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Congelar

Author: KaiKitto
last update publish date: 2026-10-29 20:46:49

POV Vinorca Jona

Mesmo tentando rejeitar ele e o seu toque...

Borboletas flutuam no meu peito toda vez que ele me toca. É algo que acende um fogo em mim, como se cada pedaço do meu corpo estivesse em chamas.

Apesar de saber o quão imoral é sentir isso, me recuso a me deixar afogar por esse sentimento. Ele é meu meio-irmão, o homem que me adotou.

— Eu já peguei leve com você por ter saído do quarto antes. Se continuar esticando a corda, não respondo pela sua segurança — alertou Dante, dominador.

Antes que ele dissesse mais alguma coisa, eu o empurrei e saí em disparada, sem olhar para trás, consumida pelo pavor.

Cheguei ao meu quarto e bati a porta com força. O que vai ser de mim se ele continuar me dominando desse jeito?

Parece que não tenho controle sobre mim mesma; meu corpo responde ao dele em uma língua própria. Ele é a própria personificação da paixão, uma força avassaladora que me enche de uma ansiedade que eu preferia não alimentar.

Arranquei as roupas, jogando tudo no chão, e entrei no banheiro minúsculo do meu quarto caindo aos pedaços. Um banho era urgente para desacelerar meus pensamentos fora de controle.

Mesmo estando atordoada, encontrei uma força inacreditável dentro de mim para conseguir empurrá-lo.

Liguei o chuveiro e deixei a água fria escorrer pelo meu corpo.

Maldito seja. Eu não posso esperar nada deste lugar, nem a miséria de uma água morna para me confortar neste frio.

E ainda assim, ele se acha no direito de fazer o que bem entende comigo.

Que tipo de hipócrita ele é? Estou completamente perdida na vida, sendo submetida a humilhações constantes.

À medida que a água gelada acalmava minha pele, a tensão ia se dissipando. Era uma sensação maravilhosa, que aquietava minha mente e abrandava aquele arrepio que queimava por dentro.

Tentei me concentrar, mas tudo parecia fora do lugar.

Deixei os pensamentos de lado, desliguei o chuveiro e me sequei na toalha. Vesti meu pijama e me encolhi na cama, deixando para trás aquelas fantasias perturbadoras.

Fechei os olhos e fiz um esforço enorme para esquecer tudo o que estava acontecendo comigo.

"O que está acontecendo?" Senti meu corpo paralisar conforme a escuridão me engolia. Que loucura. Eu só estava tentando dormir, não era?

Tentei me mexer e entender a situação, mas a única coisa que eu conseguia enxergar era um breu sem fim naquele lugar desconhecido.

— Como você está se sentindo, Vinorca? — uma voz chamou, fazendo minha espinha gelar. Eu conhecia aquela voz. Virei a cabeça na direção do som.

— Pai? — sussurrei, vendo meu pai ali, no meio daquele abismo negro. Uma onda avassaladora de emoções me atropelou e as lágrimas desceram sem controle pelo meu rosto. Fazia dez anos que eu não via meus pais.

Só eu sei o tamanho da saudade que sinto deles. Ao ver meu pai, desabei em choro, corroída por uma dor insuportável.

— Não chore, Vinorca — pediu ele, carinhoso.

— Como o senhor pode me pedir isso, papai? Por que o senhor está assim? Como pôde deixar sua filha neste lugar? O senhor nem me levou com você... Não está vendo como eu venho vivendo aqui sem vocês dois? — perguntei, sentindo meu coração se despedaçar no peito. A dor estava me devorando viva.

— Eu não tive escolha, Vin. Eu só quero que você seja feliz, minha filha. Você sabe o quanto sua mãe e eu amamos você — ele sorriu, triste.

Como ele podia estar triste? Era eu quem devia estar triste, não era? Por que ele dizia que se importava e queria minha felicidade, se a única coisa que conheci desde o dia em que os dois morreram foi dor? Venho sofrendo há dez anos.

O que mais ele esperava de mim?

— Sabe, Vin, a Deusa da Lua sempre reserva o melhor para cada um de nós. Pode ser difícil para os filhos que ela ama, mas acredite em mim, não é de todo mau. Só espere para ver; a sua hora vai chegar. Acredite em você, minha Vin!

— Eu não consigo. O senhor matou os pais do Dante? O que aconteceu há dez anos? Foi culpa da minha mãe? Eu não acredito nisso, mas por que o Dante me odeia tanto? — Finalmente dei voz à pergunta que guardava no peito há dez anos.

