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Capítulo 03 - A Proposta Absolutamente Absurda  

Author: Annanda
last update publish date: 2026-03-28 21:38:12

O banheiro feminino do departamento jurídico estava estranhamente silencioso naquela hora da manhã.

O tipo de silêncio que parecia observar, julgar… ou apenas esperar o inevitável.

Quando Dayse entrou, o movimento foi apressado e desajeitado. Ela empurrou a porta com força demais e quase tropeçou nos próprios passos, como alguém tentando fugir de um pensamento que corria atrás dela pelos corredores da empresa.

Desde que havia saído da sala da presidência, aquela sensação absurda se recusava a abandoná-la.

Ela caminhou até a pia e apoiou as duas mãos no mármore frio da bancada, inclinando o corpo para frente enquanto encarava o próprio reflexo no grande espelho iluminado.

Respirou fundo, uma vez. Duas.

Seu rosto estava pálido. Os olhos ainda arregalados, como os de alguém que tentava desesperadamente parecer no controle da própria vida… mesmo não estando.

— Isso não está acontecendo… — murmurou para o espelho, com a voz baixa.

Mas a lembrança da conversa ainda estava fresca  e martelava na sua cabeça sem pausa.

Atrás dela, a porta do banheiro se abriu com um rangido discreto e Clara entrou ajeitando a bolsa no ombro, mas parou no meio do caminho ao perceber a postura tensa da amiga diante do espelho.

Ela inclinou a cabeça, curiosa.

— Dayse… — chamou devagar. — O que foi que o presidente queria com você afinal?

Nenhuma resposta.

Dayse continuava encarando o próprio reflexo, como se ainda estivesse tentando reconhecer a pessoa que via ali.

Clara franziu levemente a testa.

— Ele não te demitiu, né?

Silêncio.

A curiosidade virou inquietação.

— Porque se ele fez isso, eu juro que vou lá agora mesmo — continuou Clara. — Bato na porta, faço um discurso dramático, imploro por você… não tenho problema nenhum em passar vergonha.

Dayse finalmente virou o rosto para a amiga. Respirou fundo e falou com uma calma completamente incompatível com o que estava prestes a dizer:

— Meu chefe quer casar comigo.

Clara piscou uma vez, duas e depois franziu a testa com tanta força que parecia estar reorganizando o próprio cérebro.

— Desculpa… — disse lentamente. — Eu devo ter ouvido errado.

Dayse passou a mão pelos cabelos escuros, bagunçando-os com nervosismo.

— Não ouviu.

Clara se aproximou um pouco mais.

— Ele quer… o quê?

Dayse fechou os olhos por um instante antes de repetir:

— Casar comigo.

O silêncio que se instalou no banheiro foi tão pesado que parecia ecoar nas paredes.

Clara apoiou o quadril na bancada e cruzou os braços.

— Isso é uma piada?

Dayse soltou uma risada nervosa.

— Eu também achei.

Clara ergueu uma sobrancelha.

— E não é?

— Não.

— O CEO da empresa?

— Sim.

— O homem que faz metade da empresa suar frio só de entrar numa sala?

Dayse suspirou.

— Esse mesmo.

Clara soltou um assobio baixo.

— Ok… agora eu realmente estou interessada.

Ela inclinou a cabeça.

— Porque diabos ele  fez essa proposta para você?  

Dayse respirou fundo.

— Em troca de resolver o problema do contrato.

Clara piscou.

— Ah...

Dayse arregalou os olhos.

— AH?!

Clara deu de ombros.

— Quatro milhões de dólares é um argumento bem convincente.

Dayse começou a andar de um lado para o outro pelo banheiro, passando as mãos pelo rosto.

— Eu não posso acreditar que isso está acontecendo…

Clara observava tudo com atenção.

— Tem mais alguma coisa nessa história… não tem?

Dayse parou de andar. Ficou em silêncio por alguns segundos e depois respirou fundo.

— Eu dormi com ele ontem.

Clara levou alguns segundos para entender. Quando entendeu, o grito ecoou pelo banheiro inteiro.

— VOCÊ O QUÊ?!

— EU NÃO SABIA QUE ERA ELE! — respondeu Dayse imediatamente, levantando as mãos em defesa.

Clara levou a mão à testa.

— Meu Deus do céu… então o cara que você disse que não lembrava o rosto…

— Era ele.

— O nosso chefe?

— Sim.

Dayse cobriu o rosto com as mãos.

— Eu quero desaparecer.

