ajudou a conseguir proteção, Rafael chegou a ser preso, e precisei sair de onde morava. Meu irmão ofereceu dinheiro e organizou minha ida a Portugal. Christian, que trabalhava com a Blackwood e ajudou Nathan a organizar meu recomeço, conseguiu a oportunidade na empresa de logística.

Depois soube que Rafael estava em liberdade. Eu tinha uma medida protetiva e vivia em outro país, mas a notícia me fez conferir a fechadura mais vezes e evitar conversas sobre minha rotina.

Durante aqueles dois anos em Portugal, comecei a reconstruir minha vida e continuei a terapia. Demorei a conseguir falar das agressões sem acrescentar alguma justificativa para Rafael. Também demorei a admitir que sentia saudade, embora soubesse o que ele fez.

Aprender a distinguir cuidado de controle exigiu tempo. Eu podia entender durante uma sessão e, em casa, continuar me sentindo culpada por comprar uma roupa de que ele não gostaria. Precisava experimentar escolhas pequenas e perceber que ninguém viria me punir por elas.

Agora, aos vinte e dois anos, estava numa cama de hospital outra vez.

— Ele me achou — falei.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Contrato De Prazer Com Meu Chefe Bilionário e Irresistível   CAP. 8 - — Quero beijar você.

    POV/ NATASHAMeu rosto esquentou.— É… mais ou menos.— É porque eu quero mesmo.Apertei o copo.Desde que deixei Rafael, aos vinte anos, não beijei mais ninguém. Quatro anos sem permitir aquela proximidade, tentando recuperar a confiança até nas escolhas mais simples.Agora eu estava diante de um desconhecido, prestando atenção à sua boca.— O que quer dizer?— Quero beijar você.— O quê?Ele tocou meu rosto e encostou os lábios nos meus antes que eu conseguisse dizer outra coisa.Fiquei imóvel por um instante. Depois correspondi, sem saber como acompanhar a inclinação da sua cabeça. Nossos dentes se tocaram, e me afastei, envergonhada.— Desculpa.Ele riu baixo.— Calma.Voltou a me beijar, dessa vez devagar. Segurei sua roupa com a mão livre e senti o calor do corpo sob o tecido. Quando sua mão se acomodou na minha cintura, um arrepio percorreu meus braços.Meu ventre se contraiu. Apertei sua camisa, surpresa com a vontade de ficar mais perto.Durante alguns instantes, não procurei

  • Contrato De Prazer Com Meu Chefe Bilionário e Irresistível   CAP. 7 - Só por uma hora

    POV/NATASHA— São duas semanas de treinamento remoto — Joana explicou. — Depois você começa presencialmente como secretária de projetos e comunicação, trabalhando comigo e com o senhor Ferraz.Assenti, olhando para os documentos. Eu estava contratada. Oliver disse que eu não tinha a experiência das outras candidatas e, minutos depois, entregou a vaga para mim.— As orientações sobre o uniforme também estão aqui. Leia com calma e me procure se tiver dúvidas.— Obrigada.Preenchi meu nome completo, Natasha Garcia Beaumont, e conferi os campos que ela indicou. Ainda lembrava do olhar de Oliver. Em alguns momentos da entrevista, pareceu procurar alguma coisa no meu rosto. Eu ajeitava a roupa, afastava o cabelo e tentava descobrir se tinha feito algo errado.Quando saí, mandei uma mensagem para Nathan.Consegui.Ele ligou imediatamente.— Conseguiu mesmo?— Consegui.Ouvi Sakura perguntar alguma coisa ao fundo. Meu irmão contou, e ela comemorou tão alto que afastei o aparelho da orelha, ri

  • Contrato De Prazer Com Meu Chefe Bilionário e Irresistível   CAP. 6 - É ela. Caramb é ela.

