MasukNatalie
Dias depois... Acordei com algumas batidas fortes na porta. Ainda sonolenta, puxei o cobertor até o rosto, torcendo para que quem estivesse do outro lado desistisse. — Natalie, acorda, garota! — A voz da minha mãe atravessou a porta. — Preciso sair e quero que você ajude seu padrasto. — Já vou. — Minha voz saiu baixa e sonolenta. Sentei na cama e passei a mão pelo rosto antes de me levantar. Assim que abri a porta, encontrei minha mãe já pronta para sair, com sua bolsa em uma das mãos. — Ajudar em quê? — Marcus está lá fora cuidando das coisas. Só faça o que ele pedir e não arrume confusão, Natalie. — Onde a senhora vai? — Entregar essa encomenda na casa da senhora Miller. Minha mãe costurava, fazia alguns consertos e peças sob encomenda para pessoas da região. A senhora Miller era uma de suas clientes. — Vai demorar? — perguntei, olhando rapidamente para o lado de fora. — Não. É aqui perto. — Ela ajustou a bolsa no ombro. — Só faça o que ele pedir enquanto eu estiver fora. Assenti, mesmo sem vontade. Esperei ela sair antes de ir até a cozinha. Servi uma xícara de café e tomei alguns goles, sentindo o amargor me despertar aos poucos.Depois voltei ao quarto, troquei de roupa, vesti uma calça velha e uma camiseta e calcei minhas botas. O sol já estava alto quando saí de casa. O cheiro de terra molhada se misturava ao de capim recém-cortado, mas a sensação de paz que aquela manhã deveria trazer não durou muito. Perto do galpão, vi Marcus trabalhando e, assim que percebeu minha presença, apontou para algumas caixas. — Coloca isso lá dentro — disse, num tom ríspido. — Todas? — perguntei, olhando para as caixas. — Todas. Não estou pedindo para escolher — respondeu, impaciente. Eu sabia que qualquer coisa que eu respondesse poderia terminar em outra briga, então me aproximei das caixas e peguei a primeira. Levei-a para dentro do galpão e voltei para buscar as outras. Fiz isso uma por uma, evitando olhar em sua direção até terminar. Quando voltei para perto dele, encontrei-o mexendo em algumas ferramentas sobre uma bancada. — Já terminou? — perguntou. Seus olhos percorreram meu corpo antes de encontrarem os meus novamente. Senti um desconforto imediato e me afastei um pouco. Eu já tinha percebido como ele me olhava quando minha mãe não estava por perto. Uma vez, cheguei a pegá-lo tentando me espionar enquanto eu tomava banho. Nunca contei nada. Tinha medo de que ela não acreditasse em mim ou, pior, de que acabasse colocando a culpa em mim e me punisse. — Já. Tem mais alguma coisa? — perguntei, desviando os olhos. — Preciso separar isso daqui. As que estão boas ficam aqui, e as que precisam de conserto você coloca dentro do caixote. — Ele apontou para a bancada. Hesitei por um instante, mas acabei me aproximando. Comecei a separar as ferramentas, tentando me concentrar no que estava fazendo. Ele ficou ao meu lado, observando cada movimento. — Esse vai para o conserto — disse, apontando para um martelo. Quando me virei para pegar outra, percebi que ele estava mais perto. Ao passar atrás de mim, seu ombro roçou nas minhas costas. Meu corpo estremeceu ao sentir o toque, mas me forcei a continuar. Dessa vez, mantive o máximo de distância possível. Marcus ficou em silêncio por alguns segundos antes de se aproximar novamente. Quando senti sua mão tocar meu braço, afastei-me num impulso. — Não encosta em mim — falei, recuando mais um passo enquanto meu coração acelerava. Ele estreitou os olhos, incomodado com a minha reação. — Para de frescura. Marcus avançou na minha direção, e recuei até sentir minhas costas baterem contra a bancada. Antes que ele pudesse se aproximar mais, empurrei-o com toda a força que consegui. — Fica longe de mim! — gritei, tentando me afastar dele. Ele segurou meu braço e tentou me puxar de volta. — Você acha que eu não percebo suas provocações quando sua mãe não está por perto? — ele rosnou, apertando ainda mais meu braço. — Vou te dar o que você quer. A outra mão segurou meu rosto. Seus dedos pressionaram minha bochecha enquanto ele tentava me beijar à força. Virei meu rosto desesperadamente, sentindo o cheiro de suor e álcool enquanto ele insistia, prensando o corpo contra o meu. — Para de resistir — disse entre dentes, apertando meu rosto com mais força.