Mag-log in— Negócio fechado, Gabriel — a voz de Helena saiu quase em um sussurro, mas carregada de uma determinação implacável.
O toque do polegar dele em seu lábio inferior fazia seu sangue pulsar mais rápido, uma sensação avassaladora que ela nunca experimentara em cinco anos de um noivado asséptico com Caio. A eletricidade no ar era tão densa que parecia prestes a faiscar.
Gabriel não desviou o olhar por um segundo sequer. Lentamente, sua mão desceu do queixo dela, roçando a pele quente do pescoço de Helena antes de se afastar com uma relutância calculada. Ele pegou o celular corporativo no painel e discou um número direto.
— Dr. Alencar? É o Gabriel Valente. Preciso do senhor e da equipe do cartório apostos na entrada privativa em dois minutos. A documentação já está no sistema. Sim, agora.
Ele desligou sem esperar resposta, demonstrando a autoridade natural de quem estava acostumado a mover montanhas com uma única frase. Virou-se para Helena, os olhos escuros brilhando na penumbra do carro.
— Vamos. Seu tempo de espera terminou.
Dez minutos depois, o cenário não poderia ser mais diferente da sala de espera fria e impessoal onde Helena passara as últimas quatro horas. Eles estavam em uma sala de conferências privativa no andar superior do cartório, longe dos olhares curiosos. As luzes amareladas e os móveis de madeira de lei conferiam ao ambiente uma aura solene e quase secreta.
O juiz de paz, um homem de meia-idade que devia favores demais ao setor jurídico da Holding Valente para fazer perguntas inconvenientes, ajustou os óculos e olhou para os dois. De um lado, Gabriel, impecável em seu terno escuro, a postura ereta e dominante. Do outro, Helena, em seu vestido branco simples, cuja doçura aparente agora contrastava terrivelmente com a frieza afiada de seu olhar.
— Senhor Gabriel Valente e Senhorita Helena Rossi... estamos aqui para solemnizar a união civil de vocês — declarou o juiz, a voz ecoando suavemente na sala espaçosa.
Enquanto as palavras formais do rito matrimonial eram proferidas, a mente de Helena trabalhava a mil por hora. Ela conseguia ver perfeitamente os passos do xadrez que acabara de iniciar.
Beatriz achava que tinha vencido. A imagem de Caio segurando a mão da manipuladora no hospital ainda estava fresca na memória de Helena, mas a dor havia sumido, substituída por um desprezo gelado. Beatriz queria o status, queria o sobrenome Valente, e usara todas as armas sujas para minar Helena, criando mentiras, plantando boatos e manipulando a imaturidade de Caio. Mas a idiota não sabia que, ao afastar Caio daquele cartório, ela havia empurrado Helena direto para os braços do verdadeiro poder da família.
— Pelo poder a mim investido, eu os declaro casados — finalizou o juiz. — Podem assinar a certidão.
Gabriel pegou a caneta tática de metal pesado e assinou com uma caligrafia firme e elegante. Em seguida, passou o instrumento para Helena. A mão dela não tremeu. Com traços precisos, assinou seu nome ao lado do dele, selando o pacto que mudaria o rumo de todas as suas vidas.
— Podem trocar as alianças... se as tiverem — o juiz disse, ligeiramente vacilante por saber da estranheza da situação.
Gabriel tirou do bolso interno do paletó uma pequena caixa de veludo negro. Quando a abriu, Helena prendeu a respiração. Não era uma aliança comum. Era um anel de platina com um diamante negro cravado no centro, discreto, magnífico e perigosamente elegante.
— Como você... — ela começou, chocada.
— Eu não deixo nada ao acaso, Helena — Gabriel interrompeu em voz baixa. Ele pegou a mão esquerda dela. A pele dele estava quente contra a sua. Deslizou o anel pelo anular dela com uma lentidão deliberada. — Essa aliança representa o que você realmente é para mim. Nada de fachadas doces. Apenas a verdade.
O peso do metal em seu dedo parecia uma promessa e um aviso. Helena olhou para a joia, o diamante negro reluzindo sob a luz da sala.
— O beijo é opcional na cerimônia civil, mas... — o juiz começou a dizer, limpando a garganta.
Gabriel nem esperou o homem terminar. Ele segurou Helena pela cintura, puxando-a contra o seu corpo rígido com uma força possessiva que fez o peito dela arfar. A proximidade repentina fez o perfume amadeirado dele invadir todos os sentidos de Helena.
