MasukCapítulo 2
Orion Valek A dor chegou sem aviso. Não foi uma pontada. Não foi um desconforto. Foi uma lâmina quente atravessando o peito, rasgando tudo por dentro, como se alguém tivesse enfiado a mão nas minhas costelas e esmagado o coração com força bruta. Eu estava no meio da reunião com os anciãos da alcateia quando o impacto me derrubou. A cadeira de couro rangeu. Meu copo de uísque estilhaçou no chão. O ar sumiu dos pulmões. — Alfa? — a voz de Kael, meu beta, soou distante, abafada pelo sangue latejando nos meus ouvidos. Eu agarrei a borda da mesa de carvalho com tanta força que a madeira rangeu e rachou sob os dedos. A dor não era só minha. Era dela. Eu sabia. O laço, aquele fio invisível e selvagem que eu carregava há meses como uma ferida aberta, finalmente gritava. Minha destinada estava sofrendo. Não era medo comum. Não era tristeza. Era agonia pura. Rejeição. Sangue. A sensação metálica de prata queimando carne. O gosto de morte subindo pela garganta dela e ecoando direto no meu peito. Eu senti o momento exato em que o corpo dela cedeu. Senti o calor do sangue escorrendo. Sentí a escuridão tentando engoli-la. Um rugido baixo e animal subiu da minha garganta antes que eu pudesse conter. — Ela está morrendo. A frase saiu rouca, quebrada, carregada de uma fúria tão antiga que fez os lobos ao meu redor baixarem as orelhas e recuarem. O silêncio na sala ficou pesado, quase sólido. Kael deu um passo à frente, o rosto tenso. — Senhor Orion… o que está acontecendo? Eu levantei o olhar. Os olhos dele encontraram os meus e ele engoliu em seco. Eu sabia o que ele via: o Alfa que nunca perdia o controle agora estava com as pupilas dilatadas, as veias saltadas no pescoço e o peito subindo e descendo como se eu tivesse corrido por quilômetros. — Minha companheira — rosnou. A palavra saiu carregada de posse e desespero. — Ela está sofrendo. Agora. E alguém a feriu. Levantei de súbito. A cadeira caiu para trás com um estrondo. Eu caminhei até a janela panorâmica do escritório, olhando a floresta densa que cercava o território dos Valek. A dor no peito não diminuía. Pulsava. Queimava. Eu pressionava a mão contra o esterno com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos, como se pudesse segurar o laço com os dedos e impedir que ela escorresse por entre eles. — Encontre-a — ordenei, a voz baixa e perigosa. — Quero nome. Quero localização. Quero saber quem ousou tocar nela. E quero isso ontem, Kael. Meu beta hesitou só por um segundo. — Nós já tentamos, Alfa. Há meses. Não há registros. Nenhuma alcateia próxima reconhece o laço. É como se ela não existisse. — Então procure mais longe! — o grito ecoou pela sala, fazendo os vidros vibrarem. Eu me virei de frente para ele, os dentes cerrados. — Rasgue o continente se for preciso. Interrogue cada maldito lobo que cruzar o nosso caminho. Eu sinto ela. Agora. Neste segundo. Ela está lutando para permanecer viva e eu não vou ficar parado enquanto isso acontece. Kael baixou a cabeça em respeito, mas a tensão nos ombros dele era clara. — E se ela estiver no território de… outra alcateia? A pergunta ficou no ar como uma ameaça. Eu soube exatamente do que ele falava. Ravi Darke. O nome sozinho já fazia meu sangue ferver. Rival antigo. Alfa dos Lobos Negros. Homem de ego inflado e coração podre. Nós nos odiávamos desde a adolescência. Guerras de território, negócios sujos, insultos trocados em reuniões de Alfas… e agora, a possibilidade de que minha destinada estivesse sob a sombra dele era suficiente para me deixar à beira da insanidade. — Se ela estiver com ele — disse, a voz saindo baixa e letal —, eu entro naquele território e arranco a garganta de quem estiver no caminho. Incluindo o próprio Darke. Kael não respondeu. Apenas assentiu e saiu da sala com passos rápidos, já puxando o celular e gritando ordens pelo corredor. Fiquei sozinho. A dor no peito não diminuía. Pelo contrário. Vinham ondas. Uma atrás da outra. Eu sentia o corpo dela fraquejando. Sentia o medo. A solidão. A rejeição ainda fresca, como um veneno correndo nas veias. E por baixo de tudo isso… uma teimosia feroz. Uma vontade de continuar respirando mesmo quando o mundo inteiro tentava apagá-la. Eu apertei os punhos até as unhas cravarem a pele. Ravi. Se ele a tivesse encontrado primeiro… se ele tivesse sentido o mesmo laço e ainda assim a rejeitado… eu ia matá-lo com as próprias mãos. Eu não era como ele. Eu não ignorava o destino. Não cuspia