LOGINO rosto de Darian não tinha nada de um assassino triunfante. pelo contrário, ele parecia devastado.
Lágrimas se misturavam à chuva em seu rosto, o maxilar tremia e seus olhos de cobre estavam arregalados de puro horror enquanto ele lutava para conter alguma coisa que claramente já não obedecia à sua vontade.
Eu gritei, e ele gritou comigo.
O som que rasgou sua garganta tornou tudo ainda mais incompreensível. Enquanto a lâmina permanecia enterrada em meu peito e aquilo continuava sendo arrancado de mim em direção a ele, Darian me apertou contra seu corpo como se tentasse me manter ali pela força, mesmo sendo ele quem me destruía. Ele quem roubava minha vida de mim.
— Não, não... Por favor, não! Ah! Deus! NÃO! — Sua voz se partiu num soluço enquanto uma das mãos subia para sustentar minha cabeça. — Fica comigo. Olha para mim, Zuri. Por favor...
Zuri... meu nome...
E foi então que outra certeza me atingiu.
Eu conhecia aquela voz naquela realidade também. Quer dizer, aquele corpo, aquela Zuri o conhecia. Confiava nele e... amava aquele homem de todo o seu coração.
Não havia uma única lembrança que explicasse como eu sabia disso, mas o sentimento estava entranhado naquele corpo tão profundamente quanto a dor. O homem que estava a matando era também o homem que aquela Zuri amava.
— Me perdoa, meu amor... — aquele Darian me apertou contra si, e o desespero deformou sua voz até quase não reconhecê-la. — Me perdoa. Por favor!
Foi a última coisa que consegui compreender antes que sua voz começasse a se afastar, engolida pelo vazio que avançava sobre meus sentidos.
Aquilo dentro de mim continuava sendo arrancado. Eu o sentia abandonar meu corpo aos poucos, levando consigo minha força e deixando um frio profundo por onde passava.
Então senti a última parte atravessar o espaço entre nós e entrar em Darian. Ele arqueou o corpo com um grito. Seus músculos se contraíram e o cobre de seus olhos se incendiou enquanto alguma coisa que morria dentro de mim parecia ganhar força nele.
Então eu entendi... Quanto mais Darian recebia, menos restava para mim.
O frio tomou meu corpo. Minha visão escureceu pelas bordas e até a dor da adaga começou a desaparecer. Darian ainda me segurava, a boca se movendo como se gritasse meu nome, mas sua voz já não me alcançava.
Meu coração deu uma última batida dolorosa.
Então o que restava daquela presença deixou meu corpo e desapareceu dentro dele.
O vazio tomou tudo.
Não havia mais dor. Nem frio. Nem Darian.
Só a morte.
Voltei ao presente com um grito preso na garganta e a mão cravada no peito, procurando desesperadamente a adaga que já não estava ali.
A dor, porém, continuava. Algo dentro de mim ainda parecia estar sendo arrancado, deixando para trás um vazio profundo e pulsante que fez minhas pernas fraquejarem. Puxei o ar com violência, mas meu corpo ainda se lembrava de como era morrer.
Empurrei Darian e recuei. Ele soltou meu corpo imediatamente, a expressão mudando ao perceber meu estado, mas permaneceu perto, atento a cada movimento meu.
Eu precisava tocar alguma coisa sólida, real. Agarrei-me à mureta da varanda e forcei meus olhos a reconhecer o que estava ao redor: a paisagem diante de mim, as luzes acesas da mansão, o vento fresco da noite contra minha pele.
Não havia chuva. Não havia sangue. Nenhuma adaga atravessava meu peito. Mesmo assim, a dor continuava ali.
— Zuri. — Darian se moveu para se aproximar, mas bastou que eu erguesse a mão para que parasse. O desejo havia desaparecido de seu rosto, substituído por uma preocupação que endurecia seus traços enquanto seus olhos percorriam meu corpo à procura de algum ferimento. — O que aconteceu? Onde está doendo?
É claro que ele sabia que havia dor. O vínculo entre nós ainda não estava completo — eu jamais o aceitara —, mas isso nunca impedira que certas emoções atravessassem a distância entre nós em ecos confusos. Se eu conseguia sentir o desejo dele minutos antes, Darian provavelmente sentia agora alguma coisa da dor e do terror que ainda reverberavam em mim. Não sabia onde doía nem por quê. Só sabia que eu estava sofrendo.
Meu olhar caiu para as mãos dele. Estavam limpas, sem sangue, sem a adaga, sem qualquer vestígio do que eu acabara de viver. Ainda assim, meu estômago se contraiu ao reconhecê-las.
