FAZER LOGINGabriel quebrou o contato visual abruptamente, desviando o olhar para a chuva que escorria pelo para-brisa. Com um movimento calmo e decidido, ele ligou o motor do SUV, o ronco grave do carro preenchendo a cabine.
— Vamos nos casar agora — disse ele, a voz tão firme e casual como se estivesse apenas marcando uma reunião de negócios.
Helena congelou. O ar pareceu faltar por um segundo. Ela ficou encarando o perfil esculpido de Gabriel, esperando que a expressão dele se contorcesse num sorriso sarcástico ou que ele revelasse que tudo aquilo não passava de uma piada de mau gosto.
Mas Gabriel não piscou. Ele engatou a marcha e acelerou devagar, saindo do meio-fio.
— Casar? Agora? — Helena soltou uma risada curta e sem humor, a incredulidade estampada em seu rosto. — Você enlouqueceu de vez, Gabriel? Eu acabei de levar um bolo do seu irmão na porta do cartório. Minha cabeça está pegando fogo, e você simplesmente decide que vamos trocar de noivo como quem troca de terno?
— Não é uma piada, Helena. E eu nunca estive tão lúcido — Gabriel respondeu, sem tirar os olhos da rua. Ele segurava o volante com uma mão só, a postura ereta, exalando aquela autoridade absoluta que fazia juízes e empresários dobrarem os joelhos no mundo corporativo. — Você passou meses organizando a papelada e a documentação do casamento. O juiz de paz que você contratou para hoje é um antigo conhecido do meu setor jurídico. Ele ainda está no prédio ou a uma ligação de distância.
Ele fez uma pausa rápida, virando o rosto por um segundo para cravar aqueles olhos escuros e intensos nela.
— Caio achou que podia te deixar esperando por quatro horas enquanto brincava de herói com a Beatriz. Mas se você sair daquele cartório hoje casada com o verdadeiro dono da Holding Valente, o jogo muda completamente. O status do meu irmão, a posição da Beatriz, a narrativa que eles tentam criar... tudo rui em questão de segundos.
Helena sentiu o peito arfar. A ideia era insana, impulsiva e perigosa. Mas, ao mesmo tempo, uma onda de adrenalina pura percorreu suas veias. Casar-se com Gabriel significava declarar guerra aberta à família Valente, romper os laços da sua suposta dívida com Caio e entrar de cabeça em uma dança sensual e arriscada com o homem mais poderoso — e misterioso — que ela já conhecera.
— Você quer usar o meu casamento como uma jogada de mestre? — ela perguntou, a voz abaixando um tom, a garota estratégica dentro dela começando a avaliar o terreno.
— Eu quero te dar o meu sobrenome e o meu poder — Gabriel corrigiu, a voz descendo para uma frequência grave e aveludada que fez os pelos dos braços de Helena se arrepiarem. — E, em troca, quero a única mulher que realmente tem capacidade de estar ao meu lado no topo. Você aceita o pacto, Helena? Ou vai voltar para o seu apartamento chora pelo Caio?
Helena encarou as próprias mãos repousadas no colo, processando cada palavra de Gabriel. A proposta era audaciosa, perigosa e extremamente atraente. Mas ela não daria um passo em falso. Por mais que o desejo de virar o jogo estivesse queimando em seu peito, ela sabia exatamente como o mundo corporativo e a mídia da alta sociedade funcionavam.
Beatriz passara os últimos anos construindo uma narrativa venenosa sobre ela. Cada mentira contada entre sussurros nos chás de caridade e festas da elite transformara Helena aos olhos dos outros em uma mulher fria, aproveitadora e manipuladora, enquanto Beatriz se fazia de anjo injustiçado. E Helena, amarrada pelo peso da gratidão a Caio, aceitara tudo calada.
Se ela aparecesse casada com Gabriel no dia seguinte, a imprensa e a sociedade cairiam sobre ela como abutres, transformando-a na vilã que "roubou" o irmão do noivo. Ela não se importava mais com o que pensavam de sua reputação — a verdadeira Helena não dependia da aprovação daquela gente superficial —, mas sabia que uma jogada inteligente exigia o momento certo de atacar.
Ela virou o rosto para Gabriel, os olhos brilhando com uma frieza estratégica.