no laço sagrado só porque a companheira não vinha embalada em perfeição. Eu sentia cada segundo da dor dela como se fosse minha. E eu iria até o fim do mundo para tirá-la dali. Passei a mão pelo rosto, sentindo a barba por fazer e o suor frio na nuca. O lobo dentro de mim estava inquieto, girando em círculos, rosnando, exigindo sangue e proximidade. Ele já a reconhecia. Já a queria. Já a considerava dele. — Aguenta firme — murmurei para o vazio, a voz rouca. — Eu estou vindo. Não importa onde você esteja. Não importa quem esteja te segurando. Eu vou te encontrar. A dor deu outra fisgada forte, quase me dobrando ao meio. Eu gritei. O som saiu animal, selvagem, ecoando pelo escritório e descendo os corredores da mansão. Os guardas do lado de fora recuaram instintivamente. Kael voltou minutos depois, o rosto mais pálido do que antes. — Alfa… há um rumor. Fraco. Quase nada. Mas… uma mulher foi levada ao hospital particular dos Lobos Negros ontem à noite. Baleada com prata. Ninguém sabe o nome. Ninguém fala. Mas o próprio Ravi Darke deu a ordem para que ela fosse tratada como prioridade máxima. O sangue gelou e ferveu ao mesmo tempo. — Hospital dos Lobos Negros — repeti, a voz perigosamente calma. — Sim. Eu respirei fundo. O ar entrou queimando. — Prepare o carro. E chame os melhores rastreador es que temos. Vamos para o território dele. Kael arregalou os olhos. — Orion… isso é declaração de guerra. Eu me virei lentamente para ele. O sorriso que nasceu nos meus lábios não tinha nada de humano. — Então que seja guerra. Peguei o casaco preto do respaldo da cadeira e o vesti com movimentos precisos, controlados. Por dentro, eu estava em chamas. Cada batida do coração dela, fraca, irregular, ecoava no meu peito como um tambor de guerra. Eu não ia esperar. Não ia mandar emissários. Não ia pedir permissão. Minha destinada estava sofrendo nas mãos do meu pior rival, e eu ia tirá-la de lá mesmo que precisasse incendiar a alcateia inteira dos Lobos Negros para isso. A dor no peito deu mais uma fisgada, mais fraca dessa vez, como se ela estivesse perdendo forças. Eu cerrei os dentes. — Não ouse morrer — rosnou para o laço, como se ela pudesse me ouvir. — Você é minha. E eu ainda nem te toquei. Ainda nem te marquei. Ainda nem te fiz gritar o meu nome. Saí do escritório com passos largos e decididos. Os lobos da minha alcateia se apartavam no corredor, sentindo a aura pesada e assassina que eu carregava. Kael caminhava ao meu lado, já passando instruções pelo rádio. Quando entrei no carro blindado, a noite lá fora estava escura e carregada de promessas de violência. Eu olhei pela janela enquanto o veículo acelerava em direção ao território inimigo. — Estou vindo, pequena lua — murmurei, a mão ainda pressionada contra o peito onde a dor dela ainda latejava. — E quando eu te encontrar… nunca mais vou deixar que ninguém te magoe. Nem mesmo o destino. O motor rugiu. A guerra tinha começado. E eu não pretendi a perder.Lavinia Marke Cinco anos depois O jardim da mansão nunca tinha estado tão cheio. Lobos Brancos e Lobos Negros se misturavam sob as árvores altas, crianças corriam entre as pernas dos adultos, e o cheiro de carne assada, bolo e magia antiga preenchia o ar da tarde. Eu estava de pé na varanda, uma taça de suco de laranja na mão, observando o caos organizado que era o aniversário de cinco anos dos meus filhos. Ralf e Áurea. Meu menino teimoso de cabelos escuros e olhos cinzentos iguais aos do Ravi. Minha menina de cabelos pretos e olhar intenso demais para a idade, pura Orion em versão pequena e implacável. Os dois corriam no meio da multidão como se o mundo inteiro fosse território deles, porque, de certa forma, era. — Mãe! — Ralf gritou de longe, levantando um pedaço de bolo já pela metade comido. — O tio Kael disse que eu posso subir na árvore! — Não pode! — eu gritei de volta, rindo. — Desce daí agora, Ralf Darke Valek! Ele fez beicinho, mas obedeceu. Áurea, ao lado dele, ap
Capítulo Final Orion Valek O grito de Lavinia rasgou a madrugada. Eu estava de joelhos ao lado da cama quando o segundo trabalho de parto começou de verdade. Ravi segurava uma das mãos dela. Eu segurava a outra. O quarto cheirava a suor, a magia antiga e a medo bom. O médico ancião e duas parteiras se moviam com eficiência silenciosa, mas eu só via ela. A mulher que tinha dominado dois Alfas, enfrentado anciãos e carregado nossos filhos até o fim. — Olha para mim — eu pedi, a voz rouca. — Só para mim. Lavinia virou o rosto suado. Os olhos estavam vidrados de dor e determinação. Eu beijei a testa dela com força, sentindo o laço roxo latejar desesperado entre nós. — Você é a mulher mais forte que eu já vi — murmurei contra a pele dela. — Você já venceu guerras. Você vai vencer isso também. Ravi estava do outro lado, a mandíbula travada, os olhos cinzentos úmidos. Ele não falava muito. Só segurava a mão dela como se pudesse transferir força pela pele. A primeira contração
