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CAPÍTULO 6

Author: Tania Costa
— Senhora, desta vez o que o senhor está resolvendo… é especialmente complicado. Não é coisa de alguns dias. Talvez… nem em quinze ele consiga voltar.

Yara ficou em silêncio por alguns segundos.

Então, falar pessoalmente estava fora de cogitação.

Conversar online não era tão adequado, mas não havia outra opção.

Yara pegou o celular, abriu o perfil de Victor no WhatsApp e digitou:

"Você está ocupado? Pode me dar alguns minutos? Tenho algo para falar com você."

Tocou em enviar.

O aplicativo mostrou que a mensagem foi recusada. Ela tinha sido bloqueada.

Yara ficou olhando para a tela por quase meio minuto. Então, um sorriso de compreensão puxou de leve o canto dos lábios.

Fazia sentido.

Victor tinha se casado com ela só para provocar Hugo. Quanto a ela… provavelmente continuava como antes, distante, talvez até com aversão.

Se ela iria ou não para o exterior, que diferença isso faria para ele? Para que avisar?

Yara guardou o celular em silêncio e voltou para o quarto.

Ela tirou o anel e o jogou sobre a mesa de cabeceira, pensando em, quando tivesse tempo, ir a uma loja de revenda de luxo e vendê-lo. Assim, compensava os dois milhões de comissão que Sofia tinha roubado.

— Senhora, este é um incenso calmante. Vai ajudar a senhora a dormir melhor.

A criada acendeu o incenso, e o aroma leve logo se espalhou pelo quarto.

Em pouco tempo, Yara adormeceu profundamente.

No silêncio da noite, a porta do quarto foi empurrada devagar por alguém do lado de fora.

Uma sombra alta e ereta se aproximou da cama sem fazer ruído. O olhar dele caiu sobre o anel na mesa de cabeceira.

Os dedos longos se estenderam, pegaram o anel e o apertaram com força na palma da mão.

A força foi tanta que os nós dos dedos ficaram brancos, como se ele fosse esmagar aquele anel incômodo. Um fio de sangue escorreu lentamente por entre os dedos cerrados.

A dor aguda fez a violência e a obsessão que fervilhavam nos olhos dele recuarem um pouco.

Ele soltou um riso baixo, de escárnio consigo mesmo. Com um movimento do pulso, jogou o anel manchado de sangue no lixo.

Os dedos ensanguentados, agora contidos com cuidado, tocaram de leve o rosto adormecido dela. No escuro, o olhar do homem era espesso, quase impossível de dissipar.

— Yara… não pense nem por um segundo em me deixar.

Apesar de só ir para o exterior oficialmente no mês seguinte, Yara não queria desperdiçar esse tempo. Decidiu começar a organizar os dados desde já.

Os softwares que usava e a grande quantidade de dados estavam todos guardados no notebook que ela tinha comprado com o próprio dinheiro e deixado na empresa.

Ela precisava ir buscá-lo.

Então, foi até a FS.

Assim que Yara entrou no prédio da FS, a notícia chegou ao escritório do presidente.

— Sr. Hugo, a Yara voltou para a empresa.

Hugo largou os papéis. O canto da boca se curvou num sorriso de quem já esperava.

— Finalmente resolveu baixar a cabeça.

Ele tirou da gaveta uma caixa de joias de veludo, delicada.

— Leva isso pra ela. É um colar de diamantes rosa que acabei de arrematar. E marca um jantar à luz de velas. À noite eu vou jantar com ela…

Ele parou, mudou de ideia.

— Esquece. Eu mesmo vou.

Departamento de Projetos.

Assim que Yara entrou, sentiu que o clima estava diferente.

Sara, a antiga assistente, fazia sinais aflitos para ela.

Como esperado, ao entrar no próprio escritório, ela viu Sofia ocupando o lugar.

Sofia estava sentada tranquilamente na cadeira de escritório feita sob medida para Yara, olhando para ela com provocação.

— Ah, Yara, você não foi demitida? Como ainda tem cara de aparecer aqui? Eu até pensei que você fosse mais orgulhosa…

O tom dela era puro desprezo. E ela nem se mexeu da cadeira.

