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Capítulo 2

Auteur: Luna Valença
Cecília encarou Henrique e, pela primeira vez, achou tudo aquilo quase absurdo.

Como nunca havia percebido antes?

Sempre que o assunto era Isadora, ele ficava assim, tenso, impaciente, pronto para defendê-la antes mesmo de ouvir qualquer explicação.

Com nenhum outro amigo reagia daquela forma.

— Sim. Fui eu que chamei a polícia.

Assim que ouviu a resposta, Henrique endureceu o rosto e segurou o pulso dela com força.

— Só porque ela não me deixou voltar para casa, você resolveu acusá-la de tentativa de homicídio?

Os dedos dele apertaram tanto que Cecília sentiu os ossos reclamarem.

Ela fez uma careta de dor, mas não tentou se soltar de imediato.

— Isto aqui é um hospital. Eu estou internada. Você entrou por aquela porta e, até agora, só falou da Isadora. Nem perguntou como eu estou.

Foi como se Henrique só então reparasse no pijama hospitalar que ela vestia.

— Você só teve uma ameaça de aborto. Não é como se fosse algo tão grave assim. Hoje em dia, a medicina está tão avançada que sempre existe alguma forma de salvar o bebê. Mas com a Isa é diferente. Como você pôde deixar ela presa num lugar daqueles? Ela...

Cecília não ouviu o resto.

Levantou a mão e deu um tapa no rosto dele.

A frase morreu na boca de Henrique.

O rosto dele virou com o impacto, e por alguns segundos ele apenas ficou parado, incrédulo.

Depois voltou a encará-la.

— Você me bateu?

Cecília arrancou o pulso da mão dele.

Sua voz saiu calma demais.

— Henrique, eu quero o divórcio.

Ele ficou imóvel por um instante.

Então riu.

O desprezo estampado em seu rosto não fazia a menor questão de se esconder.

— Divórcio? Cecília, você me ama tanto. Vai mesmo ter coragem de se divorciar de mim?

Henrique se inclinou um pouco na direção dela, ainda com aquele sorriso frio.

— Não esquece que foi você quem armou tudo para conseguir se casar comigo.

Um sorriso amargo surgiu nos lábios de Cecília.

Ela estava prestes a responder quando outra voz entrou no quarto antes dela.

— Pois é, Cecília. Você gosta tanto do Rique... Se ele realmente se divorciar de você, no fim ainda vai acabar se humilhando para pedir que ele volte. Para que fazer isso?

Cecília virou o rosto.

Isadora.

No instante em que a viu, todo o corpo de Cecília se retesou.

Ela ergueu a mão trêmula e apontou para a mulher.

— Como é que ela está aqui?

Henrique endireitou-se e ajeitou a roupa com toda a naturalidade do mundo.

— Eu paguei a fiança dela.

Cecília ficou imóvel.

Por um segundo, acreditou ter ouvido errado.

— Você... Pagou a fiança dela?

— Aquele lugar é um inferno. A Isa cresceu cercada de conforto. Como você acha que ela poderia ficar presa lá?

Uma náusea violenta subiu pelo peito de Cecília.

Um gosto metálico tomou sua boca.

Isadora baixou os olhos, assumindo uma expressão de falsa culpa.

— Cecília, me desculpa. Eu sei que errei quando desliguei sua ligação sem pedir. Mas aquele óleo perto da escada da sua casa não fui eu que derramei.

Cecília arrancou o cobertor de cima do corpo e se levantou.

A raiva rompeu de uma vez tudo o que ela ainda tentava conter.

Agarrou a camisa de Henrique e começou a golpear seu peito.

— Como você pôde tirar ela de lá? Ela quase me matou! Matou o nosso filho...

Henrique segurou as mãos dela.

Antes que conseguisse dizer qualquer coisa, Isadora avançou.

Empurrou Cecília com força.

— O que você pensa que está fazendo? Eu já pedi desculpas e você continua com esse drama! Não é porque o Rique gosta de você que pode abusar da situação!

Assim que terminou, virou-se para Henrique e passou a examiná-lo de cima a baixo.

— Você está bem? Sério, Cecília... Como você consegue bater nele desse jeito?

Henrique balançou a cabeça.

— Estou bem.

Isadora soltou uma risada de desprezo.

— Eu já tinha te avisado. Mulher assim só dá problema. É choro, escândalo e ameaça o tempo todo! Eu tentei te convencer de todo jeito naquela época, mas você insistiu em se casar. Está arrependido agora, não está?