Eu nunca soube como meus pais e os pais dele morreram naquele dia. Eles deveriam levar os pais do Dante para um lugar seguro em um blindado. Então como foi que todos perderam a vida?

E por que o Dante guarda tanto rancor de mim?

Como ele pode remoer a morte dos próprios pais sem nem levar em conta que eu também perdi os meus?

Ele nunca me deu uma resposta clara, ou talvez me faltasse força e coragem para enfrentá-lo e exigir a verdade.

— Eu quero saber, papai. Eu confio em vocês dois, mas por que o Dante não consegue? O senhor viveu com ele por tantos anos antes de eu nascer. Até os pais dele eram grandes amigos seus e da mamãe. Vocês eram como uma família. Então como tudo mudou tão de repente? Eu não entendo, e ele nunca me explica nada. Eu preciso que o senhor me dê uma resposta — falei, me afogando nas lágrimas.

Não sei se meu pai tinha essa resposta, mas eu precisava saber. Depois de todos esses anos, eu finalmente tinha a chance de falar com ele, e não deixaria essa oportunidade escapar. Esperei dez anos pela verdade que esconderam de mim — e talvez até dos olhos atentos do Dante.

Na minha ignorância, eu pagava por coisas que jamais fiz. Eu tinha o direito de saber antes que ele me acusasse de algo em que nem eu, nem meus pais, jamais estivemos envolvidos.

— Confie em você, Vinorca. Lembre-se: se você tiver fé em si mesma, nada pode dar errado — respondeu ele, com um sorriso.

— Eu estou tentando, papai, juro que estou, mas não aguento mais isso — desabafei, as palavras saindo trôpegas e confusas.

Só eu sei a agonia que enfrentei nesses últimos dez anos.

O homem que eu considerava minha família, a pessoa em quem eu confiava e me apoiava, despedaçou meu coração frágil no mesmíssimo dia em que me adotou.

Ele continuou quebrando o coração de uma criança em mil pedaços.

E, ainda assim, apesar de tudo, meu coração insiste em buscar o afeto da mesma pessoa que torna cada respiração minha um suplício.

Eu não tenho mais vontade de viver. Só quero um pouco de paz, algo que esta vida simplesmente não pode me dar.

— Não diga isso, Vin. Nós acreditamos em você, e eu sei que você pode mudar o que quiser. Siga suas convicções e nunca deixe ninguém pisar em você.

Antes que eu pudesse responder, a escuridão o engoliu. Tentei me levantar, mas não consegui.

— Por favor! — gritei.

Abri os olhos e me vi encharcada de suor, ainda presa naquele mesmo lugar infernal, no mesmo quarto. Olhei ao redor e percebi que já era de manhã.

Então quer dizer que eu não estava apenas tentando dormir, mas acabei pegando no sono e vi meu pai num sonho?

Mas como ele conseguiu falar comigo? Parecia tudo uma alucinação.

Tentei me acalmar, puxando o ar bem fundo. Eu precisava espantar aquela ansiedade que me sufocava.

Depois de três anos, as mesmas sensações voltavam à tona. Apesar do caos que virou minha vida nesse tempo, eu tinha encontrado um pouco de paz depois que ele foi embora, torcendo para que nunca mais voltasse.

Agora tudo ficou ainda mais complicado, e eu não faço ideia de como enfrentar isso.

Não tenho ninguém para me segurar nos braços e dizer que está aqui por mim. Tenho medo de que, mesmo no futuro, eu continue completamente sozinha.

Em poucos dias, meu aniversário de dezoito anos vai chegar. Todo lobo, até mesmo os ômegas, espera ansiosamente por esse dia, porque ele marca o início da busca por seus companheiros. É o dia com o qual todo lobo sonha.

Diante das circunstâncias, não sei se algum dia vou experimentar essa sensação. Eu também queria tanto encontrar um homem a quem pudesse amar de todo o coração, alguém com quem eu pudesse dividir minhas cicatrizes, minhas lágrimas e meus medos.

Mas eu sei que o Dante nunca vai permitir que isso aconteça. Ele não suportaria ver minha felicidade.

O que não entra na minha cabeça é por que o Dante, em uma idade em que já deveria ter encontrado sua própria companheira, se recusa a fazer isso e prefere passar o tempo me torturando.

Vai saber.

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