Eram aquelas mãos. As mesmas que haviam me segurado enquanto alguma coisa era arrancada de dentro de mim. As mesmas que me mantiveram em seus braços enquanto eu morria... Ou sendo mais específica, ele me matava.
Engoli em seco e obriguei meus olhos a voltarem para o rosto dele, tentando transformar em raiva o medo que ainda fazia meu corpo tremer.
— Responda, Zuri! — ordenou mais preocupado do que impaciente.
— Nada. — A resposta escapou depressa demais, e soube que tinha cometido um erro no instante em que a expressão de Darian mudou.
Seus olhos se estreitaram, não exatamente em desconfiança, mas naquela atenção incômoda que sempre me fazia sentir como se ele enxergasse mais do que eu gostaria de mostrar. O vinco entre suas sobrancelhas se aprofundou enquanto seu olhar percorria meu rosto e descia pelo meu corpo, procurando a origem de uma dor que não encontraria ali.
— Não minta para mim, Zuri. — Adverte.
— Eu não estou mentindo. — Cruzei os braços sobre o peito, mais para conter o tremor do que para convencê-lo, mas o movimento só atraiu sua atenção para minhas mãos.
Darian acompanhou meus dedos se fecharem contra os próprios braços e depois tornou a me encarar. A preocupação em seu rosto ganhou uma sombra mais dura.
— Você está tremendo.
Olhei para baixo. Não tinha como esconder isso.
Cerrei os dedos contra os braços até as unhas pressionarem minha pele, agarrando-me à sensação presente.
— Foi só... — Minha voz falhou, obrigando-me a limpar a garganta antes de continuar. — Foi uma sensação estranha. Eu fiquei confusa por um instante, só isso.
O silêncio de Darian se prolongou. Quando ergui os olhos, ele continuava me observando em silêncio, atento demais.
— Confusa com o quê? — Seu tom ainda era confuso, mas agora cauteloso.
— Com tudo isso. — Fiz um gesto entre nós, abrangendo a distância que poucos minutos antes nem sequer existia, mas os olhos de Darian não acompanharam minha mão. Continuaram presos ao meu rosto, atentos demais.
— Zuri...
— Eu me deixei levar, está bem? — interrompi, e as palavras saíram mais duras do que eu pretendia. Talvez precisassem sair assim para que eu mesma acreditasse nelas. — Por você, pelo vínculo, por toda essa... coisa de lobisomens. Eu perdi a cabeça por alguns minutos e não devia ter deixado nada disso acontecer.
A preocupação em seu rosto mudou. Seu maxilar se contraiu e os ombros ficaram tensos enquanto ele me observava, como se começasse a perceber que havia algo além do que eu estava dizendo.
— O que quer dizer? — perguntou mais baixo. Darian inclinou ligeiramente a cabeça, estudando meu rosto, e alguma coisa vulnerável atravessou sua expressão antes que ele conseguisse escondê-la. — Que se arrependeu do que aconteceu entre nós?
Meu peito doeu. Ainda sentia sua boca sobre a minha, o coração disparado sob minha palma, os braços me sustentando quando minhas pernas perderam a força. Ainda me lembrava do alívio quase divino de finalmente parar de resistir a ele.
Mas agora outra lembrança se sobrepunha àquela: uma adaga negra atravessando meu peito, Darian chorando enquanto arrancava alguma coisa de dentro de mim e, depois, a minha própria morte.
Talvez aquilo tivesse acontecido no passado. Talvez ainda fosse acontecer. Eu não sabia, e essa era a parte mais aterrorizante. Só sabia que a visão não surgira por acaso. Tinha vindo justamente quando baixei a guarda, quando parei de lutar contra o vínculo e comecei a acreditar que talvez pudesse existir um futuro para nós.
E se aquilo tivesse sido um aviso?
A ideia se instalou em mim com uma clareza brutal. Talvez eu tivesse acabado de ver onde o caminho em que escolho Darian terminava.
Meu olhar caiu involuntariamente para o pescoço de Darian e, por reflexo, levei a mão ao meu. Ele ainda não havia me marcado. O vínculo não estava completo.
Ainda havia uma saída.
A visão viera antes da marca, antes que eu o aceitasse por inteiro. Talvez antes que fosse tarde demais.
Meu coração acelerou, e dessa vez não foi de desejo. Eu precisava me afastar de Darian antes que tudo o que sentia por ele me fizesse ignorar o que acabara de ver. Porque, se aquilo fosse mesmo um vislumbre do meu futuro, ficar com ele significava perder a minha própria vida.
E eu não quero morrer.
— Sim. Estou dizendo que foi um erro. — disse o mais firme que consegui.
Darian ficou imóvel. Seu maxilar se contraiu, e por alguns segundos ele apenas me encarou, como se esperasse que eu voltasse atrás e dissesse que tinha entendido errado.
