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Capítulo 1
Lavínia Marke A esperança era a única coisa que ainda me mantinha de pé. E ela estava morrendo junto comigo. Cada batida irregular do meu coração era um lembrete cruel: o tumor dentro do meu crânio crescia. Lento. Insaciável. Às noites eu acordava com o gosto de metal na boca e a certeza de que, em breve, nem mesmo a dor restaria, só o silêncio. A loba dentro de mim dormia há meses, sufocada pela doença. Sem ela, eu era apenas uma casca. Mas ainda restava uma última aposta. O laço. Eu acreditava, com a teimosia desesperada de quem não tem mais nada, que quando Ravi Darke finalmente me visse, quando o fio elétrico do companheiro saltasse entre nós, algo mudaria. Que o poder dele seria forte o bastante pra expulsar a morte que já sussurrava no meu ouvido todas as noites. Eu estava errada. A mansão dos Lobos Negros cheirava a poder e expectativa. O ar era denso, carregado de feromônios de dezenas de lobos, e cada olho da matilha se cravou em mim quando cruzei o salão. Eu sentia o peso desses olhares como facas. Minhas pernas tremiam. A dor atrás dos olhos latejava com cada passo. E então eu o vi. Ravi Darke. Alfa supremo. CEO da Darke Pharma. O homem de coração de pedra que eu carregava no peito como uma sentença. Ele me olhou de cima a baixo. Não houve choque. Não houve reconhecimento. Só frieza absoluta. Seus olhos cinzentos me dissecavam como se eu fosse um problema logístico, não uma pessoa. — Você realmente teve a coragem de aparecer aqui? — A voz dele cortou o ar, baixa e afiada. — Doente. Fraca. Com a loba adormecida… e ainda acha que tem algum direito sobre mim? Antes que eu conseguisse responder, ele estendeu o braço e puxou Inês para junto do corpo. Minha prima. A mesma que cresceu ao meu lado. A mesma que tinha tudo o que a doença me roubou: saúde, beleza impecável, a atenção dele. Ravi passou o braço na cintura dela com posse. O gesto era deliberado. Público. Uma declaração. Inês ergueu o olhar para mim. O sorriso que nasceu em seus lábios era veneno puro disfarçado de doçura. — Olha só para ela, Ravi… — disse, a voz melosa e alta o bastante para que todos ouvissem. — Querendo me tomar você? Que coitadinha… Toda doente, toda quebrada, achando que um laço patético ia mudar alguma coisa. Risos. Primeiro baixos. Depois mais altos. Alguns bateram palmas debochadas. O som me atingiu como t***s no rosto. O calor da vergonha subiu pelo meu pescoço mais forte do que o tumor latejando dentro da minha cabeça. As lágrimas ardiam, mas eu as engoli. Não na frente deles. Não na frente dela. — Por favor… — minha voz saiu rouca, quebrada. — O laço… eu sei que você sente. Ele pode me curar. Só me dê uma chance… Ravi me encarou sem um pingo de emoção. O braço ainda firmemente envolto na cintura de Inês. — Chance? — repetiu, a boca se curvando num sorriso frio. — Eu não tenho tempo para carregar peso morto. Inês é forte. Saudável. Capaz de ficar ao meu lado e me dar herdeiros. Você é só um fardo. Ele deu um passo à frente. A voz saiu mais baixa, mais definitiva: — Eu te rejeito como minha companheira. Agora sumam da minha frente. As palavras dele entraram em mim como uma lâmina. Não foi só rejeição. Foi algo físico. Brutal. O laço, ou o que restava dele, se estilhaçou dentro do meu peito com uma dor tão aguda que me dobrou o corpo. O ar sumiu. Meus joelhos fraquejaram. E no mesmo segundo, o tumor respondeu. A dor na cabeça explodiu, latejando com força selvagem, como se quisesse me rasgar por dentro. Pontos pretos dançaram na minha visão. O gosto de metal voltou à boca, mais forte do que nunca. O laço… não se formou. Ou talvez se tenha formado e morrido no mesmo segundo, arrancando um pedaço de mim junto. Eu quase caí ali mesmo. Foi nesse instante que o mundo desacelerou. Um homem de terno escuro surgiu entre a multidão. Alguém que não pertencia à matilha. Seus olhos brilhavam com ódio frio. Na mão direita, um revólver de cano curto. A mira apontava diretamente para as costas desprotegidas de Ravi. Ninguém se mexeu. Nenhum dos homens dele. Nenhum dos lobos da matilha. Ninguém. Inês viu a arma. Seus olhos se arregalaram. Em