— Dois meses em segredo para o mundo — Gabriel murmurou contra os lábios dela, a voz em uma frequência tão grave que fez todo o corpo de Helena estremecer. — Mas aqui e agora, você é minha mulher.
Quando os lábios dele tocaram os seus, não foi um beijo suave ou de cortesia. Foi um domínio absoluto. Gabriel a tomou com uma fome reprimida por anos, a língua pedindo passagem com uma audácia que fez os joelhos de Helena fraquejarem. A mão dele subiu pelas costas dela, apertando sua cintura, enquanto a outra se cravava em sua nuca, mantendo-a presa ao toque dele.
Helena soltou um suspiro abafado contra a boca dele, rendendo-se por um segundo àquela onda avassaladora de calor e desejo puro. Não havia nada de calmo ou seguro em Gabriel. Ele era um incêndio, um homem perigoso que a desejava com uma intensidade que a assustava e a fascinava na mesma proporção.
Quando ele finalmente a libertou, ambos estavam com a respiração descompassada. Os olhos escuros de Gabriel queimavam, e os lábios de Helena estavam avermelhados e levemente inchados.
— Assinado e selado — disse ele, a voz rouca, ajeitando o paletó enquanto o juiz fingia checar papéis para não encarar a cena.
Eles saíram do cartório pela porta dos fundos. A chuva havia diminuído para uma garoa fina. O motorista de Gabriel já os aguardava com a porta do SUV aberta.
Assim que se acomodaram no banco traseiro, isolados pela divisória de vidro fumê, o celular de Helena vibrou na bolsa.
Ela pegou o aparelho. O nome de Caio piscava na tela.
Helena olhou para a chamada por três segundos completos. Gabriel ao seu lado permaneceu em silêncio, apenas observando a reação dela com o olhar atento de um predador.
Ela deslizou a tela e atendeu, colocando no viva-voz.
— Helena! Meu Deus, me desculpa! — a voz de Caio veio desesperada, cheia de ruídos de fundo do hospital. — Aconteceu um imprevisto terrível! A Beatriz se cortou feio, estava sangrando muito, entrou em pânico e eu tive que correr com ela pro pronto-socorro! Eu esqueci completamente do horário, meu celular tinha descarregado e eu só consegui um carregador agora! Você ainda está no cartório? Aonde você vai? Me fala que eu tô indo te buscar!
A infantilidade e o egoísmo de Caio soaram quase cômicos para Helena naquele momento. Ele falava como se um atraso de quatro horas no dia do próprio casamento fosse um pequeno deslize justificável.
Helena olhou para Gabriel. Ele estava encostado no banco de couro, os braços cruzados, um sorriso sombrio e desdenhoso nos lábios.
Com a voz mais fria e serena que já usara na vida, Helena respondeu:
— Não precisa vir me buscar, Caio. Eu já saí do cartório.
— Como assim? Amor, me espera! A gente pode remarcar com o juiz, eu explico a situação! A Beatriz quase perdeu o pé, Helena! Você tem que entender!
Helena soltou uma risada baixa, uma risada que fez o próprio Caio se calar do outro lado da linha, estranhando o tom da noiva.
— A Beatriz não quase perdeu o pé, Caio. Ela postou uma foto com você segurando a mão dela há uma hora. O pé dela está apenas enfaixado — disse Helena, com uma precisão cirúrgica. — E você não precisa se dar ao trabalho de remarcar nada. Nós terminamos.
— O quê?! Helena, você enlouqueceu por causa de um ciúme bobo?! — Caio alterou o tom, indignado. — A Beatriz é minha amiga de infância! Você sabe o quanto ela é frágil! Você tá sendo egoísta!
— Não é ciúme, Caio. É alívio — Helena declarou, mantendo a voz pausada. — Você provou hoje exatamente onde estão as suas prioridades. E eu cansei de ser a sua segunda opção. Não me ligue mais. Não vá ao meu apartamento. Se tiver algo meu na sua casa, mande entregar por um estafeta. Acabou.
— Helena, espera! Você não pode fazer isso comigo depois de tudo o que eu fiz por você! Eu te salvei, porra! Você me deve isso!
A palavra "dívida" ecoou no carro. Helena sentiu o ar ao seu redor congelar. Gabriel se mexeu ao seu lado, o maxilar trancado de raiva ao ouvir a chantagem emocional do irmão.
Helena respirou fundo e deu a resposta final:
— A minha dívida com você, Caio... acaba de ser quitada. Adeus.
Ela desligou na cara dele e bloqueou o número imediatamente.
