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Capítulo 2

Author: Rúbia
Mesmo depois de seis meses frequentando aquele meio, um contato como aquele ainda bastava para fazer a palma da mão de Lavínia arder.

Ela a retirou num reflexo.

Dante, porém, segurou seus dedos antes que conseguisse afastá-los por completo.

Havia algo perturbador na maneira como ele a encarava. O olhar permanecia frio, mas intenso o bastante para fazê-la sentir o rosto esquentar.

Lavínia tentou puxar a mão de volta.

Ele não soltou.

Uma risada baixa, cheia de malícia, soou junto ao ouvido dela antes que Dante finalmente afrouxasse os dedos.

Lavínia se ajeitou depressa no sofá e respirou fundo, tentando recuperar a compostura.

— Hoje o Dante voltou ao país. Isso merece um brinde.

Rafael ergueu a taça, e os outros acompanharam o gesto.

Dante estava recostado no sofá, com as pernas compridas cruzadas e um dos braços apoiado no encosto, atrás de Lavínia. A outra mão descansava sobre a própria coxa.

Recebia toda aquela atenção com a naturalidade de quem estava acostumado a ser o centro de tudo.

Rafael havia chamado algumas garotas para fazer companhia ao grupo. Quando percebeu que Dante apenas ergueu a taça sem beber, lançou um olhar discreto para uma delas.

A garota entendeu na hora e se aproximou para pegar o copo.

Antes que seus dedos o alcançassem, Dante baixou a taça até a mesa e, em seguida, levou-a diretamente aos lábios de Lavínia.

— Meu estômago não está muito bem. Bebe essa por mim.

Lavínia quase nunca bebia.

Muito menos por outra pessoa.

Seria a primeira vez.

Desde que se sentara ali, porém, já tivera tempo suficiente para pensar.

Dante ainda não havia desmascarado sua mentira. Se jogasse bem, talvez pudesse transformar aquele desastre numa oportunidade.

Enquanto pretendesse continuar frequentando aquele círculo, irritá-lo estava fora de questão.

Na verdade, precisava fazer justamente o contrário.

Precisava agradá-lo.

Lavínia abriu um sorriso e pegou a taça. O gesto realçou ainda mais o charme naturalmente sedutor que havia nela.

— Tá bom. Mas você sabe que eu não aguento muita bebida. Se eu ficar bêbada, vai ter que cuidar de mim.

Quando Dante a pegara no flagra, ela quase entrara em pânico. Agora, enfim, voltava a pensar com clareza.

Não importava por que ele ainda não havia contado a verdade.

Lavínia precisava convencer todos ali de que era, sim, a mulher dele.

Mais do que isso.

Precisava parecer alguém por quem Dante realmente tivesse interesse.

— Fica tranquila. Não vou abandonar você.

Dante a observou com curiosidade.

Ela se recuperava rápido.

E ainda sabia virar a situação a seu favor.

Ao redor, alguns trocaram sorrisos maliciosos.

Para eles, Lavínia e Dante já tinham dormido juntos. Depois de seis meses separados, algumas taças a mais para ajudar a esquentar o reencontro só tornavam a situação ainda mais interessante.

O primeiro gole de conhaque desceu queimando.

Lavínia nunca bebera nada tão forte.

Depois da segunda taça, porém, a ardência já incomodava menos. E, quando percebeu, estava aceitando um brinde atrás do outro.

Dante permaneceu ao lado dela, fumando em silêncio.

Observava Lavínia virar as taças sem hesitar, com uma ousadia despreocupada que, curiosamente, combinava bastante com a imagem de alguém capaz de ficar ao lado de Dante Vasconcelos.

Aos poucos, o álcool tingiu as bochechas dela de vermelho e deixou seus olhos úmidos, brilhantes.

Mesmo assim, Lavínia continuava aceitando tudo o que lhe ofereciam.

Naquele ritmo, até alguém acostumado a beber acabaria passando do ponto.

Dante apagou o cigarro.

Levantou-se, tirou a taça da mão dela e a colocou sobre a mesa.

Sem se dar ao trabalho de explicar nada aos outros, segurou Lavínia pelo pulso e a levou dali.

A cabeça dela já pesava.

Tentando acompanhar os passos dele, tropeçou mais de uma vez e acabou esbarrando repetidamente em seu ombro.

Assim que saíram, o vento frio da noite atingiu Lavínia em cheio.

Ela estremeceu e cruzou os braços, arrepiada.

— Para onde você está me levando...?

Dante abriu a porta do carro, colocou-a no banco e entrou logo em seguida.

A porta se fechou, abafando o frio lá fora.

Lavínia piscou algumas vezes, tentando focar o rosto do homem diante dela.

A proximidade fez sua respiração falhar.

— Se arrependeu? — Perguntou Dante.

Ele se inclinou.

Um perfume suave chegou até ele. Limpo, discreto, quase delicado demais para combinar com o ambiente onde a encontrara.

Lavínia prendeu a respiração.

Ele estava perto demais.

Tão perto que ela conseguia ver o próprio reflexo nos olhos dele.

Por um instante, recuperou um pouco da lucidez.

— Me arrepender de quê?

O olhar de Dante desceu até sua clavícula.

A tatuagem se destacava sobre a pele clara: bonita, chamativa e com uma ousadia que contrastava com o desenho delicado.

Ele passou os dedos lentamente sobre ela.

Lavínia ficou tensa a cada contato.

O álcool começava a pesar de verdade. Seus pensamentos vinham mais lentos, e manter a cabeça no lugar exigia cada vez mais esforço.

