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Natalie
Já fazia quase uma hora que eles discutiam na cozinha. Mesmo com a porta fechada, ainda conseguia ouvir a voz alterada de Marcus e, entre um grito e outro, minha mãe tentando acalmá-lo em voz baixa. Continuei sentada na minha cama, pressionando os fones contra os ouvidos enquanto aumentava o volume da música para não ouvir a discussão do outro lado da porta. Eles brigam tanto que já sei como vai acabar. Minha mãe vai chorar, Marcus vai sair de casa irritado e, no fim, a culpa vai ser minha. Por alguns minutos, consegui fingir que não estava ouvindo, até a porta ser aberta bruscamente. — Natalie! — Minha mãe surgiu na entrada, os braços cruzados e uma expressão de raiva. Tirei os fones e encarei, esperando pela próxima acusação. —Você podia, pelo menos uma vez, facilitar as coisas. — Ela entrou no quarto com passos firmes. — Mãe, não fiz nada — respondi, irritada. — Claro que não. Você nunca faz nada, não é? — Ela descruzou os braços e se aproximou. — Custava ter feito o que ele queria? — Eu não sou obrigada a fazer tudo o que ele manda. Antes que eu pudesse perceber que ela havia levantado a mão, senti o tapa em meu rosto. O estalo ecoou pelo quarto, e minha cabeça virou com o impacto. Logo em seguida, senti o gosto metálico na boca. — Da próxima vez que você não fizer o que ele quer, vai ficar dois dias trancada aqui sem comer! — A voz dela tremia, misturando raiva e um desespero que eu já não sabia se conseguia compreender. Voltei o rosto devagar e pressionei os dedos contra a bochecha. Ainda era difícil olhar para ela e não se lembrar daquela mãe carinhosa que um dia me fazia sentir segura. Quando viemos morar aqui com Marcus, alguma coisa nela mudou. Sempre que os dois brigavam e ele saía de casa, quase sempre era em mim que ela descontava a raiva. Com o passar do tempo, comecei a ter cuidado com minhas palavras e com meus gestos. Qualquer coisa parecia ser motivo suficiente para deixá-la irritada. — Eu não fiz nada — repeti, dessa vez mais baixo. — Só disse que não ia com ele. — Ele só pediu que você fosse com ele até a cidade. Não custava nada acompanhá-lo por algumas horas. — Mas eu não queria ir — respondi, sentindo a garganta apertar. Nunca me senti confortável perto dele e, sempre que estávamos no mesmo lugar, eu sentia vontade de me afastar. — E desde quando você tem que querer? — Minha mãe me encarou com impaciência. — Se ele pediu, você deveria ter ido. — Tenho que fazer tudo o que ele quer só para ele não ficar bravo? — questionei, respirando fundo para impedir que minha voz tremesse. — A senhora sabe que eu não gosto de ficar sozinha com ele. — Olha tudo o que ele faz por nós. Te aceitou quando viemos para cá, sustenta essa casa sozinho. Você deveria agradecer por ter alguém como ele. — Ela apontou para a porta. — Da próxima vez, obedeça. Ela saiu e fechou a porta. Fiquei parada, ainda com a mão sobre a bochecha, tentando engolir o nó na garganta. Pouco depois, ouvi passos pesados no corredor, a porta da sala bater e, em seguida, o motor da caminhonete ligar. Só então puxei o celular debaixo do travesseiro. Minha mão ainda tremia quando a tela acendeu com uma nova notificação de Elisa. Ela é minha melhor amiga desde a escola e a única em quem confio para contar tudo o que acontece sem precisar esconder nada. Há seis meses, ela se mudou para a cidade em busca de trabalho. Minha mãe sempre fez questão de dizer que Elisa estava se metendo com coisas erradas. Eu sabia que essa implicância era porque ela e sua família eram imigrantes. Abri a mensagem. - Sua mãe ficou brava