— Eu sei que você quer. Tateei a bancada atrás de mim, procurando qualquer coisa que pudesse me ajudar. Minha mão encontrou uma ferramenta pesada de metal. Agarrei-a com toda força que tinha e golpeei seu braço. Marcus me soltou imediatamente e levou a mão ao local atingido. — Sua vadia! — gritou, tomado pela raiva. — Eu vou te matar! Dei alguns passos para trás sem soltar a ferramenta, sem saber se deveria correr ou continuar ali. Marcus apertava o braço enquanto me encarava, e o medo começou a tomar conta de mim. — Meu Deus, amor! — Minha mãe apareceu na entrada do galpão e correu até ele. — O que aconteceu? — Foi ela — disparou, apontando para mim, ainda segurando o braço. — Essa garota me atacou. — Mãe, é mentira! — As lágrimas caíram antes que pudesse impedi-las. — Ele tentou me agarrar e eu só... — Natalie, o que você fez? — Minha mãe me interrompeu antes que eu conseguisse terminar. — Ele tentou me agarrar! — Minha voz embargou. — Eu pedi para ele parar, mas ele segurou meu braço e eu só tentei me defender. Minha mãe olhou para Marcus e depois para mim. Por um instante, achei que ela fosse perguntar o que realmente tinha acontecido. Queria que olhasse para mim e percebesse o medo estampado no meu rosto. Mas seus olhos acabaram voltando para o braço machucado dele. — Natalie você machucou ele? — perguntou, como se fosse a única parte da história que importava. — Não queria machucar ninguém. Só queria que ele me soltasse. Antes que ela pudesse responder, uma voz veio do lado de fora. — Está tudo bem aí? — Um dos vizinhos apareceu e parou ao ver Marcus sangrando. — Ouvi gritos lá do outro lado. O que aconteceu? — Ela me atacou com a ferramenta — respondeu Marcus, apontando para mim com o queixo. O homem olhou para o ferimento e depois para minha mãe. — Ele precisa ir para o hospital. Eu posso levar vocês. Minha mãe assentiu e começou a se aproximar dele, mas Marcus segurou seu braço. — Não — ele disse firme, enquanto apontava na minha direção. — Você fica. Dá um jeito nela.NatalieUma semana depois... Parei diante dos mesmos portões, segurando a lista que Claire havia me entregado. Respirei fundo antes de apertar o interfone, tentando controlar a ansiedade.O estalo do portão destravando ecoou na rua silenciosa. Caminhei até a entrada e, antes que pudesse bater, a porta se abriu.— Bom dia, Natalie. Entre — disse uma senhora de cabelos grisalhos, sorrindo de leve. — Sou a Norma. — Bom dia, Norma — respondi, entrando no hall.— A senhorita Claire teve que ir cedo para a faculdade, e me pediu para te orientar no que for preciso — explicou Norma, fechando a porta atrás de mim.— Tudo bem. Onde está a senhora Vivian? — perguntei, seguindo-a até a cozinha. — No quarto de hóspedes, no fim do corredor à esquerda —disse ela, estendendo a bandeja para mim. — Esse é o café da manhã dela. Qualquer coisa, estarei por aqui.Segui até o quarto com cuidado. Quando parei diante da porta, respirei fundo e bati duas vezes na madeira.— Pode entrar — respondeu uma voz
Natalie Na manhã seguinte, acordei com o cheiro de café vindo da cozinha. Sentei devagar na cama e uma dor incômoda latejou no tornozelo assim que coloquei os pés no chão. Encontrei Elisa na cozinha preparando o café e, assim que me viu entrar, ela apontou para uma cadeira à mesa. — Senta e come alguma coisa. Eu tenho uma notícia sobre o trabalho que te falei — disse Elisa, servindo duas xícaras. — A vaga para garçonete na boate foi preenchida? — perguntei, sentando-me e esperando que ela continuasse. — Foi, mas uma colega da faculdade está procurando alguém para cuidar da mãe nas próximas semanas — ela explicou, sentando-se à minha frente. — A mulher sofreu um acidente e vai precisar de ajuda. — E você acha que ela vai me contratar? — perguntei. — Ela quer te conhecer primeiro. Mandei mensagem e ela disse que pode te receber hoje pela manhã — respondeu ela, terminando o café. — Se você topar, vamos agora. Aceitei com um aceno. Saímos do apartamento e, cerca de vinte minut
