LOGINValentina acordou no meio da manhã com a sensação estranha de não saber onde estava.
Por alguns segundos, ficou olhando para o teto claro do quarto, tentando organizar os pensamentos.
Então viu as paredes elegantes, a poltrona ao lado da janela e a pequena mesa com um copo de água.
O apartamento.
Dante.
O hospital.
A traição.
Tudo voltou de uma vez.
Valentina fechou os olhos.
Seu peito doeu.
Ela levou a mão ao ventre.
"Ora, meu amor..."
Acariciou a barriga ainda sem qualquer mudança visível.
"Você e eu vamos ficar bem."
Era uma promessa que precisava repetir para si mesma.
Ela se levantou devagar e caminhou até o banheiro. Depois de tomar um banho, vestiu as roupas que haviam sido trazidas do hospital e prendeu os cabelos.
Quando saiu do quarto, ouviu vozes na cozinha.
Valentina parou.
Dante estava ali.
Usava uma camisa branca com as mangas dobradas até os antebraços e preparava algo sobre a bancada.
Ela ficou alguns segundos observando.
Era uma cena estranhamente doméstica.
Um homem que ela conhecia havia apenas um dia preparando o café da manhã para ela.
Dante percebeu sua presença e se virou.
"Bom dia."
"Bom dia."
"Como está se sentindo?"
"Melhor."
Ele apontou para a cadeira.
"Sente-se."
Valentina caminhou até a mesa.
Havia frutas, torradas, ovos, suco e uma pequena xícara de chá.
Ela olhou para a comida.
"Você preparou isso?"
"Não. Pedi para prepararem."
Ela sorriu discretamente.
"Imaginei."
Dante sentou-se à frente dela.
"Conseguiu dormir?"
"Um pouco."
"Alguma dor?"
"Minha cabeça ainda está dolorida."
"Depois do café, você vai tomar o medicamento que o médico passou."
Valentina ergueu os olhos.
"Você decorou as recomendações?"
Dante deu de ombros.
"Eu estava no hospital."
Ela abaixou o olhar.
Era estranho receber cuidado de alguém que praticamente não conhecia.
Durante o café, o silêncio entre eles não era desconfortável.
Valentina comia devagar enquanto tentava decidir o que faria.
Aquele apartamento não poderia ser sua vida.
Ela precisava encontrar um lugar.
Precisava conversar com seus pais.
Precisava resolver a questão do casamento.
Precisava cuidar da gravidez.
Dante pareceu perceber a inquietação dela.
"Você já decidiu o que vai fazer?"
"Não."
"Sobre Riccardo?"
Valentina apertou os dedos ao redor da xícara.
"Eu vou pedir o divórcio."
Dante assentiu.
"Tem certeza?"
"Tenho."
Ela respirou fundo.
"Não consigo continuar casada com um homem que me traiu com minha melhor amiga."
"Justo."
Valentina olhou para ele.
"Você não acha que eu deveria perdoá-lo?"
"Não cabe a mim decidir."
"Então por que perguntou?"
"Porque algumas pessoas tomam decisões durante a raiva e se arrependem depois."
Valentina pensou por alguns segundos.
"Eu não estou decidindo por raiva."
"Então por quê?"
"Porque entendi que aquele casamento já não existia."
Dante manteve os olhos nela.
Valentina continuou:
"Riccardo não me traiu em uma noite de fraqueza. Ele fez isso durante meses. Enquanto eu acreditava que tínhamos problemas normais de casamento, ele construía outra relação."
Ela engoliu em seco.
"Eu não quero mais lutar por alguém que já decidiu me perder."
Dante não respondeu de imediato.
Depois apenas disse:
"Então não lute."
Aquelas duas palavras ficaram na cabeça dela.
Não lute.
Talvez fosse exatamente o que precisava ouvir.
Valentina passou o restante da manhã resolvendo algumas coisas por telefone.
Ligou para seu advogado.
Mandou uma mensagem para os pais dizendo apenas que precisava conversar pessoalmente.
Também falou com uma amiga do trabalho, pedindo que reunisse alguns documentos que estavam no escritório.
Quando terminou, estava exausta.
Sentou-se no sofá e fechou os olhos.
Dante apareceu alguns minutos depois.
"Você deveria descansar."
"Estou tentando."