Empurrada contra a cama, Cecília bateu o baixo-ventre com força na quina.

Uma dor aguda explodiu dentro dela.

— Ai...

Henrique se virou imediatamente.

Afastou Isadora e se aproximou da cama.

— O que aconteceu?

Cecília agarrou a mão dele.

O suor já cobria seu rosto.

— Minha barriga está doendo muito... Chama o médico. Rápido!

— Aguenta só um pouco. Eu vou chamar agora.

Dessa vez, Henrique pareceu perceber que havia algo errado de verdade.

Estendeu a mão para o botão de chamada ao lado da cama.

Isadora segurou seu braço.

— Rique, você esqueceu? Ela é especialista em se fazer de frágil para arrancar sua pena. Não lembra por que você acabou se casando com ela?

A mão de Henrique parou no ar.

As palavras atingiram exatamente onde Isadora queria.

Durante aqueles três anos, sempre que ele se aproximava um pouco mais de Isadora, Cecília chorava, discutia e ameaçava fazer alguma loucura.

E havia também o que acontecera três anos antes.

Henrique bebera demais em um compromisso de trabalho e sofrera uma crise de gastrite. No meio da madrugada, sob uma chuva forte, Cecília saíra para comprar remédio para ele.

Henrique melhorara.

Cecília, por outro lado, acabara com febre alta.

Comovido com o que ela fizera, ele a pedira em casamento.

Mais tarde, porém, Isadora dissera que Cecília poderia simplesmente ter pedido o remédio por delivery, em vez de sair de casa no meio da madrugada.

Foi então que Henrique começou a acreditar que tudo não passara de uma encenação para comovê-lo.

Quantas vezes já teria caído nas armadilhas de Cecília?

Como podia estar quase se deixando enganar outra vez?

Ele recolheu a mão.

— A Isa tem razão. Cecília, para de fingir. Quando você repete a mesma encenação vezes demais, ela deixa de funcionar.

O rosto de Cecília estava completamente branco.

Então ela sentiu algo quente escorrer pela parte interna das coxas.

— Eu... Eu não estou fingindo. Está doendo de verdade!

Reunindo o pouco de força que ainda tinha, tentou alcançar o botão de chamada.

Seus dedos chegaram a tocar o plástico vermelho.

Mas sua mão caiu antes que conseguisse apertá-lo.

A dor no baixo-ventre só piorava.

Cecília se encolheu na cama, tentando proteger a barriga, como se aquela posição pudesse aliviar minimamente o sofrimento.

Henrique permaneceu olhando para ela.

Por um instante, hesitou.

Aquilo não parecia fingimento.

Ela realmente parecia estar sentindo muita dor.

Isadora, porém, percebeu antes dele a mancha de sangue que começava a se espalhar pela roupa de Cecília.

E agiu imediatamente.

Puxou Henrique para o lado, posicionando-o de costas para a cama.

— Rique, vamos embora. É melhor deixar a Cecília sozinha para esfriar a cabeça.

Henrique assentiu.

Sem sequer olhar novamente para Cecília, disse:

— A Isa jurou para mim que não foi ela quem derramou aquele óleo na escada. Foi só um acidente. Já passou. E, como você está bem, para de insistir nisso. Fica aqui no hospital e se recupera. Quando eu tiver tempo, volto para te ver.

Isadora observou a mancha de sangue se espalhar cada vez mais pela roupa de Cecília. Por um instante, não conseguiu esconder a satisfação, mas logo disfarçou.

— Cecília, de mulher para mulher, você podia ser um pouco mais desapegada, como eu. Para de viver em função de homem. O Rique acaba ficando de saco cheio desse jeito. Se você saísse mais, conhecesse outros lugares, ia perceber que existe muita coisa na vida além de ficar correndo atrás de homem.

Dizendo isso, puxou Henrique para fora do quarto.

Cecília ficou olhando para os dois se afastarem.

As lágrimas que até então pareciam presas dentro dela finalmente começaram a cair.

Mais uma vez, Henrique a abandonava por causa de Isadora.

Se Isadora dizia alguma coisa, ele acreditava.

Se Cecília dizia exatamente a mesma coisa, ele enxergava manipulação.

A porta do quarto se abriu.

Valentina entrou carregando uma marmita.

Bastou um olhar para Cecília encolhida na cama e para o sangue espalhado sobre os lençóis.

Seu rosto perdeu a cor.

A marmita escapou de suas mãos e caiu no chão.

— Ceci!

Valentina correu até a cama e apertou desesperadamente o botão de chamada.

— Médico! Médico!

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