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confusão

last update Data de publicação: 2026-08-30 01:17:35

Capítulo 3

Ravi Darke

Quando a porta do quarto se abriu, Inês estava sentada na beira da cama, o rosto entre as mãos, os ombros tremendo de forma convincente. Lágrimas falsas escorriam pelas maçãs do rosto enquanto eu entrava como uma tempestade.

Não falei no começo. Fiquei parado no meio do cômodo, o peito subindo e descendo com força, os olhos ainda brilhando com o resto da fúria e do choque. O cheiro de sangue de Lavínia ainda impregnava minhas mãos e minha camisa. O cheiro dela. Doente. Rejeitada. E ainda assim… mais corajosa do que qualquer lobo naquele salão.

A imagem não saía da minha cabeça. O corpo frágil colidindo contra as minhas costas. O calor úmido se espalhando pela camisa. O peso dela deslizando para o chão. A voz rouca sussurrando que não tinha mais nada a perder. Cada detalhe se repetia em loop, como se o próprio lobo quisesse gravá-los a fogo na minha memória.

Inês levantou o olhar, os lábios trêmulos.

— Ravi… meu amor… eu fiquei tão assustada… eu não consegui…

A voz dela era doce demais. Calculada demais. Senti o estômago revirar.

— Por que caralhos você não me avisou?!

O grito ecoou pelas paredes com uma força que a fez recuar na cama. Dei um passo à frente, a aura de Alfa explodindo no ambiente com tanta intensidade que os móveis pareceram tremer.

— Você viu a arma. Eu sei que viu. E em vez de gritar, em vez de me avisar, em vez de fazer qualquer coisa… você correu. Fugiu. Enquanto a mulher que eu acabei de rejeitar — a mesma que você humilhou na frente de todos — se jogou na frente de uma bala de prata por mim.

Inês abriu a boca, as lágrimas agora caindo mais rápido. O choro dela começava a perder o controle teatral e a se transformar em algo mais feio, mais real.

— Eu… eu fiquei com medo… Ravi, por favor, não grita comigo… eu não pensei… tudo aconteceu tão rápido…

— Medo — repeti, a voz baixa e perigosa. — Você teve medo. E ela, doente, rejeitada, humilhada e sangrando, não teve. Nenhum dos meus homens se mexeu. Ninguém. Só ela.

Passei a mão pelo rosto com força, como se tentasse apagar as imagens que não paravam de voltar. Cada vez que fechava os olhos, via o corpo de Lavínia caindo. O olhar fraco antes de desmaiar. O sangue escuro se espalhando pelo vestido. Via também o silêncio da matilha. O silêncio dos meus próprios homens. O silêncio covarde de Inês.

Ela tentou se aproximar, a mão estendida, o choro agora mais alto, mais desesperado.

— Eu te amo… eu só não consegui… Ravi, por favor, me olha… eu sou a sua escolhida… nós tínhamos planos… herdeiros… a matilha inteira já sabe…

Dei um passo para trás. Meu olhar estava distante, fixo em algo que ela não conseguia ver. Por dentro, a confusão era um turbilhão. O lobo agitava-se inquieto, rosnando baixo, dividido entre o instinto de proteção pela companheira rejeitada e a raiva de ter sido colocado numa posição de dívida.

Eu odiava dever favores. Odiava ainda mais dever a vida a alguém que eu tinha acabado de destruir publicamente.

— Pegue suas coisas — disse, a voz fria e final. — E saia da minha casa.

Inês piscou, como se não tivesse entendido.

— O quê…?

— A união está cancelada. Eu não quero uma covarde ao meu lado.

O silêncio que se seguiu durou apenas um segundo. Depois, ela se levantou de um salto, o desespero finalmente verdadeiro nos olhos. As lágrimas agora escorriam sem controle, borrando a maquiagem, deixando rastros pretos nas bochechas. A voz saiu aguda, quebrada, quase histérica.

— Ravi, você não pode estar falando sério! Eu sou a sua escolhida! Eu preparei tudo… a matilha… os acordos… você não pode simplesmente jogar isso fora por causa de uma… de uma morta-viva!

Ela deu um passo em minha direção, as mãos tremendo.

— Ela está morrendo, Ravi! Você viu o estado dela! Uma loba quebrada, doente, que mal consegue ficar de pé! E você prefere isso a mim? Prefere uma mulher que vai te deixar viúvo em poucos meses a alguém saudável, forte, capaz de te dar herdeiros e ficar ao seu lado?

O lobo dentro de mim rosnou baixo, instintivo, revoltado com a ideia de qualquer outra mulher que não fosse a companheira do laço. O som ecoou na minha garganta antes que eu conseguisse controlá-lo. Engoli o rosnado com força, o maxilar travado.