Ele ficou parado diante dela.
"Preciso conversar com você."
Valentina abriu os olhos.
O tom dele era diferente.
Mais sério.
"O que aconteceu?"
Dante se sentou na poltrona à sua frente.
"Recebi uma ligação da minha mãe."
Valentina franziu a testa.
"E?"
"Ela quer que eu me case."
Valentina não esperava aquilo.
"Mas isso não é uma coisa normal? Seus pais querem que você se case?"
"Minha família é tradicional."
"Entendi."
Dante cruzou as mãos.
"Eles já escolheram uma mulher."
Valentina piscou.
"Escolheram?"
"Sim."
"Para você?"
"Sim."
Ela quase sorriu.
"Desculpe, mas isso parece absurdo."
"Para mim também."
"Então diga não."
"Eu já disse."
"Qual é o problema?"
Dante respirou fundo.
"Minha mãe não aceitou."
Valentina percebeu que ele estava realmente incomodado.
"Eles podem obrigar você?"
"Não."
"Então você é livre."
"Sou."
"Não entendi."
Dante ficou alguns segundos em silêncio antes de falar.
"Minha família está enfrentando uma situação delicada. Um casamento agora resolveria alguns conflitos familiares e evitaria uma série de discussões."
Valentina começou a entender.
"Você precisa parecer comprometido."
"Exatamente."
Ela inclinou a cabeça.
"E por que está me contando isso?"
Dante olhou diretamente para ela.
"Porque quero fazer uma proposta."
Valentina sentiu o coração acelerar.
"Que proposta?"
Dante manteve a calma.
"Case-se comigo."
Ela ficou completamente imóvel.
Por alguns segundos, achou que tivesse entendido errado.
"Desculpe?"
"Um casamento por contrato."
Valentina soltou uma risada nervosa.
"Dante, eu conheço você há um dia."
"Eu sei."
"Eu acabei de sair de um casamento."
"Eu sei."
"Estou grávida."
"Eu sei."
"E você está me pedindo para casar com você?"
"Sim."
Valentina levantou-se do sofá.
"Você enlouqueceu?"
Dante não se ofendeu.
"Provavelmente não."
"Então explique."
Ele levantou também.
"Você precisa de tempo para reorganizar sua vida. Precisa de um lugar seguro. Precisa se afastar da influência do seu ex-marido e da situação que acabou de enfrentar."
"Isso não significa que eu precise casar."
"Não."
Dante concordou.
"Você não precisa."
"Então por quê?"
"Porque também tenho algo a ganhar com isso."
Valentina ficou em silêncio.
"Minha família deixará de insistir no casamento que eles escolheram para mim. Eu ganho tempo e tranquilidade."
"Quanto tempo?"
"Um ano."
Ela cruzou os braços.
"Você está falando sério."
"Muito."
Valentina começou a andar pela sala.
Era absurdo.
Completamente absurdo.
Mas também era a primeira proposta que parecia oferecer uma saída para a situação em que estava.
Ela não queria voltar para a casa de Riccardo.
Não queria morar com os pais.
Não queria que todos a tratassem como a mulher abandonada que estava esperando um filho de um homem que a traiu.
E, naquele momento, Dante oferecia estabilidade.
Ainda assim, existia uma pergunta.
"Por que eu?"
Dante ficou em silêncio durante alguns segundos.
"Porque você precisa disso e eu também."
"Existem dezenas de mulheres que aceitariam."
"Provavelmente."
"Então por que eu?"
Ele se aproximou.
"Porque sei como você é."
Valentina franziu a testa.
"Você me conhece?"
"Não profundamente."
"Então?"
"Vi você algumas vezes."
Ela ficou surpresa.
"Onde?"
"Em eventos. Restaurantes. Alguns encontros ligados ao trabalho."
"Você já tinha me visto?"
"Sim."
"Então por que nunca falou comigo?"
Dante deu um pequeno sorriso.
"Você era casada."
Valentina não sabia o que responder.
A explicação era simples.
Não havia nada escondido.
Nenhuma história secreta.
Apenas um homem que havia notado sua existência e mantido distância por respeito.
Dante continuou:
"Não estou tentando aproveitar sua fragilidade."
Valentina olhou para ele.
"Quero deixar isso muito claro. Você pode recusar."