O silêncio voltou a imperar no SUV. Helena encostou a cabeça no banco, soltando um longo suspiro. Uma sensação estranha de liberdade começou a se espalhar por suas veias. O peso de cinco anos parecia ter sido tirado de seus ombros.
— 'Você me deve isso' — Gabriel repetiu a frase do irmão, a voz carregada de um veneno mortífero. — Ele realmente usou isso contra você até o último segundo.
— Ele usava sempre que eu tentava impor limites — Helena admitiu, olhando pela janela as luzes da cidade borradas pela chuva. — Ele me fazia sentir como se eu nunca pudesse reclamar de nada, porque ele foi o 'herói' que me tirou daquele inferno anos atrás.
Gabriel virou o rosto para ela. No fundo dos olhos dele, havia um segredo denso, algo que queimava para sair, mas que ele sabia que ainda não era o momento de revelar. Ele sabia exatamente o que tinha acontecido naquela noite cinco anos atrás. Sabia quem realmente tinha movido as peças para salvá-la... e não tinha sido Caio. O irmão apenas levara os créditos de algo que não fez.
Mas Gabriel guardaria essa carta na manga. Primeiro, Helena precisava se reerguer por conta própria.
— O Caio não é herói de ninguém, Helena. Ele é apenas um garoto mimado que se esconde atrás de fachadas — disse Gabriel, pegando a mão esquerda dela e entrelaçando seus dedos nos dela, fazendo o diamante negro brilhar. — A partir de hoje, ninguém mais vai usar o seu passado contra você.
— A Beatriz vai tentar usar a imprensa — Helena alertou, voltando ao seu modo analítico. — Assim que o Caio contar a ela que terminamos, ela vai espalhar para os colunistas sociais que eu sou uma louca insensível que abandonou o noivo porque ele estava ajudando uma amiga no hospital. Ela vai tentar arruinar o meu nome na elite.
Gabriel deu um sorriso frio, o sorriso do homem que dominava o mercado financeiro do país.
— Deixe que ela tente. Ela não sabe com quem está lidando. E você... o que pretende fazer primeiro?
Helena se virou para ele, os olhos brilhando com uma perigosidade que poucas pessoas no mundo conheciam. A garota tímida e submissa que aceitava os insultos nos jantares de família havia morrido de vez.
— Eu tenho um arquivo criptografado no meu servidor pessoal — Helena começou a explicar, a voz aveludada e calma. — São provas de que a empresa do pai da Beatriz está desviando fundos da filial que o Caio acabou de assumir. A Beatriz não é só amiga dele; ela está usando o Caio para encobrir as fraudes da família dela. E o Caio, na sua ingenuidade cega, assinou papéis que podem levá-lo à prisão.
Gabriel levantou uma sobrancelha, genuinamente impressionado. Ele sabia que Helena era esperta, mas ter acesso a dados financeiros confidenciais de uma fraude corporativa era algo de nível profissional.
— Você tinha isso o tempo todo e nunca usou? — perguntou ele.
— Eu estava esperando o momento certo — ela respondeu, com um toque de sadismo elegante. — Eu ia usar isso para salvar o Caio da Beatriz depois que nos casássemos. Mas agora? Agora eu vou usar isso para destruir a reputação da Beatriz e ensinar ao seu irmão o custo de ser um idiota.
Gabriel olhou para ela com uma admiração ardente. Ele puxou a mão dela até os lábios, beijando os nós dos seus dedos com uma lentidão sensual.
— Deus... você é absolutamente fascinante, minha esposa — murmurou ele, os olhos cravados nos dela. — Para onde quer ir agora? Para o seu apartamento pegar suas coisas?
— Não — Helena sorriu, sustentando o olhar dele. — O meu apartamento é o primeiro lugar onde o Caio vai me procurar para fazer escândalo. Quero que ele dê com a cara na porta.
— Então você vem para a minha cobertura — declarou Gabriel, o tom de voz não deixando espaço para discussões. — Onde você estará em segurança, sob a minha proteção... e na minha cama.
Helena sentiu um calafrio percorrer sua espinha. O pacto estava selado, o jogo de xadrez havia começado, e ela acabara de se entregar ao homem mais perigoso do império Valente.
— Aí eu aviso a Mariana. Ela decide se interrompe.Gabriel assentiu.Era assim agora. Ninguém decidia sozinho, mas ninguém decidia por todos.Era mais lento.E, pela primeira vez, parecia mais seguro.O prédio da Superintendência da Polícia Federal ficava numa avenida larga, com calçadas cinzentas e poucas árvores. Gabriel desceu do carro com Mariana às duas e cinquenta. Não olhou para trás.Helena ficou observando até ele atravessar a porta de vidro.Isadora estacionou o carro numa rua lateral, de onde se via a entrada principal e parte da fachada. Abriu o notebook isolado no colo e conectou o painel de rastreamento.O mapa da cidade estava quieto.Dois pontos antigos permaneciam marcados: o da casa do lago e o da sede da Holding.Nada novo.— Quanto tempo dura um depoimento assim? — perguntou Helena.