— Não — respondi, seco. — Eu só prefiro alguém com coragem. Coisa que você claramente não tem.

Inês soltou um soluço alto, quase um grito. As mãos apertaram o tecido do vestido com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

— Você está cego! Aquela mulher te manipulou com o sacrifício dela! Ela sabia que estava morrendo e usou isso contra você! E agora você vai destruir tudo o que construímos por causa de uma doente que nem loba tem mais?!

Eu a olhei. Realmente olhei. E pela primeira vez senti nojo puro. Não era só decepção. Era repulsa. A comparação entre as duas mulheres era humilhante. Até uma loba com a morte no peito e a rejeição ainda queimando na pele tinha se jogado na frente de uma bala. Inês, saudável, bonita, “perfeita”, tinha corrido.

— Eu quero você fora daqui antes do amanhecer — disse, a voz baixa e definitiva. — Se precisar de ajuda para arrumar as malas, chame as empregadas. Mas não quero mais te ver nesta casa.

Ela deu um passo atrás, como se tivesse levado um tapa. Os olhos estavam arregalados, o peito subindo e descendo rápido demais. Pela primeira vez, o desespero dela não parecia performance.

— Ravi… por favor… não faz isso… eu te amo… eu posso mudar… eu posso ser melhor…

Eu já estava virando as costas.

— Não. Você já mostrou quem é.

Saí, fechando a porta atrás de mim com um estrondo seco.

O hospital cheirava a antisséptico, medo e algo metálico que eu conhecia bem demais.

Eu odiava hospitais. Odiava o cheiro de desinfetante tentando esconder a morte. Odiava o barulho constante das máquinas. Mas odiava ainda mais a sensação de estar em dívida. E eu estava.

O médico me recebeu no corredor, o rosto cansado sob a luz fria das lâmpadas.

— Senhor Darke. A senhorita Marke ainda corre risco. O estado dela já era extremamente debilitado antes do tiro. O tumor… bem, o tumor complica tudo. Conseguimos retirar a bala — ela já foi enviada para perícia — e ela está em observação. Mas o corpo dela está frágil. Muito frágil.

Apertei a mandíbula.

— Eu preciso falar com ela.

O médico balançou a cabeça, o gesto firme.

— Impossível no momento. Induzimos um coma. O corpo dela não aguentaria o trauma de outra forma. Qualquer estímulo agora poderia ser fatal.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, os olhos fixos nele.

— Quero vê-la.

Ele hesitou. A aura de Alfa que emanava de mim era pesada o bastante para fazer qualquer um ceder. Depois de um momento, o homem suspirou e fez um gesto com a cabeça.

— Quarto 14. Mas só por alguns minutos. E peço que não tente tocá-la ou despertá-la.

Assenti uma vez e segui o corredor indicado.

O quarto era silencioso demais.

Máquinas bipavam em ritmo constante, metódico, quase hipnótico. Tubos, fios, o leve assobio do respirador. O cheiro de sangue ainda impregnava o ar, misturado ao de antisséptico e algo mais doce, doentio, que eu reconheci como o cheiro da própria doença dela.

Lavínia estava deitada na cama, pálida demais, pequena demais sob os lençóis brancos. O peito subia e descia de forma artificial, controlada pelas máquinas. Os braços finos estavam cheios de marcas de agulhas. O rosto, mesmo inconsciente, carregava uma expressão de cansaço profundo, como se a luta para continuar viva tivesse começado muito antes daquela noite.

Parei na porta.

E o lobo dentro de mim quase me rasgou por dentro.

O laço… ainda estava lá.

Fino. Frágil. Quase inexistente. Mas presente. Como um fio de aço quase invisível esticado entre nós dois. Como se a rejeição pública, as palavras cruéis, o braço em volta da cintura de Inês… nada daquilo tivesse sido suficiente para cortá-lo de verdade. O corpo dela, mesmo inconsciente, ainda se recusava a soltá-lo.

Senti a garganta apertar. A confusão veio em ondas.

Eu não queria aquela mulher. Não queria o peso de uma companheira doente. Não queria o laço. Não queria a responsabilidade de alguém que estava morrendo aos poucos.

Mas o sangue dela ainda estava sob minhas unhas. O cheiro dela ainda impregnava minha camisa. E o lobo ainda rosnava, baixo e inquieto, recusando-se a se afastar da cama.

Aproximei-me devagar, parando ao lado dela. Olhei para o rosto pálido, para os cílios escuros contra a pele sem cor, para as marcas de agulhas nos braços finos. Tanta coisa tentando mantê-la viva. Tanto esforço médico para segurar alguém que a vida já estava tentando levar há meses.

A pergunta veio sem permissão, baixa e perigosa dentro da minha cabeça:

Será que ela tem razão? Será que o laço… realmente poderia ajudar? Será que eu posso fazer alguma coisa?

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