vez de gritar, em vez de se jogar na frente dele, ela deu um passo para trás. Depois outro. E correu. Fugiu como uma covarde, sumindo entre os convidados sem olhar para trás. Meu corpo se moveu antes que eu pensasse. A dor da rejeição ainda queimava no peito. O tumor latejava como se quisesse explodir. O sangue parecia gelado nas veias. Mas uma certeza cruel me atingiu com a força de um trovão: Eu vou morrer de qualquer forma. Não tenho mais nada a perder. — RAVI! O grito rasgou minha garganta. Eu me lancei com as últimas forças que ainda restavam no meu corpo frágil e colei o peito nas costas largas dele no mesmo segundo em que o estampido ecoou pelo salão. A bala de prata atravessou minha carne com um calor branco, cegante, insuportável. O impacto me empurrou contra ele. Meu corpo tremeu, fraquejou, e eu deslizei para baixo, caindo de joelhos e depois de lado aos pés dele. O gosto metálico invadiu minha boca. O ar sumiu dos pulmões. O fogo se espalhou do peito para cada nervo do corpo, queimando, dilacerando, roubando o que restava de mim. Gritos. Confusão. O cheiro metálico do meu próprio sangue se misturando ao ar carregado de feromônios e medo. Ravi sentiu o peso, o impacto, o calor úmido escorrendo pela camisa. Por um segundo ele ficou imóvel, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Então se virou. Seus olhos se arregalaram de puro choque quando me encontrou no chão, o vestido já encharcado de vermelho escuro, o sangue dela manchando as mãos e a camisa dele. Por um instante ele ficou paralisado. No segundo seguinte, estava ajoelhado ao meu lado, as mãos grandes e quentes virando meu corpo com um cuidado quase desesperado, pressionando o ferimento. — Por que…? — a voz dele saiu rouca, quebrada, quase irreconhecível. — Por que você fez isso? Eu te rejeitei… na frente de todos… Eu abri a boca. O sangue escorria pelo canto dos lábios. Cada respiração era uma agonia afiada. Mas precisei falar. Precisei que ele soubesse. — Porque… eu não tenho mais nada a perder — sussurrei. Minha visão já começava a escurecer nas bordas. — E porque… eu ainda… As palavras morreram na minha garganta. A escuridão me engoliu. A última coisa que ouvi antes de sumir completamente foi a voz de Ravi, baixa e perigosa, ordenando: — Levem ela para o hospital. Agora. E se alguém deixar ela morrer… vai responder diretamente a mim.Lavinia Marke Cinco anos depois O jardim da mansão nunca tinha estado tão cheio. Lobos Brancos e Lobos Negros se misturavam sob as árvores altas, crianças corriam entre as pernas dos adultos, e o cheiro de carne assada, bolo e magia antiga preenchia o ar da tarde. Eu estava de pé na varanda, uma taça de suco de laranja na mão, observando o caos organizado que era o aniversário de cinco anos dos meus filhos. Ralf e Áurea. Meu menino teimoso de cabelos escuros e olhos cinzentos iguais aos do Ravi. Minha menina de cabelos pretos e olhar intenso demais para a idade, pura Orion em versão pequena e implacável. Os dois corriam no meio da multidão como se o mundo inteiro fosse território deles, porque, de certa forma, era. — Mãe! — Ralf gritou de longe, levantando um pedaço de bolo já pela metade comido. — O tio Kael disse que eu posso subir na árvore! — Não pode! — eu gritei de volta, rindo. — Desce daí agora, Ralf Darke Valek! Ele fez beicinho, mas obedeceu. Áurea, ao lado dele, ap
Capítulo Final Orion Valek O grito de Lavinia rasgou a madrugada. Eu estava de joelhos ao lado da cama quando o segundo trabalho de parto começou de verdade. Ravi segurava uma das mãos dela. Eu segurava a outra. O quarto cheirava a suor, a magia antiga e a medo bom. O médico ancião e duas parteiras se moviam com eficiência silenciosa, mas eu só via ela. A mulher que tinha dominado dois Alfas, enfrentado anciãos e carregado nossos filhos até o fim. — Olha para mim — eu pedi, a voz rouca. — Só para mim. Lavinia virou o rosto suado. Os olhos estavam vidrados de dor e determinação. Eu beijei a testa dela com força, sentindo o laço roxo latejar desesperado entre nós. — Você é a mulher mais forte que eu já vi — murmurei contra a pele dela. — Você já venceu guerras. Você vai vencer isso também. Ravi estava do outro lado, a mandíbula travada, os olhos cinzentos úmidos. Ele não falava muito. Só segurava a mão dela como se pudesse transferir força pela pele. A primeira contração
