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TRES

Author: BRUNA
last update publish date: 2026-08-24 03:55:12

Gabriel quebrou o contato visual abruptamente, desviando o olhar para a chuva que escorria pelo para-brisa. Com um movimento calmo e decidido, ele ligou o motor do SUV, o ronco grave do carro preenchendo a cabine.

— Vamos nos casar agora — disse ele, a voz tão firme e casual como se estivesse apenas marcando uma reunião de negócios.

Helena congelou. O ar pareceu faltar por um segundo. Ela ficou encarando o perfil esculpido de Gabriel, esperando que a expressão dele se contorcesse num sorriso sarcástico ou que ele revelasse que tudo aquilo não passava de uma piada de mau gosto.

Mas Gabriel não piscou. Ele engatou a marcha e acelerou devagar, saindo do meio-fio.

— Casar? Agora? — Helena soltou uma risada curta e sem humor, a incredulidade estampada em seu rosto. — Você enlouqueceu de vez, Gabriel? Eu acabei de levar um bolo do seu irmão na porta do cartório. Minha cabeça está pegando fogo, e você simplesmente decide que vamos trocar de noivo como quem troca de terno?

— Não é uma piada, Helena. E eu nunca estive tão lúcido — Gabriel respondeu, sem tirar os olhos da rua. Ele segurava o volante com uma mão só, a postura ereta, exalando aquela autoridade absoluta que fazia juízes e empresários dobrarem os joelhos no mundo corporativo. — Você passou meses organizando a papelada e a documentação do casamento. O juiz de paz que você contratou para hoje é um antigo conhecido do meu setor jurídico. Ele ainda está no prédio ou a uma ligação de distância.

Ele fez uma pausa rápida, virando o rosto por um segundo para cravar aqueles olhos escuros e intensos nela.

— Caio achou que podia te deixar esperando por quatro horas enquanto brincava de herói com a Beatriz. Mas se você sair daquele cartório hoje casada com o verdadeiro dono da Holding Valente, o jogo muda completamente. O status do meu irmão, a posição da Beatriz, a narrativa que eles tentam criar... tudo rui em questão de segundos.

Helena sentiu o peito arfar. A ideia era insana, impulsiva e perigosa. Mas, ao mesmo tempo, uma onda de adrenalina pura percorreu suas veias. Casar-se com Gabriel significava declarar guerra aberta à família Valente, romper os laços da sua suposta dívida com Caio e entrar de cabeça em uma dança sensual e arriscada com o homem mais poderoso — e misterioso — que ela já conhecera.

— Você quer usar o meu casamento como uma jogada de mestre? — ela perguntou, a voz abaixando um tom, a garota estratégica dentro dela começando a avaliar o terreno.

— Eu quero te dar o meu sobrenome e o meu poder — Gabriel corrigiu, a voz descendo para uma frequência grave e aveludada que fez os pelos dos braços de Helena se arrepiarem. — E, em troca, quero a única mulher que realmente tem capacidade de estar ao meu lado no topo. Você aceita o pacto, Helena? Ou vai voltar para o seu apartamento chora pelo Caio?

Helena encarou as próprias mãos repousadas no colo, processando cada palavra de Gabriel. A proposta era audaciosa, perigosa e extremamente atraente. Mas ela não daria um passo em falso. Por mais que o desejo de virar o jogo estivesse queimando em seu peito, ela sabia exatamente como o mundo corporativo e a mídia da alta sociedade funcionavam.

Beatriz passara os últimos anos construindo uma narrativa venenosa sobre ela. Cada mentira contada entre sussurros nos chás de caridade e festas da elite transformara Helena aos olhos dos outros em uma mulher fria, aproveitadora e manipuladora, enquanto Beatriz se fazia de anjo injustiçado. E Helena, amarrada pelo peso da gratidão a Caio, aceitara tudo calada.

Se ela aparecesse casada com Gabriel no dia seguinte, a imprensa e a sociedade cairiam sobre ela como abutres, transformando-a na vilã que "roubou" o irmão do noivo. Ela não se importava mais com o que pensavam de sua reputação — a verdadeira Helena não dependia da aprovação daquela gente superficial —, mas sabia que uma jogada inteligente exigia o momento certo de atacar.

Ela virou o rosto para Gabriel, os olhos brilhando com uma frieza estratégica.

— Tudo bem. Nós nos casamos hoje — começou ela, a voz baixa, firme e ritmada. — Mas sob uma condição inegociável, Gabriel.

Gabriel não desviou os olhos da pista, mas a inclinação leve de sua cabeça mostrou que ele estava atento a cada sílaba.

— Fale — ordenou ele, a voz grave cortando o silêncio do carro.

— O nosso casamento fica sob sigilo absoluto por dois meses — declarou Helena, inclinando-se ligeiramente na direção dele. — Eu vou terminar oficialmente com o Caio. Sem escândalos, sem choro, apenas um fim definitivo. Quero esses dois meses para desmantelar a teia que a Beatriz construiu ao meu redor. Ela acha que me destruiu hoje? Ótimo. Deixe que ela e o Caio comemorem o triunfo. Quando a poeira baixar e a podridão daquela garota vier à tona por minhas próprias mãos, nós revelamos ao mundo que o CEO da Holding Valente é meu marido.

Um silêncio denso tomou conta do veículo. Por um segundo, a única coisa audível era o som suave dos limpadores de para-brisa.

Gabriel encostou o carro no meio-fio a poucos metros da entrada lateral do cartório. Ele desligou o motor e se virou lentamente para ela. No escuro do veículo, o olhar dele era uma mistura ardente de admiração e desejo contido. A inteligência afiada de Helena, escondida por tanto tempo sob uma máscara de passividade, era exatamente o que o atraía de forma tão avassaladora.

Ele se aproximou, estendendo a mão para segurar o queixo dela com a ponta dos dedos. O toque, firme e quente, fez um choque elétrico percorrer o corpo de Helena. Depois de cinco anos de seca e distância com Caio, aquele mero contato físico com Gabriel fez seu coração disparar e sua respiração falhar.

— Dois meses em segredo — murmurou Gabriel, o polegar roçando suavemente o lábio inferior dela, num gesto carregado de uma sensualidade sufocante. — Mas dentro da minha casa, entre quatro paredes, você é minha esposa. Sem fingimentos, Helena. Nem para o mundo, nem para mim.

Helena sentiu um calor arrebatador subir por sua pele. Sustentando o olhar queimante dele, ela deu um sorriso lento, calculista e incrivelmente atraente.

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