— Mas, mesmo que você tenha voltado, esse escritório você pode esquecer. Eu sou a diretora. Sou sua chefe direta. O melhor lugar, claro, fica comigo.

— Você… — Ela olhou para fora, para o canto mais afastado, onde uma mesa estava cheia de tralha. — Vai sentar lá.

Sair do escritório para uma mesa entulhada de coisas era humilhação, sob qualquer ponto de vista.

Yara olhou para o sorriso venenoso de Sofia e riu por dentro. Um escritório que ela já não queria, um departamento que estava prestes a ser descartado, ela não se importava.

Falou com frieza:

— Onde está o meu notebook?

— Ali. — Sofia fez um bico, lançou um olhar malicioso para a lixeira. — Um computadorzinho velho desses e você ainda quer? Que mesquinha. Quer? Vai lá buscar.

Yara seguiu o olhar dela.

O notebook dela, junto com os objetos pessoais do escritório, tinha sido jogado dentro do lixo.

Por cima, havia migalhas de pão e manchas de café.

O rosto de Yara escureceu por completo.

— Yara.

Sofia se levantou, apoiando a mão na barriga saliente, e caminhou passo a passo até ficar bem na frente de Yara. Fora do campo de visão dos outros, o rosto dela se distorceu, ficando torcido e agressivo.

— Você já foi embora. Pra que voltou? Meu marido morreu. Agora o Hugo é o pai do meu filho, é o meu único apoio. Por que você não para de me perseguir e disputar ele comigo?

— Você não pode simplesmente ter um pouco de noção e me deixar com ele?

Yara quase riu de raiva. Essa lógica era tão absurda que até um ladrão pediria desculpas.

— Yara, você sabe de uma coisa? Eu e o Hugo nunca recorremos à fertilização. A gente passou muitas, muitas noites juntos. No começo, ele ainda se sentia culpado, tapava os próprios olhos enquanto se descarregava em mim, chamando o seu nome. Mas depois… depois ele já conseguia me apertar na frente do espelho, ofegando…

— Ele já é meu homem. Comigo aqui, na Família Ferraz, não tem mais lugar pra você.

Assim que terminou de falar, Sofia agarrou a mão de Yara e deu um tapa no próprio rosto.

Ela se deixou cair para trás.

— Ah!

Sofia gritou e sentou no chão, cobrindo o rosto. Em um segundo, voltou àquela expressão de coelhinha inocente e frágil.

— Yara!

Um berro veio de fora do escritório.

Hugo entrou correndo, ajudou Sofia a se levantar com cuidado e, ao mesmo tempo, empurrou Yara com força.

— Ela está grávida! O que ela carrega é meu filho! Como você teve coragem de bater nela?

O empurrão foi forte demais para Yara resistir. A cintura bateu com tudo na quina da mesa. A dor explodiu, como se fosse partir ao meio.

O rosto dela ficou branco. O suor frio brotou na hora.

Mas Hugo só tinha olhos para Sofia. Ele virou para Yara e gritou:

— Vem aqui. Pede desculpa pra Sofia!

Sofia se aninhou nos braços dele. No fundo dos olhos, havia a satisfação de quem conseguiu o que queria, mas a boca soava dócil e magnânima:

— Hugo… não culpa a Yara… não está doendo…

— É normal a Yara ficar com raiva. A culpa é minha. Se não fosse pela linhagem da Família Ferraz… eu não teria engravidado do seu filho… Yara, pode me bater quantas vezes quiser. Desde que você se acalme.

Hugo olhou para os olhos marejados de Sofia, para aquele ar de quem se sacrifica em silêncio, e depois para a frieza incisiva de Yara. De repente, Yara começou a lhe parecer insuportável.

O olhar dele ficou gelado. Cheio de repulsa.

Diante dos dois, abraçados, Yara sentiu o estômago revirar de nojo. A pontada amarga por dentro era ainda pior do que a dor na cintura.

— Quantas vezes eu quiser?

Yara repetiu, fria. Em seguida, ergueu a mão…

Dois estalos altos e secos explodiram no outro lado do rosto de Sofia, rápidos e sem hesitar.

— Essa é nova! Tem gente que implora pra apanhar. Essas duas bastam? Se não, eu te dou mais algumas de graça.
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