Capítulo 92 Ravi Darke O caminho de volta para a mansão parecia mais longo e, ao mesmo tempo, mais leve. Eu caminhava do lado esquerdo de Lavinia, Orion do direito. Os três em silêncio. O cheiro dela ainda carregava residual de magia antiga e de adrenalina, mas por baixo havia algo novo: alívio. Profundo. Cansado. Vitorioso. Eu sentia pelo laço negro o quanto ela tinha se segurado na clareira. Quanto tinha custado ficar de pé na frente de todos, grávida, e declarar sentença. Agora que a plateia tinha sumido, o corpo dela começava a demonstrar o preço. Eu ajuste i o passo para o dela, mais lento, mais cuidadoso. A mão direita pairava perto das costas dela, pronto para apoiar se ela vacilasse. Orion fazia o mesmo do outro lado. Dois Alfas em guarda mesmo depois da batalha ter acabado. — Você está bem? — perguntei baixo. Lavinia soltou o ar pelo nariz, um som quase de riso cansado. — Estou. Só… o corpo está pesado. Os filhotes estão inquietos. — Eles sentiram — Orion murmu
Capítulo 91 Lavinia Marke O centro da alcateia dos Lobos Negros estava lotado. Eu caminhei entre Orion e Ravi com a coluna ereta, uma mão protegendo o ventre e a outra livre. O silêncio que se fez quando me viram chegar foi quase solene. Dezenas de lobos se apartaram para abrir caminho. Alguns baixaram a cabeça. Outros apenas observaram, curiosos e tensos. No meio da clareira, ajoelhado e com as mãos amarradas atrás das costas, estava o ancião de cabelos brancos. O mesmo que tinha ordenado meu envenenamento. O mesmo que tinha chamado meus filhos de aberração. Eu parei a poucos metros dele. O cheiro de medo e orgulho ferido subia do corpo velho. Ravi e Orion ficaram logo atrás de mim, presenças quentes e letais. Mas aquela hora não era deles. Era minha. — Levantem ele — eu ordenei. Dois betas puxaram o ancião para os pés. Ele cambaleou, mas manteve o queixo erguido. Os olhos amarelados pelo tempo me encararam com o mesmo desprezo de antes. — Luna — ele cuspiu a palavra com
Capítulo 90 Orion Valek O cheiro do veneno chegou antes da voz. Eu e Ravi nos movemos juntos pela floresta atrás da casa antiga do ancião, os passos silenciosos, o lobo de cada um no limite. Kael tinha mandado a localização há menos de vinte minutos. A criada estava ali. O composto também. E o velho de cabelos brancos estava prestes a entregar a ordem final. Nós não esperamos permissão. Ravi arrombou a porta dos fundos com o ombro. Eu entrei logo atrás. A cena se desenrolou na nossa frente como um pesadelo lento demais para ser real. O ancião estava de pé no meio da cozinha pequena, uma ampola de vidro escuro na mão. A criada, uma loba jovem, pálida de medo, segurava um frasco de chá já preparado. O velho falava baixo, mas cada palavra cortava o ar como lâmina. — …ela carregou a desgraça para dentro das duas alcateias. Misturou sangue que nunca deveria se tocar. Eu não aceito essa aliança de Lobos Brancos com Lobos Negros. Nunca aceitei. E se a Luna é a culpada por essa a
Capítulo 89 Ravi Darke O escritório da mansão estava silencioso demais para a quantidade de raiva que eu carregava no peito. Eu estava sentado atrás da mesa de madeira escura, os cotovelos apoiados, as mãos cerradas uma contra a outra. Do andar de cima ainda vinha o eco fraco do que tinha acontecido entre Orion e Lavinia. O laço negro não mentia. Eu tinha sentido o desejo dela, o cuidado dele, o momento em que os dois se entregaram. Não era ciúme o que me apertava a garganta. Era algo mais sujo. Mais silencioso. A sensação de ter ficado do lado de fora enquanto o mundo tentava destruir a nossa família. Kael e Klaus esperavam em frente à mesa, eretos, atentos. — Quero olhos em cada um daqueles anciãos — eu disse, a voz baixa e controlada. — Não quero rumor. Quero fato. Quem se reúne, quem fala baixo demais, quem manda mensagem no meio da madrugada. Vocês saem agora. E não voltam sem alguma coisa concreta. Kael assentiu. — Entendido, Alfa. Klaus demorou meio segundo a mais. Os o