— Tudo bem. Nós nos casamos hoje — começou ela, a voz baixa, firme e ritmada. — Mas sob uma condição inegociável, Gabriel.
Gabriel não desviou os olhos da pista, mas a inclinação leve de sua cabeça mostrou que ele estava atento a cada sílaba.
— Fale — ordenou ele, a voz grave cortando o silêncio do carro.
— O nosso casamento fica sob sigilo absoluto por dois meses — declarou Helena, inclinando-se ligeiramente na direção dele. — Eu vou terminar oficialmente com o Caio. Sem escândalos, sem choro, apenas um fim definitivo. Quero esses dois meses para desmantelar a teia que a Beatriz construiu ao meu redor. Ela acha que me destruiu hoje? Ótimo. Deixe que ela e o Caio comemorem o triunfo. Quando a poeira baixar e a podridão daquela garota vier à tona por minhas próprias mãos, nós revelamos ao mundo que o CEO da Holding Valente é meu marido.
Um silêncio denso tomou conta do veículo. Por um segundo, a única coisa audível era o som suave dos limpadores de para-brisa.
Gabriel encostou o carro no meio-fio a poucos metros da entrada lateral do cartório. Ele desligou o motor e se virou lentamente para ela. No escuro do veículo, o olhar dele era uma mistura ardente de admiração e desejo contido. A inteligência afiada de Helena, escondida por tanto tempo sob uma máscara de passividade, era exatamente o que o atraía de forma tão avassaladora.
Ele se aproximou, estendendo a mão para segurar o queixo dela com a ponta dos dedos. O toque, firme e quente, fez um choque elétrico percorrer o corpo de Helena. Depois de cinco anos de seca e distância com Caio, aquele mero contato físico com Gabriel fez seu coração disparar e sua respiração falhar.
— Dois meses em segredo — murmurou Gabriel, o polegar roçando suavemente o lábio inferior dela, num gesto carregado de uma sensualidade sufocante. — Mas dentro da minha casa, entre quatro paredes, você é minha esposa. Sem fingimentos, Helena. Nem para o mundo, nem para mim.
Helena sentiu um calor arrebatador subir por sua pele. Sustentando o olhar queimante dele, ela deu um sorriso lento, calculista e incrivelmente atraente.
Eram exatamente sete horas da manhã quando o SUV blindado de Gabriel rasgou os portões de ferro batido da Mansão Valente, avançando pela alameda de paralelepípedos com os faróis acesos cortando a neblina densa.O contraste com a última vez que Helena pisara ali não podia ser mais brutal. Meses atrás, ela saíra pela porta da frente como a noiva renegada, humilhada por Beatriz e desprezada pela alta sociedade. Agora, ela retornava ao lado do homem mais poderoso da família, vestindo um impecável casaco de alfaiataria escura, a postura ereta, o olhar gélido e uma aura de autoridade que fazia o ar ao seu redor parecer rarefeito. Ela não era mais a refém das circunstâncias. Ela era o juiz.O motorista parou bruscamente diante da imponente entrada principal. Gabriel abriu a porta com uma violência contida, descendo primeiro e estendendo a mão para Helena. Ela aceitou o toque firme, e juntos subiram os degraus de mármore. A porta da frente estava destrancada, deixada assim pelo pânico que con
Enquanto a alta madrugada na cobertura de Gabriel guardava o silêncio tenso de uma revelação iminente entre o CEO e Helena, a quilômetros dali, a Mansão Valente vivia um tipo completamente diferente de confinamento.Dois meses e meio haviam se passado desde o escândalo financeiro que destruíra a construtora da família Rossi e jogara o patriarca atrás das grades. Para o mundo social e para a imprensa, Beatriz Rossi era a donzela trágica, a vítima indefesa que perdera tudo por causa dos crimes do pai. Mas a realidade dentro das quatro paredes da mansão dos Valente era bem menos cinematográfica e muito mais sufocante.No imenso quarto de hóspedes que agora cheirava a tédio e a esmaltes caros espalhados pela escrivaninha, Beatriz encarava o próprio reflexo no espelho com os olhos estreitados de puro ódio.O plano inicial — usar a compaixão de Caio para conseguir um teto e a benevolência de Dona Eleonora para se manter na alta roda — parecia brilhante no papel. Mas a execução estava se pro