Clara inclinou a cabeça, analisando a amiga com um olhar pensativo. Depois soltou:

— Bom… pelo menos o casamento não vai ser um sofrimento visual.

Dayse lançou para ela um olhar mortal.

— Eu odeio você.

Clara sorriu.

— Não odeia não.

Ela se inclinou para frente, curiosa.

— Você dormiu com aquele Deus grego que faz metade das mulheres da empresa molhar a calcinha quando ele passa.

— CLARA!

— Tô mentindo?

Dayse fez um som desesperado.

— Meu Deus, eu realmente quero morrer.

Clara continuou, completamente entretida:

— Aquele homem daquele tamanho, com aquelas mãos deve saber exatamente como dar prazer para uma mulher.

— CLARA PELO AMOR DE DEUS!

Clara soltou um suspiro teatral, ainda claramente muito mais entretida com aquela situação do que deveria estar.

— Não é nada disso.

— Não é nada disso? Então explica melhor, porque do jeito que você contou a história… parece muito que o nosso querido CEO ficou extremamente satisfeito com o serviço prestado.

— CLARA! — Dayse praticamente sibilou o nome da amiga.

Clara levantou as mãos, como quem se rende… mas o sorriso continuava ali.

— Eu estou apenas analisando os fatos. Mas agora falando sério, se ele está te propondo casamento… — Um sorriso malicioso surgiu.. — Dayse sua safada deu um verdadeiro chá de buceta no CEO que ele ficou … apaixonado. 

— Clara! 

— Só pode minha amiga, caso contrário ele não estaria lhe fazendo uma proposta tão séria se não tivesse gostado.  

Dayse respirou fundo, passando as mãos pelo rosto antes de responder, tentando recuperar um mínimo de lógica.

— Ele precisa se casar.

Clara piscou.

— Precisa?

— Exigência do avô.

— Ah…

Dayse voltou a andar pelo banheiro.

— Pelo que eu entendi, ele não quer um relacionamento de verdade. Nem compromisso emocional. Então viu uma oportunidade perfeita.

Clara ergueu uma sobrancelha.

— Você.

Dayse apontou para si mesma.

— Eu.

Ela soltou um suspiro cansado.

— Uma funcionária que acabou de cometer um erro de quatro milhões de dólares. Alguém que ele pode pressionar para aceitar essa proposta absurda.

Clara ficou em silêncio por alguns segundos. Então… um sorriso malicioso apareceu em seu rosto.

Dayse percebeu imediatamente.

— Não faz essa cara.

— Eu ainda acho — disse Clara calmamente — que ele simplesmente gostou muito do chá que você deu nele ontem à noite.

— CLARA!

Clara deu de ombros.

— Coincidências desse tipo são curiosas.

— Não tem nada de curioso!

— Você passou a noite com um homem que é praticamente uma fantasia ambulante…

Dayse fechou os olhos.

— Isso não significa nada.

Clara sorriu.

— Ou significa tudo.

Dayse a encarou com exasperação.

— Ele não está apaixonado.

Clara levantou um dedo.

— Eu não disse que está.

— Ele está apenas tentando resolver um problema.

— Pode ser...

— Usando a minha situação como vantagem.

— Também pode ser...

Dayse franziu a testa.

— Então por que você continua com essa cara?

O sorriso de Clara se alargou.

— Porque eu trabalho nessa empresa há cinco anos.

Dayse esperou e Clara inclinou levemente a cabeça.

— E nesses cinco anos… eu nunca vi Edward Fitzgerald fazer absolutamente nada que ele não quisesse fazer.

O silêncio caiu entre as duas.

Dayse piscou.

— O que isso significa?

Clara deu de ombros.

— Significa que, se ele te pediu em casamento…

Ela sorriu.

— Provavelmente tem mais coisa nessa história do que apenas um contrato de quatro milhões de dólares.

— Você só pode estar maluca.

Clara ignorou.

— Mas falando sério…

Dayse suspirou.

— O quê agora?

Clara abriu um sorriso pequeno.

— Você já dormiu com ele.

Silêncio.

Clara concluiu com um brilho divertido nos olhos:

— Então tecnicamente… vocês já pularam a parte mais constrangedora do casamento.

Dayse encostou a cabeça na parede fria do banheiro e fechou os olhos.

Em menos de vinte e quatro horas ela havia cometido três erros gigantescos:

Dormir com um estranho.

Descobrir que o estranho era o CEO da empresa.

E receber dele uma proposta de casamento.

O problema?

Era que Dayse tinha a sensação muito clara de que aquilo não era o pior que podia acontecer.

Era apenas o começo.

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