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Entre o certo e o necessário

作者: Escritoramis
last update publish date: 2026-08-06 06:05:14

Narrado por Theo

Ela mentiu pra mim.

Não foi uma mentira grande. Não do tipo que destrói.

 Foi do tipo que protege.

 Mas ainda assim, doeu.

 Doeu porque veio dela.

 E porque, no fundo, eu sabia que viria.

Quando bati na porta do apartamento de Helena naquela manhã, não foi por causa do caso. Foi porque passei a noite inteira com a sensação de que algo estava errado. O tipo de sensação que o tempo na rua ensina. Um frio no estômago que avisa: alguém que você ama está prestes a atravessar uma linha perigosa.

Sim. Eu disse “ama”.

Porque amar não é escolha. É consequência.

Ela atendeu com o rosto pálido, os olhos vermelhos e aquele caderno velho nas mãos. Nem tentou esconder.

— A gente precisa conversar. — disse, entrando sem esperar convite.

— Theo, eu...

— Onde você esteve ontem à noite?

Silêncio.

— Eu te liguei. Você disse que estava em casa.

— Eu estava voltando. — ela respondeu, sem me encarar. — Fui encontrar uma amiga. Jornalista. Alguém que poderia nos ajudar a entender o que está acontecendo com o Lucas.

— Sozinha? Você saiu sozinha com esse caderno nas mãos e foi entregar informações que envolvem uma milícia policial pra uma jornalista?

Ela engoliu em seco.

— Eu não podia ficar parada. Você sabe disso.

Senti o sangue subir.

— Você podia ter sido seguida, Helena! Eles poderiam saber agora mesmo quem você é. Onde você mora. O que tem nas mãos!

— E o que você queria que eu fizesse? Sentar e esperar por um relatório burocrático enquanto o Lucas continua desaparecido? Enquanto as provas somem, as pessoas calam, e a verdade vira estatística?

Ela deu um passo à frente, os olhos cheios de fogo.

 E lágrimas.

— Você não é o único que sente culpa, Theo. Você não é o único que perdeu alguém. Eu perdi alunos. Já fui a enterros demais. Já abracei mães demais. Já vi sonhos sendo enterrados em valas que ninguém cobre com flores.

Silêncio.

A cidade parecia ter parado do lado de fora. Como se ouvisse.

— Eu tô tentando. — sussurrei, por fim. — Tentando te proteger. Não só como policial. Mas como homem. Como alguém que... que não suportaria perder você também.

Ela se aproximou devagar. Tocou meu rosto.

— Então pare de tentar me proteger como se eu fosse frágil. Me proteja estando ao meu lado. Me proteja confiando. Me proteja lutando junto.

Fechei os olhos.

Havia nela uma força que me assustava.

 Mas também era essa força que me prendia.

Antes de ir embora, deixei claro:

— A partir de agora, fazemos isso juntos. E você me conta tudo. Cada passo. Cada informação. Cada nome. Promete?

— Prometo.

— E uma coisa mais.

— Qual?

— Se algo acontecer comigo... você corre. Corre sem olhar pra trás.

Ela negou com a cabeça, os olhos cheios d’água.

— Não me peça isso. Porque se algo acontecer com você... eu não fico.

Naquela noite, fui até a corregedoria.

 Entreguei o nome que encontrei riscado numa das folhas do caderno: Tenente Ricardo Nogueira — o “Negão”.

 Um nome que todo mundo teme, mas ninguém toca.

Quando assinei a denúncia, senti que uma porta se fechava atrás de mim.

 E outra, bem mais perigosa, se abria.

Helena não tinha ideia do que estava prestes a começar.

 Mas eu tinha.

 E se o inferno vinha... eu atravessaria de mãos dadas com ela.

Porque às vezes, amar também é desobedecer.

 E justiça... justiça de verdade… só acontece quando a coragem vence o medo.

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