LOGINPOV Thomas O estalo do couro das botas de Maíra contra os pranchões da passarela de madeira vinha ritmado, sem pressa. Dez passos. Oito. Cinco. Eu não me escondi atrás das tábuas. Quem foge para o fundo do galpão entrega o comando da manobra, e se havia uma coisa que aquela mulher me ensinara em uma década inteira de disputas nos estaleiros do Severn, era que nunca se dá as costas a um tubarão que já sentiu o cheiro da carcaça. Peguei um pedaço de estopa suja de graxa na borda da bancada e comecei a limpar a lâmina de um formão largo, mantendo a cabeça baixa até a sombra esguia dela cobrir a soleira da porta corrediça. O cheiro que invadiu o barracão não pertencia àquele cais. Não era breu, salitre ou a fumaça de carvão vegetal da minha forja; era sândalo amargo, íris e o couro caro de quem viajava de primeira classe. O mesmo perfume que costumava ficar impregnado nos lençóis de linho dos hotéis executivos de Bristol após semanas inteiras de guerra judicial e sangue quente nas ma
POV Thomas O cheiro de serragem de cedro e óleo de linhaça costumava ser o suficiente para calar qualquer ruído do mundo. Depois que Elliot e Camille subiram a serra com o garoto no banco traseiro, a marina voltou ao ritmo do mar: o marulho constante lambendo os pilares de concreto, o grasnado das gaivotas disputando restos de tainha e a forja estalando baixo no fundo do meu barracão. Eu estava curvado sobre a bancada lateral da oficina, com o formão de meia-polegada na mão direita, desbastando o encaixe da quilha de um bote quando um som estranho cortou a calmaria do cais. Não era o estalo seco dos motores a diesel dos barcos de pesca nem o tranco da minha própria caminhonete. Era o zumbido aveludado, potente e cirúrgico de doze cilindros em linha, roncando baixo como um felino rondando a praia. Parei o movimento da lâmina no meio do veio da madeira. Aproximei-me da porta corrediça do galpão, mantendo-me na sombra das tábuas de cedro empilhadas. Pela abertura de meio metro, olh
POV Elliot Parker O cheiro de querosene, óleo de linhaça e serragem úmida enchia o galpão da marina. O fogo baixo da forja de canto estalava com carvão de pedra, aquecendo o ar frio que entrava pela fresta das portas corrediças de madeira. Eu estava sentado em um cepo de carvalho diante da longa bancada de carpinteiro naval. Havia arrancado a gravata e o paletó amassado, jogando-os sobre uma caixa de cabos de aço. As mangas da camisa de linho estavam arregaçadas até os cotovelos, e minhas mãos, manchadas de fuligem cinzenta, seguravam uma lixa de ferro com a qual eu limpava a ferrugem superficial de uma polia de tração que Thomas deixara desmontada. O movimento mecânico da lixa contra o metal não acalmava a cabeça. Meus olhos ardiam pelo cansaço absurdo das últimas quarenta e oito horas, e cada batida do meu coração parecia bater contra a parede de concreto que Camille erguera entre nós na soleira da casa. O rangido metálico da porta corrediça do galpão ecoou pelo vão alto do tel
POV Camille O ronco abafado do sedã descendo a alameda morreu devagar na curva dos pinheiros, até que o único som restante na colina fosse o estalo da madeira da casa contra o vento marítimo. Eu continuava encostada na parede ao lado da janela da sala, com os dedos cravados na cortina pesada de linho. Do ponto cego onde me mantive, vi quando Elliot deu meia-volta, curvou-se sobre o primeiro degrau de pedra e deixou algo brilhando contra a ardósia cinzenta antes de entrar no carro. Thomas não subiu a serra imediatamente atrás dele. O marinheiro atravessou a caminhonete azul-escuro bem no meio da passagem da cerca de madeira, travou o freio de mão com um estalo metálico audível até a varanda e sentou-se na caçamba aberta, tirando o cachimbo do bolso com a calma irritante de quem montara um bloqueio militar intransponível. A casa voltou a ser um túmulo. Atrás de mim, um som fraco de madeira raspando no chão me fez virar o rosto. Leo descera os últimos três degraus da escada em car
POV Elliot Parker O frio do outono de Dorset cortava a minha camisa amassada como pontas de agulha, mas eu não sentia a temperatura da carne. Havia uma dormência oca, corrosiva, que se espalhava do centro do peito para as extremidades dos meus dedos. Desci o último degrau da varanda de pedra com o corpo pesado, como se carregasse nos ombros todo o concreto injetado na caverna da falésia. A porta de carvalho permanecera trancada com o ferrolho de bronze. A frase dela ainda queimava nas minhas têmporas, palavra por palavra: "Eu vou embora de Port Regis hoje mesmo... e você nunca mais vai encontrar a gente." Parei no cascalho ao lado da porta aberta do carro alugado em Weymouth. Apoiei o antebraço sobre o teto metálico do veículo, curvando a coluna pela primeira vez em anos. A respiração saía em baforadas brancas e curtas na névoa da manhã. O suor frio das quarenta horas de viagem sem descanso colava o tecido fino da camisa às minhas costas, e os olhos ardiam sob uma pressão que fa
POV Camille O rugido daquelas turbinas cortando as nuvens de Weymouth não trouxe alívio; trouxe uma fúria desesperada. Os papéis com selo do tribunal podiam provar que a armadilha fora armada por abutres de Canary Wharf. Podiam atestar que ele não assinara contratos com a herdeira. Mas nenhum carimbo de juiz apagava o fato de que a vida com Elliot Parker seria eternamente isso: uma trincheira armada onde o meu filho e eu éramos alvos expostos na vitrine dos seus inimigos. A calmaria em Port Regis fora uma mentira conveniente. Enquanto ele carregasse aquele sobrenome e aquele império, a nossa paz seria apenas o intervalo entre dois bombardeios. E eu me recusava a passar o resto dos meus dias esperando o próximo fotógrafo, a próxima chantagem ou o próximo escândalo de salão. — Entra, Leo. Agora — ordenei, a voz saindo cortante, sem o tom maternal paciente de costume. O menino abaixou a luneta de latão, assustado com a rigidez dos meus modos: — Mas mamãe, o avião pousou per







