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164. Um Problema Ambulante

Autor: Ju Andrade
last update Fecha de publicación: 2026-09-20 13:43:35

Minha mulher abre a boca para intervir, mas me antecipo antes que ela consiga falar.

Se ela se pronunciar, vai ser mais difícil fazer Caleb entender que isso não é sobre orgulho, muito menos sobre quem vai pagar a dívida.

É sobre resolver o problema antes que ele chegue até ela.

— Você vem comigo.

— Para onde? — ele pergunta, franzindo a testa.

— Para o meu escritório.

Amy imediatamente olha para mim.

— Dante…

— Eu não vou fazer nada contra ele, Piccola — corto, mais calmo dessa vez. —
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    “Sei que essa talvez seja a parte mais difícil de acreditar, principalmente depois desses anos ouvindo apenas a versão que deixei para vocês. Mas é a verdade, meu filho. Sem que ninguém soubesse, eu observei tudo. Inclusive você. Principalmente você. Vi você crescer e deixar de ser o menino que corria até a porta para me receber e se tornar o homem que todos passaram a respeitar. Vi seu primeiro negócio dar certo. Vi todos os outros que vieram até você conseguir construir seu próprio nome sem precisar do meu. E, talvez, essa seja a parte que mais me dói admitir: senti orgulho de você em cada etapa. Porque ser seu pai nunca deixou de ser a coisa mais importante da minha vida.” Paro de ler, precisando de um momento para respirar fundo e não chorar, mas é em vão. Passo a mão rapidamente pelo rosto, tentando esconder a lágrima que já escapou. — Passei a vida inteira achando que ele tinha escolhido ir embora — murmuro, sem tirar os olhos da carta. — Nunca ligou. Nunca mandou uma

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    Fico olhando para o envelope por alguns segundos, sem conseguir desviar os olhos do meu nome. A caligrafia é desconhecida, mas o nome no final não precisa de assinatura para me dizer quem escreveu. Meu pai. Passo o polegar devagar pela borda do papel, sentindo uma inquietação crescer no peito. — Amor? O que é isso? A voz dela faz com que eu finalmente me levante. Amy permanece ao meu lado, ainda segurando o pequeno caminhão de madeira, mas agora nem parece lembrar que estava me provocando. — É do meu pai — digo, sem saber por que minha voz sai tão baixa. — Quer abrir? — pergunta, olhando para o envelope. Respiro fundo, sem responder imediatamente. Por algum motivo, a pergunta parece mais difícil do que deveria. Porque, até alguns minutos atrás, eu achava que tinha vindo até esta casa atrás de respostas sobre o testamento. Agora, tenho uma carta escrita pelo meu pai nas mãos. E não faço ideia do que vou encontrar dentro dela. Solto o ar devagar e assinto. — Quero. Passo

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    “Dante Ferretti” Seguro as chaves com mais força entre os dedos e caminho até o portão. Não venho aqui há vinte anos. Talvez um pouco mais. Agora, olhando para a fachada, consigo enxergar o que nunca consegui naquela época. Era apenas uma casa. Uma casa onde meu pai viveu. Onde minha mãe tentou construir uma família. Um lugar do qual saí sem entender que levaria décadas para voltar. Amy toca meu braço. — Você está bem? — pergunta ao meu lado, entrelaçando nossos dedos. — Estou. Não é totalmente mentira. Só não é totalmente verdade também. Empurro o portão, que range baixo, e seguimos pelo caminho de pedras até a porta. O jardim, antes cuidado pessoalmente pela minha mãe com um capricho quase obsessivo, agora é só mato alto e roseiras secas. A chave gira na fechadura com dificuldade, como se a casa também tivesse esquecido como se abrir para mim. E, no instante em que entro, sinto como se o tempo tivesse cometido um erro. O cheiro é diferente. Há poeira, madeira antiga

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    “Amy Ferretti”Desde que voltei para minha mesa, minha atenção insiste em se manter totalmente na sala de Dante.Não consigo ouvir o que ele e Victor estão conversando através do vidro, mas consigo enxergar os dois com facilidade.Victor fala.Dante escuta.Não que eu esteja espiando de propósito.Só que, quando meu marido franze a testa desse jeito, apoiando os cotovelos na mesa e passando a mão pelo maxilar, é praticamente impossível fingir que não notei.Victor está sentado à frente dele, com uma pasta aberta entre os dois. A postura dos dois mudou desde que saí de lá, há vinte minutos.Finjo ler o relatório na tela, mas meus olhos continuam voltando para o vidro.Dante diz algo, com as mãos abertas sobre a mesa. Victor responde, apontando para um dos papéis, e balança a cabeça devagar, como quem já esperava aquela reação.Até que Victor diz alguma coisa que faz Dante mudar visivelmente.Ele passa a mão pelo rosto e se recosta na cadeira, claramente tentando controlar a própria rea

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    “Dante Ferretti” O almoço termina do mesmo jeito que começou: rápido demais. Saio do banheiro após ter escovado os dentes e encontro Amy retocando o batom, usando o celular como espelho. Sorrio com a cena. Porque, dessa vez, não fui eu quem cuidou dela. Dessa vez, foi ela quem se preocupou comigo o suficiente para pedir nosso almoço e trazer para a minha sala, só para ter certeza de que eu realmente iria comer. Não foi exatamente o almoço romântico que eu teria planejado, mas, considerando o quanto minha agenda anda caótica, ter alguns minutos com minha mulher sem ninguém nos interromper já é suficiente. Ou era. A batida na porta me faz olhar para ela. Victor entra segurando uma pasta fina e, pela maneira como ele me olha, sei imediatamente que o almoço tranquilo acabou. — Espero não estar interrompendo — diz, fechando a porta. Olho para Amy, que sorri. — Já terminamos — respondo, voltando a me sentar. Victor assente, sem falar mais nada, e isso é o suficiente para Amy en

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    O celular vibra de novo, insistente, e finalmente olho para a tela. Um número que não tenho salvo. “Oi, Amy. Tem tempo para um café?” Franzo a testa, lendo de novo. Sem nome, sem identificação. Só isso. — Tudo bem? — Paige pergunta, notando minha expressão. — Não sei. Um número estranho me chamando para café. — Bloqueia logo. — Deixa eu ver quem é primeiro. Digito rápido: “Quem é?” A resposta não demora. “Seu irmão favorito. Ou você tem outro que eu não sei?” Reviro os olhos, mas não consigo segurar o sorriso. “Caleb, seu idiota! Mudou de número e não me avisou.” “Só queria ver se você é curiosa o suficiente. E então, café?” “Sim. Onde?” “Copa do seu andar em dez minutos. Ou minha pausa será em frente a outro processo.” Rio baixinho, guardando o celular. — Era o Caleb — explico para Paige, que continua me encarando. — Brincando de espião. — Esse seu irmão é uma comédia. Gostei dele. — Não fala isso perto dele. Ou ele vai ficar insuportável. Paig

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