— E agora? Ainda quer ser minha mulher?

Dante segurou seu queixo e ergueu de leve o rosto dela, obrigando-a a encará-lo.

Lavínia se arrependia.

Só não o bastante para dizer que faria tudo diferente.

Se não tivesse usado o nome dele como proteção, aqueles últimos seis meses jamais teriam sido tão tranquilos.

No olhar de Dante havia deboche.

E uma boa dose de desprezo.

Talvez ele realmente nunca tivesse conhecido uma mulher tão descarada.

— Ser a mulher do Dante não parece nada ruim.

Lavínia decidiu parar de fingir que pretendia recuar.

Já tinha ido longe demais.

Dante estreitou ligeiramente os olhos.

— Então está decidida a ser minha mulher?

— Eu...

Perto demais.

Ela precisava se afastar.

Precisava respirar.

Dante tinha uma presença sufocante. Não precisava fazer nada além de fitá-la daquela maneira para deixá-la com a sensação de que qualquer rota de fuga havia desaparecido.

Lavínia conteve a inquietação e ergueu os olhos enevoados pela bebida. Entreabriu os lábios e respondeu quase num sussurro:

— Quero.

Um sorriso irônico surgiu no rosto de Dante.

— Eu não sou nenhum cavalheiro. E já te dei a chance de desistir. Ser minha mulher significa assumir o que vem junto com isso. Entendeu?

Ele queria descobrir até onde chegava a coragem dela.

Ou a imprudência.

Lavínia também sabia que, depois de provocar um homem como Dante, simplesmente dar meia-volta já não parecia uma opção.

Restava sustentar a própria audácia até o fim.

— Claro.

Por iniciativa própria, ergueu a mão e a pousou no peito dele.

No mesmo instante, porém, o estômago se revirou violentamente.

Lavínia levou a mão à boca e, já vermelha pelo esforço para segurar a náusea, apontou desesperadamente para fora.

Dante percebeu e a soltou na hora.

Ela abriu a porta do carro, correu até um canteiro próximo e se curvou para vomitar.

Seu estômago já ardia por causa do álcool, e o esforço só piorava a dor.

O vento gelado bateu em seu rosto.

A náusea voltou ainda mais forte.

Lavínia continuou ali até não ter mais nada para colocar para fora além de bile.

Dante observava a poucos metros de distância.

Sob a luz do poste, ela parecia muito mais frágil do que alguns minutos antes.

Ele, no entanto, não sentiu pena nenhuma.

Só conseguiu pensar:

"Bem-feito."

O estômago de Lavínia continuava se contraindo, e toda a força parecia ter abandonado seu corpo.

Ela se agarrou a um galho para se manter em pé.

As pernas mal obedeciam.

A cabeça parecia pesar uma tonelada.

Lavínia ficou imóvel por alguns segundos, com medo de que qualquer movimento fosse suficiente para derrubá-la.

Não adiantou.

Sua visão apagou de repente.

As pernas cederam.

Mais tarde, Dante entrou em uma suíte de hotel com Lavínia nos braços.

Inclinou-se e a colocou sobre a cama.

Quando ia se levantar, porém, os braços dela se fecharam inesperadamente em torno de seu pescoço, impedindo-o de se afastar.

As bochechas de Lavínia continuavam coradas pelo álcool, destacando-se contra a pele clara. A tatuagem sobre a clavícula parecia ainda mais provocante naquela posição.

Dante sentiu a garganta apertar.

Segurou os pulsos dela e tentou afastar seus braços.

Lavínia se agarrou ainda mais.

Ele parou para observá-la.

Os olhos dela continuavam fechados. Os cílios tremiam de leve, mas sua respiração seguia regular.

Não parecia estar fingindo.

Era o álcool?

Dante tentou soltá-la outra vez, agora com mais firmeza.

Lavínia abriu os olhos de repente.

Estavam úmidos, desfocados pela bebida.

— Estava fingindo? — Perguntou ele, frio.

Ela ficou olhando para o rosto dele por alguns instantes.

Então, sem qualquer cerimônia, levantou a mão e passou os dedos por sua face.

— Você disse que queria que eu fosse sua mulher.

Lavínia sorriu, tomada por uma doçura lânguida que parecia nascer inteiramente da embriaguez.

— Dante... Você me quer?

Seus dedos percorreram o rosto dele. A ponta de um deles tocou seus lábios e desceu lentamente até o pomo de Adão.

Dante engoliu.

Lavínia pareceu se interessar pelo movimento.

Passou os dedos ali outra vez.

E mais uma.

Observava fascinada, como se tentasse entender por que aquilo se movia sempre que ele engolia, completamente alheia ao efeito que causava.

Dante permaneceu em silêncio por um instante.

Então segurou aquela mão inquieta.

A paciência começava a chegar ao limite, mas Lavínia parecia incapaz de perceber.

— Fica quieta.

Ela abriu um sorriso.

Havia algo quase inocente naquela expressão, como se não fizesse a menor ideia do quanto o estava provocando.

A garganta de Dante ficou ainda mais seca.

Ele apertou a mão dela um pouco mais do que pretendia.

Lavínia franziu a testa, provavelmente sentindo dor.

A reação fez Dante aliviar os dedos quase por instinto.

Sua voz saiu mais baixa quando tornou a adverti-la:

— Vou te dar mais uma chance...

Ele nem terminou.

Lavínia ergueu o rosto e o interrompeu:

— Não preciso.

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