Ela respirou fundo.
"Como seria esse contrato?"
"Um ano."
"Depois?"
"Divórcio."
"E durante esse tempo?"
"Cada um mantém sua liberdade. Não haverá obrigação de intimidade."
Valentina sentiu o rosto esquentar.
"Você pensou em tudo."
"Preciso pensar."
"Como será diante da sua família?"
"Seremos marido e mulher."
"Então teremos que fingir."
"Talvez no início."
"Talvez?"
Dante sustentou o olhar.
"Eu não pretendo fingir quando estivermos sozinhos."
Valentina sentiu o coração acelerar.
Não sabia por que aquela frase tinha mexido tanto com ela.
Talvez porque, depois de Riccardo, havia algo diferente em ouvir um homem falar diretamente.
Sem jogos.
Sem mentiras.
Ainda assim, havia outra questão.
"Meu filho."
Dante respondeu sem hesitar.
"Ele será tratado com respeito."
"E se você mudar de ideia?"
"Não vou."
"Como sabe?"
"Porque, para mim, uma criança não deve pagar pelos erros dos adultos."
Valentina sentiu os olhos arderem.
Fazia pouco tempo que conhecia aquele homem.
Ainda assim, ele parecia mais consciente da responsabilidade de uma criança do que o próprio pai do bebê.
Ela se sentou novamente.
"Eu preciso pensar."
"Claro."
"Não vou responder hoje."
"Não espero que responda."
Dante pegou um cartão e colocou sobre a mesa.
"Esse é o contato do meu advogado. Ele vai preparar um contrato detalhando tudo. Você pode ler com seu próprio advogado."
Valentina pegou o cartão.
"Você realmente quer fazer isso?"
"Sim."
"Mesmo sabendo que estou grávida?"
"Principalmente por saber."
Ela o encarou.
"Por quê?"
Dante respondeu com tranquilidade:
"Porque você não deveria tomar uma decisão sobre seu futuro enquanto ainda está tentando sobreviver ao que aconteceu ontem."
Valentina sentiu o peito apertar.
Ele não estava pedindo que ela o amasse.
Não estava prometendo salvá-la.
Não estava tentando substituir Riccardo.
Estava oferecendo uma escolha.
Um recomeço.
Ela passou o polegar sobre o cartão.
"Vou pensar."
Dante assentiu.
"É tudo o que preciso."
Naquela tarde, Valentina recebeu uma mensagem de Riccardo.
Dessa vez, havia apenas uma frase.
"Precisamos conversar pessoalmente. Eu não vou desistir de você."
Ela encarou a tela.
Depois olhou para o cartão que Dante havia deixado sobre a mesa.
Um casamento.
Um ano.
Uma nova vida.
Valentina ainda não sabia qual resposta dar.
Mas, desde que havia descoberto a traição, percebeu que talvez tivesse uma escolha.
Ela poderia continuar olhando para o passado.
Ou poderia começar a construir um futuro completamente diferente.
E talvez aquele futuro começasse justamente com uma proposta que, poucas horas antes, ela teria considerado impossível.
Um contrato de casamento com um homem que mal conhecia.
Dante Moretti.
Um ano depois"Não corre!"Valentina percebeu a inutilidade da frase assim que terminou de pronunciá-la.O filho continuou correndo.Pequenas pernas atravessaram o jardim enquanto Dante vinha logo atrás."Eu pego.""Ele vai cair!""Valentina.""Dante!"O menino tropeçou.Valentina levantou da cadeira.Dante chegou antes.Segurou-o pela cintura e ergueu-o no ar.O susto durou menos de dois segundos.Depois veio a gargalhada.Dante olhou para Valentina."Viu?""Ele quase caiu.""Mas não caiu.""Porque você segurou.""Esse era o plano.""Você não tinha plano."Dante sorriu."Detalhes."Valentina tentou continuar séria.Não conseguiu.O filho se contorcia nos braços de Dante querendo voltar para o chão.