    POV/OLIVERJoana deixou um copo de água perto de Natasha. Ela agradeceu e bebeu alguns goles, ainda com a bolsa no colo. Enquanto conversavam, segui para a sala de reunião.Os currículos estavam organizados diante da minha cadeira. Tirei o paletó, coloquei-o no encosto e procurei a pasta da última candidata. Natasha Beaumont. A experiência numa empresa de logística em Portugal correspondia à época em que estive lá.Passei os olhos pelo restante do documento, mas continuei lembrando do rosto que vi no elevador.— Pode chamar a primeira — pedi.Entrevistei as outras sete candidatas tentando manter a atenção nas respostas. Algumas tinham formação completa, cursos e experiência nas funções exigidas. Duas mereceram uma marca ao lado do nome. Outras pareciam mais interessadas em prolongar a conversa comigo do que em explicar como trabalhavam.Uma mencionou a lista da Forbes em que viu meu nome. Outra comentou que sua disponibilidade não terminava no expediente, cruzando as pernas enquanto e

  • Contrato De Prazer Com Meu Chefe Bilionário e Irresistível   CAP. 5 - O Bilionário viúvo

    POV/OLIVERNaquela manhã, antes da entrevistaFiquei diante da lápide de Juliana com as mãos nos bolsos, observando a fotografia que a mãe escolheu. Na imagem, minha mulher sorria com o rosto ligeiramente virado para o lado. Eu conhecia aquele sorriso e ainda me irritava por sentir falta dele.Dois anos depois, continuava sem saber o que dizer naquele lugar.Casei com Juliana aos trinta e oito anos. Estávamos perto de completar um mês de casamento quando precisei escolher seu caixão. Agora, aos quarenta, ainda havia dias em que me lembrava de uma conversa nossa antes de recordar o restante: o acidente, o homem no carro e as mensagens que encontrei depois.Ela era dançarina e disse que precisava ir a Portugal para uma apresentação. Eu sabia da gravidez quando nos casamos. Acreditei que seria pai e comecei a fazer planos que nunca cheguei a contar a ninguém. Também me apaixonei por ela. A criança teve importância na decisão de casar, mas não foi a única razão.Viajei depois de saber do

  • Contrato De Prazer Com Meu Chefe Bilionário e Irresistível   CAP. 4 - Nova oportunidade

    Dois anos depoisPOV/NATASHAConferi a roupa diante do espelho: blusa larga de mangas compridas, saia até o meio das canelas e sapatos baixos. Aos vinte e quatro anos, ainda escolhia peças que escondessem minha barriga. Engordei bastante desde que voltei de Portugal e tinha medo dos comentários. A depressão me manteve em casa por muito tempo; a ansiedade ainda me fazia comer sem fome e desistir de sair.Prendi os cachos num coque simples e guardei o currículo na bolsa. O cheiro doce e fresco do xampu ainda estava nos meus cabelos.Da cozinha, ouvi Sakura reclamar:— Nathan, essa caneca é minha.— O café também?— Principalmente.Sorri. Morar com os dois me ajudou a reconhecer uma casa pelos ruídos da rotina, em vez de ficar esperando uma discussão começar. Rafael continuava preso, mas ainda fazia terapia e havia noites em que precisava conferir a fechadura mais de uma vez.Da internação em Portugal, guardava lembranças incompletas. Sabia que Nathan e Sakura estavam comigo quando acord

  • Contrato De Prazer Com Meu Chefe Bilionário e Irresistível   CAP. 3 — Não quero falar.

    POV/ NATASHANathan voltou a olhar para mim.— Eu sei.— Troquei de número. Fui embora…Minha voz falhou. Tentei respirar mais fundo, mas a dor nas costelas interrompeu o movimento.— Não sei como ele encontrou você — meu irmão respondeu. — Mas vou acompanhar isso.— Ele vai voltar.Nathan apertou meus dedos com cuidado.— A polícia está cuidando disso.Olhei para a porta. Uma enfermeira entrou, e meu corpo ficou tenso antes que eu percebesse quem era. Ela se apresentou e perguntou como eu estava. Minha cabeça pesava, e demorei a responder.Enquanto ela verificava os aparelhos e o acesso, Sakura explicou que eu sentia dor e estava com a boca seca. A enfermeira me ajudou a beber alguns goles de água, devagar. O líquido passou pela garganta dolorida, deixando um alívio pequeno.— Quero levar você para Porto Alegre — Nathan disse quando ela terminou de me acomodar.Virei o rosto para ele.— Não quero ir embora de novo.— Você pode ficar comigo.— Eu moro aqui.Pensei na comida na geladei

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status