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Destino traçado: Entre o Amor e o Perigo
Destino traçado: Entre o Amor e o Perigo
Author: Vitória Leilane

Capítulo 1

last update publish date: 2026-09-28 19:54:07

Natalie

Já fazia quase uma hora que eles discutiam na cozinha. Mesmo com a porta fechada, ainda conseguia ouvir a voz alterada de Marcus e, entre um grito e outro, minha mãe tentando acalmá-lo em voz baixa.

Continuei sentada na minha cama, pressionando os fones contra os ouvidos enquanto aumentava o volume da música para não ouvir a discussão do outro lado da porta.

Eles brigam tanto que já sei como vai acabar. Minha mãe vai chorar, Marcus vai sair de casa irritado e, no fim, a culpa vai ser minha.

Por alguns minutos, consegui fingir que não estava ouvindo, até a porta ser aberta bruscamente.

— Natalie! — Minha mãe surgiu na entrada, os braços cruzados e uma expressão de raiva.

Tirei os fones e encarei, esperando pela próxima acusação.

—Você podia, pelo menos uma vez, facilitar as coisas. — Ela entrou no quarto com passos firmes.

— Mãe, não fiz nada — respondi, irritada.

— Claro que não. Você nunca faz nada, não é? — Ela descruzou os braços e se aproximou. — Custava ter feito o que ele queria?

— Eu não sou obrigada a fazer tudo o que ele manda.

Antes que eu pudesse perceber que ela havia levantado a mão, senti o tapa em meu rosto. O estalo ecoou pelo quarto, e minha cabeça virou com o impacto. Logo em seguida, senti o gosto metálico na boca.

— Da próxima vez que você não fizer o que ele quer, vai ficar dois dias trancada aqui sem comer! — A voz dela tremia, misturando raiva e um desespero que eu já não sabia se conseguia compreender.

Voltei o rosto devagar e pressionei os dedos contra a bochecha. Ainda era difícil olhar para ela e não se lembrar daquela mãe carinhosa que um dia me fazia sentir segura.

Quando viemos morar aqui com Marcus, alguma coisa nela mudou. Sempre que os dois brigavam e ele saía de casa, quase sempre era em mim que ela descontava a raiva.

Com o passar do tempo, comecei a ter cuidado com minhas palavras e com meus gestos. Qualquer coisa parecia ser motivo suficiente para deixá-la irritada.

— Eu não fiz nada — repeti, dessa vez mais baixo. — Só disse que não ia com ele.

— Ele só pediu que você fosse com ele até a cidade. Não custava nada acompanhá-lo por algumas horas.

— Mas eu não queria ir — respondi, sentindo a garganta apertar.

Nunca me senti confortável perto dele e, sempre que estávamos no mesmo lugar, eu sentia vontade de me afastar.

— E desde quando você tem que querer? — Minha mãe me encarou com impaciência. — Se ele pediu, você deveria ter ido.

— Tenho que fazer tudo o que ele quer só para ele não ficar bravo? — questionei, respirando fundo para impedir que minha voz tremesse.

— A senhora sabe que eu não gosto de ficar sozinha com ele.

— Olha tudo o que ele faz por nós. Te aceitou quando viemos para cá, sustenta essa casa sozinho. Você deveria agradecer por ter alguém como ele. — Ela apontou para a porta. — Da próxima vez, obedeça.

Ela saiu e fechou a porta.

Fiquei parada, ainda com a mão sobre a bochecha, tentando engolir o nó na garganta. Pouco depois, ouvi passos pesados no corredor, a porta da sala bater e, em seguida, o motor da caminhonete ligar.

Só então puxei o celular debaixo do travesseiro. Minha mão ainda tremia quando a tela acendeu com uma nova notificação de Elisa.

Ela é minha melhor amiga desde a escola e a única em quem confio para contar tudo o que acontece sem precisar esconder nada.

Há seis meses, ela se mudou para a cidade em busca de trabalho. Minha mãe sempre fez questão de dizer que Elisa estava se metendo com coisas erradas. Eu sabia que essa implicância era porque ela e sua família eram imigrantes.

Abri a mensagem.

- Sua mãe ficou brava porque você não quis ir com Marcus?

- Ficou. Me bateu e disse que, da próxima vez, eu tinha que fazer o que ele mandasse.

- Nat, você sabe que não precisa aceitar isso.

Fiquei olhando aquelas palavras, sem saber o que responder.

- Só queria que ela parasse de ficar brava e me culpar por tudo.

- Ela sempre fica brava quando você não faz o que ele quer.

Deixei o celular ao lado e deitei a cabeça no travesseiro. Encarei o teto mofado, tentando imaginar como seria acordar um dia sem Marcus naquela casa.

Será que as coisas seriam como antes?

Será que minha mãe me amaria outra vez?

O toque de uma nova mensagem me tirou dos pensamentos.

Quando Elisa havia falado sobre a possibilidade de eu ir para a cidade, eu estava tão preocupada com tudo o que acontecia em casa que mal consegui pensar direito no assunto.

Agora, deitada naquela cama, comecei a considerar que talvez aquilo pudesse ser uma saída.

Peguei o celular novamente.

- Você pensou melhor sobre aquilo que te falei? - ela perguntou.

Meus dedos ficaram suspensos sobre o teclado enquanto eu olhava para a porta fechada. A ideia de sair daquela casa ainda me assustava.

- Você tem certeza de que isso pode dar certo? - digitei por fim.

Enviei a mensagem e fiquei olhando para a tela.

Talvez eu pudesse sair dali.

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