Valentina descobriu que nove dias eram suficientes para esquecer onde ficavam algumas coisas dentro da própria casa."Cadê as mamadeiras?"Dante apareceu na cozinha carregando duas malas."No mesmo lugar.""Não estão.""Armário da direita.""Estou olhando.""O outro direito."Valentina virou.Abriu.As mamadeiras estavam ali."Não fala nada.""Eu não falei.""Seu rosto falou."Dante sorriu."Bem-vinda para casa."O bebê parecia ter reconhecido o ambiente antes deles.Depois de horas de viagem, ficou inquieto até Valentina colocá-lo no berço.Poucos minutos depois, dormia.Dante apareceu à porta."Traidor."Valentina sorriu."Ele sentiu falta.""Do berço?""Provavelmente.""Eu carreguei aquele homem por met
Dante perdeu o controle da viagem antes mesmo de saírem do aeroporto.Valentina considerou aquilo um excelente começo."Cadê a pasta?"Ele abriu a bolsa.Fechou.Abriu outra."Qual pasta?", Valentina perguntou."A dos documentos.""Está comigo."Dante virou lentamente.Valentina ergueu a pasta."Procurando isso?""Por que está com você?""Porque você me entregou antes de pegarmos as malas.""Não entreguei.""Entregou.""Tenho certeza de que...""Dante."Ele parou."Você está cansado.""Não estou."O bebê resmungou no colo dele.Valentina apontou."Até seu filho discorda."Minutos depois, já dentro do carro que os levaria ao hotel, Dante abriu o celular.Valentina viu."Não.""Estou
Na segunda-feira, Valentina chegou em casa às oito e vinte da noite.Na terça, às oito e cinquenta.Na quarta, quando olhou para o relógio da sala de reuniões e viu que eram sete e quarenta, fechou o notebook no meio da frase."Continuamos amanhã."Um dos integrantes da equipe olhou para a apresentação ainda aberta."Mas faltam dois pontos.""Eu sei.""Podemos terminar em vinte minutos."Valentina colocou o computador na bolsa."Ontem também eram vinte."Ninguém insistiu.Ela saiu.Quando chegou em casa, o bebê estava dormindo.Dante estava na cozinha.Havia um prato coberto sobre a bancada."Come."Valentina largou a bolsa."Oi para você também."Dante olhou para ela."Oi.""Está bravo?""Não.""Está."
Valentina percebeu que alguma coisa estava errada quando Dante não reclamou do horário.Eram oito e vinte da noite.Ela ainda estava no escritório.O notebook aberto.Duas planilhas espalhadas pela mesa.O jantar provavelmente esfriando.Dante apareceu na porta, olhou para ela e disse:"Quando terminar, desce."Só isso.Valentina levantou os olhos."Quem é você?""Seu marido.""O meu marido estaria reclamando.""Estou amadurecendo.""Isso é preocupante."Dante sorriu."Termina."E saiu.Valentina ficou desconfiada.Quinze minutos depois, fechou o computador.Quando desceu, encontrou Dante na sala com o bebê no colo."Ele acordou?""Há dez minutos."Valentina aproximou-se.O filho estava tranquilo contra o peito dele."Quer que eu pegue?"Dante olhou para ela."Você quer?"A pergunta a fez parar."Quero."Ele entregou.Valentina beijou a cabeça do bebê."Como foi o dia?""Meu ou dele?""Dos dois.""Eu sobrevivi. Ele comandou a casa.""Normal."Dante aproximou-se."Agora posso perguntar
A mensagem chegou às cinco e quarenta e dois da manhã.Valentina só a viu às seis e quinze, quando acordou para alimentar o bebê.Era de Riccardo."Isabella entrou em trabalho de parto durante a madrugada. Estou no hospital. Não vou conseguir buscar ele hoje. Desculpa avisar assim. Assim que souber como serão os próximos dias, conversamos."Valentina leu duas vezes.Depois olhou para a data.Terça-feira.Dia de Riccardo.O bebê começou a reclamar em seus braços."Eu sei."Ela o acomodou melhor."Seu pai tem uma boa desculpa."Dante ainda dormia.Valentina voltou para o quarto e sentou-se na cama."Amor."Nenhuma reação."Dante."Ele abriu os olhos."O bebê?""Está bem."Dante piscou algumas vezes."Então por que estamos conversando antes das sete?""Isabella entrou em trabalho de parto."Dante despertou completamente."Agora?""Durante a madrugada.""Riccardo está com ela?""Sim."Valentina entregou o telefone.Ele leu."Então hoje ele não vem.""Não."Dante devolveu o aparelho."Faz







