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Capítulo 3

Author: Belarmino Verde
— Só tem um problema. — Lívia arqueou a sobrancelha, sorrindo.

O rosto de Valter escureceu, ele não esperava que ela recusasse tão diretamente.

— Lili, o papai deve ter os seus motivos. Escute-o. — Sussurrou Ian para Lívia.

— Que motivos? — Ela perguntou.

Ian ficou surpreso. A Lívia de antes teria obedecido sem o questionar.

— Você não está cansada? Que tal deixarmos para tratar disso amanhã no escritório?

— Estou, de fato, cansada. Afinal, tive que lidar com a outra parte, negociar a parceria e ainda voltar a tempo de te fazer uma surpresa.

— Então...

— Mas ainda quero saber quais são os motivos do sogro. — Ela disse com um sorriso suave, mas firme, sem ceder um centímetro.

— Humpf! — Valter resmungou.

Lívia olhou para ele.

— Sogro, eu estou preparando esse projeto há mais de seis meses. Passei a maior parte do último mês viajando, trabalhando até de madrugada, às vezes até dormindo direto no escritório. Agora que o projeto finalmente está prestes a ser fechado, o senhor quer me substituir. Não posso simplesmente aceitar sem entender, certo?

— Você precisa ter visão de longo prazo! — Valter respondeu.

— Como assim, visão de longo prazo?

— Você é nora da família Santiago. Os negócios da família, mais cedo ou mais tarde, serão seus e do Ian. Um projeto não significa nada. Faço isso para ganhar apoio para você.

Lívia riu alto. O presidente do Grupo Céu Azul, tão imponente, mentindo na cara dura, sem corar ou tremer.

— E você ainda tem coragem de rir! — Teresa, que segurava a raiva, finalmente explodiu. — Se não fosse pelo fato de você ser nossa nora, Valter nem precisaria falar nada! Te chutaria para fora sem mais nem menos! Você teria coragem de pedir demissão?

— Mãe! — Ian alertou baixo.

— Já aguentei ela tempo demais! — Teresa bateu na mesa. — Que nora é essa que passa o dia fora, não ajuda os sogros e nem cuida do marido? Qual o sentido de ter uma nora assim na nossa família?

— Eu não sirvo para nada? — Lívia estalou a língua. — No ano passado, fechei dois projetos para a empresa, rendendo cem milhões, não foi?

— Você acha que a empresa não fecharia projetos sem você? — Teresa apontou o dedo para Lívia. — Só conseguiu porque seu sogro e o Ian te ajudaram! E ainda levou parte do bônus! Já se aproveitou o suficiente, não seja ingrata!

— Chega! — Valter gritou. — Uma família não deve agir assim, com tanta frieza!

— Papai, mamãe, não fiquem bravos. Eu vou falar com a Lili... — Ian tentou intervir.

— Não precisa! — Lívia o interrompeu. — Eu aceito sair do projeto!

— Lili, eu sabia que você era a mais sensata. — Ian respirou aliviado e sorriu, abraçando-a.

— Sou sensata mesmo, por isso sou fácil de enganar. — Lívia se afastou dele, rindo com desdém.

— Lili, o que você quer dizer com isso? — Ian franziu a testa.

— Quero dizer que você me enganou.

— Eu? Quando?

— Quando tiramos a certidão de casamento, você disse que me daria um casamento grandioso. Já se passaram três anos e você ainda não cumpriu sua palavra! — Lívia fez bico, fingindo estar brava.

— Você... quer um casamento?

— É pedir demais?

— Claro que é pedir demais! — Teresa interveio. — Vocês já são casados, e há três anos! Fazer um casamento agora é desperdício!

— Se não houver casamento, como os outros saberão que sou nora da família Santiago e esposa do Ian? E, se alguém se passar por mim, quem sai no prejuízo sou eu!

— Você está dizendo absurdos!

— Então, se quiser, eu posso desistir do projeto, mas quero um casamento. Precisa ser grandioso, para que toda Cidade Y saiba. Caso contrário, nem pensem nisso!

— Nossa família realmente te deu muita consideração... — Teresa começou a falar.

Mas Lívia não a deixou terminar e atirou os talheres na mesa. Com um estrondo, os três da família Santiago ficaram pálidos. Ela sempre foi boa demais com eles, e foi isso que os fez ousar em enganá-la e humilhá-la!

— Você... você...

— Estou sem apetite, vou subir! — Disse Lívia, levantando-se e caminhando para o andar de cima.

Diferente de antes, ela não foi a última a levantar da mesa, não ajudou Margarida a recolher os pratos e a lavar a louça, nem cortou as frutas para a família, nem aguentou a conversa cansativa deles, mesmo com sono.

No andar de cima, Margarida tentava abrir a porta do quarto de Lívia e Ian com uma chave. Lívia sorriu de canto e se aproximou.

— Margarida, o que você pensa que está fazendo?

Margarida se assustou e levantou as mãos, escondendo a chave atrás das costas.

— Eu só queria limpar o quarto, mas, por algum motivo, a porta está trancada.

— Eu que tranquei.

— Hã?

Lívia tirou a chave do bolso e abriu a porta na frente de Margarida.

— Vá para a sala de estar por enquanto, vou limpar rapidinho. — Margarida tentou entrar, mas Lívia foi na frente e bloqueou a porta.

— Estou cansada, quero dormir cedo. Não precisa limpar.

Com isso, ela fechou a porta com um estalo, sem esperar que Margarida respondesse. Ao se virar, pela pouca luz da janela, viu uma sombra correndo apavorada para dentro do closet. Que engraçado. Quem disse que só quem tem certidão pode aparecer? Ali estava alguém com certidão se escondendo feito rato. Ela não acendeu a luz, entrou e saiu do closet de propósito. O "rato" só podia se encolher lá dentro, sem se mover ou fazer barulho.

Quando foi tomar banho, Lívia deixou a porta entreaberta de propósito. Ao sair, percebeu que a porta do closet estava ligeiramente aberta, o ar lá dentro devia estar abafado. O "rato" também precisava de ar fresco.

Ela vestiu o pijama, deitou-se e ficou observando o closet.

Ela e Viviane se conheceram no ensino médio, começaram como colegas de classe, depois se tornaram amigas. O vínculo se fortaleceu quando as duas frequentaram a mesma universidade. Elas compartilhavam tudo e passaram os anos de faculdade juntas.

Mais tarde, Lívia entrou para o Grupo Céu Azul como estagiária, onde Ian também estava entre os estagiários. Na época, ela não fazia ideia de que ele era o herdeiro da família Santiago, ela presumiu que ele vinha de uma família comum como a dela.

Eles foram designados para o mesmo grupo, trabalharam juntos em projetos, fizeram horas extras, gradualmente se aproximaram e se apaixonaram.

Somente três anos depois, após o acidente de carro, ela descobriu que Ian era da família Santiago.

Ao pensar nisso tudo, Lívia passou a mão na cicatriz profunda no seu abdômen.

Naquele dia, eles estavam no banco de trás de um táxi. Quando uma barra de ferro de um caminhão perfurou o para-brisa, ela instintivamente protegeu Ian, colocando-se à frente dele. A barra então atingiu seu corpo, lesionando seu útero.

Durante sua recuperação, Viviane entrou no Grupo Céu Azul graças à indicação de Lívia.

Fazendo as contas, não deu nem meio ano e ela já tinha se casado com Ian.

E ninguém vai falar nada sobre as manobras da queridinha?

De repente, Ian bateu na porta.

— Lili, abre, me deixa entrar.

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