porque você não quis ir com Marcus? - Ficou. Me bateu e disse que, da próxima vez, eu tinha que fazer o que ele mandasse. - Nat, você sabe que não precisa aceitar isso. Fiquei olhando aquelas palavras, sem saber o que responder. - Só queria que ela parasse de ficar brava e me culpar por tudo. - Ela sempre fica brava quando você não faz o que ele quer. Deixei o celular ao lado e deitei a cabeça no travesseiro. Encarei o teto mofado, tentando imaginar como seria acordar um dia sem Marcus naquela casa. Será que as coisas seriam como antes? Será que minha mãe me amaria outra vez? O toque de uma nova mensagem me tirou dos pensamentos. Quando Elisa havia falado sobre a possibilidade de eu ir para a cidade, eu estava tão preocupada com tudo o que acontecia em casa que mal consegui pensar direito no assunto. Agora, deitada naquela cama, comecei a considerar que talvez aquilo pudesse ser uma saída. Peguei o celular novamente. - Você pensou melhor sobre aquilo que te falei? - ela perguntou. Meus dedos ficaram suspensos sobre o teclado enquanto eu olhava para a porta fechada. A ideia de sair daquela casa ainda me assustava. - Você tem certeza de que isso pode dar certo? - digitei por fim. Enviei a mensagem e fiquei olhando para a tela. Talvez eu pudesse sair dali.NatalieUma semana depois... Parei diante dos mesmos portões, segurando a lista que Claire havia me entregado. Respirei fundo antes de apertar o interfone, tentando controlar a ansiedade.O estalo do portão destravando ecoou na rua silenciosa. Caminhei até a entrada e, antes que pudesse bater, a porta se abriu.— Bom dia, Natalie. Entre — disse uma senhora de cabelos grisalhos, sorrindo de leve. — Sou a Norma. — Bom dia, Norma — respondi, entrando no hall.— A senhorita Claire teve que ir cedo para a faculdade, e me pediu para te orientar no que for preciso — explicou Norma, fechando a porta atrás de mim.— Tudo bem. Onde está a senhora Vivian? — perguntei, seguindo-a até a cozinha. — No quarto de hóspedes, no fim do corredor à esquerda —disse ela, estendendo a bandeja para mim. — Esse é o café da manhã dela. Qualquer coisa, estarei por aqui.Segui até o quarto com cuidado. Quando parei diante da porta, respirei fundo e bati duas vezes na madeira.— Pode entrar — respondeu uma voz
Natalie Na manhã seguinte, acordei com o cheiro de café vindo da cozinha. Sentei devagar na cama e uma dor incômoda latejou no tornozelo assim que coloquei os pés no chão. Encontrei Elisa na cozinha preparando o café e, assim que me viu entrar, ela apontou para uma cadeira à mesa. — Senta e come alguma coisa. Eu tenho uma notícia sobre o trabalho que te falei — disse Elisa, servindo duas xícaras. — A vaga para garçonete na boate foi preenchida? — perguntei, sentando-me e esperando que ela continuasse. — Foi, mas uma colega da faculdade está procurando alguém para cuidar da mãe nas próximas semanas — ela explicou, sentando-se à minha frente. — A mulher sofreu um acidente e vai precisar de ajuda. — E você acha que ela vai me contratar? — perguntei. — Ela quer te conhecer primeiro. Mandei mensagem e ela disse que pode te receber hoje pela manhã — respondeu ela, terminando o café. — Se você topar, vamos agora. Aceitei com um aceno. Saímos do apartamento e, cerca de vinte minut