O motor do carro esportivo rugia na madrugada fria, rasgando o asfalto molhado em direção ao submundo digital que ela jurara nunca mais habitar. Mas, pela primeira vez em anos, o suor frio que descia pela espinha de Helena não vinha do medo dos inimigos da facção do leste. Vinha de um pavor muito mais profundo e avassalador: ela estava se apaixonando por Gabriel.Enquanto mantinha os olhos fixos na estrada, as lembranças dos últimos meses invadiram sua mente. Ela pensou na intensidade do olhar dele, na forma como ele a defendia sem pestanejar, na maneira como ele a olhava não como uma boneca frágil — como Caio fizera por cinco longos anos —, mas como uma igual, uma rainha à altura de seu império.Gabriel era o oposto exato de Caio. Enquanto Caio era um menino preso a sombras e a uma falsa sensação de heroísmo que ele usava para controlá-la, Gabriel era um homem de verdade. Ele a desejava com fogo, respeitava sua inteligência, protegia sua dignidade e, acima de tudo, a enxergava de ver
Helena respirou fundo, tentando conter o turbilhão de pensamentos que ameaçava transbordar. A frustração queimava em suas veias, misturando-se à urgência fria exigida pelo protocolo do submundo. Ela não podia ignorar aquela chamada; se o "império do leste" havia encontrado uma brecha, ignorar significava colocar a si mesma — e, por consequência, o próprio Gabriel — na mira de uma guerra que ela mesma encerrava meses atrás.Ela se levantou da cama sem olhar diretamente para ele, ajeitando rapidamente a camisa de seda.— Eu preciso atender isso, Gabriel. É... de uma antiga consultoria de segurança corporativa. Assuntos pendentes — mentiu ela, com a voz firme, embora a pulsação estivesse disparada. Era uma mentira frágil, e ela sabia que Gabriel, com sua mente analítica, não engoliria aquilo por muito tempo.Gabriel permaneceu sentado na borda da cama. Ele não a impediu fisicamente, mas a forma como seus olhos escuros a acompanharam até a porta do quarto carregava um peso insuportável. O
As Sombras do Passado na Mansão ValenteMesas de negociação bilionárias fechadas com um único aceno de cabeça, portos reerguidos, impérios consolidados. Os meses seguintes voaram na Holding Valente em uma velocidade vertiginosa. No entanto, por mais que o mundo corporativo reverenciasse o CEO Gabriel Valente, havia um campo de batalha onde ele ainda guardava suas armas: entre quatro paredes, na imensa cobertura no topo da torre.O pacto de sigilo de dois meses havia chegado ao fim, mas Helena mantinha o casamento trancado em segredo estratégico por escolha própria. O divórcio civil de Caio fora resolvido de forma fria e burocrática, sem escândalos, exatamente como ela planejara. Para a sociedade, ela simplesmente sumira dos holofotes da alta sociedade após o fiasco no cartório.O vazamento cirúrgico que Helena operara contra a família de Beatriz cumprira perfeitamente o seu papel. O pai da garota fora levado algemado pela Polícia Federal, os bens da família foram congelados e a mansão
As sirenes ainda ecoavam na mente de Gabriel enquanto ele caminhava pelas ruínas fumegantes do Terminal Sul. O cheiro acre de plástico derretido e metal calcinado impregnava o terno de grife. À sua frente, os peritos da polícia técnica e os engenheiros de segurança da Holding Valente examinavam o que restara dos armazéns.Gabriel cruzou os braços, a mandíbula travada enquanto analisava o relatório preliminar entregue pelo chefe da segurança.— Não foi falha estrutural, patrão — o homem disse, o rosto sujo de fuligem sob as luzes dos refletores de emergência. — Analisamos as câmeras do perímetro e os registros de pressão das válvulas de gás. As travas de segurança dos contêineres foram deliberadamente desativadas por um comando remoto de alta precisão. Os tanques do setor quatro só não detonaram porque o sistema de contenção foi acionado no milésimo exato. Alguém sabotou o porto de dentro para fora.Os olhos escuros de Gabriel estreitaram-se, brilhando com um perigo mortal. Alguém ousa