Natalie De madrugada, quando o turno de Elisa finalmente terminou, saímos juntas da Velaris. O movimento na boate já começava a diminuir, e eu sentia meu corpo pesado depois de tudo o que aconteceu naquele dia. Entramos no carro assim que Elisa destravou as portas. — Você está com uma cara péssima — comentou Elisa, ligando o carro. — Obrigada pelo elogio — respondi, deixando escapar um sorriso cansado. — Estou falando sério. Você precisa descansar. — Eu sei. Só quero chegar logo ao seu apartamento. Seguimos em silêncio por algumas ruas enquanto eu apoiava a cabeça na janela, observando as luzes da cidade passarem. Foi quando percebi pelo retrovisor as luzes vermelhas e azuis de uma viatura surgindo logo atrás de nós. O breve toque da sirene fez Elisa diminuir a velocidade e encostar no acostamento. Um dos policiais se aproximou pelo lado do motorista enquanto o outro permaneceu alguns passos atrás, vigiando. — Boa noite — cumprimentou o policial se aproximando da janel
Natalie —É aqui— disse o senhor, parando em frente a um prédio escuro. Pela janela, observei que algumas luzes externas estavam apagadas, e não havia movimento na entrada.— Obrigada senhor — respondi, abrindo o bolso lateral da mochila e tirando uma nota amassada do pouco dinheiro que eu consegui juntar com os serviços domésticos que fiz. — É tudo o que eu tenho para pagar a carona.Ele olhou para a nota em minha mão e balançou a cabeça.— Não precisa pagar, menina. Guarde para quando precisar. — Ele sorriu de leve e fez um gesto para que eu guardasse o dinheiro.Sorri de volta, guardei o dinheiro e abri a porta, descendo do carro com a mochila nos ombros. Esperei até o veículo desaparecer no fim da rua antes de me virar para a entrada. Respirei fundo e empurrei a porta.Do lado de dentro, estava quase silencioso. Algumas pessoas circulavam pelo lugar, limpando as mesas e carregando caixas que pareciam estar cheias de bebidas.Fiquei parada, observando tudo ao redor. Eu nunca havia
NatalieO barulho da porta se abrindo me fez travar. Escondida no mato, a poucos metros da casa, eu tentava respirar sem fazer barulho. Por uma pequena abertura entre as folhas, vi minha mãe sair com o celular na mão. Ela atravessou o quintal e, antes de seguir para o galpão, parou por alguns segundos e olhou naquela direção.Marcus deve ter pedido para que ela verificasse alguma coisa antes de voltar do hospital. Quando ela se aproximou do galpão, abaixei-me e esperei até vê-la entrar.Apertei a alça da mochila e segui pelo pequeno caminho de terra que levava para fora da nossa propriedade, afastando os galhos que encontrava pela frente. A cada passo, sentia meu tornozelo doer, mas continuei mesmo assim.Ouvi veículos passando ao longe e segui naquela direção, tentando me orientar pelo som.Quando finalmente cheguei ao asfalto, olhei para os dois lados. Não havia placas indicando qual direção seguir, e eu nunca tinha ido além daquela região. O mais longe que costumava ir eram as ca
Natalie Minha mãe ficou alguns segundos em silêncio, me encarando como se estivesse tentando decidir o que fazer. Então veio até mim, seguroumeu braço e me puxou para fora.— Anda — ordenou, me arrastando e fazendo-me tropeçar. — Mãe, calma. Me deixa explicar... — tentei acompanhar seus passos, mas ela não diminuiu o ritmo.— Cala a boca. —respondeu seca, apertando ainda mais meu braço.Ela me levou para dentro de casa, fechou a porta atrás de nós e me empurrou em direção ao corredor. Bati as costas contra a parede e perdi o ar com o impacto. Mal tive tempo de recuperar o fôlego antes que ela me desse um tapa no rosto.— Você perdeu a cabeça? — gritou, com a voz carregada de raiva. — Depois de tudo que ele fez, é assim que você retribui? — Eu só me defendi. — respondi, sentindo a voz falhar enquanto minhas mãos ainda tremiam.— Você é uma filha ingrata! Ela veio para cima de mim antes que eu pudesse recuar. Puxou meu cabelo e começou a me bater com socos e chutes. Tentei me pr