Helena fechou os olhos por um instante.— Isso foi imprudente.— Foi verdade. — Uma pausa. — E foi a única coisa que eu disse naquela sala que ninguém tinha escrito para mim.Ela não conseguiu responder.Do outro lado, Gabriel acrescentou:— O fragmento aberto às oito e cinquenta e dois. Conseguimos saber de que aparelho?— Não. Só do andar.— Otávio chegou às oito e quarenta. Foi o primeiro.— Isso não prova nada.— Eu sei. — A voz dele endureceu um pouco. — Só estou contando o que vi. Você me ensinou a separar.Helena apertou o telefone.— Ensinei?— Hoje de manhã. Na mesa da cozinha. Quando disse que acreditava em uma parte e não conseguia perdoar a outra. — Gabriel ficou em silêncio por um segundo. — Eu nunca tinh
Helena abriu o arquivo.O texto era quase igual ao que Mariana encontrara de madrugada. Havia a cláusula de impedimento prolongado, a substituição temporária e o nome dela como representante designada.Mas havia também um parágrafo novo, logo abaixo.Na hipótese de recusa expressa do representante designado, o exercício dos votos do bloco caberá ao conselheiro mais antigo em exercício, até a cessação do impedimento.Helena parou de respirar por um segundo.— Isadora.A perita se aproximou e leu.— Isso não estava aqui.— Não.— Tem certeza?Helena já abria a cópia preservada às seis e vinte, a versão que Mariana baixara do servidor externo, registrara e lacrara diante das duas.Colocou os documentos lado a lado.A cláusula de impe
Nenhum arquivo apagado.Só nomes, horários e pedidos que agora precisariam receber respostas.Na sala, Isadora continuava trabalhando sobre a cópia preservada.Helena se aproximou quando a perita a chamou.— Encontrei uma referência ao vazamento Rossi.Gabriel veio atrás.O documento não continha uma previsão vaga de que o pai de Beatriz cairia.Trazia uma lista de riscos.No fim, havia uma observação:Caso a operadora preserve o beneficiário secundário, manter acesso às fontes anteriores à intervenção.Helena leu outra vez.O beneficiário secundário.Caio.Eles haviam considerado a possibilidade de que ela mexesse nos registros para protegê-lo.Não significava que a tivessem obrigado.A decisão fora dela.E alguém
Helena percorreu os anexos.Havia um parecer. O mesmo número de referência que Mariana encontrara no pacote societário.Chamou a advogada.As duas compararam os documentos com a correspondência recebida por Gabriel e preservada na conta externa de seu advogado antigo.O parecer fora encaminhado dias depois do casamento.Junto dele, uma solicitação:Revisão emergencial do protocolo de representação. Adequar à nova configuração familiar.Helena leu em silêncio.Depois voltou ao documento do arquivo.— Ele não precisou prever o casamento — disse. — Precisou encontrar uma forma de usá-lo depois.Gabriel apoiou a mão no encosto da cadeira.— E ontem fez parecer que estava tudo planejado desde o começo.— Porque queria que a gente olhasse para trá
Isadora chegou pouco depois das cinco, acompanhada por uma advogada de cabelos curtos e uma pasta de couro sem nenhuma identificação de escritório.Apresentou-a como Mariana Duarte.— Ela nunca trabalhou para a Holding, para os fundos ou para sua família — disse a perita.Mariana cumprimentou os dois e foi direta:— Antes de qualquer coisa, preciso saber o que Mirante disse exatamente. Não o que vocês entenderam. As palavras.Helena repetiu a ligação enquanto Gabriel anotava os horários de que se lembrava.A advogada ouviu sem interromper.Quando Helena terminou, Mariana abriu a pasta.— Há duas coisas que precisamos separar. Uma é o que ele pode fazer contra Gabriel. Outra é o que ele quer que vocês acreditem que acontecerá depois.— A sucessão — disse Helena.— Sim. Receber uma intimação não transfere o controle de uma empresa para a esposa de ninguém. E afastamento da administração, herança e direito de voto são assuntos diferentes.Gabriel soltou o ar lentamente.Era a primeira fr