— Nós não podemos ficar juntos. — Forcei as palavras para fora antes que a coragem me abandonasse. — E eu vou embora.
A expressão dele mudou, mas não esperei para entender o quê. Dei um passo para o lado e tentei passar, porém Darian reagiu antes que eu alcançasse a porta da varanda. Seus dedos se fecharam ao redor do meu braço, detendo-me.
— Você não pode fazer isso. — A voz saiu baixa e tensa, os olhos presos aos meus. — Não pode dizer que foi um erro depois do que eu senti através do vínculo. Você me queria! Você me aceitou!
Meu peito se apertou porque ele estava certo. Eu o quis. Talvez ainda quisesse tanto que uma parte de mim só estivesse esperando uma desculpa para ficar. Mas isso não apagava a adaga atravessando meu peito nem a certeza sufocante de ter morrido nos braços dele por algo que Darian não conseguira controlar.
Puxei o braço com força, e ele me soltou imediatamente. A mão de Darian permaneceu suspensa entre nós por um instante antes de cair ao lado do corpo. Quando nossos olhos se encontraram, minha determinação vacilou.
A incredulidade ainda estava ali, mas agora havia desespero por baixo dela, cru e exposto. Como se só então Darian tivesse entendido que eu realmente pretendia deixá-lo.
Engoli a culpa e ergui o queixo.
— Eu posso fazer o que quiser. A escolha é minha. — Minha voz tremeu, mas não desviei os olhos. Se aquilo precisava acabar, eu faria antes que perdesse a coragem. — Darian Ashford, eu rejeito o vínculo entre nós. Rejeito você como meu companheiro.
O efeito foi imediato.
Darian perdeu o ar e se curvou, levando a mão ao peito enquanto um gemido rouco escapava de sua garganta.
— Darian?
Seus joelhos bateram no chão, e meu medo deu lugar ao pânico. Antes que eu pudesse reagir, uma tosse violenta sacudiu seu corpo e o sangue escapou de sua boca.
— Meu Deus!
Ajoelhei-me ao seu lado. Ele se apoiava com uma das mãos no chão enquanto a outra apertava o peito, tentando recuperar o fôlego. Havia sangue demais em seus lábios e no chão, e seu rosto perdera a cor.
Aquilo não podia ser normal.
— Darian, eu vou buscar ajuda!
Comecei a me levantar, mas sua mão se fechou em torno do meu pulso com tanta força que me fez parar.
— Darian...
Ele ergueu o rosto, e meu sangue gelou ao encontrar seus olhos completamente tomados por um cobre incandescente. Por um instante, o Darian ajoelhado diante de mim parecia com o da visão.
Um arrepio percorreu meu corpo inteiro.
— Não. — A palavra saiu entrecortada pela respiração difícil. Os dedos dele apertaram ainda mais meu pulso quando tentei recuar, e o desespero que eu tinha visto antes continuava ali, agora misturado a alguma coisa muito mais primitiva.
— Eu não vou permitir que você me deixe.
Meu coração bateu dolorosamente contra as costelas. Darian sustentou meu olhar, os olhos de cobre ardendo nos meus.
— Com ou sem vínculo, você será minha. Eu não pretendo deixar você ir.
ZURISemanas antesPor alguns segundos, tive certeza de que havia entendido errado.Continuei olhando para Alistair, esperando que ele reformulasse a pergunta ou demonstrasse qualquer sinal de que aquilo fosse algum tipo de brincadeira particularmente elaborada. Não aconteceu. Seu rosto permaneceu sério, assim como o de Darian, parado perto da lareira, e até Eleanor, apesar da expressão mais gentil, parecia aguardar minha resposta como se o marido tivesse acabado de perguntar alguma coisa perfeitamente razoável.Lobisomens.De todas as explicações que eu havia imaginado para essa noite, aquela definitivamente não estava entre as primeiras cinquenta. Vampiros tinham passado pela minha cabeça. Alienígenas também, embora eu tivesse a decência de reconhecer que nenhuma das duas hipóteses merecia ser levada a sério.Lobisomens, curiosamente, não considerei.Apoiei a xícara no pires antes que minhas mãos decidissem começar a tremer.— Lobisomens... — repeti devagar, ainda procurando no ro
DARIANSemanas antesA incredulidade em seu rosto era tão evidente que, por um instante, apenas a observei.— Desculpa... o quê?Zuri tinha ouvido perfeitamente. Seu coração continuava acelerado, e eu ainda sentia pelo fio a confusão que se misturava à atração que ela tentava compreender.— Você é minha companheira — repeti, sem encontrar motivo para suavizar uma verdade tão simples.Ela me encarou como se eu tivesse enlouquecido.Ao nosso redor, os primeiros murmúrios começaram a romper o silêncio, mas não lhes dei atenção. Eu sabia o que aquela cena significava para todos os lobisomens presentes e sabia que, antes do fim da noite, a notícia de que eu havia reconhecido minha companheira provavelmente já teria atravessado metade das famílias importantes do território. Só que nada disso me interessava naquele momento.Zuri, por outro lado, parecia cada vez mais desconfiada. Seus olhos se demoraram nos meus por alguns segundos antes de percorrerem meu rosto, procurando alguma explicaçã