Natalie De madrugada, quando o turno de Elisa finalmente terminou, saímos juntas da Velaris. O movimento na boate já começava a diminuir, e eu sentia meu corpo pesado depois de tudo o que aconteceu naquele dia. Entramos no carro assim que Elisa destravou as portas. — Você está com uma cara péssima — comentou Elisa, ligando o carro. — Obrigada pelo elogio — respondi, deixando escapar um sorriso cansado. — Estou falando sério. Você precisa descansar. — Eu sei. Só quero chegar logo ao seu apartamento. Seguimos em silêncio por algumas ruas enquanto eu apoiava a cabeça na janela, observando as luzes da cidade passarem. Foi quando percebi pelo retrovisor as luzes vermelhas e azuis de uma viatura surgindo logo atrás de nós. O breve toque da sirene fez Elisa diminuir a velocidade e encostar no acostamento. Um dos policiais se aproximou pelo lado do motorista enquanto o outro permaneceu alguns passos atrás, vigiando. — Boa noite — cumprimentou o policial se aproximando da janel
Natalie —É aqui— disse o senhor, parando em frente a um prédio escuro. Pela janela, observei que algumas luzes externas estavam apagadas, e não havia movimento na entrada.— Obrigada senhor — respondi, abrindo o bolso lateral da mochila e tirando uma nota amassada do pouco dinheiro que eu consegui juntar com os serviços domésticos que fiz. — É tudo o que eu tenho para pagar a carona.Ele olhou para a nota em minha mão e balançou a cabeça.— Não precisa pagar, menina. Guarde para quando precisar. — Ele sorriu de leve e fez um gesto para que eu guardasse o dinheiro.Sorri de volta, guardei o dinheiro e abri a porta, descendo do carro com a mochila nos ombros. Esperei até o veículo desaparecer no fim da rua antes de me virar para a entrada. Respirei fundo e empurrei a porta.Do lado de dentro, estava quase silencioso. Algumas pessoas circulavam pelo lugar, limpando as mesas e carregando caixas que pareciam estar cheias de bebidas.Fiquei parada, observando tudo ao redor. Eu nunca havia
NatalieO barulho da porta se abrindo me fez travar. Escondida no mato, a poucos metros da casa, eu tentava respirar sem fazer barulho. Por uma pequena abertura entre as folhas, vi minha mãe sair com o celular na mão. Ela atravessou o quintal e, antes de seguir para o galpão, parou por alguns segundos e olhou naquela direção.Marcus deve ter pedido para que ela verificasse alguma coisa antes de voltar do hospital. Quando ela se aproximou do galpão, abaixei-me e esperei até vê-la entrar.Apertei a alça da mochila e segui pelo pequeno caminho de terra que levava para fora da nossa propriedade, afastando os galhos que encontrava pela frente. A cada passo, sentia meu tornozelo doer, mas continuei mesmo assim.Ouvi veículos passando ao longe e segui naquela direção, tentando me orientar pelo som.Quando finalmente cheguei ao asfalto, olhei para os dois lados. Não havia placas indicando qual direção seguir, e eu nunca tinha ido além daquela região. O mais longe que costumava ir eram as ca
Natalie Minha mãe ficou alguns segundos em silêncio, me encarando como se estivesse tentando decidir o que fazer. Então veio até mim, seguroumeu braço e me puxou para fora.— Anda — ordenou, me arrastando e fazendo-me tropeçar. — Mãe, calma. Me deixa explicar... — tentei acompanhar seus passos, mas ela não diminuiu o ritmo.— Cala a boca. —respondeu seca, apertando ainda mais meu braço.Ela me levou para dentro de casa, fechou a porta atrás de nós e me empurrou em direção ao corredor. Bati as costas contra a parede e perdi o ar com o impacto. Mal tive tempo de recuperar o fôlego antes que ela me desse um tapa no rosto.— Você perdeu a cabeça? — gritou, com a voz carregada de raiva. — Depois de tudo que ele fez, é assim que você retribui? — Eu só me defendi. — respondi, sentindo a voz falhar enquanto minhas mãos ainda tremiam.— Você é uma filha ingrata! Ela veio para cima de mim antes que eu pudesse recuar. Puxou meu cabelo e começou a me bater com socos e chutes. Tentei me pr