Capítulo 92 Ravi Darke O caminho de volta para a mansão parecia mais longo e, ao mesmo tempo, mais leve. Eu caminhava do lado esquerdo de Lavinia, Orion do direito. Os três em silêncio. O cheiro dela ainda carregava residual de magia antiga e de adrenalina, mas por baixo havia algo novo: alívio. Profundo. Cansado. Vitorioso. Eu sentia pelo laço negro o quanto ela tinha se segurado na clareira. Quanto tinha custado ficar de pé na frente de todos, grávida, e declarar sentença. Agora que a plateia tinha sumido, o corpo dela começava a demonstrar o preço. Eu ajuste i o passo para o dela, mais lento, mais cuidadoso. A mão direita pairava perto das costas dela, pronto para apoiar se ela vacilasse. Orion fazia o mesmo do outro lado. Dois Alfas em guarda mesmo depois da batalha ter acabado. — Você está bem? — perguntei baixo. Lavinia soltou o ar pelo nariz, um som quase de riso cansado. — Estou. Só… o corpo está pesado. Os filhotes estão inquietos. — Eles sentiram — Orion murmu
Capítulo 91 Lavinia Marke O centro da alcateia dos Lobos Negros estava lotado. Eu caminhei entre Orion e Ravi com a coluna ereta, uma mão protegendo o ventre e a outra livre. O silêncio que se fez quando me viram chegar foi quase solene. Dezenas de lobos se apartaram para abrir caminho. Alguns baixaram a cabeça. Outros apenas observaram, curiosos e tensos. No meio da clareira, ajoelhado e com as mãos amarradas atrás das costas, estava o ancião de cabelos brancos. O mesmo que tinha ordenado meu envenenamento. O mesmo que tinha chamado meus filhos de aberração. Eu parei a poucos metros dele. O cheiro de medo e orgulho ferido subia do corpo velho. Ravi e Orion ficaram logo atrás de mim, presenças quentes e letais. Mas aquela hora não era deles. Era minha. — Levantem ele — eu ordenei. Dois betas puxaram o ancião para os pés. Ele cambaleou, mas manteve o queixo erguido. Os olhos amarelados pelo tempo me encararam com o mesmo desprezo de antes. — Luna — ele cuspiu a palavra com
Capítulo 90 Orion Valek O cheiro do veneno chegou antes da voz. Eu e Ravi nos movemos juntos pela floresta atrás da casa antiga do ancião, os passos silenciosos, o lobo de cada um no limite. Kael tinha mandado a localização há menos de vinte minutos. A criada estava ali. O composto também. E o velho de cabelos brancos estava prestes a entregar a ordem final. Nós não esperamos permissão. Ravi arrombou a porta dos fundos com o ombro. Eu entrei logo atrás. A cena se desenrolou na nossa frente como um pesadelo lento demais para ser real. O ancião estava de pé no meio da cozinha pequena, uma ampola de vidro escuro na mão. A criada, uma loba jovem, pálida de medo, segurava um frasco de chá já preparado. O velho falava baixo, mas cada palavra cortava o ar como lâmina. — …ela carregou a desgraça para dentro das duas alcateias. Misturou sangue que nunca deveria se tocar. Eu não aceito essa aliança de Lobos Brancos com Lobos Negros. Nunca aceitei. E se a Luna é a culpada por essa a
Capítulo 89 Ravi Darke O escritório da mansão estava silencioso demais para a quantidade de raiva que eu carregava no peito. Eu estava sentado atrás da mesa de madeira escura, os cotovelos apoiados, as mãos cerradas uma contra a outra. Do andar de cima ainda vinha o eco fraco do que tinha acontecido entre Orion e Lavinia. O laço negro não mentia. Eu tinha sentido o desejo dela, o cuidado dele, o momento em que os dois se entregaram. Não era ciúme o que me apertava a garganta. Era algo mais sujo. Mais silencioso. A sensação de ter ficado do lado de fora enquanto o mundo tentava destruir a nossa família. Kael e Klaus esperavam em frente à mesa, eretos, atentos. — Quero olhos em cada um daqueles anciãos — eu disse, a voz baixa e controlada. — Não quero rumor. Quero fato. Quem se reúne, quem fala baixo demais, quem manda mensagem no meio da madrugada. Vocês saem agora. E não voltam sem alguma coisa concreta. Kael assentiu. — Entendido, Alfa. Klaus demorou meio segundo a mais. Os o