DARIANSemanas antesDuas horas antes da recepção, eu estava diante do espelho ajustando o nó da gravata quando meu pai entrou no quarto sem esperar que eu respondesse à batida. Pelo reflexo, vi Alistair fechar a porta atrás de si e caminhar alguns passos para dentro antes de parar, as mãos nos bolsos da calça e aquela expressão controlada que costumava significar que ele não tinha vindo discutir nada particularmente agradável. Continuei trabalhando na gravata. Se o assunto fosse urgente, ele falaria. Se não fosse, eu não pretendia facilitar.— Os dois representantes da Hawthorne chegaram esta tarde — informou finalmente. — Zuri Calloway e Elliot Mercer. Estarão na recepção esta noite.O nome dela não significou absolutamente nada para mim naquele momento. Eu havia visto os documentos do contrato, aprovado os valores e lido os relatórios sobre a empresa contratada, mas não tinha interesse suficiente na equipe operacional para decorar quem faria o quê. Minha participação naquele proje
ZURISemanas antes— Desculpa... o quê?Eu tinha ouvido perfeitamente, mas alguma parte do meu cérebro ainda parecia convencida de que, se ele repetisse, as palavras poderiam adquirir um significado menos absurdo. Darian continuava diante de mim, os dedos firmes ao redor do meu braço e os olhos acesos naquele cobre impossível, sem demonstrar o menor constrangimento por ter acabado de anunciar aquilo no meio de uma sala lotada. Ao nosso redor, o silêncio começava a se desfazer em murmúrios baixos, espalhando-se entre os convidados como se todos soubessem alguma coisa que Elliot e eu ignorávamos.— Você é minha companheira — repetiu Darian, e a certeza absoluta em sua voz conseguiu tornar tudo ainda mais estranho.Durante alguns segundos, uma quantidade pouco profissional de respostas atravessou minha cabeça. Você está maluco? Bateu a cabeça antes de entrar aqui? Comeu merda? Alguém colocou alguma coisa na sua bebida?A última ganhou alguma plausibilidade quando voltei a reparar nos o
ZURISemanas antesA placa anunciando Vesper Hollow surgiu quando já estávamos havia quase uma hora cercados por árvores. Depois de longas horas em um voo nada tranquilo, retiramos no aeroporto o carro alugado que a Hawthorne havia reservado para usarmos durante nossa estadia na cidade. Eu tinha visto fotografias da cidade antes da viagem, pesquisado a localização e até percorrido parte do trajeto pelo mapa, mas nada havia me preparado para a quantidade de floresta que existia ao redor dela. A estrada avançava entre pinheiros altos e montanhas que pareciam cada vez mais próximas, enquanto o sinal do meu celular oscilava entre uma barra e nenhuma.— Se o carro quebrar, eu quero deixar registrado que a ideia de vir pela estrada panorâmica foi sua — falei, olhando pela janela.— São só vinte minutos a mais. — Elliot manteve uma das mãos no volante e apontou para a paisagem com a outra. — Olha isso. Quando foi a última vez que você viu alguma coisa além de prédio, aeroporto e arquivo?—
ZURISemanas antes Quando minha chefe colocou uma pasta preta sobre a mesa e anunciou o valor do contrato que acabávamos de conseguir, Elliot engasgou com o café.— Desculpa. — Ele limpou a boca com as costas da mão e se inclinou para conferir o número outra vez. — Eu achei que você tivesse dito dois milhões.Margaret ergueu os olhos por cima dos óculos.— Eu disse dois milhões.Elliot virou lentamente o rosto para mim.— Zuri, por esse dinheiro, eu digitalizo até a lista de compras do tataravô deles.Mordi a parte interna da bochecha para não rir. Não funcionou muito bem. Margaret percebeu, como percebia tudo o que acontecia dentro da Hawthorne Heritage & Archives, e me lançou o mesmo olhar de reprovação que costumava reservar para pessoas que entravam em nossa área de conservação carregando café.— Terminou, Mercer?— Provavelmente não, mas posso fazer uma pausa.— Faça.Elliot recostou-se na cadeira com um sorriso inocente demais para alguém que trabalhava ali havia quase cinco an







